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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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06
Ago18

A mais pura das ignorâncias


alex

Já escrevi vários textos sobre o ser emigrante. Contudo, hoje, depois de abrir o Facebook pela primeira vez em vários dias (não uso muito o Facebook), deparei-me logo com um post que me deixou em brasa. Se calhar é por isso que evito ir ao Facebook, porque de cada vez que lá vou, só me deparo com vergonhas destas.

Basicamente aquilo com que me deparei foi com um post de uma rapariga que costumava andar na mesma escola secundária que eu, que entretanto até deixou os estudos (pelo que sei). O post que ela partilhou era de uma senhora que escreveu um texto aos anti-emigrantes e esta rapariga que andava comigo na escola partilhou e escreveu a sua "opinião" em relação ao texto direccionado aos anti-emigrantes.

O que ela escreveu eu já ouvi muitas vezes ser dito a vários emigrantes e já me o foi dito a mim várias vezes, até por "amigos" e pessoas próximas. Esta aversão que ALGUNS portugueses ainda parecem ter e expressar contra os emigrantes deixa-me, no mínimo dos mínimos, triste. Triste por saber que há portugueses que pensam desta forma de outros portugueses. Para esta menina, porque a meu ver é isso que ela é, eu sou uma pessoa que odeia o seu país. Que é uma escumalha porque abandonei os meus e desconto para um país que não é o meu. Abandonei o meu país e depois vou de férias para Portugal fazer turismo e usufruir do trabalho árduo dos portugueses que são tão patriotas e adoradores do seu país que jamais ousariam abandona-lo.

Eu sou o equivalente a uma criminosa aos olhos de pessoas como esta menina. Mas será que estas pessoas são assim tão densas que não conseguem perceber que eu por ter escolhido sair do meu país não gosto menos ou mais do meu país do que os que ficam? Que não sou menos ou mais portuguesa? Aliás, até vos digo mais! Gosto mais do meu país agora que não estou lá do que quando lá estava! Se eu fosse de lavar roupa suja, como se diz, em praça pública, tinha ido comentar no post dela. Em vez disso venho para aqui escrever este texto porque não é da minha personalidade andar nas redes sociais a discutir com pessoas densas e que pensam que ter uma opinião = a odiar, enxovalhar e tratar os outros como lixo.

Vamos por partes. Todos nós temos objectivos de vida diferentes. O meu objectivo de vida, na altura em que decidi emigrar já lá vão 4 anos, era poder tirar uma licenciatura nas áreas que me interessavam. Eu queria o que, infelizmente, o meu país não me podia oferecer. Só me davam a escolher Jornalismo e Comunicação Social. Mas eu queria mais. Queria algo direccionado para a escrita criativa, o mundo editorial e da publicação de livros. Uma universidade em Londres oferecia-me os dois. Escrita Criativa e Jornalismo. Então vim. 

Há pessoas que emigram aos 30 porque, na empresa onde trabalham, foi-lhes oferecida uma posição com melhores condições, melhores ordenados e então emigram. Há pessoas que emigram aos 50, já depois de terem filhos criados por qualquer outra razão que lhes cabe só a eles. Todos nós temos as nossas razões mas uma coisa posso garantir: são muito poucos ou atrevo-me até dizer, quase nenhuns, os portugueses que emigram só porque sim. Ou porque odeiam Portugal. Por favor malta. Pensar assim é uma forma completamente ridícula de pensar. Não vou dizer que emigrar não é uma escolha, porque é. Claro que é! Eu podia muito bem ter escolhido ficar em Portugal a estudar Comunicação Social ou Jornalismo e se calhar tinha ido estagiar para um dos canais de televisão, como vários dos meus colegas fizeram, ou tinha conseguido um emprego na minha área, como outros meus colegas, ou então estava a fazer algo completamente diferente do meu curso, tal e qual como estou agora a fazer aqui. Eu escolhi emigrar e é sim uma escolha. Mas agora, desde quando é que escolher algo para o nosso futuro que não passa por ficar em Portugal, um crime? Não percebo. Eu tenho certos objectivos de vida que se calhar A ou B não tem. Para essa pessoa, o seu objectivo é acabar os estudos, arranjar um trabalho que lhe dê o ordenado mínimo, se calhar não se importa de ficar a viver em casa dos pais até aos 30, quer tirar a carta, ter um carrinho mesmo que seja em segunda ou terceira mão e pronto, isto para essa pessoa é vida. É a vida que ela quer para ela. Mas e então eu sou A ou B? Não, eu sou a Alexandra. Eu quero ganhar mais do que 600 euros por mês. Eu tenho 22 anos e não tenho carta porque não quero, não preciso e não tenho intenção de vir a ter. Eu não consigo imaginar-me a viver em casa dos meus pais, a depender deles, a apoiar-me mais neles. Eu quero dar aos meus pais, ajudá-los, coisa que já consegui fazer e que não conseguiria se tivesse ficado em Portugal. Eu quero viajar. Eu quero aprender outras línguas, experimentar outras culturas, viver outras realidades. Alguém que me explique o porquê de eu, por querer algo que a A ou o B não quer, sou enxovalhada, tenho de levar com bocas, ser chamada de emigra, de desertor, de ouvir coisas como: "Pois, pois, tu vais e descontas para outro país, isso é fácil, agora ficar cá a descontar para o país que tu dizes amar só para tu vires cá fazer turismo uma vez por ano, isso é que é difícil"

MALTA. MEU DEUS. COMO ASSIM?

Eu vou fazer turismo? Pois vou porque existe uma coisa chamada turismo interno, que todo o português pratica, seja emigrante ou não! Eu se for Lisboeta e for passar duas semanas de férias ao Algarve sou uma turista! Ah, mas no meu caso é porque não desconto para o meu país mas depois gosto de ir para lá de férias. Sim, pois claro. Porque não ter tempo para respirar nem mandar um peido para o ar quando se está na sua própria terra é, de facto, ter férias. Porque ao contrário do que este tipo de pessoas pensam, eu não abandonei os meus. E faço questão de visitar e ver toda a gente que me queira ver a mim quando vou a Portugal. O tempo que eu tenho para mim, nas minhas férias, é quase nulo. Mas para mim isso não é um problema. Porque estou com as pessoas que amo. "Mas se amasses não deixavas para trás!"

Adoro essa! Eu podia estar ai e não falar com ninguém, não me relacionar com um único familiar meu. Há pessoas que viram costas ao próprio sangue por coisas mesquinhas e depois vêm com lições de moral a dizer que os emigrantes são uns merdas que deixam a família sozinha? Quando eu vejo irmãos, tios, primos e sei lá eu mais o quê a dizerem e a falarem mal uns dos outros a três metros de distância uns dos outros? Por favor, poupem-me. O amor não se mede em milhas, em horas de avião ou em anos que passamos juntos dos nossos. O amor mede-se nas nossas acções, na forma como tratamos as pessoas. De que vos serve viverem com os vossos paizinhos se depois os tratam como se eles vos devessem algo? Como se eles fossem um monte de lixo velho que está simplesmente ali no canto à apodrecer? De que vos serve terem 10 amigos com quem sair durante o dia, se depois quando chega a noite não têm ninguém a quem ligar, com quem falar? A hipocrisia de metade desta gente que critica os emigrantes, se verificada, chegaria a números impensáveis.

Amam tanto Portugal. São tão patriotas. Uns desgraçados porque, eles sim, são os que ficam a descontar para o país, a lutar (dizem eles) por um país melhor. Mas depois vão para o Facebook falar mal do país a torto e a direito. São capazes de se queixar da merda de ordenado que recebem. Da vida que têm. Do carro que conduzem. Das coisas que não podem comprar. E depois, claro, atacam os emigras, como nos chamam, porque nós é que somos os traidores. Quando tudo o que nós fizemos foi escolher um caminho diferente para a nossa vida do que aquele que nos é incutido desde nascença. O crime, nossa senhora!

Aqui não há desgraçados nem coitados. Aqui há simplesmente pessoas com objectivos de vida diferentes, com quereres e metas diferentes. Porque nada neste vida é fácil. Ficar no país não é fácil. Sobreviver com ordenados mínimos não é fácil. Mas também não é fácil deste lado. Sempre ouvi dizer que quem está mal, muda-se. E neste caso, não acredito que alguém que emigre estivesse mal, mas estavam no sítio errado para conseguirem alcançar aquilo que queriam, então mudaram-se. Porque é que somos alvo de tanta crítica simplesmente por querermos algo de diferente para nós, para o nosso futuro e até, inclusive, para o possível futuro dos nossos? Só porque tu descontas para Portugal e eu desconto para Inglaterra?

Ao final do dia, é tudo dinheiro que vai parar aos bolsos dos mesmos corruptos de merda, portanto, esse argumento para mim é nulo. E, aliás... dependendo do número de anos que descontamos, eu posso transferir os meus descontos TODOS para Portugal se eu bem achar e assim quiser. Mas eu odeio o meu país, então nunca faria isso...

Enfim. Não consigo perceber o ódio aos emigrantes. Eu não vou para Portugal criticar, mandar bocas ou falar mal dos que escolherem ficar em Portugal a fazer seja o que for que escolheram fazer. Porque é que os emigrantes são tratados desta forma? Já  fui descriminada aqui por ser portuguesa, por pessoas não portuguesas, mas ser descriminada por portugueses, por ser portuguesa mas não viver em Portugal? Ninguém, para além de mim, acha isto rídiculo?

Uma coisa é termos uma opinião e exprimirmos aquilo que pensamos e dizer que jamais seriamos capazes de fazer isto ou aquilo. Agora, atacar aqueles que o fazem só porque não é igual ao que nós fazemos, isso já não é opinião.

É pura ignorância.

11
Mai17

Dar valor ao que é nosso


alex

Fazia-o pouco. Desde que sai de Portugal e vim viver para Inglaterra, acho que a minha veia patriota veio muito ao de cima. Eu vou aqui admitir uma coisa que nunca admiti a ninguém: eu achava que não gostava do meu país.

Para mim Portugal era um beco sem saída. Talvez porque, a certa altura da vida, vivi com o meu pai a entrar e a sair do desemprego e quando ele finalmente assentou, foi a vez da minha mãe (que até hoje ainda se encontra desempregada). Para mim a nossa música nunca era das melhores. Ouvia-se, de vez em quando, se passasse na radio. Para mim, havia sempre sítios mais bonitos e mais interessantes para explorar, fora de Portugal. Para mim havia sempre filmes melhores, livros melhores e séries melhores do que aqueles feitos e escritos e produzidos por portugueses.

Ao olhar para trás, só gostava de poder dar um par de estaladas à criança que pensava assim. Hoje sei, sem sombra de dúvida alguma, que o meu país é o mais bonito, o mais bondoso, o mais quente, o mais talentoso. Hoje sei que, apesar de todos os defeitos do meus país, são as suas qualidades que fazem dele o que é. Até morar noutro país que não o meu, não pensava assim, o que me entristece. Mas agora sei dar valor ao que é meu. Talvez porque já não é tanto meu como quando lá vivia. 

Hoje em dia dou por mim a pesquisar sítios para passar férias no meu país. Dou por mim a ver séries da RTP1 e novelas da TVI. Dou comigo a ouvir, de livre e espontânea vontade, cantores portugueses. A alegria que é quando vamos no carro e sou eu que posso escolher a música! No outro dia andávamos a passear de carro às tantas da madrugada a ouvir a Como Ela é Bela do Agir. É uma música muito bonita gente. Mas não só. Amanhã tou Melhor dos Capitão Fausto tem sido o mais tocado no meu telemóvel. E basicamente todas a músicas deles. Acho que é daquelas coisas que, só quem está fora do país, é que entende. Queremos manter-nos ligados à nossa terra o máximo que conseguirmos. Porque às vezes temos medo. Medo de perder aquilo que é nosso. A nossa língua, a nossa cultura, as nossas raízes. 

Temos de dar mais valor aquilo que é nosso. E eu acho que ultimamente, não sou só eu que o ando a fazer. A Eurovisão está ai à porta e, muito sinceramente, nunca pensei estar tão entusiasmada como estou. Quando vi o Salvador cantar Amar Pelos Dois pela primeira vez, não gostei. Sou sincera. Não me encantou. Mas lá está, temos de dar valor ao que é nosso. Então fui ouvir e ver outra vez. E mais uma e mais outra. E agora não consigo olhar para o rapaz a actuar e dizer que ele não tem talento. Que ele não é a escolha acertada. Porque ele tem talento e porque penso que mais ninguém poderia ir representar-nos este ano, tão bem, como eu sei que o Salvador fará.

Ultimamente tenho andado bastante em baixo com isto de ser emigrante. Ando a reconsiderar e a ponderar muito sobre a minha vida. Mas sabem o que me faz mesmo muito feliz ao final do dia?

Saber que o meu país é Portugal. E vergonha de dizer de onde sou? Nunca a tenho. Jamais. Porque tenho orgulho de ser portuguesa, muito mesmo. Aqui em casa, depois de já termos vivido alguns anos em Inglaterra, todas nós chegámos à mesma conclusão: Portugal é um país único. E é nosso.

Temos de dar mais valor ao que é nosso. Eu vou votar no Salvador. Votem também.

20
Dez16

Quase, quase!


alex

Faltam dois dias. As prendas já estão compradas. A mala quase feita. O check-in feito e o bilhete do autocarro comprado.

Tenho andado a sofrer bastante no trabalho. Ser Key Holder não é brincadeira. Mas ando a gostar do novo desafio, apesar de tudo. É uma loja com um ambiente muito melhor, sem dúvida, e ajuda o facto de eu ser amiga de quase toda a gente que lá trabalha. Quanto à carga de trabalho, é sempre assim antes de ir de férias. É quando trabalho mais e mais horas para ao final do mês não ressentir.

Mas a verdade é que, por muito que chore e berre e me queixe, no fim vale sempre a pena. Porque vou poder voltar a passar o Natal com a minha família, quase dois anos depois da última vez que passei o Natal com eles.

E não há recompensa melhor que essa.

E o melhor? Só os meus pais é que sabem. Mal posso esperar para ver a reacção do resto da família, especialmente dos avós...

Estou tão feliz! E como já não devo passar por aqui antes do dia, desejo a todos um feliz Natal, recheado de amor, carinho e alegria, boa comida, bons familiares e bons amigos!

Aproveitem porque eu cá vou aproveitar ao máximo!

19
Dez15

Diferente não significa mau


alex

Este natal vai ser diferente de todos os outros 18 natais que já gozei. 

Não me vou sentar à mesa dos meus avós e ter de gritar para o outro lado da mesa para me fazer ouvir. Não vou comer as farófias da minha avó nem jogar às cartas com os primos enquanto esperamos pela meia-noite.

Não vou sentar-me no sofá ao pé da minha avó e falar sobre as coisas mais rídiculas à face da terra.

Este natal vai ser muito diferente... mas não o vou passar sem as pessoas que são mais importantes na minha vida. É claro que os meus avós e os meus primos e tios também o são, mas a mãe, o pai e a irmã são a base da minha pessoa.

E eles chegam já dia 24. E muito atenciosamente, deram-me o dia 24 de folga. Vai ser tão bom. Passados quatro meses poder vê-los outra vez, em carne e osso.

Vai ser tão bom sentar-me à mesa para fazer uma refeição com eles e abrir os presentes com eles e mostrar-lhes a minha vida aqui. Mostrar-lhes como a filha deles está crescida, como ela paga as suas contas, lava a sua loiça, arruma a sua casa, como vou para a uni, como vou para o trabalho, mostrar-lhes um pouco da cidade onde vivo....vai ser tão bom minha gente.

Ando cansada como o raio, trabalhar 30 horas por semana com trabalhos da uni por fazer e aulas para frequentar não é fácil, especialmente trabalhando naquela loja ... mas vai valer tudo a pena quando na Quinta-feira chegar a famelga.

E este ano o meu único desejo é que todos possam ter um natal feliz e recheado de boas coisas como eu sei que o meu vai ser.

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