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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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Something New

16
Ago18

Nunca deixa de ser difícil...


alex

Nunca deixa de ser difícil. A distância, a saudade, a dúvida, as preocupações com quem não está por perto...nunca fica fácil. Há quem diga que com o passar dos anos vai ficando mais fácil, esta coisa da distância, mas não. Não fica mais fácil, nós é que vamos aprendendo a viver com ela e com tudo aquilo que ela traz.

Este ano tem sido o melhor ano da minha vida, não me consigo fartar de o mencionar. Mas às vezes gostava de poder partilhar mais a minha felicidade com os meus. E gostava que também eles estivessem bem, felizes. Mas a vida não funciona assim. E às vezes, confesso, sinto-me mal. Sinto-me mal por estar longe e não poder fazer nada pelos meus. Não posso pegar no carro e ir levar a minha avó a passear, que mal sai de casa. Não posso ir almoçar com os meus avós ou ajudá-los a ir às compras, porque eles sozinhos já mal conseguem carregar um saco cada. Não posso estar ao lado da minha irmã a ensinar-lhe certas coisas ou a ter certas conversas com ela. Não posso pegar em mim e bater à porta de um amigo ou de uma amiga e simplesmente irmos tomar um café, ou apanhar ar ou o que seja.

Não posso consolar os meus. Não posso curar os meus. Não posso fazer nada estando longe, por muito que tente estar perto através de chamadas de vídeo, mensagens, fotos, etc. E os momentos em que a culpa me assoma e me tira o ar são vários. Sinto-me culpada, egoísta. Em contraste aquilo que possa ter escrito no texto anterior... estar longe dos nossos não significa que os amemos menos mas significa que não há tanto que possamos fazer por eles. E claro, isso doí. Especialmente quando nós estamos bem, felizes e do outro lado do mapa sabemos que os nossos não estão igualmente felizes ou igualmente bem e que nós pouco ou nada podemos fazer para alterar isso. Faz parte, é verdade. Mas não significa que não seja difícil.

Nunca deixa de ser difícil...

18
Jul18

Mais e melhor


alex

Uma das coisas que prometi a mim mesma fazer este ano foi tentar mudar a minha forma de pensar e olhar para o mundo. Adoptar uma nova perspectiva e tentar trabalhar um dos meus maiores defeitos que é o ser negativa. Não sei de onde veio e como ou onde começou, mas desde que me lembro que sou uma pessoa muito negativa. Sempre a lamentar-me disto e daquilo, a queixar-me da vida que eu própria escolhi, a fazer-me de vítima como se todas as desgraças do mundo me acontecessem só a mim. Talvez porque sempre fui uma criança complexada, uma adolescente com muitos problemas mentais, inevitavelmente deixei-me consumir pelo negativismo. Costumava pensar que era algo que não conseguia mudar em mim, que não era defeito mas sim feitio. E claro que é algo muito difícil de se fazer. Uma pessoa quando está doente fisicamente, há várias coisas que pode fazer para melhorar o seu estado. Mas quando a doença é mental, a coisa é muito mais complicada. É preciso todo um percurso com muitos altos e muitos baixos e temos de estar preparados para haverem pessoas que queiram destruir ou atrasar o nosso progresso.

Até porque é normal as pessoas estranharem. De um momento para o outro, aos olhos delas, passei de Miss Negatividade para Miss Possitividade. Mas claro, as pessoas só vêm aquilo que querem ver. É como o teatro: o publico só vê o resultado final e julga todo um projecto que demorou imenso tempo a ser montado e trabalhado, baseado apenas no produto final. Houve muitos ensaios, muitas reuniões, muitas lágrimas e dores, muitas corridas pelos bastidores no dia de abertura para tentar que tudo estivesse a postos para a abertura da cortina. E é claro não podemos culpar o público por isso, pois eles vão ao teatro é para ver o produto final. No meu caso, se não conviveram comigo, diariamente, ao longo do último ano e meio, é muito difícil para a pessoa perceber como e o porquê da minha mudança, e a mesma aparenta repentina para essas pessoas.

A verdade é que não foi nada repentino e ainda é algo no qual estou a trabalhar e a aperfeiçoar. Como ser humano que sou, tenho os meus momentos de fraqueza. Vou-me abaixo e os pensamentos negativos assomem-me de repente. Às vezes fico assustada com o que vai dentro da minha própria cabeça. Mas é todo um processo, como já disse. E não é nada fácil, mudar a nossa forma de pensar, de mudar a nossa perspectiva. Não é fácil ser-se feliz e é isso que tenho aprendido nos últimos tempos. Que a felicidade não é algo que nos cai no colo. Todos nós perseguimos este conceito vazio de felicidade, no entanto, andamos sempre descontentes com tudo. Pelo menos eu era assim que andava. Quero ser feliz, quero ser feliz, contudo não fazia nada por isso. Queixava-me disto e daquilo, daquele e daquela, mandava o mundo às espigas e amaldiçoava quem me amaldiçoava a mim. E este ano tenho vindo a descobrir que não é fácil ser-se feliz, mas que é muito menos complicado do que aquilo que eu pensava. Basta começar com pequenas coisas como encarar as pequenas coisas da vida com um sorriso na cara em vez de um franzir de testa.

Por exemplo, acontece-me algumas vezes perder o autocarro para o trabalho de manhã. Ás vezes, estou a sair de casa, que fica a dois minutos da minha paragem, e vejo não um, mas dois autocarros a passar de seguida. Isso deixava-me completamente frustrada. Meu deus, amaldiçoava o mundo por ser tão cruel. Porquê eu? Agora, quando me acontece, encolho os ombros e penso: mais tempo para ouvir a minha música. 

Ou por exemplo, no outro dia, por acaso sexta-feira 13, estava a trabalhar até às 20h30 e por volta das 19h, ouve-se um estrondo enorme. Dois segundos depois vejo malta a correr para dentro do centro comercial toda encharcada. Estava a cair uma carga de água como já há muito não caia. Mas o calor e a humidade continuavam. Bom, a chuva não parou de cair durante mais de uma hora e quando chegou a hora de sairmos da loja, continuava a chover de uma maneira que eu juro nunca ter visto antes. Tínhamos apenas um chapéu de chuva pequenino, que partilhámos as duas até à paragem de autocarro. Depois, tivemos de decidir quem levava o chapéu para casa. Ora eu disse à minha colega para ela ficar com ele, visto que a minha casa é literalmente a dois minutos da paragem de autocarro onde eu saio. Ela protestou mas no fim, lá levou. A chuva abrandou bastante enquanto estávamos debaixo da paragem de autocarro e quando o mesmo chegou, dava sinais de parar por completo. Contudo, assim que me comecei a aproximar da minha paragem, a intensidade com que a chuva caia voltou a aumentar e eu, sem casaco, sem chapéu de chuva, de t-shirt e jeans, apanhei a maior molha da minha vida. Se isto tivesse sido à uns meses atrás? Meu deus! Tinha chegado a casa a chorar baba e ranho, a perguntar-me porquê eu, porque é que isto só me acontece a mim, agora vou ficar doente, e isto e aquilo e....ARGH! Só de descrever esta pessoa está-me a enervar! Cheguei a casa encharcada da cabeça aos pés. E ri-me. Desatei a rir-me porque qual é o objectivo de ficar chateada com coisas deste género? Para quê ficar irritada ou enervada? Foi inconveniente? Claro que sim, ninguém gosta de ficar encharcada ao ponto de poder apanhar uma pneumonia (penso eu). Mas em vez de ficar chateada com o Universo por me mandar esta carga de água logo quando eu tinha de vir para casa, olhei-me ao espelho e ri-me porque parecia um panda autêntico com rímel a escorrer-me pela cara abaixo. 

Comecei com pequenas coisas. Comecei por não me deixar convencer que o Universo me odeia e faz tudo para me lixar a vida. Tento ver o outro lado da moeda. Eu estava tão presa e fechada dentro de mim mesma que me recusava a ver o outro lado das coisas. Claro que ainda fico chateada e aborrecida se alguma coisa corre mal ou não de acordo com aquilo que tinha pensado ao início. Mas se é algo que não consigo controlar, depressa mudo o meu pensamento. Se é algo que foi o um erro da minha parte, não me martirizo como martirizava antes. Procuro aprender através desse erro e tento não repeti-lo. Quase tudo na vida é corrigível. Quase. Mas tentar mudar uma grande parte de nós não é nada fácil. Especialmente se estamos rodeados de pessoas que são negativas e que tentam destruir o progresso que já fizemos.

E para mim, esse tem sido o maior desafio. Continuar na minha, tentar ser uma pessoa melhor e mais positiva quando vivo rodeada de negativismo e pessoas que me questionam a toda a hora. Dizem-me vezes e vezes sem conta:

"Ai Alexandra, pareces o Buddha, até enervas."

"Mas estás feliz? Tens de estar nesta loja cinco dias por semana, oito horas por dia e estás feliz?"

"Porque é que estás tão sorridente? Ai dá-me o que andas a tomar porque também quero!"

Eu também me irritava as pessoas que pareciam andar sempre contentes e de bem com a vida. Pensava, caraças, como é que é possível? Têm montes de dinheiro, só pode. Não tem preocupações na vida, com certeza. Não têm dificuldades! Eu era essa pessoa, portanto eu até posso perceber de onde é que estas pessoas e os seus comentários estão a vir. Mas eu acho que comecei a perceber algo que estas pessoas ainda não perceberam.

A vida é muito mais fácil se não a levarmos tão a sério. A sério! E isto é muito cliché de se dizer, mas é a verdade. O peso que eu antes sentia nos meus ombros? Fui eu que o pus lá. O buraco onde me enfiei? Fui eu que o cavei. A felicidade que não conseguia sentir? Era eu que estava a dificultar a minha própria vida. Claro que não ando sempre feliz, ou a sorrir, ou com energia ou com vontade de fazer coisas. Mas ando a esforçar-me para ser uma pessoa melhor para mim própria. Ando a trabalhar para atenuar os meus demónios, uma vez que sei que nunca me vou conseguir ver livre deles por completo. Eu sou abençoada. Tenho problemas como todos os outros, mas sou abençoada. Tenho um trabalho que me permite ter uma vida semi-confortável, tenho uma família que me apoia incondicionalmente e tenho amigos do meu lado que me fazem sorrir. Não tenho um carro, ou dez mil libras na minha conta, não estou apaixonada por alguém ou numa relação amorosa, não tenho a minha família perto de mim e às vezes não tenho vontade de ir trabalhar. Eu ria-me quando me diziam isto mas caraças, é verdade... é tudo uma questão de perspectiva. E aos poucos eu vou mudando a minha.

Quero ser melhor, quero ser feliz. Mas aprendi que isso tudo começa em mim e acaba em mim. E como já disse, é difícil, muito difícil mesmo, especialmente quando tens pessoas que duvidam de ti diariamente e que são completamente o oposto daquilo que tu estás a tentar ser. Mas vale a pena. Porque a pessoa que sou hoje é muito mais feliz que a pessoa que eu era à um ano atrás, sem dúvida.

E espero que a pessoa que vou ser daqui a um ano seja ainda mais; melhor.

 

23
Set14

Ser feliz é uma escolha (?)


alex

Há quem diga que sim. Eu já acreditei mais que não é.

Há dois anos - ou talvez nem tanto, talvez à cerca de um ano e meio atrás - eu era a minha pior inimiga. A minha mente convenceu-me de que eu não merecia ser feliz - e por isso mesmo, não o era. Sorria, fazia palhaçadas e piadas e ria-me mas por detrás de uma máscara elaborada está sempre um coração partido, despedaçado. Eu era assim.

Olhando para trás vejo a bola de negativismo que eu era e peço desculpa a todos aqueles que na altura levavam comigo. É verdade que ainda hoje tenho os meus momentos - de dúvida, de incerteza, de negativismo. Mas depressa empurro esses sentimentos e pensamentos para fora da mente e os substituo por outros mais agradáveis e positivos.

A pessoa que mais me ajudou a tornar-me em alguém mais positivo, foi a minha grande amiga D. Ela ensinou-me que aquilo que nós damos ao Universo, recebemos de volta e há muita gente que não acredita nisto - mas eu cada vez mais tenho a certeza de que isto é verdade.

O meu antigo eu alimentava-se de dor, de pena, de lágrimas, de negativismo. Deixava-me enterrar por tudo isto e não fazia nada para me livrar de toda esta má energia - conformei-me e aceitei que se era assim, era porque tinha de ser.

Hoje já não sou bem assim. Hoje já não deixo que uma pequena coisa me deixe de mau humor durante o resto do dia, como acontecia antes. Por exemplo, se me esquecia do relógio ou do telemóvel ou algo parecido, deixava que isso me afectasse mais do que o devia e passava o dia a queixar-me. Se não estava satisfeita com alguma situação em particular, não procurava mudá-la ou pelo menos saber se havia algo que eu pudesse fazer para a mudar. Antigamente eu ia para as coisas a pensar que elas iam ser um desastre e que tudo me ia correr mal. Agora ainda tenho esses meus momentos, mas depressa encontro forma de me ver livre deles.

Dantes deixava-me afectar por coisas que hoje não me afectam de todo. Costumava olhar para o mundo e pensar que ele me odiava mas a verdade é que eu estava errada - era eu que odiava o mundo simplesmente porque estava cega demais para ver para além daquilo que tinha em frente a mim.

Comecei a abrir a pestana e a perceber que existe muito mais do que aquilo que o nosso olho capta à primeira. Há sempre uma maneira de dar volta a uma determinada situação. Há sempre escolhas que podemos fazer que vão determinar o quanto algo nos afectará.

Claro que há coisas inevitáveis e incontroláveis. No entanto, algo que conseguimos sempre controlar é a forma como reagíamos a elas. Escolhemos ficar sentados no sofá a ter pena de nós prórpios, zangados com tudo e todos, ou escolhemos pôr-nos de pé, olhar mais além e tentar descobrir uma forma de tornar uma situação má numa situação menos má ou até mesmo, numa boa situação?

Escolhemos ser infelizes ou felizes? Deixamos que uma molha nos estrague o humor ou fazemos um esforço para rir da situação e encarar a chuva como parte da vida? Deixamos que um mau dia de escola ou de trabalho defina o resto da nossa semana ou levantamos-nos no dia a seguir, com uma atitude nova e determinação, prontos para não deixar o dia de ontem se repetir hoje? 

Algo que a D. me ensinou e que vai ficar para a vida, foi a não assumir o pior logo à partida. Só eu sei a tendência que tenho para fazer isso...no entanto, porque devo eu fazê-lo se isso só me traz sofrimento antecipado, dor e mal-estar? Porque fazer isto a mim mesma - pôr-me debaixo de uma nuvem negra e esperar que um raio me atinja e acreditar que vou ser realmente atingida, quando posso muito bem pensar " Não vai atingir-me ".

E até pode atingir, mesmo que eu pense que não vai, mas e depois, vou ficar amuda e revoltada com a Vida? Ou vou respirar fundo e arranjar maneira de que o raio não me atinja outra vez?

Se consigo colocar, dentro da minha cabeça, pensamentos negativos, consigo também colocar pensamentos positivos.

É tudo uma questão de perspectiva, de vontade e de determinação. Se consigo pensar que amanhã não vou receber aquele telefonema que tanto quero receber, também consigo pensar que pode muito bem ser amanhã que o vou receber.

São escolhas. E somos nós que temos, nas nossas mãos, o poder de escolher ser um desgraçadinho ou o poder de ser alguém que, apesar de não viver num mundo cor-de-rosa, tem coisas que o fazem feliz, coisas que nem todos podem ter o luxo de deter. Alguém que caminha a sorrir porque quer sentir-se bem e quer, através do seu sorriso, fazer outros sentirem-se igualmente bem. Alguém que não desiste ao primeiro "Fraco"; alguém que não se deixa consumir por pensamentos negros, onde o negativismo reina.

Alguém que opta por fazer a sua própria felicidade em vez de ficar à espera que ela lhe caia do céu.

É uma luta, todos os dias, uma aprendizagem constante e continua. Não aprendi tudo o que há para aprender sobre isto e nunca vou deixar de aprender a ser alguém melhor, menos negativo e mais positivo. Mas se eu, que era a rainha do negativismo, cheguei onde estou hoje, todos nós conseguimos. E é claro que às vezes me vou abaixo e venho aqui escrever textos mais depressivos e tristes - mas isso é a Vida. No entanto, não me apego a esses sentimentos e não me alimento deles como fazia antes. Deixo-os entrar, sinto, descarrego-os seja aqui, no papel ou outra coisa qualquer e depois liberto-os - deixo-os ir e agarro-me antes àqueles pensamentos que todos os dias, hoje, são mais frequentes na minha vida.

Ser feliz pode não ser uma escolha para toda as pessoas, porque existem milhares de factores que afectam a nossa Vida - no entanto, somos nós que escolhemos se queremos ser felizes ou não e somos nós que temos o poder de dar oportunidade a nós mesmos de o sermos.

21
Jul14

As cartas que não envio #3


alex

Estava um caco. Tinha chovido a potes nesse dia e eu não tinha levado o chapéu de chuva. Eu, sem chapéu de chuva em pleno Dezembro, consegues imaginar?

Estavas doente em casa, com febre, e o plano original era ir ter contigo depois das aulas para te fazer companhia e cuidar de ti. Mas os planos mudam. Quando cheguei à porta de tua casa (e só eu sei o que me custou a lá chegar, com aquela chuva toda!), já eu não sabia onde começavam as minhas lágrimas e onde acabavam as gotas de chuva que ainda escorriam pela minha cara.

Tinha sido um daqueles dias de cão sabes? Onde deixei os meus fantasmas levarem a melhor de mim. Quando abriste a porta, envergando umas calças de pijama azuis e uma t-shirt branca que trouxeste de uma das tuas visitas ao Brasil, as tuas bochechas rosadas da febre e o teu cabelo castanho claro um desalinho, foi como se me tivessem finalmente lançado a bóia que me iria ajudar a manter à tona quando as minhas forças para continuar a nadar cessassem.

Olhaste-me de alto a baixo e deves ter achado aquilo que todos acharam quando passei por eles a caminho da tua casa: Esta gaja é maluca. E vai apanhar uma pneumonia daquelas...

Só hoje, ao recordar aquele momento, é que me apercebo que me olhavas com nada mais do que amor estampado nos olhos.

Não me bombardeaste com perguntas. Agarras-te na minha mão fria e molhada e o teu toque quente quase que fez desaparecer o frio que se apoderara do meu corpo. Quase...

Não disseste nada enquanto me levaste para o teu quarto, enquanto me estendeste uma toalha para eu me secar, enquanto me deste umas calças de treino pretas tuas que faziam parecer que eu tinha uma fralda e me deste a tua sweatshirt favorita. Fechaste a porta do quarto depois de saíres, ainda sem uma palavra, para eu me poder trocar à vontade. Nesse aspecto, sempre foste um cavalheiro.

Quando fui ter contigo à sala, o meu cabelo curto, húmido e frisado apanhado no alto da cabeça, estavas a ver Friends. Quando me sentei, sorris-te.

Encostei a cabeça ao teu ombro e chorei. Chorei tanto que me doía a cara, a certo ponto. Chorei tanto que acho que os teus vizinhos acharam que me estavas a fazer mal. Chorei tanto que, a certa altura, tomaste a minha cara nas tua mãos, olhaste-me nos olhos e, por fim, falas-te:

-Pára. - A tua voz saiu rouca, por estares doente. A minha saiu fraca, por estar a chorar.

-Não consigo. - Mais lágrimas.

-Consegues sim. Estás esquecida de quem és?

-Acho que é por isso que n ão consigo parar de chorar. Acho que já não sei quem sou.

Agarraste nas minhas mãos e aqueceste-as nas tuas enquanto me dizias aquilo que eu precisava de ouvir e não necessariamente o que eu queria ouvir.

-Eu não sei o que desencadeou isto - Mais uma vez, olhaste-me de alto a baixo - mas eu sei quem tu és. TU és a rapariga que goza com as raparigas que vão ter com os namorados a chorar. És a rapariga que em vez de andar sem chapéu-de-chuva em pleno Dezembro, até no verão anda com ele, só para o caso. És a rapariga que dá saltinhos de alegria de cada vez que vê a série Friends a dar na TV. És a rapariga que não chora até deixar uma marca do tamanha da sua cara na minha t-shirt favorita.

Funguei. "Que atractivo", pensei eu depois do barulho esquisito que fiz.

-Talvez eu já não seja essa rapariga. Ou talvez eu nunca tenha sido e tenho andado este tempo todo a fingir. Eu já não sei. Não sei nada... - As lágrimas teimavam em não desaparecer.

-Bom, então ainda bem que eu sei. Pára de chorar, acalma-te e conta-me o que aconteceu.

Com alguma dificuldade em fazer a 1ª coisa e com alguma relutância em fazer a 2ª, lá o fiz. Ias tossindo e assoando-te pelo meio e às tantas já estava tão enervada com a tua tosse seca e com o teu ranho constante, que te preguei um estalo no braço. Já não chorava; já não tinha vontade de o fazer.

Tu riste-te e esfregaste o braço.

-Tu és esta rapariga. A que chora que nem uma Maria Madalena arrependida num momento e que no outro me está a bater porque a minha constipação a está a incomodar. És complexa, dramática, bruta e irritadiça.

-Obrigada! - Respondi em tom de sarcasmo.

- Cala-te que ainda não acabei. - Cruzei os braços e sacudi os lenços de papel (meus e teus) de cima do sofá para o chão. Depois, mais tarde, iria deitá-los no lixo. Abanas-te a cabeça de um lado para o outro com, um sorriso nos lábios, e continuas-te.

-És a rapariga que faz com que um nó se forme no meu estômago quando me apareces à porta de casa encharcada e a chorar. És a rapariga que fica nua no meu quarto sem eu lá estar. - Ri-me - És tu que fazes com que 39º de febre sejam nada. És tu a rapariga que eu não me importo de ter a manchar a minha t-shirt favorita. Mas és tu também que fazes a malta rir; que abraça e apoia os chorões; que grita e se revolta por coisas pelas quais mais ninguém grita ou se revolta; que chora mas que rapidamente limpa as lágrimas, levanta a cabeça e sorri. Está bem? Sorri. Levanta a cabeça e sorri. Nunca te esqueças que por muita merda que te possa cair em cima num dia, tens sempre motivos para sorrir. Só precisas de parar de chorar tempo o suficiente para pensar neles.

-Tenho um dees aqui mesmo à minha frente. - Digo, com um sorriso a espreitar-me nos lábios.

-É, eu sou o motivo do sorriso de muita gente. - Um sorriso matreiro e um olhar convencido.

-Quem disse que eu estava a falar de ti? - Funguei pela última vez - Estava a falar da minha série favorita, que está agora a dar na TV. - Um sorriso matreiro, desta vez, meu.

-Ah-ah! - A gargalhada era falsa, mas o sorriso não. Puxaste-me para ti, o teu braço sob o meu ombro, e apertaste-me contra ti, como se quisesses fundir os nossos corpos.

-Vamos lá pôr-te a sorrir então. - Carregaste no play e de repente, oiço a voz do Chandler a sair das colunas da televisão.

-Já puseste. - Sorri e olhei para cima, para encontrar os teus olhos castanhos. Depositas-te um leve beijo nos meus lábios e o frio que sentia esvaneceu-se por completo.

Assim como as lágrimas, a dor e a incerteza.

Agora aqui, a escrever-te, vejo-me a cair de novo na mesma incerteza que me levou a procurar conforto em ti nesse dia. Já parei de chorar e agora penso nos motivos para sorrir.

Só tu me vens à mente.

As lágrimas regressam. Afinal o teu conselho tem um defeito.

Tu.

Naquele dia, foste tu que acabas-te a cuidar de mim e não eu de ti, como tinha planeado.

Os planos mudam.

E os motivos que nos fazem sorrir também.

Levanto a cabeça e sorrio. Não interessa se tu já não és o motivo desse sorriso.

Ainda tenho razões para sorrir.

04
Mai14

Tenho os meus momentos


alex

Nem o bom tempo tem ajudado. Nem os momentos em família ou com os amigos. Ando cansada, saturada, sem vontade nenhuma de nada. Estou a chegar aquela altura do ano em que tudo acumula. O cansaço, o stress, as inseguranças, os medos, as dores...tudo. Ponho uma cara feliz e tento afastar estes sentimentos de mim, porque só eu sei o quanto me deixo consumir por eles. Mas há alturas em que ainda não consigo. Não consigo afastar-me do meu "eu" antigo e não ser pessimista ou pensar no pior. Há alturas em que falho e escolho a infelicidade. Mas é só nestes momentos. Depois lembro-me de que isto não é nada. Que há quem esteja pior. Que ainda estou viva, que tenho um tecto, bens essenciais, família, amigos e uma educação. Lembro-me de dizer em voz alta, antes de ir dormir, cinco coisas pelas quais estou grata.

E a coisa melhora. Não é nenhuma cura, mas ajuda. A felicidade não é um destino. É um caminho que todos podemos escolher percorrer. E há dias em que me sinto a desviar desse caminho. Mas há sempre algo que me puxa de volta. E por isso, e só por isso, sei que sou uma sortuda.

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