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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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Something New

10
Jun14

Idiota

alex

"-Um dia, hei de estar ali. - Diz ela, apontado para o céu escuro, iluminado apenas por uma mão cheia de estrelas. É nestas alturas que desejava poder estar na sua terra, onde as estrelas no céu são tantas, que uma pessoa quase tem de usar óculos de sol só para as poder contemplar.

-Não me digas que também és daquelas pessoas que acredita que quando morrer, vai para o céu? - A voz dele saiu de forma brincalhona, o seu sorriso matreiro a acompanhá-la.

-Não é nada disso seu idiota! Ali. Um dia vou estar ali. - Diz, apontado de novo para o céu. Desta vez, o olhar dele segue o dedo dela e os seus olhos vêm para onde ela está a apontar. Um avião.

-Se quiseres, posso-te pôr num já agora. Talvez te mande para a Sibéria...ou talvez para o Pólo Norte, visto que és tão adepta de sítios frios. - Ela olha para ele, tentando conter uma gargalhada ao ver a sua expressão de menino matreiro. Idiota.

-Estou a falar a sério. Não tarde nada, estarei ali sentada, num avião, a deixar isto tudo para trás. A ti incluído.

Ele perde o sorriso nos lábios e ela olha para ele, esperando que ele diga algo. Qualquer coisa. O silêncio não era confortável e ela só queria quebrá-lo. Mas esse era o trabalho dele. Por fim, e mesmo antes de ela desviar o seu olhar do dele e se deitar na relva fria do parque, ele quebra esse silêncio.

-Talvez não. Talvez tenhas de deixar tudo isto para trás, menos a mim. Quem sabe...

-Eu sei. Não vou deixar que largues tudo para vir atrás de mim. És um idiota, mas não és burro. Não farias isso quando tens uma vida perfeitamente boa aqui.

Ele imita-a, e deita-se na relva ao lado dela, os seus braços roçando um no outro. Ele pousa as mãos em cima do seu estômago e as dela estão colocadas no chão, uma mão de cada lado, como se precisasse de sentir o chão nas suas mãos, de forma a garantir que este não a ia engolir a qualquer instante.

-Ela é boa, mas só é perfeitamente boa porque tu fazes parte dela. - Um sorriso surge nos lábios finos dela e antes de se poder conter, não consegue impedir o comentário trocista que lhe escapa dos lábios.

-O que é que tu vais fazer sem mim meu idiota? A tua vida não faz sentido! Coitadinho! - Não tentou disfarçar a ironia com que proferia estas palavras.

-Pois não. - Ele não conseguiu disfarçar a seriedade com que proferiu as suas.

-És um lamechas. Sabes que eu não gosto de lamechices... Vai acontecer. Um dia vou estar ali num avião daqueles; talvez até mesmo naquele. E tu não vais lá estar a meu lado, como agora. É melhor aceitares isso já, senão depois será mais difícil.

Ele suspirou e não lhe respondeu. O silêncio voltou a instalar-se entre eles, mas desta vez, ela não queria que ele o quebrasse, porque sabia que se o fizesse, não iria ser só difícil para ele...mas também para ela.

-Eu amo-te, por isso, há-de ser sempre díficil. Seja hoje, amanhã ou só para o ano...nunca vai ser fácil. Por isso, deixa-me estar. Deixa-me estar convencido de que vou contigo. Ou de que tu ficas comigo. 

-Nenhum dos dois vai acontecer.

-Eu sei. Mas por agora deixa-me acreditar que sim, pode ser?

Agora é a vez dela suspirar e sem pensar nisso, a sua mão direita estende-se e alcança a mão dele, entrelaçando-a na sua. 

-Está bem. Mas só porque também te amo. Só por isso.

Ela olha para ele e vê o sorriso matreiro dele surgir de novo no seu rosto, que contempla o céu pouco estrelado, já sem rastos do avião que deu origem à conversa.

-E agora, quem é a lamechas? - Ele ri-se e ela, com a mão que não está entrelaçada na dele, dá-lhe um pequeno murro no ombro.

-Idiota... "

29
Mai14

Normal

alex

Se há algo que ela sempre odiou, foi o facto de o seu corpo tomar controlo dela, mais vezes do que aquelas que ela gostaria. A forma desesperante como pedia, olhando para o tecto do seu quarto, que o aperto no seu peito desaparecesse, que as palmas das suas mãos deixassem de suar, que o seu estômago deixasse de agir como se uma tempestade habitasse dentro dele.

Quantas não foram as vezes em que desejou poder controlar as lágrimas, ou fazer com o que o seu coração parasse de bater a mil.

Quantas vezes não desejou ela poder não ficar assim, desta forma, por coisas que aos olhos de uma outra pessoa, seriam pequenas e insignificantes? 

Foram tantas as vezes em que ela pediu para ser normal. 

E de todas as vezes em que pediu, o seu pedido foi ignorado. Até ao dia em que ela deixou de pedir e conformou-se. Habituou-se.

Habituou-se a ser assim. Aceitou-o como sendo uma parte dela; uma parte tão grande dela que jamais poderia ser apagada.

E então, de vez em quando, mais frequentemente do que ela deixa transparecer ou gostava que fosse, o aperto no peito torna-se insuportável, o bater do coração tão rápido que toda a gente o conseguirira ouvir, se prestassem atenção. Entrelaça as mãos uma na outra e finca as suas unhas nas palmas, deixando-lhes marcas em forma de meia lua. Sorri e finge que está tudo bem, quando se encontra acompanhada.

Chora e deixa cair a máscara quando está sozinha.

Ela só gostava de ser normal. De não se sentir assim de cada vez que algo não corre como planeado, de cada vez que pensa no dia de amanhã, de cada vez que, simplesmente, acorda. Gostava de não se sentir presa a estas correntes, que lhe pesam mais do que o que as pessoas possam pensar.

Quantas não foram as vezes em que ela, com lágrimas nos olhos, não olhou para o céu e pediu: "Faz de mim alguém normal."

E quantas não foram as vezes em que a resposta que ouviu foi o silêncio?

E assim, o silêncio tornou-se no seu maior e melhor aliado. Perdida nele, ela nunca foi normal, como sempre quis.

Mas continuou a viver, com o silêncio como seu melhor companheiro.

26
Mai14

Como as flores

alex

Chega a uma altura em que fonte seca. Em que perdemos a vontade de chorar todas as noites, sozinhos no conforto dos nosso lençóis, sempre pela mesma razão. Chega a uma altura em que nos cansamos.

Ficamos cansados de amar alguém tão verdadeira e fortemente como amamos aquele por quem choramos.

Mas não choramos para sempre. A fonte seca.

Podemos não deixar de o amar, mas deixamos de passar noites em branco, com as lágrimas do desgosto a marcarem a fronha da almofada, por causa dele.

Porque o amor é como uma flor: sempre bonita se regada, morta se deixada à sede.

Porque uma pessoa cansa-se; não de amar, mas de sofrer por amor.

 

 

Uma prenda de aniversário atrasada, mas bem bonita...um vaso das minhas flores favoritas. Estas, eu não vou deixar morrer à sede...

04
Mar14

Just us

alex

Quando atendeu o telefone apercebeu-se de imediato que do outro lado da linha, ela chorava.

"O que se passa? Estás bem, aconteceu alguma coisa?"

Ela soluçou e respirou fundo, tentando acalmar-se. Era tão difícil.

"Não aconteceu nada... Estava só a pensar. E tu sabes o que me acontece quando eu penso."

Ele sorriu. Sabia perfeitamente.

"No que estavas a pensar?"

"Em mim, em ti, em nós... Se o que estamos a fazer é o correcto." 

Ela sentiu mais lágrimas assomarem-lhe aos olhos. Não conseguia controlar-se.

"Não chores... Tem calma. Respira fundo. Vamos contar de 20 para trás, como costumamos fazer sim?"

Ela abanou a cabeça, embora ele não a conseguisse ver.

"20..."

"19..." - disse ela baixinho, mas alto o suficiente para ele a ouvir.

"18..."

 

....

 

"0" - disseram os dois ao mesmo tempo.

O coração dela já não batia tão descompassadamente, as lágrimas tinham deixado de lhe desfocar a visão, o seu peito já não doía com tanta intensidade.

"Vês? Conseguiste. Consegues sempre. Agora, respondendo à tua pergunta... É o correto sim. É a única maneira que temos de fazer as coisas."

"E se não for? E se houver outra maneira?"

"Tu foste a primeira a dizer que não havia." Ele começou a ficar preocupado. Agora era o coração dele que batia mais depressa.

"Eu sei... Mas disseram-me que há sempre outra maneira. Há?"

"Quem te disse isso?"

"Não importa... Mas achas que há?"

Fez-se silêncio. Durante uns minutos ficaram assim, petrificados, ambos envolvidos pela escuridão dos seus quartos. A noite já ia longa. Estavam ambos cansados. Mas ficaram assim, em silêncio, durante um bom bocado.

"Para mim não há. E para ti?"

Ela pensou antes de responder. Selou os lábios com força e puxou as cobertas mais para cima quando sentiu um arrepio repentino percorrer-lhe a espinha. Ela sabia a resposta.

"Não. Mas os outros dizem que sim."

"O que importa os outros? Desde quando te importas com aquilo que os outros dizem?

"Não são uns outros quaisquer..."

"Que importa? Até podia ser o Papa. Os outros não são nós. Não sabem. Nós podemos contar-lhes, tentar explicar-lhes, tentar fazê-los perceber. Mas eles nunca vão conseguir. Sabes porquê? Porque os outros não são nós."

Ela suspirou. Limpou a cara húmida com a ponta do seu lençol. Que se lixe.

"Eu sei. Tens razão. Ficas comigo até eu adormecer?"

"Ok"

Ela sorriu. 

"Ok."

Fechou os olhos e deixou-se envolver pelos seus sonhos. Ao longe conseguia ouvir a respiração do seu amigo. Conseguia ouvir o barulho de fundo da sua televisão. Estava a ver "Friends". Imaginou-se deitada ao lado dele, com a cabeça deitada no seu peito. Riam-se com as parvoíces que a Phoebe dizia e com as piadas sarcásticas do Chandler. Riam-se e eram eles.

Só eles e mais ninguém.

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