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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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Something New

24
Mar20

Ninguém (me) bate palmas

alex

A Amália Rodrigues diz que vivia das palmas. Só se sentia viva quando as ouvia, quando fechava os olhos e as sentia. O bater das palmas, o reconhecimento do talento, do trabalho de alguém. A necessidade que tinha em sentir que era apreciada.

Conheço esse sentimento. 

Ao inicio, tenho sempre imenso medo de pisar o palco. Fico nos bastidores, a observar, a tentar que as sombras me engulam de certa forma, a passar despercebida. Mas depois, os meus olhos caem sobre a audiência. Uma audiência que me parece interessante. Que talvez mereça conhecer-me. Conhecer a minha história. Então encho o peito de ar. Ponho um pé em frente ao outro e subo as escadas que dão para o palco. Tento não tropeçar e fazer figuras tristes. Chego ao palco. Liberto o ar preso nos meus pulmões.

As mãos tremem-me e a visão desfoca. Sinto um nó no estômago e um formigueiro nos lábios que me impedem de falar primeiro. Alguém na audiência sussurra algo. Eu oiço. Sou boa ouvinte, melhor ouvinte que falante. Ao inicio, sempre desconfiada, falo pouco. A audiência tem de puxar por mim e aos poucos, há medida que o tempo vai passando, vou relaxando. O palco começa a tornar-se num sítio confortável para estar. As luzes dos holofotes deixam de ser intimidantes e passam a ser convidativas, o calor que emanam aquecendo-me enquanto me vou deslocando pelo palco. Enquanto recito o meu texto. Enquanto dou a conhecer de mim à minha audiência. 

O espetáculo vai-se desenrolando e eu, cada vez mais solta, cada vez mais confortável, dou tudo de mim. A audiência ganhou a minha confiança e uma vez essa ganha, eu dou-me sem medos. Sem restrições. Já nem recito o texto, já improviso e tudo. Entre improvisos, risos, histórias, segredos e traumas, eu vou-me soltando cada vez mais e a audiência parece que se recolhe. Ou melhor, a audiência não me acompanha. Não dá mais do que aquilo que dava ao início. Para além disso, continua a pedir mais. Sempre mais. Dá pouco em retorno. Ao fim de uns bons meses de espetáculo, sempre em cima daquele palco, sempre com a mesma postura, sempre com a certeza de que estou a mostrar quem eu sou, como sou, a 100%...começo a perder alento. O que é um artista que não recebe palmas? Que não consegue conhecer a sua audiência?

Por várias vezes me sento à beira do palco, os meus pés longe de tocarem o chão onde a audiência se senta. Mas sento-me perto, para tentar chegar à minha audiência. Para sentir o calor dela, e não só o dos holofotes. Mas há muitas cadeiras vazias. Faltam as histórias que ficam por contar, os desabafos que não se dizem, os sentimentos que não se expressam. Levanto-me e volto para o centro do palco. Apercebo-me de que estou exausta. Exausta de estar em cima de um palco, onde ao inicio nem sequer queria estar. Mas aprendi a gostar. Contudo, gostar só não chega. Estar em cima do palco, com os holofotes virados para mim e eu a dar, a dar e a dar. E receber? Recebo pouco.

Ninguém me bate palmas. E finalmente percebo. A vida, as relações, não são como peças de teatro. Não posso estar em cima do palco sozinha, com uma audiência que não me dá nada. Faz-me andar em bicos dos pés, rever o meu texto, parar de improvisar e começar a pensar muito. Demais. Na arte, não se pensa, sente-se. Nas relações é igual. Chega. Não quero mais armar espetáculo.

Apagam-se os holofotes e o silêncio instaura-se. As mãos não me tremem como no início e o nó desenlaçou-se. Não tenho ar nos pulmões guardado para expelir. Limpo o suor da cara, mas se calhar são lágrimas. Talvez uma mistura de ambos. Bom espetáculo, sussurro para comigo. Mas agora está na hora de ir, de procurar quem te saiba bater palmas. De encontrar quem te encontre a meio caminho e não apenas quem se deixe ficar como audiência. Tempo de encontrar alguém capaz de subir a palco contigo e recitar texto. Improvisar. Ser. 

Viro costas à audiência sem olhar por cima do ombro uma única vez. Desço as escadas do palco que me levam de volta aos bastidores e retorno às sombras do mesmo.

Estou melhor assim. Aqui é certo que ninguém me baterá palmas, verdade, mas ao menos também não espero que alguém o faça.

Se nem Amália conseguia ser feliz sem palmas, quem sou eu para o conseguir?

26
Fev20

As laranjas do chão

alex

Ao virar para entrar na minha rua há umas laranjeiras. O que é estranho, pois vivo numa zona com pouca natureza, onde passam muitos carros a toda a hora, mesmo em frente a uma estrada nacional. Contudo, aquelas laranjeiras lá estão, no seu bocadinho de relva, a dar um pouco de laranja e verde ao cinzento da zona.
Sentada na paragem de autocarro, olhei para as laranjeiras e vi umas quantas caídas no chão, no meio da estrada. E depois lembrei-me em como elas também estavam ali caídas ontem, e antes de ontem e na semana passada até. Aquelas laranjas, meia dúzia, caídas na estrada, por onde passam carros a toda a hora, algumas esmagadas, outras ainda por esmagar. E eu pus-me a pensar...
Eu sou como as laranjas do chão. Uns dias sou como as esmagadas, outros sou como as que ainda estão por esmagar. No entanto, encontro-me caída tal e qual como elas, à beira da estrada, sem poder fazer grande coisa, esperando apenas que não passe um carro hoje e me esmague, o meu sumo espalhado pelo alcatrão, a minha casca aos pedaços, desfeita.
Aquelas laranjas ali caídas assim ficam. Ninguém as vai lá apanhar, ninguém as vai resgatar da sua morte iminente. Se forem como eu, até passam por elas todos os dias e nem se apercebem. Só quando te sentas na paragem de autocarro que está virada exactamente para elas, é que te dás conta.
E depois? E depois já é tarde de mais. És como as laranjas do chão.
Sou como as laranjas do chão.

25
Nov19

Eu não me esqueço das letras

alex

Hoje trago uma música para partilhar com vocês. A Capicua é das poucas artistas portuguesas que eu escuto com atenção e frequência. Porque a sua arte fala comigo de uma forma que muitas outras não conseguem. Sendo eu tão das letras, e as letras tão minhas, tendo eu a relação que tenho com a escrita - extensa, complicada, de uma paixão que por vezes conduz ao ódio e de volta ao amor - não podia deixar de escrever um pouco sobre a música e sobre a frase que despertou em mim muitas emoções. Tristeza, revolta...mas acima de tudo esperança. 

Na escola, nunca gostei de matemática. As línguas e as letras foram sempre o meu refúgio, desde que tenho memória de ser gente. Tanto que, saí do meu país para ir estudar com mais cuidado esse mundo. Outra história essa... Mas a verdade é que, foi também durante essa altura que, não por querer mas por necessidade, me envolvi mais com o mundo dos números. O mundo dos negócios, o mundo do comércio. O mundo do trabalho. E devagar me fui apercebendo de que o mundo, apesar de não controlado por números, gira muito à volta deles.

E eu, de Escrita Criativa e Jornalismo, e eu com a minha colecção sempre crescente de livros a olhar-me de lado, deixei-me afundar nesse mundo dos números. Escrevia relatórios diários, semanais, mensais, onde tinha de justificar número X e número Y. Quantas pessoas gostaram disto, quantas compraram aquilo...Quantidade, quantidade, quantidade.

A qualidade não existe no mundo dos que jogam com números. E o amor à arte também não. Há claro que ser realista, os números precisam de nós tanto como nós precisamos deles. Mas...é um problema (não matemático) quando as coisas nas quais começamos a colocar valores, são aquelas cujo valor deveria ser indeterminável - aliás, não existir. Pior, quando a qualidade é baseada apenas em números, que ao final do dia, se eu fosse a fazer um dos meus relatórios que costumava fazer, não valem nada.

A era das tecnologias, dos Youtubers, dos influencers, dos likes...Tudo é liked. Menos o que não é. E o ser humano, no meio de tanto número, passa a ser tratado como um (número). Mas afinal, que valor tem um milhão de likes contra 100, quando o milhão é vazio de razão, paixão, amor por aquilo que se faz, respeito pelo próximo e tudo o de mais? Afinal, somos nós que atribuímos valor aos números, ou são os números que atribuem valor a nós? Ao que criamos? Ao que dizemos, ao que pensamos, ao que somos?

Somos só números? Hoje em dia eu diria que sim. Mas depois ouço músicas como a da capicua e penso... se é para sermos um número, então vamos ser mais um dos que não se deixam reger por eles. E tal pode soar hipócrita da minha parte, mas se é para ser um número, quero ser dos que não se esquecem das letras. 

Por alguma razão, nunca gostei de matemática.

"É ano após ano e os feitos são inúmeros

E eles esquecem as letras e andam só atrás dos números... Solene como a cada último mergulho

Eu rasguei a dor e o medo como papel de embrulho." - Capicua, 2019

 

26
Out19

Desafio 30 dias de escrita

alex

Foi-me sugerido este desafio pela autora do blog Coisas que eu (não te) disse, e depois de ter ponderado um bocado sobre a possibilidade de o fazer durante os 30 dias, pensei "porque não?". A irregularidade com que posto no blog é grande desde há uns anos para cá, mas desde que regressei a casa que tenho tentado, aos poucos, mudar isso. Porque quero praticar mais a minha escrita, visto que estou à procura de emprego na minha área, e também porque preciso de recuperar a relação boa que tinha com a escrita, antes de tudo.

Como tal, achei este desafio perfeito para dar mais um passo em frente nessa direcção e desafio todos aqueles que também quiserem tomar parte, a fazerem-no. Obviamente que não prometo conseguir cumprir todos os 30 dias, porque me conheço demasiado bem, mas acho que tentar não faz mal nenhum! Obrigada à V de Viver pela sugestão e se não custar muito (não custa!) passem pelo blog dela!

Toca a escrever!

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07
Mai15

Incentivos

alex

"It's hard to wait around for something you know might never happen; but it's even harder to give up when you know it's everything you want"

 

Hoje precisava de um incentivo. Porque tenho dias em que duvido mesmo de tudo isto. Não de algo em específico mas de tudo. Há dias, mais do que os que eu gostaria, em que tenho medo até de abrir os olhos. Por isso andei pela net em busca de incentivos e deparei-me com esta quote.

Para quem não percebe e não se quer dar ao trabalho de ir ao tradutor, a frase é basicamente isto:

"É difícil esperar por algo que não sabemos se vai alguma vez acontecer; mas é ainda mais difícil desistir quando sabemos que isso é tudo o que queremos."

É por isso que apesar de tudo abro os olhos, mesmo que a medo, todos os dias e faço a minha vida. Porque pior que esperar seria eu desistir e depois constatar que se tivesse persistido só mais um bocadinho, tinha conseguido tudo aquilo que mais quero.

Só assim é que consigo travar esta luta comigo própria todos os dias e não perder.

 

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