Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

Something New

18
Jul18

Mais e melhor


alex

Uma das coisas que prometi a mim mesma fazer este ano foi tentar mudar a minha forma de pensar e olhar para o mundo. Adoptar uma nova perspectiva e tentar trabalhar um dos meus maiores defeitos que é o ser negativa. Não sei de onde veio e como ou onde começou, mas desde que me lembro que sou uma pessoa muito negativa. Sempre a lamentar-me disto e daquilo, a queixar-me da vida que eu própria escolhi, a fazer-me de vítima como se todas as desgraças do mundo me acontecessem só a mim. Talvez porque sempre fui uma criança complexada, uma adolescente com muitos problemas mentais, inevitavelmente deixei-me consumir pelo negativismo. Costumava pensar que era algo que não conseguia mudar em mim, que não era defeito mas sim feitio. E claro que é algo muito difícil de se fazer. Uma pessoa quando está doente fisicamente, há várias coisas que pode fazer para melhorar o seu estado. Mas quando a doença é mental, a coisa é muito mais complicada. É preciso todo um percurso com muitos altos e muitos baixos e temos de estar preparados para haverem pessoas que queiram destruir ou atrasar o nosso progresso.

Até porque é normal as pessoas estranharem. De um momento para o outro, aos olhos delas, passei de Miss Negatividade para Miss Possitividade. Mas claro, as pessoas só vêm aquilo que querem ver. É como o teatro: o publico só vê o resultado final e julga todo um projecto que demorou imenso tempo a ser montado e trabalhado, baseado apenas no produto final. Houve muitos ensaios, muitas reuniões, muitas lágrimas e dores, muitas corridas pelos bastidores no dia de abertura para tentar que tudo estivesse a postos para a abertura da cortina. E é claro não podemos culpar o público por isso, pois eles vão ao teatro é para ver o produto final. No meu caso, se não conviveram comigo, diariamente, ao longo do último ano e meio, é muito difícil para a pessoa perceber como e o porquê da minha mudança, e a mesma aparenta repentina para essas pessoas.

A verdade é que não foi nada repentino e ainda é algo no qual estou a trabalhar e a aperfeiçoar. Como ser humano que sou, tenho os meus momentos de fraqueza. Vou-me abaixo e os pensamentos negativos assomem-me de repente. Às vezes fico assustada com o que vai dentro da minha própria cabeça. Mas é todo um processo, como já disse. E não é nada fácil, mudar a nossa forma de pensar, de mudar a nossa perspectiva. Não é fácil ser-se feliz e é isso que tenho aprendido nos últimos tempos. Que a felicidade não é algo que nos cai no colo. Todos nós perseguimos este conceito vazio de felicidade, no entanto, andamos sempre descontentes com tudo. Pelo menos eu era assim que andava. Quero ser feliz, quero ser feliz, contudo não fazia nada por isso. Queixava-me disto e daquilo, daquele e daquela, mandava o mundo às espigas e amaldiçoava quem me amaldiçoava a mim. E este ano tenho vindo a descobrir que não é fácil ser-se feliz, mas que é muito menos complicado do que aquilo que eu pensava. Basta começar com pequenas coisas como encarar as pequenas coisas da vida com um sorriso na cara em vez de um franzir de testa.

Por exemplo, acontece-me algumas vezes perder o autocarro para o trabalho de manhã. Ás vezes, estou a sair de casa, que fica a dois minutos da minha paragem, e vejo não um, mas dois autocarros a passar de seguida. Isso deixava-me completamente frustrada. Meu deus, amaldiçoava o mundo por ser tão cruel. Porquê eu? Agora, quando me acontece, encolho os ombros e penso: mais tempo para ouvir a minha música. 

Ou por exemplo, no outro dia, por acaso sexta-feira 13, estava a trabalhar até às 20h30 e por volta das 19h, ouve-se um estrondo enorme. Dois segundos depois vejo malta a correr para dentro do centro comercial toda encharcada. Estava a cair uma carga de água como já há muito não caia. Mas o calor e a humidade continuavam. Bom, a chuva não parou de cair durante mais de uma hora e quando chegou a hora de sairmos da loja, continuava a chover de uma maneira que eu juro nunca ter visto antes. Tínhamos apenas um chapéu de chuva pequenino, que partilhámos as duas até à paragem de autocarro. Depois, tivemos de decidir quem levava o chapéu para casa. Ora eu disse à minha colega para ela ficar com ele, visto que a minha casa é literalmente a dois minutos da paragem de autocarro onde eu saio. Ela protestou mas no fim, lá levou. A chuva abrandou bastante enquanto estávamos debaixo da paragem de autocarro e quando o mesmo chegou, dava sinais de parar por completo. Contudo, assim que me comecei a aproximar da minha paragem, a intensidade com que a chuva caia voltou a aumentar e eu, sem casaco, sem chapéu de chuva, de t-shirt e jeans, apanhei a maior molha da minha vida. Se isto tivesse sido à uns meses atrás? Meu deus! Tinha chegado a casa a chorar baba e ranho, a perguntar-me porquê eu, porque é que isto só me acontece a mim, agora vou ficar doente, e isto e aquilo e....ARGH! Só de descrever esta pessoa está-me a enervar! Cheguei a casa encharcada da cabeça aos pés. E ri-me. Desatei a rir-me porque qual é o objectivo de ficar chateada com coisas deste género? Para quê ficar irritada ou enervada? Foi inconveniente? Claro que sim, ninguém gosta de ficar encharcada ao ponto de poder apanhar uma pneumonia (penso eu). Mas em vez de ficar chateada com o Universo por me mandar esta carga de água logo quando eu tinha de vir para casa, olhei-me ao espelho e ri-me porque parecia um panda autêntico com rímel a escorrer-me pela cara abaixo. 

Comecei com pequenas coisas. Comecei por não me deixar convencer que o Universo me odeia e faz tudo para me lixar a vida. Tento ver o outro lado da moeda. Eu estava tão presa e fechada dentro de mim mesma que me recusava a ver o outro lado das coisas. Claro que ainda fico chateada e aborrecida se alguma coisa corre mal ou não de acordo com aquilo que tinha pensado ao início. Mas se é algo que não consigo controlar, depressa mudo o meu pensamento. Se é algo que foi o um erro da minha parte, não me martirizo como martirizava antes. Procuro aprender através desse erro e tento não repeti-lo. Quase tudo na vida é corrigível. Quase. Mas tentar mudar uma grande parte de nós não é nada fácil. Especialmente se estamos rodeados de pessoas que são negativas e que tentam destruir o progresso que já fizemos.

E para mim, esse tem sido o maior desafio. Continuar na minha, tentar ser uma pessoa melhor e mais positiva quando vivo rodeada de negativismo e pessoas que me questionam a toda a hora. Dizem-me vezes e vezes sem conta:

"Ai Alexandra, pareces o Buddha, até enervas."

"Mas estás feliz? Tens de estar nesta loja cinco dias por semana, oito horas por dia e estás feliz?"

"Porque é que estás tão sorridente? Ai dá-me o que andas a tomar porque também quero!"

Eu também me irritava as pessoas que pareciam andar sempre contentes e de bem com a vida. Pensava, caraças, como é que é possível? Têm montes de dinheiro, só pode. Não tem preocupações na vida, com certeza. Não têm dificuldades! Eu era essa pessoa, portanto eu até posso perceber de onde é que estas pessoas e os seus comentários estão a vir. Mas eu acho que comecei a perceber algo que estas pessoas ainda não perceberam.

A vida é muito mais fácil se não a levarmos tão a sério. A sério! E isto é muito cliché de se dizer, mas é a verdade. O peso que eu antes sentia nos meus ombros? Fui eu que o pus lá. O buraco onde me enfiei? Fui eu que o cavei. A felicidade que não conseguia sentir? Era eu que estava a dificultar a minha própria vida. Claro que não ando sempre feliz, ou a sorrir, ou com energia ou com vontade de fazer coisas. Mas ando a esforçar-me para ser uma pessoa melhor para mim própria. Ando a trabalhar para atenuar os meus demónios, uma vez que sei que nunca me vou conseguir ver livre deles por completo. Eu sou abençoada. Tenho problemas como todos os outros, mas sou abençoada. Tenho um trabalho que me permite ter uma vida semi-confortável, tenho uma família que me apoia incondicionalmente e tenho amigos do meu lado que me fazem sorrir. Não tenho um carro, ou dez mil libras na minha conta, não estou apaixonada por alguém ou numa relação amorosa, não tenho a minha família perto de mim e às vezes não tenho vontade de ir trabalhar. Eu ria-me quando me diziam isto mas caraças, é verdade... é tudo uma questão de perspectiva. E aos poucos eu vou mudando a minha.

Quero ser melhor, quero ser feliz. Mas aprendi que isso tudo começa em mim e acaba em mim. E como já disse, é difícil, muito difícil mesmo, especialmente quando tens pessoas que duvidam de ti diariamente e que são completamente o oposto daquilo que tu estás a tentar ser. Mas vale a pena. Porque a pessoa que sou hoje é muito mais feliz que a pessoa que eu era à um ano atrás, sem dúvida.

E espero que a pessoa que vou ser daqui a um ano seja ainda mais; melhor.

 

11
Jan18

Façam figas comigo...


alex

As primeiras duas semanas do ano já passaram (quase, hoje é quinta mas estamos lá perto). Em 2018 já ri e chorei para o ano inteiro, ou pelo menos é o que sinto. O facto de este ser o meu último ano da universidade está a pôr-me um pouco doente, em todos os sentidos.

As companheiras de casa dizem que eu já nem para abraçar sirvo que os meus ossos das costas estão tão sobressaídos que é desconfortável abraçar-me. Contudo eu digo-lhes que sempre fui assim. Mentira, que os meus jeans já não estão a servir outra vez. O tempo para comer ou para descansar é pouco e o stress é constante. Mas eu preciso de continuar, puxar, esforçar-me mais e dar as últimas porque já só faltam mais quatro meses.

Quatro meses para deixar a escola para sempre. Ou pelo menos as instituições escolares, visto que a Vida em si é a maior das escolas. Só vou poder dizer que sou estudante-trabalhadora durante mais quatro meses. Depois vou ser só mais uma empregada/desempregada como todos os outros licenciados. Empregada num trabalho que não quero para o meu futuro e desempregada porque ser escritora não paga contas. E mesmo assim ando há três anos a estudar para tal. Eu sempre fui maluca, as provas disso são mais do que muitas. Noites mal dormidas, já nem sei o que isso é. Quem me dera noites mal dormidas, pois significava que ainda dormia alguma coisa, mesmo que mal. Já não há maquilhagem suficiente para disfarçar o tamanho das minhas olheiras e as marcas das borbulhas que o stress traz consigo.

Contudo, se conseguir acabar isto de uma vez por todas, consigo tudo na vida. Disso não duvidem. Nunca cheguei a entrar em detalhes dos problemas académicos que tive mas foram muitos e completamente desnecessários. Não fiz amizades para a vida, não me envolvi muito na vida académica por falta de tempo e sinceramente também por falta de vontade, não aprendi nada de especial, honestamente. Ainda é cedo para escrever um post de reflexão sobre os últimos 3 anos e o curso mas, não vejo como é que em quatro meses a minha opinião e experiência possam mudar.

Escola simplesmente não é para todos. Cada vez mais tenho a certeza de que sou uma pessoa muito mais prática do que teórica. Aprendo muito melhor a fazer algo do que sentada numa sala de aula. Não me dou bem com regras e políticas de escola e tudo o que envolva avaliações deixa-me à beira de um colapso mental. Sou uma pessoa muito mais feliz quando estou simplesmente a carregar com caixas na loja, para ser sincera (eu sei, sempre me queixei imenso do meu trabalho aqui mas ao pesar na balança, consegue ganhar ahah).

Sinto que não sou nem vou ser mais realizada por ter uma licenciatura. Talvez me abra mais portas e oportunidades, mas no meu meio tudo é subjectivo e muito à base do próprio do talento da pessoa e das pessoas que se conhecem. Contudo, a quatro meses do fim não posso desistir, venham os obstáculos que ainda tenham de vir, vou prevalecer e acabar aquilo que comecei, de uma maneira ou de outra.

Espero que 2018 seja um ano bem melhor que 2017, visto que esse foi um autêntico desastre sem tirar nem pôr. Mas ainda só estamos no inicio e coisas boas já começaram a acontecer, não propriamente a mim mas aos poucos que me rodeiam e de quem gosto. Vamos todos fazer figas e desejar que 2018 seja um bom ano!

05
Jun17

Juntos somos melhores


alex

Os acontecimentos dos últimos tempos têm deixado muita gente em alerta. Eu incluída. Tendo nascido e crescido em Portugal, sempre vivi muito estas coisas apenas através de uma televisão. É óbvio que uma pessoa fica afectada ao ver as notícias e pensa sempre que, qualquer dia pode vir a ser no nosso país. Mas por outro lado, acho que a mentalidade dos portugueses é muito aquela de "a nós não nos toca". Por sermos um país pequeno, isolado, na outra ponta da Europa, etc. Contudo, acho que com os tempos que correm, essa mentalidade tem vindo a alterar-se bastante. Mas agora que já vivo em Londres há quase dois anos, e com os acontecimentos dos últimos tempos, a minha forma de pensar tem vindo, também, a mudar.

Já não penso "não me tocará a mim". Porque agora já não vejo só os acontecimentos através da televisão. Passo pelos sítios onde estas coisas estão a acontecer. Não com frequência, porque a minha vida é muito limitada aqui ao sítio onde vivo, estudo e trabalho. Ainda estou relativamente longe do centro. Mas não muito. Uma simples viagem de underground de 20, 30 minutos e estou no centro. Na ponte onde morreram pessoas. No Market onde o caos se instalou. Estou aqui, tão perto, que as notícias já não parecem ser só notícias. Histórias. 

Tenho medo de ir para o trabalho hoje em dia. Porque faço parte da gerência de uma loja num dos maiores centros comerciais do Norte de Londres. Não estamos isentos de alguma coisa vir a acontecer. Aos fins-de-semana, milhares de pessoas deslocam-se até aquele centro comercial para fazerem as suas compras. E quando eu digo milhares, são milhares mesmo. Eu nem saio da loja na minha hora de almoço se estiver a trabalhar sábados e domingos, porque não se consegue andar naquele centro comercial.

Seria o sítio perfeito para se tentar algo. E com os acontecimentos dos últimos tempos, este pensamento vai assombrando-me cada vez mais. Contudo, a parte de mim que quer pensar positivo faz-me levantar da cama todos os dias e ir trabalhar. Porque, como eu já aqui disse, a vida não pode parar antes de parar mesmo. Não nos podemos deixar erradicar pelo medo. Porque é isso que esta gente tenta fazer. Eles não querem erradicar pela religião, por um Deus todo poderoso. Eles erradicam pelo medo que incutem às pessoas. E claro que é assustador. Mas como uma pessoa sábia me disse ontem, nós vivemos numa sociedade de risco e temos de aprender a lidar com o medo e esperar que nenhum de nós esteja no momento errado, no local errado, há hora errada. Isto não vai desaparecer. Não vai melhorar, pelo menos nos tempos que se avizinham. Mas temos de mostrar que somos o oposto deles.

Enquanto que eles mostram-se dispostos a morrer sozinhos por uma causa em que acreditam, nós temos de mostrar que juntos, conseguimos sobreviver pela nossa. Infelizmente não pude acompanhar o directo do concerto de Manchester ontem, visto que estive a trabalhar até tarde. Mas já vi videos, imagens, tweets. E eu acredito mesmo que juntos somos melhores.

Somos mais.

12
Abr17

Sou mulher


alex

Eu acho que já toquei neste assunto aqui no blog. Contudo, já lá vão quase 5 anos desde que o criei, portanto é mais do que certo que os assuntos se vão repetindo de vez em quando. No entanto, este é um daqueles assuntos sobre o qual nunca é demais escrever, sobre o qual nunca é demais falar ou discutir.

Assédio sexual.

Um tema que gera muita polémica, sempre gerou e que vai continuar a gerar. Este domingo passado, estava a vir para casa depois de um turno bastante cansativo na loja. O dia tinha corrido mal, e a única coisa que me alegrou foi sair do trabalho às 18h30 e ver o tempo espectacular que estava. Ultimamente tem sido assim por aqui, temos tido um tempo espectacular. Vinha eu para casa com a A., visto que tínhamos estado a fechar a loja juntas, e quando saímos do autocarro damos por nós a ser seguidas por um individuo alto, que estava a tentar abordar-nos. Eu só reparei quando já estávamos para atravessar a estrada, porque vinha na conversa com a A. e simplesmente pensei que o individuo vinha a falar ao telemóvel ou algo do género. Mas não. Ele tentou abordar-nos à força toda e eu disse para a A.: Ignora, continua a falar para mim e nem olhes para ele.

Ele não desistia. Às tantas, deve ter ficado envergonhado o suficiente para se virar para nós, nos ofender e virar costas. Sim, ofendeu-nos. Porque não lhe demos conversa. Porque não pactuamos com o assédio dele. Porque sim, o que ele estava a fazer era assédio. E já não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que algo deste género ou pior nos acontece neste país. Não quero ser injusta e dizer que os homens aqui são mais assim ou mais assado, porque assédio sexual existe em todos os país e recantos do mundo. Contudo, desde que me mudei para cá que já foram mais as vezes em que fui assediada do que as não fui. No meu país também o era, mas não da forma que sou aqui e não tão gravemente. Em Portugal o máximo a que chegou foi ser assobiada por um velho coitado sentado à porta de um café. Aqui já tive homens a agarrem-me e a não me quererem largar.

Mas tenho mais histórias. No outro dia estava a falar com uma outra amiga e ela estava-me a contar que, nesse dia, às 8h e tal da manhã quando saiu de casa para ir para a uni, um carro com dois homens seguiu-a até à paragem de autocarro dela, sempre a fazerem-lhe perguntas inoportunas e a tentarem com que ela fosse com eles sabe-se lá para onde. Outra - a mesma amiga que vinha comigo para casa no domingo passado já foi abordada mais do que uma vez na rua pelo mesmo individuo. Quando ainda vivíamos na outra casa e tínhamos de caminhar uns 10 minutos a pé da paragem até casa, ele aparecia-lhe sempre à frente e tentava "engata-la".Tentou muitas vezes segui-la até casa, mas ela conseguia sempre esquivar-se ao ligar para uma de nós ou a ir para a uni. 

Uma rapariga que estudava comigo o ano passado foi às compras e o segurança do supermercado passou o tempo todo atrás dela a mandar-lhe bocas e a dizer-lhe o quão "gostoso" era o rabo dela.

Uma pessoa está na paragem de autocarro e o homem do centro de emprego está à porta a fumar e começa a fazer olhinhos e a lamber os lábios de forma "sedutora" para nós. 

Isto é RIDÍCULO. E quem quer que ache o contrário é igualmente ridículo/a. Não quero ser aquela pessoa que diz que só as mulheres é que sofrem assédio sexual, porque tenho plena noção de que também há homens que passam por isso. Contudo, sou mulher e a maioria dos meus amigos são mulheres que, como eu, já foram assediadas de todas as formas e feitios que existem. Eu tenho o direito de andar na rua sem querer que um estranho venha pôr conversa comigo e me pressione a dar-lhe o meu número e outras informações pessoais. Tenho direito a andar na rua sem ter que olhar constantemente por cima do ombro, com receio de estar a ser seguida. Tenho o direito a não ser agarrada no meio da rua por pessoas que não conheço, tenho o direito a não ser ofendida por um individuo com o ego magoado porque eu nem me dignei a responder à sua tentativa de engate. Tenho o direito a ser mulher sem ter medo de o ser.

E os homens não entendem isto. Os homens andam na rua sem medo. Nunca, mas nunca, eu vi uma mulher chegar-se ao pé de um homem no meio da rua e fazer uma das coisas que eu mencionei neste texto ou outra qualquer que possa ser classificada como assédio. Nunca. Pode já ter acontecido, mas não é comum. Enquanto que, no que toca a nós, é o pão nosso de cada dia. Devíamos ficar felizes, dizem eles. Devíamos considerar-nos sortudas e ficar lisonjeadas! Um homem quer o nosso nome, número e código postal , devíamos lançar foguetes e fazer uma festa meninas! Então? Que tontas que nós somos por nos sentirmos ameaçadas ou incomodadas com tal coisa! Desde que eles não nos toquem não é assédio!

Errado. Completamente errado. É assédio a partir do momento em que eu claramente recuso os avanços de alguém e essa pessoa se continua a insinuar. É assédio se fazes a outra parte sentir-se desconfortável ou ameaçada ou amedrontada ou enojada. É assédio e ponto final. E sinceramente, eu gostava que todos os homens sentissem na pele, por uma só vez que fosse, aquilo que nós mulheres sentimos quando somos tratadas como se fossemos objectos; troféus.

Porque sim, eu sou capaz de andar no meio da rua, seja sozinha ou acompanhada, ver uma pessoa que me desperta interesse, que eu acho atraente, mas não me dirijo a ela e começo a fazer perguntas inoportunas, ou não a agarro, nem a tento seguir até casa. E é isto que eu não entendo. Será que há mesmo mulheres que gostam deste tipo de situações, que se dão assim a estes homens e é por isso que eles continuam a agir como agem? Será que eles são bem sucedidos ou será que, são apenas estúpidos? A minha dúvida é esta. Será que, pelo amor de Deus e eu nem sou católica, a única cabeça com que os homens pensam é com a que têm no meio das pernas?

E será que, pelo amor de Deus, outra vez, posso alguma vez andar na rua sem ter de ser assediada? O que é que uma mulher tem de fazer para andar na rua sem ser alvo de assédio? Andar com saco do lixo vestido? Uma caixa de cartão na cabeça? Tenho direito a andar na rua como bem quiser e me apetecer, seja de calças de ganga, t-shirt, vestido, tapada da cabeça aos pés, sem ter de me sujeitar às merdas a que estes tristes nos sujeitam!

Sou mulher. E tenho direito a sê-lo sem ter medo de o ser. Percebam isso gente! 

23
Mar17

Não escondam o medo


alex

"We are not afraid".

Circula pelas redes sociais em conjunto com a hashtag #PrayForLondon. Estava em casa ontem, perdida no meu próprio mundo, quando o meu telemóvel dá sinal de mensagem no chat do Facebook. Era a senhora dona minha mãe a perguntar se eu estava em casa e se estava bem. Achei estranho. Apesar de falarmos todos os dias pelo chat do Facebook e apesar de ela, todos os dias, me perguntar se eu estou bem, achei aquele "Estás bem?" diferente dos outros. Respondi imediatamente, pondo de lado o que estava a fazer no momento, porque senti a urgência da pergunta. Não me perguntem como. Respondi que sim, estava em casa e estava prestes a ir lavar a loiça do almoço. Perguntei porquê a pergunta feita daquela forma? E ela respondeu: "Ainda não viste as noticias? Houve um atentado no Parlamento aí."

Bom, fiquei alarmada. Pensei que alguém tinha tentado bombardear Westminster. Acedi logo ao site da BBC News, e assisti ao live que eles estavam a transmitir, em directo no local. Rapidamente me apercebi que não se tratava de uma bomba, mas sim de algo diferente, igualmente preocupante. Um individuo esfaqueou um polícia, atropelou quatro pedestres (um deles português pelo que consegui descobrir) e causou mais uns quantos feridos. Para além disto, causou o pânico, não só na zona de Westminster, mas por todo o país. Em questão de segundos, as redes sociais encheram-se de mensagens de boa fé, de revolta e de medo.

Medo. Medo esse que, por uma razão que eu entendo perfeitamente, toda a gente está a tentar esconder. Hoje, um dia depois do acontecimento, todos nós andamos pelas redes sociais a partilhar fotos e tweets a dizer "We are not afraid". Nos conhecidos "boards" do metro, onde todos os dias é escrita uma mensagem inspiradora, mensagens sobre o que aconteceu são escritas, acompanhadas pela referida frase. Mas eu acho que é tudo uma grande treta.

Eu estou com medo. Eu escolhi esta cidade para viver. Aqui vivo há já quase dois anos. Não faço tensões de me ir embora assim tão cedo quanto isso, apesar de todas as complicações que o Brexit possa vir a causar. Contudo, eu sei perfeitamente que isto é só o começo. O começo de uma jornada que, infelizmente, vai conter muitos mais destes acontecimentos e actos de terrorismo. Porque foi isso que aconteceu. Infelizmente, este país está a ficar mais fraco. O Reino Unido já não é Unido coisíssima nenhuma. Claro que o Brexit é um dos grandes culpados. Mas o pior são as pessoas. As pessoas estão, dia após dia, a esquecer-se que ao final do dia, nós somos todos seres humanos. 

Há seres humanos bons e seres humanos maus. Mas isso é em todo o lado. Só que as pessoas esquecem-se disso quando coisas destas acontecem, que geram o pânico e o medo e a aversão às pessoas que, para eles, são e serem sempre "outsiders". Emigrantes. Mesmo que esse não seja o caso, a verdade é que, isto assusta qualquer pessoa. Eu, que não estou no meu país, estou assustada. Sei lá se amanhã não se lembram de ir ali ao centro comercial onde eu trabalho, que é só o maior centro comercial de North West London, fazer algo do género ou pior?

Estas coisas fazem-nos pensar. E duvidar. E reconsiderar as nossas escolhas e o nosso futuro e o futuro do país e do mundo que habitamos. Faz-nos ter medo. Não escondam o medo que estes acontecimentos nos fazem sentir. Porque é natural termos medo. Somos apenas seres humanos. Dizer que não temos medo não vai fazer com que coisas destas não aconteçam de novo. Ter medo não é vergonha. Vergonha é não fazer nada quanto ao medo que sentimos. 

O telefone lá de casa, ontem, tocou mais vezes do que durante o ano todo quando as notícias chegaram às televisões portuguesas. Pessoas que nem sequer vejo quando vou a casa, a telefonar aos meus pais a perguntar se eu e os meus amigos estávamos bem. Felizmente, nós raramente andamos pelo centro de Londres. Mas podia ter-nos dado na cabeça lá ter ido. É só meia hora de viagem no metro. E nunca se sabe quando ou onde será o próximo.

Porque vai haver próximo, infelizmente. Não podemos mostrar medo, eles pensam. É a única forma de os vencermos. Eu cá também sou assim. Nunca mostro medo. Nunca mostro as minhas fraquezas. Porque se o inimigo sabe as nossas fraquezas, fica um passo mais perto de nos derrotar. Contudo, no que toca a estas coisas, acho impossível pedir às pessoas para se fazerem de fortes. O medo está instalado.

Agora é tentar fazer algo com ele. Não deixar que nos consuma ou impeça de continuar com as nossas vidas. Porque aí sim, caminharemos para a derrota.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D