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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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Something New

20
Mar20

Manter o espírito

alex

Uma das memórias que tenho muito presente ainda em mim, é a de quando passava alguns dias, talvez semanas, das férias de Verão em casa da minha avó paterna. Tive o privilégio de crescer rodeada pela minha família, de passar Verões na zona de Sintra junto ao mar e outros mais a norte do país junto da natureza. Mas nada me sabia tão bem como estar em casa da minha avó, só nós as duas, uma tarde inteira no sofá a ver cassetes.

Cassetes de filmes portugueses como "O Pátio das Cantigas", "A Canção de Lisboa", "O Leão da Estrela", bem como de programas que eu na altura adorava, como o Big Show Sic com o João Baião e o Chuva de Estrelas. Parece que ainda hoje consigo ouvir os nossos risos e as nossas vozes a cantar em uníssono algumas das músicas. Ás vezes, quando perdia a vergonha, até chegava a imitar a Beatriz Costa. Dizia que quando fosse grande queria ter um penteado igual ao dela.

Tardes passadas dentro de casa, só nós, porque os meus pais trabalhavam, a minha irmã ainda não era nascida e nem sempre o meu primo estava connosco. Então aqueles eram os nossos momentos, só nós as duas. Ainda hoje em dia, a minha avó é como se fosse uma amiga com quem eu partilho muita coisa e ela comigo. Ainda hoje nos sentamos as duas na mesma sala, com um sofá diferente e uma televisão mais moderna, infelizmente sem cassetes, a conversar. A desabafar, a rir, a chorar às vezes. A minha avó foi sempre muito especial para mim e gosto de pensar que temos uma relação especial, apesar de ela gostar de todos os netos de igual forma...gosto de pensar que nós partilhamos uma relação diferente. Mais especial, mais nossa.

Mas assim passávamos muitos dias, muitas tardes, juntas, a cantar, a rir, a ser felizes à nossa maneira. Desde que regressei a Portugal que faço questão de a ver com frequência, mas agora com esta situação do COVID-19, tal não é possível. Este isolamento, esta situação em que temos de tentar ao máximo estar em casa e ficar em casa, fez-me recordar desses tempos.

Tempos em que podia sair, podia brincar, podia fazer tanta coisa e escolhia ficar em casa, porque ali era feliz, com a minha querida avó. Era o nosso momento, o nosso bocadinho para sermos avó e neta, mulher e menina, sábia e curiosa. E éramos felizes. Agora, a obrigatoriedade tira-nos essa sensação. A sensação de podermos também, em casa, encontrar as pequenas coisas que nos façam felizes. Mas é imperativo fazê-lo, para o bem do nosso estado mental. O meu conselho é este, que se calhar é igual a tantos outros, mas não menos válido:

É complicado. É difícil. É uma luta que travamos de momento com um inimigo invisível. Mas façam coisas que vos fazem sorrir. Oiçam música, escrevam, leiam, vejam filmes, séries. Pintem, façam exercício, descansem, façam limpezas, mudem o vosso quarto. Não desesperem. Se é para ficarmos em casa, de modo a prevenir a doença de nos atingir a nós e aos nossos, de nos matar...Temos de garantir que no fim, não será essa mesma prevenção aquilo que nos matará. Não deixem morrer o vosso espírito, pois vamos precisar dele quando isto passar. Para enfrentar novos desafios. Digo isto a mim mesma também, que ainda hoje andava aqui quase a bater com a cabeça nas paredes. Mas digo também, não se sintam na obrigatoriedade de nada. De responder a todas as mensagens e a todas as chamadas e emails, ou de fazer mil e uma coisas para poderem dizer que estão a ser produtivos. Para obrigações, já basta a de ter de ficar em casa.

Façam como a Beatriz Costa: já que sou obrigada a cantar sobre uma agulha e um dedal, faço-o de corpo e alma.

 

27
Out19

Uma memória feliz

alex

Olhou pela janela e encarou o céu cinzento com o qual aprendeu a viver nos últimos anos. Pararam no trânsito e ela podia ter ficado chateada. Chateada porque estava a demorar imenso tempo a chegar ao destino deles. Chateada porque ela tem este defeito imenso, o da impaciência. Chateada porque, mais uma vez, o sol não brilhava no céu que ela encarava.

Mas uma das suas músicas favoritas começou a tocar. Levantaram o volume do rádio. À frente, braços no ar, cabelos soltos, alegria não contida. Ao seu lado gargalhadas. De repente, começou a chover. Muito de mansinho, quase sem se ver, chegou a chuva, tão já sua conhecida. Primeiro estranha-se, depois entranha-se. Ela sente a música dentro de si. Quase que vibra com ela.

Decide então abrir o vidro e o ar que a recebe não é puro. É poluído, bafiento, londrino. Mas a chuva miúda cai-lhe na palma da mão, à frente dançam, ao seu lado riem e ela canta. Começa a cantar e encara de novo o céu cinzento. O carro começa a andar. O ar não muda, mas ela sim. Ela canta e dança e ri, com os seus, e pensa para si: estou feliz.

Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

06
Abr15

Com o passar das estações

alex

Espero que tenham todos tido uma óptima Páscoa! Pessoalmente, a minha não foi nada de outro mundo.

Para mim, estes feriados religiosos só servem para eu estar com a minha família, para além dos meus pais e irmã. É como os aniversários e as outras celebrações - para mim só têm significado porque tenho oportunidade de estar com pessoas que eram o meu mundo.

Mas os tempos mudam, e as pessoas também. Cada vez mais me tenho convencida que a minha família do coração vai ser sempre - e somente - os meus pais, a minha irmã e os meus avós. Porque o resto já está tudo muito longe do meu coração para ser a família do coração. Agora são mais só a família de sangue do que outra coisa.

É incrível como os nossos sentimentos para com alguém podem mudar ao longo do tempo. Há uns anos atrás, a minha família era o meu mundo; a minha rocha; o meu suporte. Eu sabia que podia-me acontecer de tudo, mas que eles estariam lá para mim fosse pelo que fosse.

Hoje essa certeza já não o é. Não duvido que eles gostem menos de mim ou eu deles - mas agora estamos todos crescidos, todos têm as suas vidas, os seus horários, os seus compromissos e a fossa que se foi abrindo à uns anos, está maior do que nunca.

Primos com quem cresci, que foram como irmãos. Que me fizeram chorar mas que limparam as minhas lágrimas. Que me fizeram rir com anedotas parvas, truques de magia fascinantes (e que ainda hoje não sei como se fazem) e aventuras por demais.

Tios com quem ia de férias no Verão, com quem partilhava segredos, com quem ria e brincava. Padrinhos com quem fazia o mesmo e muito mais.

Estamos todos tão perto uns dos outros, e no entanto, nunca estivemos tão longe. Literalmente, os meus tios moram aqui, a dez minutos de minha casa e eu nunca lhes ponho a vista em cima. Não é por falta de tempo - é por falta de vontade.

Pronto, está dito. É mau de se dizer, não é? Que já não há vontade de estar com aqueles que são do nosso sangue? Que nos ajudaram a crescer e que, de certa forma, contribuíram para formar a pessoa que eu sou hoje - mas a verdade é esta. Quando estou com o lado da mãe da família - tios e primos - estou contente, é agradável e ainda rio aqui e ali. Mas as diferenças estão lá, palpáveis se eu apenas estender a mão na direcção errada. Quando estou com o lado do pai da família - padrinhos e primo - é como se já não houvesse razões para os apelidar de tal. Há meses que passam sem nos falarmos uns com os outros e quando nos vemos, não há aquele interesse em partilhar a nossa vida com eles. Não quero dizer-lhes que me estou a candidatar à faculdade em Londres. Não quero dizer-lhes que às vezes me sinto muito sozinha, desgastada, fraca. Não quero dizer-lhes que daqui a uns bons meses, sou bem capaz de me ir embora. Não quero partilhar a minha vida com eles. Já não há aquela abertura para partilhar com eles parte de mim.

Cada vez mais acredito que família não é somente partilhar o mesmo ADN; que a família verdadeira não tem de ser a de sangue.

A família pode, de facto, ser escolhida por nós - não à nascença, mas há medida que vamos crescendo e formando e quebrando laços. Porque se há coisa que eu posso provar é que há laços aparentemente inquebráveis que, apenas com um toque bem dado, podem quebrar.

Entristece-me que assim seja, que eu estando aqui agora, não haja mais aquela proximidade que antes havia. Tudo o que resta das nossas relações, desta família que eu costumava ter e adorar, são as memórias. E essas, até o tempo me as vai levando.

Mas eu gosto de pensar que tenho crescido um pouco neste último ano. Que aos poucos, vou aprendendo não a conformar-me, mas a aceitar que há coisas pelas quais valem a pena lutar e outras que são melhor deixadas para trás.

Eu estou hoje numa luta que me deixa ver com clareza aqueles que estão lá para mim e os que não estão. A vista diante de mim pode não ser a mais bonita ou preenchida, mas de certa forma, actualmente, é a vista que eu preciso de ver para me dar aquela extra força.

O resto, é tudo gotas de água que escorrem pela janela abaixo nos dias de chuva e que, inevitavelmente, vão desaparecendo com o passar das estações.

31
Out14

O (meu) Halloween

alex

Aqui em Portugal não somos os que mais festejam o Halloween. Temos o Carnaval e damos muito mais importância a essa festa. No entanto, fascinada pelas culturas para além da minha, sempre tive um grande fascínio por esta festa em especial. 

Lembro-me de ser mais pequena e de me mascarar sempre de bruxa (ser obcecada pela Sabrina também não ajudava). Há medida que fui crescendo deixei de me mascarar até porque não tinha razão para isso - o Halloween ou era passado na escola como um outro dia qualquer ou em casa com a família como se nada fosse.

Este ano, sem escola e sem família (durante o dia...calma!) não há razão para me mascarar. Mas isso não quer dizer que a vontade não esteja cá. Há dois anos ainda se organizou uma festa de Halloween e foi muito divertido....toda a comida era Halloween related e haviam pessoas que se esmeraram com os costumes.

Mas este ano parece que não vai haver festa nenhuma...e logo hoje, o meu corpo também não parece estar para aí virado (final do mês + ser mulher = o que já toda a gente sabe).

Por isso, e digo isto com muita pena acreditem, este meu Halloween vai ser passado aqui, na cama, com muita chávena de chá, muito Friends e um sorriso ocasional a relembrar todos os Halloween passados em que, ao contrário deste, me diverti.

 

 

30
Set14

Peixe fora de água

alex

A natação foi, durante mais ou menos 9 anos, uma grande parte da minha vida. Comecei aos seis e acabei por desistir aos quinze anos de idade. Já lá vão quase quatro anos desde que abandonei essa grande parte da minha vida e a razão pela qual escrevo este post hoje, sobre este determinado assunto, é porque ontem tive um sonho que me deixou meia nostálgica.

Sonhei que tinha voltado aos treinos, com a mesma treinadora e os mesmos colegas de equipa. Sonhei que tudo era como dantes, onde ir para os treinos era como se estivesse a dirigir-me para a Disneyland - a minha própria Disneyland.

Lembro-me de haver uma altura, ali entre os dez e os treze, em que eu não simpatizava muito com o desporto em si. Nunca gostei muito do lado competitivo do desporto, e acreditem que a natação é um desperto severamente competitivo, e na altura ainda estava a ganhar o meu ritmo, a encontrar o meu melhor estilo e a estabelecer-me enquanto desportista. Passada essa fase, aprendi a amar o desporto como se fosse um grande companheiro - quando saia da escola, naqueles dias em que só me apetecia era chegar a casa e enrolar-me nos lençóis da minha cama, fazia a mala e ia para o treino e, como que por magia, toda a minha atitude mudava. Nunca eu fui tão feliz como o fui naqueles balneários, a rir, a falar, a brincar com as minhas colegas e amigas da altura. Nunca eu fui tão feliz como naquela piscina, a dar o tudo por tudo mesmo que ninguém me o pedisse. Nunca eu fui tão feliz como quando íamos para os nossos "estágios", que eram basicamente três ou quatro dias em que íamos todos, treinadores incluídos, para outra zona do país, acampar ou para parques aventura. Tantas memórias inesquecíveis e que ainda hoje guardo com tanto carinho no meu coração...

No entanto, a grande razão pela qual acabei por desistir quando fiz quinze anos, foi porque o desporto passou a ser demasiado competitivo para o meu gosto. Queriam pôr-nos a treinar como os nadadores de alta competição nadam - todos os dias da semana, excepto ao domingo, duas horas, alternando corrida com nadar. Queriam fazer tudo só e exclusivamente sobre os tempos que cada um fazia, qual era o melhor neste estilo e qual o pior no outro. Queriam tirar do desporto a única coisa boa que ele tinha: a satisfação de nadar com colegas de equipa; amigos e não inimigos, alvos a abater.

Por isso desisti. Não me arrependo, até hoje. No entanto, existem as redes sociais e como esta cidade não é assim tão grande quanto isso, ainda são muitas as vezes em que avisto algumas caras familiares, que na altura considerava serem muito meus amigos. Hoje, todos passam por mim e nem ai nem ui. A isso já me acostumei; não me faz comichão porque aprendi, com o passar do tempo, que as pessoas funcionam assim: afastam-se e continuam as suas vidas como se nós nunca tivéssemos feito parte delas.

Já há muito tempo que não pensava nesta altura da minha vida e ontem, do nada, sonhei com ela, tão vividamente que senti a necessidade de escrever este post.

Pergunto-me porque é que isto acontece? Qual é a ciência por detrás dos sonhos; estes sonhos tão reais e tão inesperados, que nos trazem memórias de um passado tão distante, que por vezes parece que não é bem nosso.

Acho curioso.

Ah e caso se estejam a interrogar acerca do titulo do post, "Peixe fora de água" foi a alcunha que me deram quando entrei para a equipa, porque na altura eu era um zero à esquerda a nadar e a minha treinadora dizia, várias vezes, que eu parecia um peixe fora de água.

Com o passar dos anos fui mudando, aprendendo e melhorando, mas a alcunha ficou - assim como as memórias destes tempos em que era uma criança feliz ( e desportista, coisa que agora já não sou!)

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