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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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Something New

24
Jan15

As (minhas) palavras tóxicas

alex

-Fala! Diz alguma coisa, pelo amor de Deus!

Permaneci calada, os olhos vidrados nas minhas botas gastas pelo uso. Sinto o olhar dele a cravar-se no meu crânio como se tentasse, de alguma forma, ler-me os pensamentos.

-Não vais dizer nada?

Abanei a cabeça em reposta. Já disse tudo o que tinha para dizer.

E mesmo que houvesse ainda algo atravessado na garganta, engolia as palavras e obrigava-me a permanecer no silêncio. Quando se diz a coisa errada, não há como voltar atrás. Não é como quando nos enganamos na rua e podemos sempre fazer marcha atrás com o carro e ir em busca da certa.

O que é dito fica escrito nas mentes e corações daqueles cujas nossas palavras magoam mais do que outra coisa qualquer - porque no fundo, as palavras só magoam quando proferidas pela pessoa que mais poder tem para nos infligir tamanha dor.

-Sabes uma coisa? Ás vezes o teu silêncio é pior que todas as tuas palavras juntas, ditas aos gritos e aos pontapés.

Fiz-me olhá-lo nos olhos, a custo. O meu coração sofre com tal ousadia.

Não é não. Acredita. Porque se calo e consinto é porque as palavras que poderiam jorrar de mim, iriam provavelmente destruir tudo.

As minhas palavras são tóxicas.

O silêncio é a minha única defesa - e por conseguinte, a tua também.

As palavras ecoam na minha mente mas os meus lábios não se movem para as reproduzir. Viro-lhe costas sem olhar para trás, dizendo a mim mesma mais do que uma vez que esta é a coisa certa a fazer.

As minhas palavras são tóxicas - se para alguém mais do que ninguém, esse alguém sou eu.

Porque o silêncio que dou aos outros, não o posso providenciar a mim mesma. As palavras ressoam na minha mente, sem terem por onde escapar e, aos poucos, corroem-me.

No entanto, se tiver de corroer alguém com as minhas palavras, que seja a mim mesma.

03
Set14

Coração cego

alex

Ás vezes não era preciso mais do que um olhar para saber o que estavas a pensar. Ás vezes não era precisa mais do que uma palavra para eu te amar. Ás vezes não era preciso muito mais do que um suave toque teu para me fazer sentir tudo  - mil vezes mais.

Há vezes em que ainda não é preciso mais do que tudo isto para eu voltar ao início - de repente, é como se alguém pressionasse o botão "reset" e lá estou eu: de pé, à tua frente, de sorriso nos lábios, cabelo comprido ao vento a contemplar as tuas feições.

Sinto tudo como se estivesse ainda a acontecer mas sei, no fundo do meu ser, que o poder que as nossas memórias têm são grandes o suficiente para me enganarem a esse ponto. 

"É de doidos", penso enquanto olho pela janela do meu apartamento e observo os londrinos a passearem-se com chapéus de chuva a cobrirem-lhes os rostos. Todo este tempo depois e ainda sou capaz de te sentir, mesmo estando tão longe de ti.

Sempre ouvi dizer: Olhos que não vêm, coração que não sente.

Dava-me jeito o meu coração ser cego - porque ele ainda só te vê a ti.

10
Ago14

Os Inevitáveis

alex

Há coisas que não se conseguem evitar. 

Naquele dia, quando me ligaram do hospital, pensei que o mundo tinha ruido. E a verdade é que o meu mundo ruiu. Aprender a viver num mundo sem ti foi a coisa mais difícil que fiz em toda a minha vida. Lembro-me de sair de casa de pijama - uma t-shirt cinzenta velha, tua, e umas calças de pijama pretas com gatos espalhados por todo o lado. Pantufas nos pés, cabelo no ar e lágrimas nos olhos. Coração apertado, ar a menos, desespero a mais. Empurrei as portas do hospital com as poucas forças que tinha naquele momento e corri para o balcão de atendimento. Dei cotoveladas em tudo o que se mexia e quando cheguei à frente da senhora do balcão, quase esmaguei a minha cara contra o vidro que a separava de mim. Perguntei por ti com a voz rouca - as lágrimas já nem as sentia, de tão parte do meu rosto que já eram. A senhora olhou para mim com um olhar repleto de pena mas eu pouco ou nada me importei - a mulher não me soube dizer nada sobre ti. Se estavas vivo, morto, a dormir, acordado...e eu passei-me. Bati no vidro com a mão fechada em punho e gritei-lhe o teu nome e ela, sobressaltada, lá procurou de novo no computador e finalmente, disse-me que estavas a ser operado naquele preciso momento. Pediu-me também para eu a seguir.

Levantou-se e saiu da sala de atendimento e eu, passando uma mão pelo meu cabelo já por si desgrenhado, segui-a em direcção a uma pequena sala onde havia uma secretária com um monte de papéis espalhados nela, duas cadeiras e um senhor com ar muito cansado, o cabelo grisalho e a habitual bata branca de médico.

Não me sentei como ela me mandou. Só queria ver-te, saber como estavas e eles queriam que eu me sentasse. Vão gozar com outra, lembro-me de ter pensado isso. O médico pediu para eu me acalmar - trouxeram-me um copo de àgua e eu recusei. Só queria saber de ti, não parava de perguntar por ti. Disse o teu nome naquela noite mais vezes do que as que já disse desde o dia em que nos conhecemos até agora.

Eu não conseguia estar quieta. Andei para trás e para a frente naquele escritório até o doutro me expulsar de lá - acho que lhe gastei o chão e ele não gostou. Depois foram os corredores. Acho que naquela noite perdi uns vinte quilos só a andar de um lado para o outro naqueles longos e desertos corredores. Passaram-se horas e eu julguei estar a morrer aos bocados, minuto após minuto, sem saber de uma única notícia do teu estado. Por mim passavam enfermeiras e médicos sem uma única palavra me dizerem e eu só queria matá-los a todos com as minhas próprias mãos. Contudo, ao fim de oito horas, já eu estava sentada no corredor, encostada à parede de olhos fixos na cadeira à minha frente, senti uma mão tocar-me ao de leve no ombro e desviei o meu olhar vazio para encontrar o olhar de uma bonita jovem de bata azul agachada ao pé de mim.

"É a Millie Foster?"

Não lhe respondi. Já não sabia quem era. Millie Foster? Quem era essa gaja? Certamente que não era a jovem de olhar perdido sentada no corredor de um hospital cujos funcionários eram uns incompetentes do raio.

"É a namorada do Nate Baxter?"

"Nate!" - Foi tudo o que lhe respondi. Ela sorriu brevemente e agarrou a minha mão, tentado puxar-me para cima. Eu deixei e ela guiou-me até um quarto. Foi como se ela estivesse a guiar uma pessoa invisual - eu estava cega pelas lágrimas e pela ânsia de te ver. Ela abriu a porta do quarto e eu consegui distinguir uma cama, uma máquina, uma colectânea de fios e uma pessoa ligada a esses fios, deitada nessa cama, dependente dessa máquina.

Corri e quase cai - a distância entre nós era tão pequena mas naquele momento foi a maior que já percorri até hoje. Sentei-me à beira da cama, a tua mão na minha, e esperei.

Nunca fui boa a esperar e nesse dia tive de enfrentar a maior espera da minha vida. Naquele dia tive de aprender a viver num mundo sem ti, mesmo que tenha sido apenas por umas horas - pareceu-me uma vida inteira.

Finalmente, abriste os olhos e eu fechei os meus - chorei tanto que acho que as enfermeiras quando vieram ver de ti, pensaram que um de nós tinha feito xixi no chão do quarto..

Aquele foi o momento mais feliz da minha vida.

Até hoje.

Hoje, perante todas as pessoas que amamos, digo de coração cheio que este é o momento mais feliz da minha vida. Olhar para ti e sorrir, poder agarrar na tua mão e dizer-te o quanto te amo e ouvir-te dizê-lo também - não o quanto te amas, mas o quanto me amas a mim. Desde esse dia que acredito que há coisas que não se conseguem evitar. Os acidentes são uma parte dessas coisas e o teu quase te levou de mim. Mas acredito que a nossa união e o nosso felizes para sempre é muito mais inevitável do que aquele acidente o foi - e por isso hoje estás aqui perante mim e perante todos os nossos entes queridos.

Há coisas que não se conseguem evitar... E nós somos inevitáveis.

02
Jul14

Histórias inventadas por mim

alex

-Não sei o que vês em mim.

-Porquê? O que é que tu vês em ti?

Pondero na resposta; não é difícil.

-Vejo uma rapariga tagarela. De ideias fixas e bem definidas, que sabe defendê-las de unhas e dentes; que não arreda pé. Uma rapariga teimosa, por vezes irritante. Irónica, desbocada, de riso fácil, brincalhona às vezes até demais, por vezes maldosa; que gosta de provocar e mandar umas bocas. Que não sabe quando se calar e que não sabe não perdoar. Que não sabe dizer "não". Uma rapariga tímida quando se encontra com pessoas que não conhece; meia estranha e muito despassarada. Completamente maluca. Que não sabe o quê tu vês nela.

Ele sorri ligeiramente, as covas a surgirem nas suas bochechas. Ela pensou para consigo: Eu nem gosto de homens com covinhas; só no queixo. 

-Vejo exactamente a rapariga que tu me acabaste de descrever; e mais! Uma rapariga sorridente, brincalhona, bem-disposta e de convicções fortes. Uma rapariga que ilumina uma sala assim que entra, que faz notar a sua presença mas de uma maneira positiva e não de forma convencida, como se se achasse a dona do mundo. Uma rapariga com quem o tempo não tem tempo; com quem estás e nem dás por ele a passar. Uma rapariga que usa uma máscara para tentar esconder as suas peculiaridades, mas que brilha pelos buracos da mesma. Uma rapariga sincera, amiga, preocupada, carinhosa (quando quer)

Eu vejo-te a ti, assim. Estou a ver mal?

Ela solta uma gargalhada e rola os olhos. Que parvo.

-Tu precisas é de óculos...ofereço-te os meus!

-Não sou eu que preciso dos teus óculos; tu é que precisas dos meus olhos. 

Sem saber o que responder, nada disse. Permaneceram em silêncio e quando ela o olhou e viu aquele seu sorriso maroto nos lábios, com as malditas covinhas nas bochechas, teve uma vontade enorme de lhe dizer o quanto gostava dele. Mas a altura ainda não era a certa. Por isso, limitou-se a sorrir-lhe e a provar-lhe que estava certo em relação a ela, pelo menos numa das coisas. Espetou-lhe um murro num dos braços e ele retraiu-se de imediato, olhando para ela com cara de parvo.

-Para que foi isso?

-Eu sou carinhosa...quando quero. - Piscou-lhe o olho e caiu para trás, pousando a cabeça na areia fria, a rir qual maluca saída de um hospício, provando ao mesmo tempo a si mesma, que também ela estava certa em relação a si, pelo menos numa das coisas.

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