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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

Something New

Também tenho algo a dizer...

Como boa emigrante que sou, mantenho-me a par das notícias através do Facebook, do Twitter e da minha mãe, que às vezes sabe de coisas que acontecem aqui no UK muito antes de me chegar aos ouvidos. Andava pelo Facebook quando vi uma notícia sobre o comentário do Bruno Nogueira ao novo programa da SIC, "Supernanny". Ora, fiquei curiosa. O que é este programa? Porque é que tanta gente anda a falar e a comentar sobre o mesmo? Será que é assim tão mau como andam a dizer?

Antes de mais tenho de dizer que eu não sou a maior fã dos psicólogos. Durante a minha vida visitei uns quantos e o meu desagrado para com eles (e para com a profissão) foi crescendo. Por isso, quando há programas que metem psicólogos eu fico logo de pé atrás. Mas decidi ver o primeiro episódio no site da SIC para poder ter uma opinião própria sobre o programa e ver se, realmente, existe fundamento para este alarido todo.

Bom, obviamente eu não sou mãe, muito menos mãe solteira, portanto só posso falar como filha. Todo o ser humano é diferente, todos nós temos histórias e experiências de vida diferentes. Eu tive uma experiência completamente diferente daquela que a minha irmã teve e está a ter enquanto criança, enquanto adolescente, portanto ainda mais diferente será a experiência de uma família para a outra. Também acho que a personalidade das crianças difere, apesar de haver quem me possa vir contrariar e dizer que as crianças não têm uma personalidade formada até muito mais tarde nas suas vidas. Bom, até pode ser verdade para alguns, mas no meu caso e da minha irmã as diferenças sempre foram evidentes.

Como criança sempre fui muito calma. Nunca fui de birras, nunca fui de teimosias, sempre fui uma criança muito calada e bem mandada. Hoje em dia continuo a ser bem mandada, é por isso que a minha manager me adora, pois claro, ela "pede" a Alex faz sem questionar. A minha irmã, pelo contrário, sempre foi... marota. Desde pequena que era uma irrequieta, refilona, de ideias fortes e teimosa. Birras, fez as dela, algumas das quais ainda hoje me lembro. Houve uma vez que ela adormeceu na cadeira alta dela porque a minha mãe disse que se ela não comesse tudo o que tinha no prato, ia dormir na cozinha. E ela ali dormiu. Comeu? Não. Lembro-me de uma vez termos ido ao Espaço Casa os quatro, e o meu pai foi pagar enquanto eu andava a ver umas coisas para o meu quarto. De repente, oiço uns gritos estridentes pela loja inteira, pensei: mas está alguém a morrer? Olhei à minha volta e vi a minha querida irmã, a chorar aos berros, no chão, a espernear e se havia alguém que queria morrer era eu, da vergonha que senti naquele momento. A minha mãe pagou, foi-se embora e deixou a minha irmã ali no chão a chorar. Eu fui lá para a fazer levantar e levei com uns quantos pontapés. A minha mãe voltou a entrar para ralhar comigo e dizer-me para deixar a minha irmã ali sozinha. Vim-me embora e passado dois segundos a criança de quatro anos, na altura, sai da loja a correr atrás de nós, como se nada tivesse acontecido. 

Estes são dois dos muitos episódios que aconteceram com a minha irmã. Hoje, com 13 anos de idade, continua fresca e refilona, mas sabe diferenciar o certo do errado. É muito ingénua no que toca à maioria das coisas ainda, mas no que toca a outras coisas é bastante crescidinha. Não é tão preguiçosa como eu, ajuda muito mais a minha mãe do que eu ajudava. Mas também portou-se muito pior do que eu alguma vez portei, verdade seja dita. Fomos crianças completamente diferentes, criadas da mesma maneira pelos mesmos pais.

O que quero dizer com isto é no que toca a educação dos nossos filhos, há imensos factores que estão em jogo e não há culpas certas a serem atribuídas. Eu nunca precisei de levar palmadas. A minha irmã levou. Eu nunca ousei desafiar a autoridade dos meus pais. A minha irmã sim. A culpa é de quem? Dela, dos meus pais, da educação que eles lhe dão?

Não. Todos nós somos diferentes. O que funciona para mim não funciona para ti e vice-versa. É por isso que esta coisa dos psicólogos para mim não dá. Eles têm um sistema e aplicam o mesmo sistema a crianças diferentes e não me podem dizer que resulta. Em relação ao programa, gostava de ver o depois. Não sei quanto tempo a psicóloga passa com estas famílias, mas com certeza que não deve ser mais do que uma semana. Gostava que fizessem um "follow-up" e se calhar ainda vai ser feito, mais à frente no programa. Não sou ninguém para dizer que os psicólogos estão todos errados e basicamente mandar abaixo toda uma profissão. Mas no que toca a lidar com crianças, e com seres humanos no geral, há muita coisa subjectiva. 

Em relação às avós... bom, não digo que seja regra geral mas como neta, prima, amiga, etc, sei das minhas avós e dos avós dos outros. Não me venham com coisas. A avó do meu pai costumava comer-lhe as bananas quando a minha avó não via, porque o meu pai não gostava de bananas e então pedia à avó dele para comer por ele. A minha avó dava todos os chocolates ao meu primo mais novo e à minha irmã antes da refeição, mesmo quando a minha mãe lhe dizia para ela não fazer tal coisa. A minha tia dizia à minha avó para ela não comprar aquele brinquedo que o meu primo queria imenso, e ela não comprava naquela altura, mas no dia a seguir aparecia em casa com ele. São coisas de avó, não há ninguém neste planeta com uma que possa negar que as avós são assim. E vejam bem! Todos nós crescemos bem! O meu primo e a minha irmã comeram chocolates antes do almoço mas agora já não comem. Sabem que vão ficar sem apetite. O meu primo quer um jogo para a consola dele? Ele vai e compra com o dinheiro dele. Crescemos e não fazemos birras e continuamos a respeitar as nossas mães e as nossas avós. Não é por a minha avó me ter tirado as espinhas do peixe quando a minha mãe lhe disse que "ela já é crescida, pode fazê-lo sozinha!" que eu não estou agora, aos 21 anos, a viver completamente sozinha e a ser 100% independente. Percebem? Espero estar a conseguir expressar a minha opinião da devida forma.

Bom, em relação ao programa em si, consigo perceber o porquê do descontentamento de tantas pessoas. A imagem de um adulto já por si deve ser protegida, quanto mais a de uma criança. Okay, os pais concordaram em que as crianças fossem filmadas e em que toda a sua vida pessoal aparecesse na televisão. Mas então e a criança, daqui a uns anos quando já tiver idade suficiente para formar as suas ideias e opiniões em relação a certos assuntos, o que é que a criança vai dizer ou pensar ou sentir? Não se trata de uma foto embaraçosa que os pais colocaram no facebook e partilharam com os amigos uma vez porque acharam que a criança deles era a mais fofinha e querida do mundo. Isto é um programa de televisão, emitido num canal visto por milhares de espectadores diariamente. Todos nós sabemos o escrutínio publico a que o ser humano está sujeito a partir do momento em que decide participar em reality shows. Mas as crianças não sabem. E não escolheram ser expostas a tal. Só por isso acho que este programa não foi a melhor aposta que a SIC pudesse ter feito. 

Um adulto que de livre e espontânea vontade se inscreve para o Secret Story e vai para lá fazer as coisas que todos nós já vimos eles fazerem, é uma coisa. Uma criança que é exposta publicamente sem escolha e que pode vir a sofrer consequências por isso, das quais nunca teve noção porque nem sequer teve poder de escolha em primeiro lugar, é outra.

 

E se fosse contigo?

Há uma semana atrás estava na paragem de autocarro, como se de outro dia qualquer se tratasse, quando um grupo de homens, visivelmente bem mais velhos do que eu, sai do centro de emprego ao pé da paragem e se vem sentar ao meu lado.

Estava 1 grau naquele momento. Eu estava coberta da cabeça aos pés, apenas com os olhos e o nariz de fora. Como sempre, de phones nos ouvidos a ouvir música, andava pelo Instagram a gastar dados móveis, quando sinto o senhor a tocar-me no ombro. Perguntou-me o meu nome. Não lhe o disse. Perguntou-me se eu estava com frio. Eu disse que não e virei-lhe a cara. Voltou a tocar-me, desta vez no braço. Cheguei-me para mais longe dele. Ele desliza para perto de mim. Eu pergunto-lhe qual é o problema dele. Ele, com cara de gozo responde-me:

"Para que é usas essa maquilhagem toda se depois não queres ser abordada por homens? Não queres falar comigo porquê? Achas-te boa demais para mim, é?"

E nesse instante, a mão dele tenta tocar na minha perna mas os meus reflexos permitem-me ser mais rápida. Levanto-me de um ápice e respondo-lhe da forma mais contida que consigo:

"Eu maquilho-me porque gosto. Eu estou a usar maquilhagem, não estou a usar uma fita na testa que diz "por favor estranhos, venham ter comigo e assediem-me."

"Deixe-me em paz."

Ele ri-se e os amigos acompanham. Eu afasto-me o máximo que posso deles, porque preciso de ficar na paragem para apanhar o autocarro para ir trabalhar. Há quem tenha vida e mais que fazer do que assediar pessoas na rua. Mas mesmo assim, não desistiram. Vieram ter comigo e continuaram a dizer coisas, que sinceramente, não valem a pena serem repetidas. O autocarro chegou, entrei e rezei para que eles não entrassem atrás de mim. Não vieram.

Esta é só uma das muitas situações às quais, enquanto ser humano e mulher, já fui sujeita ao longo da minha vida. Já falei de assédio sexual aqui muitas vezes. Mas nunca é demais falar sobre este assunto, porque acontece a toda a hora, todos os dias, enquanto eu escrevo este texto e enquanto vocês o lêem. Está sempre a acontecer e não há muito que nós possamos fazer, enquanto vítimas. É nojento, degradante e tem, de alguma forma, de ser parado. Ontem vi o episódio mais recente do "E Se Fosse Consigo" da Sic, um programa apresentado pela Conceição Lino, que pega em temas da actualidade e os apresenta à sociedade de uma forma que ainda não tinha visto nenhum programa em Portugal fazer.

O que eu tirei deste episódio foi que, a maioria das pessoas que vieram em defesa da rapariga foram, de facto, outros homens. Porquê? Porque as mulheres têm medo. Nós vivemos em constante medo e em constante impotência. Algumas até acharam piada e disseram que a rapariga devia ter entrada na brincadeira. Nenhuma das testemunhas sabia de ante mão que aquilo era falso, uma cena representada por actores para o programa. É muito triste ver que a realidade é esta, não só no meu país, mas aqui em Inglaterra também e em tantos outros espalhados pelo mundo. Não podendo fazer muito, fico contente por haver algo a passar na televisão que expõe este problema na nossa sociedade, e que divulga este mal que tem de ser cortado pela raiz.

Se ainda não viram e tiverem um tempinho, dêem uma olhada no episódio completo e divulguem. O assédio é crime, ao contrário do que a lei diz. Não há como negar. É crime e tem de ser parado. Apelo que, se alguma vez forem testemunhas de assédio, não fiquem parados a assistir, não virem a cara, não ignorem. Chamem a polícia, vão lá vocês, não sei, façam algo. Tudo menos ignorar. Podia ser a vossa filha, a vossa prima, a vossa irmã, a vossa tia, a vossa melhor amiga. Se ainda há pessoas que se perguntam se isto é realmente um problema ou não, façam antes esta pergunta a vocês próprios e aos outros:

E se fosse contigo?

 

 (Eu vejo os episódios no website oficial da sic mas não estava a conseguir adicionar o video do site deles mas, pelos vistos, também dá para ver no Youtube)

Ao abandono...

Tenho vergonha de escrever isto. Mas é tão estranho escrever em português. Já não estou habituada. Não me interpretem mal, eu continuo a escrever e a falar em português com frequência. Falo com amigos e família a toda a hora mas é diferente. Articular pensamentos e estruturar textos é completamente diferente de quando estamos simplesmente a falar pelo Facebook com alguém.

Deixei o blogue ao abandono. Tive as minhas razões, como pareço ter sempre. E algumas pessoas perguntam-me porque é que simplesmente não apago este blogue e começo um novo, noutra plataforma, talvez até em inglês. E a minha resposta é muito simples. Seria incapaz de tal coisa. Mesmo que deixe de escrever aqui durante semanas ou meses, é um pedaço de mim, da minha vida, nos últimos cinco anos, da qual eu não não consigo abrir mão. Recuso-me. Este blogue viu-me crescer, literalmente. E vocês desse lado também. Eu tinha dezasseis anos quando decidi criar este blogue. Hoje vou a caminho dos vinte e dois. No papel, não parece muito, mas bolas, foram os anos mais críticos e atribulados da minha vida. Por isso não consigo simplesmente apagar o blogue ou deixa-lo ao abandono totalmente. 

Volto hoje, agora, porque o meu coração tem doído bastante com as notícias que chegam aqui. Eu abro o Facebook, abro os sites online de notícias e não se fala de outra coisa. Até já tive clientes na minha loja a falarem-me sobre isso, sem saberem que eu sou Portuguesa. É nestes momentos que me sinto uma má Portuguesa. Estou longe do meu país e portanto, longe dos seus problemas. Por aqui, temos outros problemas com os quais lidar, como por exemplo o tornado Ophelia que andam a anunciar já há uma semana. Mas isso não significa que não me doa ver o meu país e o meu povo no estado em que estão. Se há coisa da qual eu me gabo aqui, por entre os "brits", é do quão bonito o meu país é. Com áreas abertas e verdes, com cor, com vida. Gabo-me das imensas florestas e parques pelos quais podemos passear e aproveitar os belos dias de bom tempo que o nosso Portugal nos proporciona. 

Do que me gabo agora? Ardeu tanto. Não tudo, mas quase. Muito. Temos uma ministra que diz não ter tido férias, enquanto temos mais de 100 pessoas que nunca mais na vida vão ter seja o que for, porque morreram vítimas dos incêndios. Temos um país que aponta dedos - ao governo, aos bombeiros, ao povo. Um país destruído. Completamente. E eu vejo isto a acontecer, aqui no meu quarto em Londres, pelas redes sociais e pela família que vai mandado actualizações da situação e penso que não há nada mais triste do que ver o nosso país a morrer, de todas as formas, e não puder fazer nada. Porque Inglaterra nunca vai ser o meu país. Nem outro país qualquer onde eu possa vir a morar no futuro. O meu país é Portugal. A minha casa eterna. E um dia, gostava muito de poder regressar, a sério que sim.

Mas regresso para o quê? Para o meu país? Ou para uma versão esmorecida e triste do mesmo?

Não sou pessoa de me expressar nas redes sociais, de partilhar seja o que for ou de ir para o Facebook fazer discursos. Mas bolas...estando longe, sinto que não há muita escolha. Então resolvi voltar. Escrever aqui o quanto eu gosto do meu país e o quanto me doí vê-lo neste estado. Estou longe, mas não estou cega. Estou longe, mas não estou muda. Estou longe mas continuo sempre por perto. E continuo Portuguesa. Talvez mais agora do que alguma vez o fui. As teorias são muitas. As opiniões ainda mais. Mas os factos são certos. E os castigos deviam ser aplicados às pessoas que os merecem. Mas isto é algo que vai para além da política, que vai para além da ética. A destruição do nosso país foi um acto inumano. Em relação a isso, não há dúvidas. Só gostava que os dedos parassem de ser apontados em todas as direcções e mais algumas e que as pessoas se juntassem para, finalmente, poder haver mudança. Não sei se é desejar por muito ou não. Mas como Portuguesa que sou, a esperança é sempre a última a morrer.

Gostava que o abandono ao qual me refiro no título fosse ao meu em relação a este blogue. Mas não é, e acho que todos sabemos isso. Mas tal e qual como eu me recuso a abandonar por completo este blogue, só posso desejar que o nosso povo se recuse também a abandonar por completo o nosso país.

Juntos somos melhores

Os acontecimentos dos últimos tempos têm deixado muita gente em alerta. Eu incluída. Tendo nascido e crescido em Portugal, sempre vivi muito estas coisas apenas através de uma televisão. É óbvio que uma pessoa fica afectada ao ver as notícias e pensa sempre que, qualquer dia pode vir a ser no nosso país. Mas por outro lado, acho que a mentalidade dos portugueses é muito aquela de "a nós não nos toca". Por sermos um país pequeno, isolado, na outra ponta da Europa, etc. Contudo, acho que com os tempos que correm, essa mentalidade tem vindo a alterar-se bastante. Mas agora que já vivo em Londres há quase dois anos, e com os acontecimentos dos últimos tempos, a minha forma de pensar tem vindo, também, a mudar.

Já não penso "não me tocará a mim". Porque agora já não vejo só os acontecimentos através da televisão. Passo pelos sítios onde estas coisas estão a acontecer. Não com frequência, porque a minha vida é muito limitada aqui ao sítio onde vivo, estudo e trabalho. Ainda estou relativamente longe do centro. Mas não muito. Uma simples viagem de underground de 20, 30 minutos e estou no centro. Na ponte onde morreram pessoas. No Market onde o caos se instalou. Estou aqui, tão perto, que as notícias já não parecem ser só notícias. Histórias. 

Tenho medo de ir para o trabalho hoje em dia. Porque faço parte da gerência de uma loja num dos maiores centros comerciais do Norte de Londres. Não estamos isentos de alguma coisa vir a acontecer. Aos fins-de-semana, milhares de pessoas deslocam-se até aquele centro comercial para fazerem as suas compras. E quando eu digo milhares, são milhares mesmo. Eu nem saio da loja na minha hora de almoço se estiver a trabalhar sábados e domingos, porque não se consegue andar naquele centro comercial.

Seria o sítio perfeito para se tentar algo. E com os acontecimentos dos últimos tempos, este pensamento vai assombrando-me cada vez mais. Contudo, a parte de mim que quer pensar positivo faz-me levantar da cama todos os dias e ir trabalhar. Porque, como eu já aqui disse, a vida não pode parar antes de parar mesmo. Não nos podemos deixar erradicar pelo medo. Porque é isso que esta gente tenta fazer. Eles não querem erradicar pela religião, por um Deus todo poderoso. Eles erradicam pelo medo que incutem às pessoas. E claro que é assustador. Mas como uma pessoa sábia me disse ontem, nós vivemos numa sociedade de risco e temos de aprender a lidar com o medo e esperar que nenhum de nós esteja no momento errado, no local errado, há hora errada. Isto não vai desaparecer. Não vai melhorar, pelo menos nos tempos que se avizinham. Mas temos de mostrar que somos o oposto deles.

Enquanto que eles mostram-se dispostos a morrer sozinhos por uma causa em que acreditam, nós temos de mostrar que juntos, conseguimos sobreviver pela nossa. Infelizmente não pude acompanhar o directo do concerto de Manchester ontem, visto que estive a trabalhar até tarde. Mas já vi videos, imagens, tweets. E eu acredito mesmo que juntos somos melhores.

Somos mais.

Dar valor ao que é nosso

Fazia-o pouco. Desde que sai de Portugal e vim viver para Inglaterra, acho que a minha veia patriota veio muito ao de cima. Eu vou aqui admitir uma coisa que nunca admiti a ninguém: eu achava que não gostava do meu país.

Para mim Portugal era um beco sem saída. Talvez porque, a certa altura da vida, vivi com o meu pai a entrar e a sair do desemprego e quando ele finalmente assentou, foi a vez da minha mãe (que até hoje ainda se encontra desempregada). Para mim a nossa música nunca era das melhores. Ouvia-se, de vez em quando, se passasse na radio. Para mim, havia sempre sítios mais bonitos e mais interessantes para explorar, fora de Portugal. Para mim havia sempre filmes melhores, livros melhores e séries melhores do que aqueles feitos e escritos e produzidos por portugueses.

Ao olhar para trás, só gostava de poder dar um par de estaladas à criança que pensava assim. Hoje sei, sem sombra de dúvida alguma, que o meu país é o mais bonito, o mais bondoso, o mais quente, o mais talentoso. Hoje sei que, apesar de todos os defeitos do meus país, são as suas qualidades que fazem dele o que é. Até morar noutro país que não o meu, não pensava assim, o que me entristece. Mas agora sei dar valor ao que é meu. Talvez porque já não é tanto meu como quando lá vivia. 

Hoje em dia dou por mim a pesquisar sítios para passar férias no meu país. Dou por mim a ver séries da RTP1 e novelas da TVI. Dou comigo a ouvir, de livre e espontânea vontade, cantores portugueses. A alegria que é quando vamos no carro e sou eu que posso escolher a música! No outro dia andávamos a passear de carro às tantas da madrugada a ouvir a Como Ela é Bela do Agir. É uma música muito bonita gente. Mas não só. Amanhã tou Melhor dos Capitão Fausto tem sido o mais tocado no meu telemóvel. E basicamente todas a músicas deles. Acho que é daquelas coisas que, só quem está fora do país, é que entende. Queremos manter-nos ligados à nossa terra o máximo que conseguirmos. Porque às vezes temos medo. Medo de perder aquilo que é nosso. A nossa língua, a nossa cultura, as nossas raízes. 

Temos de dar mais valor aquilo que é nosso. E eu acho que ultimamente, não sou só eu que o ando a fazer. A Eurovisão está ai à porta e, muito sinceramente, nunca pensei estar tão entusiasmada como estou. Quando vi o Salvador cantar Amar Pelos Dois pela primeira vez, não gostei. Sou sincera. Não me encantou. Mas lá está, temos de dar valor ao que é nosso. Então fui ouvir e ver outra vez. E mais uma e mais outra. E agora não consigo olhar para o rapaz a actuar e dizer que ele não tem talento. Que ele não é a escolha acertada. Porque ele tem talento e porque penso que mais ninguém poderia ir representar-nos este ano, tão bem, como eu sei que o Salvador fará.

Ultimamente tenho andado bastante em baixo com isto de ser emigrante. Ando a reconsiderar e a ponderar muito sobre a minha vida. Mas sabem o que me faz mesmo muito feliz ao final do dia?

Saber que o meu país é Portugal. E vergonha de dizer de onde sou? Nunca a tenho. Jamais. Porque tenho orgulho de ser portuguesa, muito mesmo. Aqui em casa, depois de já termos vivido alguns anos em Inglaterra, todas nós chegámos à mesma conclusão: Portugal é um país único. E é nosso.

Temos de dar mais valor ao que é nosso. Eu vou votar no Salvador. Votem também.