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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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02
Out18

Vou voltar


alex

Por onde começar... 

Estou de volta. Bom, na verdade, já voltei há duas semanas mas a vida tem sido uma correria desde então. As férias passaram-se, com muitos precalços e histórias que vão ficar por contar, pelo menos por agora. Não foi uma viagem que me tenha enchido as medidas, como foi há dois anos atrás. Talvez por ter ido com mais pessoas desta vez, talvez por estar numa fase diferente da minha vida, talvez...regressei com muitos "talvez". Não posso dizer que foi um desastre de viagem e umas más férias, mas também não posso dizer que foi espectacular e que vim revigorada. Precisei de férias das férias assim que aterramos em Gatwick. Mas como já disse, talvez fale sobre isso num outro post. Ou não, porque nunca se sabe quem pode acabar por ler o post...

Entretanto, de volta à rotina, tenho andado a pensar muito no meu futuro desde que regressámos. Pode-se dizer que se houve algo que esta viagem fez, foi fazer-me reflectir bastante na pessoa que eu sou, nas pessoas que tenho à minha volta, na minha vida presente e no meu futuro próximo. Como mencionei brevemente no post anterior, o ano que vem vai trazer consigo muita mudança. Não logo ao principio, mas acho que estou numa altura da minha vida em que não posso ter medo de nada, nem mesmo de dizer aquilo que ainda não tenho a certeza se vai acontecer ou não. Os primeiros seis meses do próximo ano podem muito bem vir a ser os últimos meses que passo aqui. 

Pelo menos o plano é esse.

Acho que ainda não disse isto a quase ninguém. Escrevê-lo é estranho. Mas a intenção é essa. Nunca pensei que fosse quando me mudei para Londres há quase quatro anos atrás. A intenção era a de ficar aqui ou, possivelmente, ir daqui para outro país qualquer. Mas muita coisa aconteceu nos últimos anos, muito mudou e eu fui quem mudou mais. Os meus sonhos, os meus objectivos, as minhas certezas em relação à profissão que queria ter...tudo isso se dissipou. Não posso dizer que mudou, simplesmente. Não mudou. Apenas...estalou. Não sei se alguém que está a ler este texto já alguma vez viu a série de televisão "How I Met Your Mother", mas há um episódio em particular que eu uso muito para tentar explicar isto às pessoas. Há um episódio em que o som de um espelho a partir-se quando eles apontam os defeitos irritantes uns dos outros, passa muitas vezes porque as ilusões deles são estilhaçadas. Aquilo que eles nunca se tinham apercebido que o outro personagem fazia, como por exemplo mastigar muito alto ou estar sempre a corrigir a gramática das pessoas, é-lhes apontado e as ilusões deles estilhaçam.

A minha passagem por Inglaterra e esta minha fase é mais ou menos assim. Eu vim com sonhos, objectivos, expectativas...ilusões. E ao fim de quatro anos, o meu espelho também se estilhaçou e os vidros estão a ser varridos neste preciso momento. Acho que é completamente normal eu sentir-me assim, daí não estar muito preocupada de momento. Não sei o que quero fazer daqui para a frente, o que quero ser, onde quero estar mas sei o que não quero fazer, o que não quero ser e onde não quero estar. Não quero continuar a viver aqui. Não quero mais viver em Inglaterra.

E é assim que se começa. É assim que se começa um novo capitulo. Tenho muitos sítios para onde posso ir, mas a verdade é que só há um para onde quero ir. Quero ir para casa. Quero voltar para Portugal. Não sei se definitivamente ou só até voltar a encontrar o meu rumo. Mas não consigo mais viver aqui. Não consigo mais partilhar casa com as pessoas com quem partilho. Foram a minha família durante quatro anos, mas também elas mudaram. Não quero continuar a sentir que estou alienada de tudo e de todos. Que sou uma má filha, uma má neta, uma má amiga. Nunca pensei que a culpa me fosse pesar tanto ao fim deste tempo todo, mas pesa. E no domingo, quando uma de nós cá em casa recebeu a notícia que um dos familiares dela tinha falecido nessa manhã, eu soube que não há volta a dar nesta minha decisão de partir.

Como disse, nunca pensei que a culpa me viesse a pesar tanto. Mas pesa. Tudo o que perdi nestes anos, preciso de compensar. Preciso de voltar, por seis meses, um ano, dois anos, o tempo que for preciso para poder dar aquilo que não dei por estar a fazer algo por mim e para mim. Vim para Londres porque era um sonho estudar fora. Formei-me, com boas notas, apesar de todos os contratempos, todas as dificuldades, todas as lágrimas e desgostos. Sinto que já não há nada para mim aqui. E toda a gente me diz que em Portugal, nada há para mim. Porque é que havia de me ir embora? Tenho um emprego estável, recebo mais do que os meus dois pais juntos recebem em Portugal, tenho uma boa casa e pago uma ninharia de renda por ela. Tenho bons amigos. Mas falta-me algo. Não estou infeliz, mas também não estou feliz. E para mim isso é assustador. Pode não haver um emprego para mim em Portugal, mas tenho outras coisas que se calhar neste momento me estão a fazer mais falta. Estou cansada de só ver a minha família duas vezes por ano. Cansada de ver a minha irmã crescer através de um ecrã de computador ou telemóvel. Cansada de adormecer a pensar que se acontece alguma coisa e eu não estou lá... Estou cansada. Preciso de descansar, essencialmente. Em quatro anos não parei. Férias não me sabem a férias. Os dias de folga não sabem a dias de folga. Nas festas não me apetece festejar. 

A decisão está tomada. O regresso a Portugal é certo. Precisamos apenas de todas conversar sobre os nossos futuros e de, no inicio do ano, fazer a renovação do contracto da casa apenas por seis meses. Vai-me custar muito...tanto. Voltar a viver com os meus pais, voltar a depender deles. Vai caraças. Vai-me cortar o orgulho aos pedaços. Mas eu preciso de voltar. Não sei para fazer o quê, nem durante quanto tempo. Posso lá ficar só um mês e depois decidir ir para outro sítio qualquer. Posso ficar cinco anos e depois decidir voltar para Inglaterra (improvável). Mas primeiro e antes de mais nada, preciso de ir. Preciso de voltar ao meu país, preciso de voltar a conectar com a minha família. Preciso de ser a filha e a irmã que eles merecem. E preciso de voltar a ser a Alexandra que eu mereço.

Vou voltar.

29
Ago18

Um pequeno update...


alex

Por aqui, o Verão chegou ao fim. As temperaturas já não passam dos 20 graus de máxima e o sol já não sai para brincar há semanas. Tivemos um dos Verões mais quentes que este país já viu e acho que já não sabia o que era ter mais do que duas semanas seguidas de sol e bom tempo, desde que me mudei para cá. Foi bom enquanto durou mas, não sei se é porque o país me habituou ao seu estado cinzento, frio e chuvoso habitual, ou se fui perdendo a capacidade de suportar temperaturas superiores a 25 graus, estou entusiasmada para a estação do frio (que por norma aqui dura 11 meses dos 12 que o ano tem). Ficar em casa quando chove, enrolada numa mantinha a bebericar uma chávena de chá...honestamente, estou pronta. Estou pronta para a nova estação. 

Contudo, antes disso, ainda vou de férias durante 10 dias, para um país que visitei há dois anos atrás...Muita gente me pergunta, porquê o mesmo sítio? Porque não outro país, há tantos países bonitos para se visitar e conhecer. É simples.

Porque é que somos capazes de comer o mesmo prato de comida mais do que uma vez? Ou de ver o mesmo filme mais do que uma vez? Ou de ouvir um artista ou um álbum ou uma música mais do que uma vez? Porque gostamos bastante da primeira vez que experimentamos esse prato, ou da primeira vez que vimos o filme, ou da primeira vez que ouvimos aquela música. Eu fiquei fascinada com a Coreia do Sul. E desta vez vou com mais amigas, enquanto que da outra vez fomos só duas. Vão haver outras coisas para fazer, outros sítios para conhecer, outras comidas para comer e outras aventuras para viver.

E no entretanto, os outros países vão continuar disponíveis para eu os visitar no futuro... Quem sabe, até, para mais do que apenas visitar ou passar férias. Agora que sou uma rapariga "livre", sem nada que me prenda aqui em Londres, por assim dizer, posso decidir o que quiser para o meu futuro... e as opções são imensas. Mais sobre isso noutro post, mas por agora, é isto. Vou de férias para a semana e vou tentar ao máximo aproveitar. Depois disso vamos ter mais um concerto, este ano já vai ser o terceiro. Em Novembro vou a casa uma semana matar saudades, visto que este ano é me impossível visitar na altura do Natal. Vou finalmente cortar o cabelo, coisa que já não faço desde Outubro de 2017, devido a uma aposta que fiz com um amigo. Sim, vou ganhar. Sim, é uma coisa parva mas é algo que precisava de fazer. Já não tinha o cabelo deste comprimento desde os meus 16 ou 17 anos. E a mudança vai ser radical. Mas também ela é algo que preciso de fazer. Depois, mais um concerto em Novembro. E depois disso vem o Natal... e o fim do ano depois disso. A ideia de este ano acabar assusta-me imensamente. Não quero que acabe. Porque 2019 vai ser o ano das decisões difíceis e das mudanças drásticas. Talvez até do fim de um dos maiores capítulos da minha vida e, atrevo-me até a dizer, o capítulo que mais me moldou na pessoa que sou hoje. Gostava de poder aproveitar mais este ano, mas parece que me está a fugir por entre os dedos e todos os bons momentos, que já foram muitos, passaram a correr. Gostava de poder premir pausa em 2018 porque tenho a impressão que não vou ter um ano como este durante muito tempo. Mas a Vida não é assim que funciona. A única coisa a fazer é aproveitar o resto do que ainda está para vir e tentar preparar-me para o próximo capítulo, muito devagarinho, lentamente porque as coisas também não acontecem do dia para a noite.

Tudo a seu tempo... Por agora, vamos de férias!

16
Ago18

Nunca deixa de ser difícil...


alex

Nunca deixa de ser difícil. A distância, a saudade, a dúvida, as preocupações com quem não está por perto...nunca fica fácil. Há quem diga que com o passar dos anos vai ficando mais fácil, esta coisa da distância, mas não. Não fica mais fácil, nós é que vamos aprendendo a viver com ela e com tudo aquilo que ela traz.

Este ano tem sido o melhor ano da minha vida, não me consigo fartar de o mencionar. Mas às vezes gostava de poder partilhar mais a minha felicidade com os meus. E gostava que também eles estivessem bem, felizes. Mas a vida não funciona assim. E às vezes, confesso, sinto-me mal. Sinto-me mal por estar longe e não poder fazer nada pelos meus. Não posso pegar no carro e ir levar a minha avó a passear, que mal sai de casa. Não posso ir almoçar com os meus avós ou ajudá-los a ir às compras, porque eles sozinhos já mal conseguem carregar um saco cada. Não posso estar ao lado da minha irmã a ensinar-lhe certas coisas ou a ter certas conversas com ela. Não posso pegar em mim e bater à porta de um amigo ou de uma amiga e simplesmente irmos tomar um café, ou apanhar ar ou o que seja.

Não posso consolar os meus. Não posso curar os meus. Não posso fazer nada estando longe, por muito que tente estar perto através de chamadas de vídeo, mensagens, fotos, etc. E os momentos em que a culpa me assoma e me tira o ar são vários. Sinto-me culpada, egoísta. Em contraste aquilo que possa ter escrito no texto anterior... estar longe dos nossos não significa que os amemos menos mas significa que não há tanto que possamos fazer por eles. E claro, isso doí. Especialmente quando nós estamos bem, felizes e do outro lado do mapa sabemos que os nossos não estão igualmente felizes ou igualmente bem e que nós pouco ou nada podemos fazer para alterar isso. Faz parte, é verdade. Mas não significa que não seja difícil.

Nunca deixa de ser difícil...

18
Jul18

Mais e melhor


alex

Uma das coisas que prometi a mim mesma fazer este ano foi tentar mudar a minha forma de pensar e olhar para o mundo. Adoptar uma nova perspectiva e tentar trabalhar um dos meus maiores defeitos que é o ser negativa. Não sei de onde veio e como ou onde começou, mas desde que me lembro que sou uma pessoa muito negativa. Sempre a lamentar-me disto e daquilo, a queixar-me da vida que eu própria escolhi, a fazer-me de vítima como se todas as desgraças do mundo me acontecessem só a mim. Talvez porque sempre fui uma criança complexada, uma adolescente com muitos problemas mentais, inevitavelmente deixei-me consumir pelo negativismo. Costumava pensar que era algo que não conseguia mudar em mim, que não era defeito mas sim feitio. E claro que é algo muito difícil de se fazer. Uma pessoa quando está doente fisicamente, há várias coisas que pode fazer para melhorar o seu estado. Mas quando a doença é mental, a coisa é muito mais complicada. É preciso todo um percurso com muitos altos e muitos baixos e temos de estar preparados para haverem pessoas que queiram destruir ou atrasar o nosso progresso.

Até porque é normal as pessoas estranharem. De um momento para o outro, aos olhos delas, passei de Miss Negatividade para Miss Possitividade. Mas claro, as pessoas só vêm aquilo que querem ver. É como o teatro: o publico só vê o resultado final e julga todo um projecto que demorou imenso tempo a ser montado e trabalhado, baseado apenas no produto final. Houve muitos ensaios, muitas reuniões, muitas lágrimas e dores, muitas corridas pelos bastidores no dia de abertura para tentar que tudo estivesse a postos para a abertura da cortina. E é claro não podemos culpar o público por isso, pois eles vão ao teatro é para ver o produto final. No meu caso, se não conviveram comigo, diariamente, ao longo do último ano e meio, é muito difícil para a pessoa perceber como e o porquê da minha mudança, e a mesma aparenta repentina para essas pessoas.

A verdade é que não foi nada repentino e ainda é algo no qual estou a trabalhar e a aperfeiçoar. Como ser humano que sou, tenho os meus momentos de fraqueza. Vou-me abaixo e os pensamentos negativos assomem-me de repente. Às vezes fico assustada com o que vai dentro da minha própria cabeça. Mas é todo um processo, como já disse. E não é nada fácil, mudar a nossa forma de pensar, de mudar a nossa perspectiva. Não é fácil ser-se feliz e é isso que tenho aprendido nos últimos tempos. Que a felicidade não é algo que nos cai no colo. Todos nós perseguimos este conceito vazio de felicidade, no entanto, andamos sempre descontentes com tudo. Pelo menos eu era assim que andava. Quero ser feliz, quero ser feliz, contudo não fazia nada por isso. Queixava-me disto e daquilo, daquele e daquela, mandava o mundo às espigas e amaldiçoava quem me amaldiçoava a mim. E este ano tenho vindo a descobrir que não é fácil ser-se feliz, mas que é muito menos complicado do que aquilo que eu pensava. Basta começar com pequenas coisas como encarar as pequenas coisas da vida com um sorriso na cara em vez de um franzir de testa.

Por exemplo, acontece-me algumas vezes perder o autocarro para o trabalho de manhã. Ás vezes, estou a sair de casa, que fica a dois minutos da minha paragem, e vejo não um, mas dois autocarros a passar de seguida. Isso deixava-me completamente frustrada. Meu deus, amaldiçoava o mundo por ser tão cruel. Porquê eu? Agora, quando me acontece, encolho os ombros e penso: mais tempo para ouvir a minha música. 

Ou por exemplo, no outro dia, por acaso sexta-feira 13, estava a trabalhar até às 20h30 e por volta das 19h, ouve-se um estrondo enorme. Dois segundos depois vejo malta a correr para dentro do centro comercial toda encharcada. Estava a cair uma carga de água como já há muito não caia. Mas o calor e a humidade continuavam. Bom, a chuva não parou de cair durante mais de uma hora e quando chegou a hora de sairmos da loja, continuava a chover de uma maneira que eu juro nunca ter visto antes. Tínhamos apenas um chapéu de chuva pequenino, que partilhámos as duas até à paragem de autocarro. Depois, tivemos de decidir quem levava o chapéu para casa. Ora eu disse à minha colega para ela ficar com ele, visto que a minha casa é literalmente a dois minutos da paragem de autocarro onde eu saio. Ela protestou mas no fim, lá levou. A chuva abrandou bastante enquanto estávamos debaixo da paragem de autocarro e quando o mesmo chegou, dava sinais de parar por completo. Contudo, assim que me comecei a aproximar da minha paragem, a intensidade com que a chuva caia voltou a aumentar e eu, sem casaco, sem chapéu de chuva, de t-shirt e jeans, apanhei a maior molha da minha vida. Se isto tivesse sido à uns meses atrás? Meu deus! Tinha chegado a casa a chorar baba e ranho, a perguntar-me porquê eu, porque é que isto só me acontece a mim, agora vou ficar doente, e isto e aquilo e....ARGH! Só de descrever esta pessoa está-me a enervar! Cheguei a casa encharcada da cabeça aos pés. E ri-me. Desatei a rir-me porque qual é o objectivo de ficar chateada com coisas deste género? Para quê ficar irritada ou enervada? Foi inconveniente? Claro que sim, ninguém gosta de ficar encharcada ao ponto de poder apanhar uma pneumonia (penso eu). Mas em vez de ficar chateada com o Universo por me mandar esta carga de água logo quando eu tinha de vir para casa, olhei-me ao espelho e ri-me porque parecia um panda autêntico com rímel a escorrer-me pela cara abaixo. 

Comecei com pequenas coisas. Comecei por não me deixar convencer que o Universo me odeia e faz tudo para me lixar a vida. Tento ver o outro lado da moeda. Eu estava tão presa e fechada dentro de mim mesma que me recusava a ver o outro lado das coisas. Claro que ainda fico chateada e aborrecida se alguma coisa corre mal ou não de acordo com aquilo que tinha pensado ao início. Mas se é algo que não consigo controlar, depressa mudo o meu pensamento. Se é algo que foi o um erro da minha parte, não me martirizo como martirizava antes. Procuro aprender através desse erro e tento não repeti-lo. Quase tudo na vida é corrigível. Quase. Mas tentar mudar uma grande parte de nós não é nada fácil. Especialmente se estamos rodeados de pessoas que são negativas e que tentam destruir o progresso que já fizemos.

E para mim, esse tem sido o maior desafio. Continuar na minha, tentar ser uma pessoa melhor e mais positiva quando vivo rodeada de negativismo e pessoas que me questionam a toda a hora. Dizem-me vezes e vezes sem conta:

"Ai Alexandra, pareces o Buddha, até enervas."

"Mas estás feliz? Tens de estar nesta loja cinco dias por semana, oito horas por dia e estás feliz?"

"Porque é que estás tão sorridente? Ai dá-me o que andas a tomar porque também quero!"

Eu também me irritava as pessoas que pareciam andar sempre contentes e de bem com a vida. Pensava, caraças, como é que é possível? Têm montes de dinheiro, só pode. Não tem preocupações na vida, com certeza. Não têm dificuldades! Eu era essa pessoa, portanto eu até posso perceber de onde é que estas pessoas e os seus comentários estão a vir. Mas eu acho que comecei a perceber algo que estas pessoas ainda não perceberam.

A vida é muito mais fácil se não a levarmos tão a sério. A sério! E isto é muito cliché de se dizer, mas é a verdade. O peso que eu antes sentia nos meus ombros? Fui eu que o pus lá. O buraco onde me enfiei? Fui eu que o cavei. A felicidade que não conseguia sentir? Era eu que estava a dificultar a minha própria vida. Claro que não ando sempre feliz, ou a sorrir, ou com energia ou com vontade de fazer coisas. Mas ando a esforçar-me para ser uma pessoa melhor para mim própria. Ando a trabalhar para atenuar os meus demónios, uma vez que sei que nunca me vou conseguir ver livre deles por completo. Eu sou abençoada. Tenho problemas como todos os outros, mas sou abençoada. Tenho um trabalho que me permite ter uma vida semi-confortável, tenho uma família que me apoia incondicionalmente e tenho amigos do meu lado que me fazem sorrir. Não tenho um carro, ou dez mil libras na minha conta, não estou apaixonada por alguém ou numa relação amorosa, não tenho a minha família perto de mim e às vezes não tenho vontade de ir trabalhar. Eu ria-me quando me diziam isto mas caraças, é verdade... é tudo uma questão de perspectiva. E aos poucos eu vou mudando a minha.

Quero ser melhor, quero ser feliz. Mas aprendi que isso tudo começa em mim e acaba em mim. E como já disse, é difícil, muito difícil mesmo, especialmente quando tens pessoas que duvidam de ti diariamente e que são completamente o oposto daquilo que tu estás a tentar ser. Mas vale a pena. Porque a pessoa que sou hoje é muito mais feliz que a pessoa que eu era à um ano atrás, sem dúvida.

E espero que a pessoa que vou ser daqui a um ano seja ainda mais; melhor.

 

28
Jun18

Fora da caixa


alex

Eu percebo. Percebo o porquê de as pessoas à minha volta não perceberem. Já levei tanto na cabeça nestes últimos meses que se não percebesse, era um bocado crítico. Tão crítico quanto as pessoas, depois de eu já lhes ter explicado tantas vezes o porquê, ainda não perceberem. 

Ora se eu as percebo a elas, porque é que elas não me percebem a mim?

Não vou à minha cerimónia de graduação. Ou como diríamos aí em Portugal, Queima das Fitas. Aqui a coisa é simplesmente uma versão barata das cerimónias que se fazem nos Estados Unidos quando a malta acaba os cursos, com as capas e os chapéus que toda a gente atira ao ar para a bonita da fotografia. A minha é já daqui a 2 semanas e eu não vou lá estar. Não devia ter de me justificar a ninguém a não ser à minha família e amigos próximos. Mas toda a gente pede justificações da minha pessoa. E eu vivo frustrada com isto. Porque eu apresento as minhas razões e é a mesma coisa como se tivesse ficado calada. Eu sou uma mulher crescidinha. Ainda com muito para crescer, mas já tomo as minhas decisões, sozinha, há quatro anos. Não foi uma decisão que tomei de um dia para o outro. Passei meses a ponderar, a dizer a mim mesma que ia e a dizer depois que não ia. A ouvir a opinião deste, a opinião daquele. Depois de já me ter convencido a ir, contra vontade sou sincera, por acasos da vida, os meus pais viram-se na impossibilidade de virem até cá e estarem presentes nesse dia que todos juram a pés juntos ser o dia mais importante das nossas vidas. E voltei à estaca zero. Mais uns dias de vou, não vou. Quero, não quero...

Hoje não perco mais sono por causa disso. A decisão está tomada e já não há volta atrás. O prazo para reservar o meu lugar na cerimónia já passou e eu não o reservei. Eu estou de consciência tranquila quanto à minha escolha. Os outros é que parece que não. E eu, que digo e volto a dizer que o que os outros dizem não interessa e não nos deve pesar nos ombros, sou atraiçoada pelas minhas próprias palavras quando me vejo numa discussão bem acessa em pleno local de trabalho, com uma colega minha, sobre este mesmo assunto. Ai já importa. Quando alguém, de quem nem sou assim tão próxima, se acha no direito de me questionar, a mim e às minhas escolhas da forma como ela questionou, já importa o que os outros dizem.

Eu não vou por várias razões. Uma delas, e das grandes, é que não vejo sentido em ir se não posso partilhar esse dia com as pessoas que mais amo neste mundo, as pessoas que sempre me apoiaram. "Mas é por elas que devias ir na mesma". Não. Era por elas que ia; é por mim que não vou. Fotografias para mim são só recibos e esses, eu deito fora assim que saio das lojas. "Vais-te arrepender, daqui a dez anos quando quiseres ver fotos tuas com a tua capa e o teu chapéu e não as tiveres." Só quem me conhece mal é que diz isto e usa este argumento contra mim. Claro que é giro olhar para fotografias do passado e recordar. Só que eu não o faço. Juro que não tenho essa necessidade, mas compreendo quem a tenha. "Mas é o dia mais importante da tua vida, andaste três anos a estudar para poderes celebrar neste dia!" No meu caso, não há nada para celebrar e essa, é outra das grandes razões pela qual a decisão final foi a de não ir. 

Eu não trago nada deste curso. Nadinha de nada. Não trago boas memórias, não trago bons amigos, não trago bons professores, não trago lições de vida. Nada. Sabem o que eu tenho destes três anos? Lágrimas, dor, frustração, dissabores. O tempo que eu passei naquela Universidade, ao todo, deve equivaler a apenas um ano completo. Foram mais os dias em que não pus lá os pés do que os em que me decidi a aparecer. Nem sei como é que me deixaram terminar o curso, para ser sincera. E não sei como raios consegui ter as boas notas que tive. Só eu é que sei. O quanto esta experiência universitária para mim valeu. Valeu nada, zero malta. Desculpem se vos desiludi e se não me encaixo na grande maioria que adorou a sua experiência universitária. Mas ao mesmo tempo, e com todo o respeito, eu não me podia estar mais a cagar. Porque maltinha, nós somos todos diferentes uns dos outros. E eu mudei muito, mas mesmo muito ao longo destes três anos. Eu não sou a miúda iludida que era quando tudo isto começou. Sou gozada por estar sempre a dizer isto, mas é a verdade. Eu não fui estudante. Eu fui trabalhadora que de vez em quando se lembrava de brincar às escolas. Sofri muito malta. E esse sofrimento é só meu. Como já referi noutro texto, este curso destruiu-me, a mim, à minha auto-estima e à minha arte. Pouco ou nada resta da miúda que queria ser escritora ou jornalista. A vida é mesmo assim e esta minha geração é a pior delas. Porque somos dados tantas possibilidades de fazermos e de sermos tanta coisa, e ao mesmo tempo somos ensinados desde miúdos que só podemos ser uma coisa, fazer uma coisa, sonhar uma coisa, que vivemos presos entre o dever e a obrigação. E o querer fica perdido. A vontade também. 

Vou para ali, gastar 100 libras em fatos e chapéus que vou usar durante 2 horas, receber um papel em branco (o diploma só o mandam para a nossa casa lá para meados de Setembro), rodeada de estranhos com quem não me identifico nem nunca me identifiquei, para quê exactamente? Para ter umas quantas fotografias para mostrar à malta do Facebook? Para poder postar no Instagram com uma caption toda lamechas? Meu deus. Só quem não me conhece mesmo usaria estes argumentos de merda para me convencer. Não há nada para celebrar. Vou celebrar, sim. Com os meus. Vou comer fora, vou beber, vou dançar, vou ser feliz perto de quem me interessa. 

Não tomei esta decisão para ser "hipster", para ser diferente dos outros, para ser do contra, para fazer alguém infeliz. Não. Eu tomei esta decisão com base na minha experiência e tendo em conta quais as minhas prioridades na vida, neste momento. Se calhar, à três anos atrás a minha prioridade era subir aquele palco, apertar a mão do Director e sorrir para a foto. Mas eu passei por tanto, eu cresci e mudei tanto, que as minhas prioridades mudaram. Os meus objectivos mudaram e os meus sonhos também. A vida é bonita é por isso mesmo, porque há sempre mudança, por muito subtil ou não que ela seja, ela está lá. 

Vou fazer o que raios eu bem quiser porque esta é a minha vida. Não é a tua, ou da Maria ou do Zé. A Maria e o Zé foram felizes na sua universidade e a cerimónia de graduação foi o dia mais importante da vida deles. O dia mais importante da minha vida já foi. Já tive tantos dias importantes na minha vida. O dia mais importante da minha vida ainda está para acontecer. E já houve muitos outros dias importantes na minha vida aos quais faltei. E sabem que mais?

Estou aqui. Estou viva. Estou finalmente feliz e em paz comigo. Não me fodam o juízo malta. Deixem-me estar. Eu estou tão feliz por me ter livrado destes últimos três anos. Tão aliviada. Mas eu não quero prolonga-los. Quero encerrar este capítulo da minha vida e começar a preparar-me para o próximo, seja ele qual for. Fiquem antes felizes por eu estar feliz. Não se preocupem se eu não vou ter fotos para as quais olhar daqui a dez, vinte, trinta anos. Não se preocupem se eu acordar um dia a chorar que nem uma Maria Madalena arrependida porque não fui à merda da cerimónia. 

Porque eu só estou preocupada se daqui a dez anos vou estar a sorrir como estou agora. Se vou ter as pessoas que amo e que tenho agora. Se vou ter rugas, as rugas preocupam-me imenso malta, não têm ideia... Então não me façam ter rugas antes dos vinte e cinco se faz favor. 

Eu estou de bem com a vida como já não estava à muito tempo. Para todos aqueles que me têm tentado estragar isso, vocês são uns tristes e dispenso a vossa preocupação, obrigada. Opinião, todos temos direito a tê-la, agora quando ultrapassam os limites e tentam forçar uma pessoa a fazer ou a ser algo que ela não quer, isso já não é ter uma opinião. Isso é como pôr a pessoa dentro de uma caixa e não deixa-la sair.

Eu estive dentro dessa caixa durante muito tempo. Agora estou fora dela. E assim pretendo permanecer. 

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