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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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25
Nov19

Eu não me esqueço das letras

alex

Hoje trago uma música para partilhar com vocês. A Capicua é das poucas artistas portuguesas que eu escuto com atenção e frequência. Porque a sua arte fala comigo de uma forma que muitas outras não conseguem. Sendo eu tão das letras, e as letras tão minhas, tendo eu a relação que tenho com a escrita - extensa, complicada, de uma paixão que por vezes conduz ao ódio e de volta ao amor - não podia deixar de escrever um pouco sobre a música e sobre a frase que despertou em mim muitas emoções. Tristeza, revolta...mas acima de tudo esperança. 

Na escola, nunca gostei de matemática. As línguas e as letras foram sempre o meu refúgio, desde que tenho memória de ser gente. Tanto que, saí do meu país para ir estudar com mais cuidado esse mundo. Outra história essa... Mas a verdade é que, foi também durante essa altura que, não por querer mas por necessidade, me envolvi mais com o mundo dos números. O mundo dos negócios, o mundo do comércio. O mundo do trabalho. E devagar me fui apercebendo de que o mundo, apesar de não controlado por números, gira muito à volta deles.

E eu, de Escrita Criativa e Jornalismo, e eu com a minha colecção sempre crescente de livros a olhar-me de lado, deixei-me afundar nesse mundo dos números. Escrevia relatórios diários, semanais, mensais, onde tinha de justificar número X e número Y. Quantas pessoas gostaram disto, quantas compraram aquilo...Quantidade, quantidade, quantidade.

A qualidade não existe no mundo dos que jogam com números. E o amor à arte também não. Há claro que ser realista, os números precisam de nós tanto como nós precisamos deles. Mas...é um problema (não matemático) quando as coisas nas quais começamos a colocar valores, são aquelas cujo valor deveria ser indeterminável - aliás, não existir. Pior, quando a qualidade é baseada apenas em números, que ao final do dia, se eu fosse a fazer um dos meus relatórios que costumava fazer, não valem nada.

A era das tecnologias, dos Youtubers, dos influencers, dos likes...Tudo é liked. Menos o que não é. E o ser humano, no meio de tanto número, passa a ser tratado como um (número). Mas afinal, que valor tem um milhão de likes contra 100, quando o milhão é vazio de razão, paixão, amor por aquilo que se faz, respeito pelo próximo e tudo o de mais? Afinal, somos nós que atribuímos valor aos números, ou são os números que atribuem valor a nós? Ao que criamos? Ao que dizemos, ao que pensamos, ao que somos?

Somos só números? Hoje em dia eu diria que sim. Mas depois ouço músicas como a da capicua e penso... se é para sermos um número, então vamos ser mais um dos que não se deixam reger por eles. E tal pode soar hipócrita da minha parte, mas se é para ser um número, quero ser dos que não se esquecem das letras. 

Por alguma razão, nunca gostei de matemática.

"É ano após ano e os feitos são inúmeros

E eles esquecem as letras e andam só atrás dos números... Solene como a cada último mergulho

Eu rasguei a dor e o medo como papel de embrulho." - Capicua, 2019

 

19
Nov19

Uma pergunta intrigante

alex

Não sei se é a pergunta que é intrigante ou a resposta à mesma. Mas, e a razão pela qual saltei uns temas para poder escrever este, é que tenho muito sobre o que escrever em relação a perguntas intrigantes e pouco sobre os temas que saltei.

A minha vida é feita de perguntas. Muitas vezes, dos outros feitas a mim, outras de mim feitas a mim mesma. Essas são as piores. Mas a mais intrigante de todas, que me fazem de vez em quando é: és feliz?

Porque me deixa sem resposta. Sem ar. Sem chão. O mundo parece que se fecha, como se eu tivesse numa sala com quatro paredes e estas se movessem lentamente à minha volta, com um só objectivo e desfecho. O de me esmagar. Porque é uma pergunta que é feita de ânimo leve, pelos outros, que esperam uma resposta dada de ânimo leve em troca.

Mas como é se responde a uma pergunta dessas? Sem parecer deprimida ou ingrata ou mimada ou despreocupada? Como é que se faz uma pergunta dessas em primeiro lugar? Eu nunca perguntei a ninguém se eles eram felizes. Eu não acho que seja uma pergunta intrigante. Para mim, é uma pergunta dolorosa. Lanço-me numa filosofia total quando me fazem esta pergunta. O que é ser feliz, afinal de contas? É não chorar? Não sentirmos raiva? Frustração, dor? É sermos uns seres sorridentes e optimistas a toda a hora, de todo o dia? É rirmos até das coisas que nos fazem chorar? É um estado de êxtase momentâneo, que passa, vai e vem ou é algo que devemos sentir sempre, a toda a hora? É sentirmos-nos amados, realizados a nível profissional, é termos amigos e sermos amigos? O que é isto de ser feliz?

Não percebo como é que uma pergunta destas é, às vezes, feita com tanta naturalidade e frequência. E é suposto eu responder que sim, que sou feliz. Porque sou (razoavelmente) saudável, porque sou amada q.b, porque tenho amigos q.b, porque isto e porque aquilo...Mas porquê? Porque é que eu sou obrigada a descer por este abismo sem fim quando me é feita esta pergunta?

Aliás! Porque é que andamos todos à procura deste mito? Desta vida feliz que muitos pintam? As pinturas não passam disso. As histórias também não. Quando me perguntam se sou feliz, normalmente respondo que não sou infeliz. E isso devia bastar, porque tudo o resto são complicações e divagações que as pessoas não querem, nem estão dispostas a ouvir. Então para que é que perguntam?

Porque talvez queiram saber se mais alguém não é feliz como elas. Assim, talvez, não se sintam tão sozinhas.

Nada temam, a elas digo. A felicidade é relativa. Um mito. Não é algo que se consiga atingir, ou capturar como um Pokémon (que comparação mais nerd minha, enfim). Acredito que a felicidade está nos pequenos momentos. Naqueles que nos fazem sorrir, mas também naqueles que nos fazem chorar. Nas pessoas que amamos e até naquelas de quem menos gostamos. A felicidade podemos encontrá-la ao ler um bom livro ou depois de escrever-mos um texto do qual nos sentimentos orgulhosos. A felicidade vem dos que nos amam em silêncio. Vem também de um dia de céu limpo e sem chuva ou, para alguns outros até, de um dia frio com neve. Encontra-se na vida real e na vida digital. A felicidade pode até ser encontrada na infelicidade.

Porque tudo são momentos, que passam, e que postos juntos, colados com aquela super cola que comprávamos para as aulas de educação visual, dão origem à nossa Vida. 

A pressão que existe, vinda de outros, vinda de nós próprios, para sermos felizes é...inacreditável. Se estivesse numa relação era mais feliz. Se fosse mais alta era mais feliz. Se tivesse mais amigos era mais feliz. Se tivesse aquele emprego era mais feliz. Se tivesse mais dinheiro era mais feliz (com esta não discordo totalmente, pois o dinheiro não compra felicidade mas providencia um certo conforto, mas outro tema, outro texto). Se isto, se aquilo... Canso-me só de escrever tantos se's.

Sejam felizes, ou não, who cares? Porque ser feliz é sê-lo sem nos questionarmos se o somos. Porque ser feliz é dar permissão a nós próprios para também não o ser, por vezes. Ser feliz é simplesmente ser, com tudo aquilo que vem disso...incluindo a pergunta, que eu simplesmente abomino.

"És feliz?"

03
Nov19

Um mundo de Jokers (?)

alex

Esta semana que passou, fui ao cinema ver o Joker. Um filme que foi muito falado ainda antes de chegar às salas de cinema, nem sempre pelas melhores razões. Muitos críticos saíram do filme a dizer que o mesmo poderia incentivar a violência e as revoltas. Foi um filme cujas críticas feitas podem ser comparadas às críticas que são, muitas vezes, feitas a vídeo jogos de natureza um pouco mais violenta. 

Não estava a planear escrever sobre o assunto, pois pode levar a muita discussão e é um tema de facto complicado sobre o qual escrever, pelo menos para mim. Mas após uma conversa longa com uma amiga sobre o assunto, senti que tinha de o fazer. No meu entender, este filme não tem cariz político, como muitos dizem, não incentiva à violência e não incentiva à revolta. Eu acho que o filme retrata, e muito bem, o que é viver com um distúrbio mental e como as pessoas que sofrem do mesmo são, por norma, tratadas pela sociedade em si. Eu acho que o foco é esse e se não é, deveria ser. O resto vem por acrescento.

A verdade é que os distúrbios mentais, ainda hoje, não são tratados como deviam ser. São muitas vezes descorados e arrebatados para o fim da lista de doenças com as quais nos preocupar ou às quais dar a devida atenção. Não é por falta de dados, números, estudos ou percentagens. É por falta de humanidade. Do mais básico dos básicos.

Humanidade.

Politiquices de lado, "mob mentality" de lado também, eu penso que este filme apela à humanidade das pessoas. Aqui temos, uma personagem, que no papel não passa disso, que sofre de problemas mentais graves e que é tratado abaixo de humano. Abaixo de tudo, muito sinceramente. E o Joker é apenas uma personagem, mas existem muitos Jokers reais, de carne osso, pelo mundo fora. Claro que nada desculpa o tirar de outras vidas. A violência. Mas é um facto que ninguém pode negar, o de que estas doenças são descuradas, muitas vezes mal diagnosticadas porque tudo é catalogado como uma ligeira ansiedade que passa se lhe passarmos uns anti-depressivos dose de cavalo; estas pessoas tratadas como o lixo da sociedade. 

Não acho que a intenção seja revoltar ninguém com este filme, com esta história. Não penso que a intenção seja a de incentivar a violência ou a de começar uma revolta política. A arte é subjectiva, pode ser interpretada de várias formas. Esta é só mais uma dessas instâncias. A minha interpretação, é esta. Temos de nos importar mais. Temos de ser mais humanos. Agora mais do que nunca, num momento da história do mundo em que tudo é razão para julgarmos, para atirarmos pedras. Nos dias de hoje, já não há debate, não há discussão. Há uma imensa agressividade que vem de todos os lados, cuspida em conversas que ao fim do dia têm apenas como objectivo ajudar aqueles que não precisam de ser ajudados. Num mundo onde queremos que seja o nosso ideal, o nosso partido político, a nossa vida o melhor, o maior, o mais importante.

E ao fim do dia, esquecemos-nos do que é realmente importante. As pessoas. Serem tratadas como tal. Como seres humanos. Somos tratados como peões de um imenso jogo de xadrez que só terá um fim, esse inevitável - a morte. 

Uma reflexão de quem viu o Joker com os olhos de um ser humano que sofre, também ela, de problemas mentais. Que pôs de parte os seus ideais, políticos, éticos, o que seja...e que viu representado no grande ecrã aquilo que a maioria teima em não querer ver.

Só precisamos todos de ser um bocadinho mais humanos. É só.

06
Ago18

A mais pura das ignorâncias

alex

Já escrevi vários textos sobre o ser emigrante. Contudo, hoje, depois de abrir o Facebook pela primeira vez em vários dias (não uso muito o Facebook), deparei-me logo com um post que me deixou em brasa. Se calhar é por isso que evito ir ao Facebook, porque de cada vez que lá vou, só me deparo com vergonhas destas.

Basicamente aquilo com que me deparei foi com um post de uma rapariga que costumava andar na mesma escola secundária que eu, que entretanto até deixou os estudos (pelo que sei). O post que ela partilhou era de uma senhora que escreveu um texto aos anti-emigrantes e esta rapariga que andava comigo na escola partilhou e escreveu a sua "opinião" em relação ao texto direccionado aos anti-emigrantes.

O que ela escreveu eu já ouvi muitas vezes ser dito a vários emigrantes e já me o foi dito a mim várias vezes, até por "amigos" e pessoas próximas. Esta aversão que ALGUNS portugueses ainda parecem ter e expressar contra os emigrantes deixa-me, no mínimo dos mínimos, triste. Triste por saber que há portugueses que pensam desta forma de outros portugueses. Para esta menina, porque a meu ver é isso que ela é, eu sou uma pessoa que odeia o seu país. Que é uma escumalha porque abandonei os meus e desconto para um país que não é o meu. Abandonei o meu país e depois vou de férias para Portugal fazer turismo e usufruir do trabalho árduo dos portugueses que são tão patriotas e adoradores do seu país que jamais ousariam abandona-lo.

Eu sou o equivalente a uma criminosa aos olhos de pessoas como esta menina. Mas será que estas pessoas são assim tão densas que não conseguem perceber que eu por ter escolhido sair do meu país não gosto menos ou mais do meu país do que os que ficam? Que não sou menos ou mais portuguesa? Aliás, até vos digo mais! Gosto mais do meu país agora que não estou lá do que quando lá estava! Se eu fosse de lavar roupa suja, como se diz, em praça pública, tinha ido comentar no post dela. Em vez disso venho para aqui escrever este texto porque não é da minha personalidade andar nas redes sociais a discutir com pessoas densas e que pensam que ter uma opinião = a odiar, enxovalhar e tratar os outros como lixo.

Vamos por partes. Todos nós temos objectivos de vida diferentes. O meu objectivo de vida, na altura em que decidi emigrar já lá vão 4 anos, era poder tirar uma licenciatura nas áreas que me interessavam. Eu queria o que, infelizmente, o meu país não me podia oferecer. Só me davam a escolher Jornalismo e Comunicação Social. Mas eu queria mais. Queria algo direccionado para a escrita criativa, o mundo editorial e da publicação de livros. Uma universidade em Londres oferecia-me os dois. Escrita Criativa e Jornalismo. Então vim. 

Há pessoas que emigram aos 30 porque, na empresa onde trabalham, foi-lhes oferecida uma posição com melhores condições, melhores ordenados e então emigram. Há pessoas que emigram aos 50, já depois de terem filhos criados por qualquer outra razão que lhes cabe só a eles. Todos nós temos as nossas razões mas uma coisa posso garantir: são muito poucos ou atrevo-me até dizer, quase nenhuns, os portugueses que emigram só porque sim. Ou porque odeiam Portugal. Por favor malta. Pensar assim é uma forma completamente ridícula de pensar. Não vou dizer que emigrar não é uma escolha, porque é. Claro que é! Eu podia muito bem ter escolhido ficar em Portugal a estudar Comunicação Social ou Jornalismo e se calhar tinha ido estagiar para um dos canais de televisão, como vários dos meus colegas fizeram, ou tinha conseguido um emprego na minha área, como outros meus colegas, ou então estava a fazer algo completamente diferente do meu curso, tal e qual como estou agora a fazer aqui. Eu escolhi emigrar e é sim uma escolha. Mas agora, desde quando é que escolher algo para o nosso futuro que não passa por ficar em Portugal, um crime? Não percebo. Eu tenho certos objectivos de vida que se calhar A ou B não tem. Para essa pessoa, o seu objectivo é acabar os estudos, arranjar um trabalho que lhe dê o ordenado mínimo, se calhar não se importa de ficar a viver em casa dos pais até aos 30, quer tirar a carta, ter um carrinho mesmo que seja em segunda ou terceira mão e pronto, isto para essa pessoa é vida. É a vida que ela quer para ela. Mas e então eu sou A ou B? Não, eu sou a Alexandra. Eu quero ganhar mais do que 600 euros por mês. Eu tenho 22 anos e não tenho carta porque não quero, não preciso e não tenho intenção de vir a ter. Eu não consigo imaginar-me a viver em casa dos meus pais, a depender deles, a apoiar-me mais neles. Eu quero dar aos meus pais, ajudá-los, coisa que já consegui fazer e que não conseguiria se tivesse ficado em Portugal. Eu quero viajar. Eu quero aprender outras línguas, experimentar outras culturas, viver outras realidades. Alguém que me explique o porquê de eu, por querer algo que a A ou o B não quer, sou enxovalhada, tenho de levar com bocas, ser chamada de emigra, de desertor, de ouvir coisas como: "Pois, pois, tu vais e descontas para outro país, isso é fácil, agora ficar cá a descontar para o país que tu dizes amar só para tu vires cá fazer turismo uma vez por ano, isso é que é difícil"

MALTA. MEU DEUS. COMO ASSIM?

Eu vou fazer turismo? Pois vou porque existe uma coisa chamada turismo interno, que todo o português pratica, seja emigrante ou não! Eu se for Lisboeta e for passar duas semanas de férias ao Algarve sou uma turista! Ah, mas no meu caso é porque não desconto para o meu país mas depois gosto de ir para lá de férias. Sim, pois claro. Porque não ter tempo para respirar nem mandar um peido para o ar quando se está na sua própria terra é, de facto, ter férias. Porque ao contrário do que este tipo de pessoas pensam, eu não abandonei os meus. E faço questão de visitar e ver toda a gente que me queira ver a mim quando vou a Portugal. O tempo que eu tenho para mim, nas minhas férias, é quase nulo. Mas para mim isso não é um problema. Porque estou com as pessoas que amo. "Mas se amasses não deixavas para trás!"

Adoro essa! Eu podia estar ai e não falar com ninguém, não me relacionar com um único familiar meu. Há pessoas que viram costas ao próprio sangue por coisas mesquinhas e depois vêm com lições de moral a dizer que os emigrantes são uns merdas que deixam a família sozinha? Quando eu vejo irmãos, tios, primos e sei lá eu mais o quê a dizerem e a falarem mal uns dos outros a três metros de distância uns dos outros? Por favor, poupem-me. O amor não se mede em milhas, em horas de avião ou em anos que passamos juntos dos nossos. O amor mede-se nas nossas acções, na forma como tratamos as pessoas. De que vos serve viverem com os vossos paizinhos se depois os tratam como se eles vos devessem algo? Como se eles fossem um monte de lixo velho que está simplesmente ali no canto à apodrecer? De que vos serve terem 10 amigos com quem sair durante o dia, se depois quando chega a noite não têm ninguém a quem ligar, com quem falar? A hipocrisia de metade desta gente que critica os emigrantes, se verificada, chegaria a números impensáveis.

Amam tanto Portugal. São tão patriotas. Uns desgraçados porque, eles sim, são os que ficam a descontar para o país, a lutar (dizem eles) por um país melhor. Mas depois vão para o Facebook falar mal do país a torto e a direito. São capazes de se queixar da merda de ordenado que recebem. Da vida que têm. Do carro que conduzem. Das coisas que não podem comprar. E depois, claro, atacam os emigras, como nos chamam, porque nós é que somos os traidores. Quando tudo o que nós fizemos foi escolher um caminho diferente para a nossa vida do que aquele que nos é incutido desde nascença. O crime, nossa senhora!

Aqui não há desgraçados nem coitados. Aqui há simplesmente pessoas com objectivos de vida diferentes, com quereres e metas diferentes. Porque nada neste vida é fácil. Ficar no país não é fácil. Sobreviver com ordenados mínimos não é fácil. Mas também não é fácil deste lado. Sempre ouvi dizer que quem está mal, muda-se. E neste caso, não acredito que alguém que emigre estivesse mal, mas estavam no sítio errado para conseguirem alcançar aquilo que queriam, então mudaram-se. Porque é que somos alvo de tanta crítica simplesmente por querermos algo de diferente para nós, para o nosso futuro e até, inclusive, para o possível futuro dos nossos? Só porque tu descontas para Portugal e eu desconto para Inglaterra?

Ao final do dia, é tudo dinheiro que vai parar aos bolsos dos mesmos corruptos de merda, portanto, esse argumento para mim é nulo. E, aliás... dependendo do número de anos que descontamos, eu posso transferir os meus descontos TODOS para Portugal se eu bem achar e assim quiser. Mas eu odeio o meu país, então nunca faria isso...

Enfim. Não consigo perceber o ódio aos emigrantes. Eu não vou para Portugal criticar, mandar bocas ou falar mal dos que escolherem ficar em Portugal a fazer seja o que for que escolheram fazer. Porque é que os emigrantes são tratados desta forma? Já  fui descriminada aqui por ser portuguesa, por pessoas não portuguesas, mas ser descriminada por portugueses, por ser portuguesa mas não viver em Portugal? Ninguém, para além de mim, acha isto rídiculo?

Uma coisa é termos uma opinião e exprimirmos aquilo que pensamos e dizer que jamais seriamos capazes de fazer isto ou aquilo. Agora, atacar aqueles que o fazem só porque não é igual ao que nós fazemos, isso já não é opinião.

É pura ignorância.

17
Jan18

Também tenho algo a dizer...

alex

Como boa emigrante que sou, mantenho-me a par das notícias através do Facebook, do Twitter e da minha mãe, que às vezes sabe de coisas que acontecem aqui no UK muito antes de me chegar aos ouvidos. Andava pelo Facebook quando vi uma notícia sobre o comentário do Bruno Nogueira ao novo programa da SIC, "Supernanny". Ora, fiquei curiosa. O que é este programa? Porque é que tanta gente anda a falar e a comentar sobre o mesmo? Será que é assim tão mau como andam a dizer?

Antes de mais tenho de dizer que eu não sou a maior fã dos psicólogos. Durante a minha vida visitei uns quantos e o meu desagrado para com eles (e para com a profissão) foi crescendo. Por isso, quando há programas que metem psicólogos eu fico logo de pé atrás. Mas decidi ver o primeiro episódio no site da SIC para poder ter uma opinião própria sobre o programa e ver se, realmente, existe fundamento para este alarido todo.

Bom, obviamente eu não sou mãe, muito menos mãe solteira, portanto só posso falar como filha. Todo o ser humano é diferente, todos nós temos histórias e experiências de vida diferentes. Eu tive uma experiência completamente diferente daquela que a minha irmã teve e está a ter enquanto criança, enquanto adolescente, portanto ainda mais diferente será a experiência de uma família para a outra. Também acho que a personalidade das crianças difere, apesar de haver quem me possa vir contrariar e dizer que as crianças não têm uma personalidade formada até muito mais tarde nas suas vidas. Bom, até pode ser verdade para alguns, mas no meu caso e da minha irmã as diferenças sempre foram evidentes.

Como criança sempre fui muito calma. Nunca fui de birras, nunca fui de teimosias, sempre fui uma criança muito calada e bem mandada. Hoje em dia continuo a ser bem mandada, é por isso que a minha manager me adora, pois claro, ela "pede" a Alex faz sem questionar. A minha irmã, pelo contrário, sempre foi... marota. Desde pequena que era uma irrequieta, refilona, de ideias fortes e teimosa. Birras, fez as dela, algumas das quais ainda hoje me lembro. Houve uma vez que ela adormeceu na cadeira alta dela porque a minha mãe disse que se ela não comesse tudo o que tinha no prato, ia dormir na cozinha. E ela ali dormiu. Comeu? Não. Lembro-me de uma vez termos ido ao Espaço Casa os quatro, e o meu pai foi pagar enquanto eu andava a ver umas coisas para o meu quarto. De repente, oiço uns gritos estridentes pela loja inteira, pensei: mas está alguém a morrer? Olhei à minha volta e vi a minha querida irmã, a chorar aos berros, no chão, a espernear e se havia alguém que queria morrer era eu, da vergonha que senti naquele momento. A minha mãe pagou, foi-se embora e deixou a minha irmã ali no chão a chorar. Eu fui lá para a fazer levantar e levei com uns quantos pontapés. A minha mãe voltou a entrar para ralhar comigo e dizer-me para deixar a minha irmã ali sozinha. Vim-me embora e passado dois segundos a criança de quatro anos, na altura, sai da loja a correr atrás de nós, como se nada tivesse acontecido. 

Estes são dois dos muitos episódios que aconteceram com a minha irmã. Hoje, com 13 anos de idade, continua fresca e refilona, mas sabe diferenciar o certo do errado. É muito ingénua no que toca à maioria das coisas ainda, mas no que toca a outras coisas é bastante crescidinha. Não é tão preguiçosa como eu, ajuda muito mais a minha mãe do que eu ajudava. Mas também portou-se muito pior do que eu alguma vez portei, verdade seja dita. Fomos crianças completamente diferentes, criadas da mesma maneira pelos mesmos pais.

O que quero dizer com isto é no que toca a educação dos nossos filhos, há imensos factores que estão em jogo e não há culpas certas a serem atribuídas. Eu nunca precisei de levar palmadas. A minha irmã levou. Eu nunca ousei desafiar a autoridade dos meus pais. A minha irmã sim. A culpa é de quem? Dela, dos meus pais, da educação que eles lhe dão?

Não. Todos nós somos diferentes. O que funciona para mim não funciona para ti e vice-versa. É por isso que esta coisa dos psicólogos para mim não dá. Eles têm um sistema e aplicam o mesmo sistema a crianças diferentes e não me podem dizer que resulta. Em relação ao programa, gostava de ver o depois. Não sei quanto tempo a psicóloga passa com estas famílias, mas com certeza que não deve ser mais do que uma semana. Gostava que fizessem um "follow-up" e se calhar ainda vai ser feito, mais à frente no programa. Não sou ninguém para dizer que os psicólogos estão todos errados e basicamente mandar abaixo toda uma profissão. Mas no que toca a lidar com crianças, e com seres humanos no geral, há muita coisa subjectiva. 

Em relação às avós... bom, não digo que seja regra geral mas como neta, prima, amiga, etc, sei das minhas avós e dos avós dos outros. Não me venham com coisas. A avó do meu pai costumava comer-lhe as bananas quando a minha avó não via, porque o meu pai não gostava de bananas e então pedia à avó dele para comer por ele. A minha avó dava todos os chocolates ao meu primo mais novo e à minha irmã antes da refeição, mesmo quando a minha mãe lhe dizia para ela não fazer tal coisa. A minha tia dizia à minha avó para ela não comprar aquele brinquedo que o meu primo queria imenso, e ela não comprava naquela altura, mas no dia a seguir aparecia em casa com ele. São coisas de avó, não há ninguém neste planeta com uma que possa negar que as avós são assim. E vejam bem! Todos nós crescemos bem! O meu primo e a minha irmã comeram chocolates antes do almoço mas agora já não comem. Sabem que vão ficar sem apetite. O meu primo quer um jogo para a consola dele? Ele vai e compra com o dinheiro dele. Crescemos e não fazemos birras e continuamos a respeitar as nossas mães e as nossas avós. Não é por a minha avó me ter tirado as espinhas do peixe quando a minha mãe lhe disse que "ela já é crescida, pode fazê-lo sozinha!" que eu não estou agora, aos 21 anos, a viver completamente sozinha e a ser 100% independente. Percebem? Espero estar a conseguir expressar a minha opinião da devida forma.

Bom, em relação ao programa em si, consigo perceber o porquê do descontentamento de tantas pessoas. A imagem de um adulto já por si deve ser protegida, quanto mais a de uma criança. Okay, os pais concordaram em que as crianças fossem filmadas e em que toda a sua vida pessoal aparecesse na televisão. Mas então e a criança, daqui a uns anos quando já tiver idade suficiente para formar as suas ideias e opiniões em relação a certos assuntos, o que é que a criança vai dizer ou pensar ou sentir? Não se trata de uma foto embaraçosa que os pais colocaram no facebook e partilharam com os amigos uma vez porque acharam que a criança deles era a mais fofinha e querida do mundo. Isto é um programa de televisão, emitido num canal visto por milhares de espectadores diariamente. Todos nós sabemos o escrutínio publico a que o ser humano está sujeito a partir do momento em que decide participar em reality shows. Mas as crianças não sabem. E não escolheram ser expostas a tal. Só por isso acho que este programa não foi a melhor aposta que a SIC pudesse ter feito. 

Um adulto que de livre e espontânea vontade se inscreve para o Secret Story e vai para lá fazer as coisas que todos nós já vimos eles fazerem, é uma coisa. Uma criança que é exposta publicamente sem escolha e que pode vir a sofrer consequências por isso, das quais nunca teve noção porque nem sequer teve poder de escolha em primeiro lugar, é outra.

 

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