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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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18
Out17

Ao abandono...

alex

Tenho vergonha de escrever isto. Mas é tão estranho escrever em português. Já não estou habituada. Não me interpretem mal, eu continuo a escrever e a falar em português com frequência. Falo com amigos e família a toda a hora mas é diferente. Articular pensamentos e estruturar textos é completamente diferente de quando estamos simplesmente a falar pelo Facebook com alguém.

Deixei o blogue ao abandono. Tive as minhas razões, como pareço ter sempre. E algumas pessoas perguntam-me porque é que simplesmente não apago este blogue e começo um novo, noutra plataforma, talvez até em inglês. E a minha resposta é muito simples. Seria incapaz de tal coisa. Mesmo que deixe de escrever aqui durante semanas ou meses, é um pedaço de mim, da minha vida, nos últimos cinco anos, da qual eu não não consigo abrir mão. Recuso-me. Este blogue viu-me crescer, literalmente. E vocês desse lado também. Eu tinha dezasseis anos quando decidi criar este blogue. Hoje vou a caminho dos vinte e dois. No papel, não parece muito, mas bolas, foram os anos mais críticos e atribulados da minha vida. Por isso não consigo simplesmente apagar o blogue ou deixa-lo ao abandono totalmente. 

Volto hoje, agora, porque o meu coração tem doído bastante com as notícias que chegam aqui. Eu abro o Facebook, abro os sites online de notícias e não se fala de outra coisa. Até já tive clientes na minha loja a falarem-me sobre isso, sem saberem que eu sou Portuguesa. É nestes momentos que me sinto uma má Portuguesa. Estou longe do meu país e portanto, longe dos seus problemas. Por aqui, temos outros problemas com os quais lidar, como por exemplo o tornado Ophelia que andam a anunciar já há uma semana. Mas isso não significa que não me doa ver o meu país e o meu povo no estado em que estão. Se há coisa da qual eu me gabo aqui, por entre os "brits", é do quão bonito o meu país é. Com áreas abertas e verdes, com cor, com vida. Gabo-me das imensas florestas e parques pelos quais podemos passear e aproveitar os belos dias de bom tempo que o nosso Portugal nos proporciona. 

Do que me gabo agora? Ardeu tanto. Não tudo, mas quase. Muito. Temos uma ministra que diz não ter tido férias, enquanto temos mais de 100 pessoas que nunca mais na vida vão ter seja o que for, porque morreram vítimas dos incêndios. Temos um país que aponta dedos - ao governo, aos bombeiros, ao povo. Um país destruído. Completamente. E eu vejo isto a acontecer, aqui no meu quarto em Londres, pelas redes sociais e pela família que vai mandado actualizações da situação e penso que não há nada mais triste do que ver o nosso país a morrer, de todas as formas, e não puder fazer nada. Porque Inglaterra nunca vai ser o meu país. Nem outro país qualquer onde eu possa vir a morar no futuro. O meu país é Portugal. A minha casa eterna. E um dia, gostava muito de poder regressar, a sério que sim.

Mas regresso para o quê? Para o meu país? Ou para uma versão esmorecida e triste do mesmo?

Não sou pessoa de me expressar nas redes sociais, de partilhar seja o que for ou de ir para o Facebook fazer discursos. Mas bolas...estando longe, sinto que não há muita escolha. Então resolvi voltar. Escrever aqui o quanto eu gosto do meu país e o quanto me doí vê-lo neste estado. Estou longe, mas não estou cega. Estou longe, mas não estou muda. Estou longe mas continuo sempre por perto. E continuo Portuguesa. Talvez mais agora do que alguma vez o fui. As teorias são muitas. As opiniões ainda mais. Mas os factos são certos. E os castigos deviam ser aplicados às pessoas que os merecem. Mas isto é algo que vai para além da política, que vai para além da ética. A destruição do nosso país foi um acto inumano. Em relação a isso, não há dúvidas. Só gostava que os dedos parassem de ser apontados em todas as direcções e mais algumas e que as pessoas se juntassem para, finalmente, poder haver mudança. Não sei se é desejar por muito ou não. Mas como Portuguesa que sou, a esperança é sempre a última a morrer.

Gostava que o abandono ao qual me refiro no título fosse ao meu em relação a este blogue. Mas não é, e acho que todos sabemos isso. Mas tal e qual como eu me recuso a abandonar por completo este blogue, só posso desejar que o nosso povo se recuse também a abandonar por completo o nosso país.

18
Jul15

Férias incendiadas

alex

Já voltei e volto de coração apertado.
A dois dias de terminar as minhas mini-férias, a piscina encheu-se de fagulhas e o chão ficou pintado de negro. Por esta altura, já todas as televisões falaram do assunto e normalmente, é daqueles assuntos falados todos os anos, aos quais já nem passamos muito cartão quando vemos surgir nos nossos televisores.
Mas o povo tem sempre razão e quando diz que, quando nos toca a nós é que passamos a dar mais importância a certas coisas, não se engana. Nunca eu vi tal coisa na minha curta vida.
Chamas a subirem por tudo o que era árvore, mais de 50 camiões de bombeiros a passarem pela nossa casa em direcção ao fogo, o ar que elogio por ser um dos mais puros que já respirei, depressa se transformou num dos mais tóxicos. 
O céu pintado de negro e vermelho, por vezes laranja quando se conseguia apagar um fogo aqui ou ali, mas o vento não foi nosso amigo - nem dos bombeiros - e espalhou as chamas para outros sítios.
Não me recordo de sentir algo como o que senti nesta Quinta-feira passada. Uma mistura de surpresa, com receio e expectativa. Surpresa porque, apesar de todos os anos ver na televisão os grandes incêndios que ocorrem durante os meses de Verão, nunca tinha visto um a vivo e a cores tão perto, tão grande. Receio porque estava tão perto que conseguia ver as chamas por entre as árvores que não foram consumidas por elas; receio porque não queria que elas passassem para o nosso lado. Expectativa porque queria saber se de facto, o fogo ia cessar por ali ou não.
Foi uma experiência de outro mundo. Acho que ainda agora, sentada na minha cama, no meu quarto, ainda não acredito que testemunhei tal coisa.
Nas aldeias fala-se muito; especula-se muito. Dizem que o fogo foi começado numa casa abandonada em Verdelhos. Na televisão disseram que tinha começado em vários sítios e espalhado para a Atalaia (onde é a nossa casa) por causa do vento. Outros dizem que foram as próprias autoridades que têm andado a mandar abaixo árvores naquela zona e para despachar o trabalho decidiram pegar fogo a tudo.
Nenhuma das hipóteses me espanta ou me parece impossível. Acho que neste mundo já se viu de tudo. No entanto, escrevo este texto com uma expressão sisuda ao relembrar a aflição das pessoas cujas casas e terrenos estiveram bem perto de arder.
Escrevo este texto com um aperto no coração porque vi ameaçado um lugar que me é muito; que é muito especial para mim e para a minha família.
Na sexta, as avionetas ainda sobrevoavam a área, os carros dos bombeiros ainda passavam para cima e para baixo e o cheiro que pairava no ar ainda era o de queimado. Sentei-me à beira da piscina, coberta de coisas pretas; fagulhas, e quase que pensei que estava a nevar. Mas não - era apenas aquele resíduo branco que provinha de lá de cima, do sítio onde o fogo tinha consumido tanta árvore.
Quando partimos hoje de manhã, partimos ainda com o cheiro a fumo a pairar no ar e a incerteza nos nossos peitos. Já é o segundo incêndio no espaço de um mês naquela zona, mesmo por cima da nossa casa, do nosso espaço.
Se houver uma terceira, nunca se sabe se não pode realmente vir a queimar o que nos pertence. Os bombeiros disseram e com razão que tiveram dificuldades por causa da falta de limpeza na floresta.
Poucos são os que se importam. Poucos são os que querem ajudar. Mas depois muitos são aqueles que gostam de atirar pedras e arranjar culpados. Alguns até culpam os bombeiros, que digo aqui com toda a minha vida em jogo, foram formidáveis naqueles dois dias. Há quem discorde, por entre as dezenas de tios e primos que para lá tenho, mas são pessoas que pouco ou nada sabem. Eu vi os bombeiros a trabalhar com estes meus quatro olhos e digo que, um dia quando crescer, quero ser como eles.
Não deve haver coisa mais aflitiva do que estar perante um monstro de não sei quantos metros, vermelho e quente, e ainda assim não vacilar.
O meu obrigada a todos os que combaterem este incêndio na zona da Covilhã. Porque sabia que eles estavam a dar o seu melhor e a proteger as nossas casas, ainda consegui dormir umas horas naquela noite.
E se foi por acaso fogo posto - o que é o mais certo - espero bem que quem o começou viva para sempre com o peso na sua consciência ou que morra por causa dele.
Nunca desejei a morte a ninguém, mas também nunca vi as chamas tão perto do meu coração como naquele dia.

 

 

Eu que nem sou crente, até apelei a Deus.

 

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