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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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Something New

16
Jan19

Eu sei que estou (muito) atrasada mas...


alex

2018 foi e 2019 veio e eu permaneci afastada do blog. Afastada da escrita no geral. Acho que ainda antes de 2018 ter terminado, escrevi tantos textos sobre o mesmo e sobre o tanto que o ano me deu que achei sem sentido escrever mais um a reflectir sobre o ano que tive. Ao longo do ano fartei-me de escrever por aqui o quão feliz fui em 2018. O peso que eu carreguei aos ombros no ano de 2017 foi-me completamente retirado de cima em 2018 e vivi um dos melhores anos desde que me mudei para Inglaterra. 

2019 vai ser diferente, em muitos aspectos. Se 2018 foi um ano de encerrar capítulos, adoptar uma nova forma de estar na vida, aproveitar a vida um bocadinho mais e não me preocupar tanto com o futuro, 2019 será diferente. Neste ano não só vou encerrar um dos maiores e mais desafiantes capítulos da minha vida, como vou iniciar um dos mais desafiantes e assustadores. Este ano há que planear, há que poupar dinheiro, há que gerir todo o meu tempo. Vou ter de fazer listas, coisa que não faço nunca, vou ter de marcar as minhas férias todas até às ultimas horas disponíveis, coisa que nunca faço pois normalmente tenho um ano inteiro para ir tirando férias aqui e ali. Contudo quero muito que este não seja um ano triste só porque tudo vai mudar na minha vida e nas vidas das pessoas com quem moro e que, de certa forma, se tornaram família para mim. Quero que seja um ano alegre e relaxado, onde aproveitamos os últimos meses como se no final de Agosto não vá tudo chegar ao fim. Quero partir com boas memórias e sem arrependimentos. Quero fazer, visitar, comer e ver tudo aquilo que ainda não pude fazer, visitar, comer e ver desde que me mudei para cá. Quero ir a mais concertos e esquecer o mundo cá fora durante umas horas. Quero passar o meu aniversário aqui, pela última vez. Acima de tudo, quero ser feliz em 2019, contra todas as dificuldades ou obstáculos que possam surgir pelo caminho. 

A data de regresso está definida. Mais do que triste ou assustada ou desiludida, estou feliz. Estou de consciência tranquila. Abandonar o nosso país nunca é uma escolha fácil, mas escolher voltar para ele também não é. Talvez até seja mais difícil. Porque é que havia de me ir embora agora, que tenho um emprego que me paga muito bem, comparado com o que poderei vir a ganhar em Portugal? Porque é que havia de me ir embora agora, que estou finalmente feliz comigo mesma? Porque é que haveria de querer voltar para casa dos meus pais com 23 anos, depois de ter vivido quatro anos sozinha?

Porque a vida é mais do que trabalho. Mais do que dinheiro. Mais do que ter de engolir um pouco o nosso orgulho ao voltar para a casa dos pais. Mais do que as vozes que me dizem, uma vez mais, que sou parva e que estou a fazer a escolha errada. Tal e qual como ouvi há quatro anos atrás.

"És doida, és parva, vais falhar, vais voltar a meio, não vais aguentar. Não gostas do teu país. Olha também, não te queremos cá." Há quatro anos atrás foi isto que ouvi.

"És parva, estás louca! Vais para o desemprego! Não vais ter futuro! Ganhas tanto dinheiro aqui, vais fazer o quê para Portugal? Vais-te arrepender! Dou-te no máximo um mês até te começares a arrepender... Vais voltar a viver com os teus pais e a tua irmã depois deste tempo todo? Não vais conseguir!" Quatro anos depois é isto que ouço.

E se há quatro anos atrás respondi a todas as críticas e palavras de desencorajamento com um sorriso na cara ao entrar no avião que me trouxe até cá, vou responder a todas as críticas de agora com o mesmo sorriso na cara e a pôr-me num avião no final do mês de Agosto para, sim!, voltar a Portugal. Para sempre, durante um mês, durante um ano, durante dois...Não sei.

Mas sei que, ao final do dia, ninguém vive a minha vida por mim e a única pessoa a quem tenho de me manter fiel até ao fim, sou eu. Até lá, há muito para fazer. Muito para viver ainda. Sete meses que quero que sejam inesquecíveis, onde nada fique por dizer ou por fazer.

E para quem ainda se encontra do outro lado do ecrã a ler os meus esporádicos textos no blog...só espero que também nunca deixem de ser fiéis a vocês próprios. Se houve algo que 2017 e 2018 me ensinaram foi que quem não deve não teme. 

Eu não tenho nada a temer. E espero que vocês também não. 

Bom ano de 2019!

01
Dez18

Este Dezembro...


alex

Vai passar a correr. Porque eu não quero que ele passe rápido e é quando nós queremos que o tempo pare, ou pelo menos abrande um bocadinho, que o mesmo não nos dá ouvidos e prega a fundo.

No mundo do retail, o mês de Dezembro é o maior mês do ano. A Black Friday é importante, sim, mas é o mês de Dezembro que dá frutos. No caso da minha loja, fizemos mais dinheiro no mês de Dezembro, do ano passado, do que em metade do ano inteiro. Como Manager, há muito para fazer por detrás da cortina e como tal, o cansaço vai pesar em mim. Mas se houve alturas em que ir trabalhar era um suplicio, este ano, com todas as (boas) mudanças que 2018 me trouxe, já não detesto ir trabalhar. Talvez porque agora recebo muito bem, para aquilo que faço. Nunca pensei chegar a ganhar o dinheiro que ganho aos 22 anos de idade. 

E no entanto, é neste mês de Dezembro que me apercebo de uma coisa muita simples: até o dinheiro que agora ganho vem com um preço. Nunca ganhei tanto dinheiro (quem ler isto assim ainda pensa que eu faço uma fortuna, não é esse o caso) como ganho presentemente, no entanto, nunca passei um Natal completamente sozinha. E no entanto, é neste mês de Dezembro que tal vai acontecer.

Em 2015 os meus pais e a minha irmã conseguiram voar até cá para passarem o Natal comigo. Em 2016, a contracto de part-time, consegui ir a casa uns dias. Em 2017, com um contracto de mais horas mas ainda a part-time, não fui passar o Natal mas fui passar uns dias de 26 a 31 e ainda passei o Natal cá, acompanhada pela família de uma das minhas colegas de casa. Este ano, com uma nova posição de trabalho, a contracto fixo de 40h, sem possibilidade de tirar férias porque Dezembro é o chamado período "blackout" em retail, onde ninguém pode tirar férias, ficarei aqui. Sozinha. 

Não tenho problemas em estar só comigo. Na maior parte das vezes, até prefiro porque os seres humanos conseguem ser cansativos. Não sou a pessoa mais natalícia que existe, verdade. Contudo...entristece-me, não posso mentir. Ver as minhas colegas de casa, umas a poderem ir a Portugal, outras a viajarem para o Sul de Inglaterra onde moram os pais, outras a voarem com o marido para a Madeira...e eu cá fico. Não é o fim do mundo...não. Mas é triste. 

Nunca pensei ganhar o que ganho aos 22 anos de idade...mas também nunca pensei ter de passar o Natal sozinha aos 22 anos de idade. Mas é com isto que quero voltar a afirmar que não se pode ter tudo. E é de consciência tranquila que, daqui a um ano se tudo correr bem, vou tomar a decisão de ganhar muito menos (provavelmente até mesmo nada) para ao menos poder passar um Natal de jeito com os meus, pela primeira vez em quatro anos. Sem preocupações, sem datas de partida, sem mensagens do outro lado da Europa a chatearem-me a cabeça e a estragarem-me o serão...

Tudo na vida tem um preço. Este ano, o meu Dezembro vai-me custar muito. Para o ano, vai-me custar de forma diferente. Mas vou poder sentar-me no sofá, de sorriso nos lábios, pobre em dinheiro mas rica noutras coisas. Porque este dinheiro todo que eu ganho hoje...amanhã já não existe. Mas por agora, vai-se ganhando e vai-se juntando. 

Este Dezembro vai passar a correr. E 2018 vai terminar. Vou ter de dizer adeus ao melhor ano que vivi neste país. 

Este Dezembro vai ser triste.

Este Dezembro é o último. 

Aqui.

02
Out18

Vou voltar


alex

Por onde começar... 

Estou de volta. Bom, na verdade, já voltei há duas semanas mas a vida tem sido uma correria desde então. As férias passaram-se, com muitos precalços e histórias que vão ficar por contar, pelo menos por agora. Não foi uma viagem que me tenha enchido as medidas, como foi há dois anos atrás. Talvez por ter ido com mais pessoas desta vez, talvez por estar numa fase diferente da minha vida, talvez...regressei com muitos "talvez". Não posso dizer que foi um desastre de viagem e umas más férias, mas também não posso dizer que foi espectacular e que vim revigorada. Precisei de férias das férias assim que aterramos em Gatwick. Mas como já disse, talvez fale sobre isso num outro post. Ou não, porque nunca se sabe quem pode acabar por ler o post...

Entretanto, de volta à rotina, tenho andado a pensar muito no meu futuro desde que regressámos. Pode-se dizer que se houve algo que esta viagem fez, foi fazer-me reflectir bastante na pessoa que eu sou, nas pessoas que tenho à minha volta, na minha vida presente e no meu futuro próximo. Como mencionei brevemente no post anterior, o ano que vem vai trazer consigo muita mudança. Não logo ao principio, mas acho que estou numa altura da minha vida em que não posso ter medo de nada, nem mesmo de dizer aquilo que ainda não tenho a certeza se vai acontecer ou não. Os primeiros seis meses do próximo ano podem muito bem vir a ser os últimos meses que passo aqui. 

Pelo menos o plano é esse.

Acho que ainda não disse isto a quase ninguém. Escrevê-lo é estranho. Mas a intenção é essa. Nunca pensei que fosse quando me mudei para Londres há quase quatro anos atrás. A intenção era a de ficar aqui ou, possivelmente, ir daqui para outro país qualquer. Mas muita coisa aconteceu nos últimos anos, muito mudou e eu fui quem mudou mais. Os meus sonhos, os meus objectivos, as minhas certezas em relação à profissão que queria ter...tudo isso se dissipou. Não posso dizer que mudou, simplesmente. Não mudou. Apenas...estalou. Não sei se alguém que está a ler este texto já alguma vez viu a série de televisão "How I Met Your Mother", mas há um episódio em particular que eu uso muito para tentar explicar isto às pessoas. Há um episódio em que o som de um espelho a partir-se quando eles apontam os defeitos irritantes uns dos outros, passa muitas vezes porque as ilusões deles são estilhaçadas. Aquilo que eles nunca se tinham apercebido que o outro personagem fazia, como por exemplo mastigar muito alto ou estar sempre a corrigir a gramática das pessoas, é-lhes apontado e as ilusões deles estilhaçam.

A minha passagem por Inglaterra e esta minha fase é mais ou menos assim. Eu vim com sonhos, objectivos, expectativas...ilusões. E ao fim de quatro anos, o meu espelho também se estilhaçou e os vidros estão a ser varridos neste preciso momento. Acho que é completamente normal eu sentir-me assim, daí não estar muito preocupada de momento. Não sei o que quero fazer daqui para a frente, o que quero ser, onde quero estar mas sei o que não quero fazer, o que não quero ser e onde não quero estar. Não quero continuar a viver aqui. Não quero mais viver em Inglaterra.

E é assim que se começa. É assim que se começa um novo capitulo. Tenho muitos sítios para onde posso ir, mas a verdade é que só há um para onde quero ir. Quero ir para casa. Quero voltar para Portugal. Não sei se definitivamente ou só até voltar a encontrar o meu rumo. Mas não consigo mais viver aqui. Não consigo mais partilhar casa com as pessoas com quem partilho. Foram a minha família durante quatro anos, mas também elas mudaram. Não quero continuar a sentir que estou alienada de tudo e de todos. Que sou uma má filha, uma má neta, uma má amiga. Nunca pensei que a culpa me fosse pesar tanto ao fim deste tempo todo, mas pesa. E no domingo, quando uma de nós cá em casa recebeu a notícia que um dos familiares dela tinha falecido nessa manhã, eu soube que não há volta a dar nesta minha decisão de partir.

Como disse, nunca pensei que a culpa me viesse a pesar tanto. Mas pesa. Tudo o que perdi nestes anos, preciso de compensar. Preciso de voltar, por seis meses, um ano, dois anos, o tempo que for preciso para poder dar aquilo que não dei por estar a fazer algo por mim e para mim. Vim para Londres porque era um sonho estudar fora. Formei-me, com boas notas, apesar de todos os contratempos, todas as dificuldades, todas as lágrimas e desgostos. Sinto que já não há nada para mim aqui. E toda a gente me diz que em Portugal, nada há para mim. Porque é que havia de me ir embora? Tenho um emprego estável, recebo mais do que os meus dois pais juntos recebem em Portugal, tenho uma boa casa e pago uma ninharia de renda por ela. Tenho bons amigos. Mas falta-me algo. Não estou infeliz, mas também não estou feliz. E para mim isso é assustador. Pode não haver um emprego para mim em Portugal, mas tenho outras coisas que se calhar neste momento me estão a fazer mais falta. Estou cansada de só ver a minha família duas vezes por ano. Cansada de ver a minha irmã crescer através de um ecrã de computador ou telemóvel. Cansada de adormecer a pensar que se acontece alguma coisa e eu não estou lá... Estou cansada. Preciso de descansar, essencialmente. Em quatro anos não parei. Férias não me sabem a férias. Os dias de folga não sabem a dias de folga. Nas festas não me apetece festejar. 

A decisão está tomada. O regresso a Portugal é certo. Precisamos apenas de todas conversar sobre os nossos futuros e de, no inicio do ano, fazer a renovação do contracto da casa apenas por seis meses. Vai-me custar muito...tanto. Voltar a viver com os meus pais, voltar a depender deles. Vai caraças. Vai-me cortar o orgulho aos pedaços. Mas eu preciso de voltar. Não sei para fazer o quê, nem durante quanto tempo. Posso lá ficar só um mês e depois decidir ir para outro sítio qualquer. Posso ficar cinco anos e depois decidir voltar para Inglaterra (improvável). Mas primeiro e antes de mais nada, preciso de ir. Preciso de voltar ao meu país, preciso de voltar a conectar com a minha família. Preciso de ser a filha e a irmã que eles merecem. E preciso de voltar a ser a Alexandra que eu mereço.

Vou voltar.

16
Ago18

Nunca deixa de ser difícil...


alex

Nunca deixa de ser difícil. A distância, a saudade, a dúvida, as preocupações com quem não está por perto...nunca fica fácil. Há quem diga que com o passar dos anos vai ficando mais fácil, esta coisa da distância, mas não. Não fica mais fácil, nós é que vamos aprendendo a viver com ela e com tudo aquilo que ela traz.

Este ano tem sido o melhor ano da minha vida, não me consigo fartar de o mencionar. Mas às vezes gostava de poder partilhar mais a minha felicidade com os meus. E gostava que também eles estivessem bem, felizes. Mas a vida não funciona assim. E às vezes, confesso, sinto-me mal. Sinto-me mal por estar longe e não poder fazer nada pelos meus. Não posso pegar no carro e ir levar a minha avó a passear, que mal sai de casa. Não posso ir almoçar com os meus avós ou ajudá-los a ir às compras, porque eles sozinhos já mal conseguem carregar um saco cada. Não posso estar ao lado da minha irmã a ensinar-lhe certas coisas ou a ter certas conversas com ela. Não posso pegar em mim e bater à porta de um amigo ou de uma amiga e simplesmente irmos tomar um café, ou apanhar ar ou o que seja.

Não posso consolar os meus. Não posso curar os meus. Não posso fazer nada estando longe, por muito que tente estar perto através de chamadas de vídeo, mensagens, fotos, etc. E os momentos em que a culpa me assoma e me tira o ar são vários. Sinto-me culpada, egoísta. Em contraste aquilo que possa ter escrito no texto anterior... estar longe dos nossos não significa que os amemos menos mas significa que não há tanto que possamos fazer por eles. E claro, isso doí. Especialmente quando nós estamos bem, felizes e do outro lado do mapa sabemos que os nossos não estão igualmente felizes ou igualmente bem e que nós pouco ou nada podemos fazer para alterar isso. Faz parte, é verdade. Mas não significa que não seja difícil.

Nunca deixa de ser difícil...

06
Ago18

A mais pura das ignorâncias


alex

Já escrevi vários textos sobre o ser emigrante. Contudo, hoje, depois de abrir o Facebook pela primeira vez em vários dias (não uso muito o Facebook), deparei-me logo com um post que me deixou em brasa. Se calhar é por isso que evito ir ao Facebook, porque de cada vez que lá vou, só me deparo com vergonhas destas.

Basicamente aquilo com que me deparei foi com um post de uma rapariga que costumava andar na mesma escola secundária que eu, que entretanto até deixou os estudos (pelo que sei). O post que ela partilhou era de uma senhora que escreveu um texto aos anti-emigrantes e esta rapariga que andava comigo na escola partilhou e escreveu a sua "opinião" em relação ao texto direccionado aos anti-emigrantes.

O que ela escreveu eu já ouvi muitas vezes ser dito a vários emigrantes e já me o foi dito a mim várias vezes, até por "amigos" e pessoas próximas. Esta aversão que ALGUNS portugueses ainda parecem ter e expressar contra os emigrantes deixa-me, no mínimo dos mínimos, triste. Triste por saber que há portugueses que pensam desta forma de outros portugueses. Para esta menina, porque a meu ver é isso que ela é, eu sou uma pessoa que odeia o seu país. Que é uma escumalha porque abandonei os meus e desconto para um país que não é o meu. Abandonei o meu país e depois vou de férias para Portugal fazer turismo e usufruir do trabalho árduo dos portugueses que são tão patriotas e adoradores do seu país que jamais ousariam abandona-lo.

Eu sou o equivalente a uma criminosa aos olhos de pessoas como esta menina. Mas será que estas pessoas são assim tão densas que não conseguem perceber que eu por ter escolhido sair do meu país não gosto menos ou mais do meu país do que os que ficam? Que não sou menos ou mais portuguesa? Aliás, até vos digo mais! Gosto mais do meu país agora que não estou lá do que quando lá estava! Se eu fosse de lavar roupa suja, como se diz, em praça pública, tinha ido comentar no post dela. Em vez disso venho para aqui escrever este texto porque não é da minha personalidade andar nas redes sociais a discutir com pessoas densas e que pensam que ter uma opinião = a odiar, enxovalhar e tratar os outros como lixo.

Vamos por partes. Todos nós temos objectivos de vida diferentes. O meu objectivo de vida, na altura em que decidi emigrar já lá vão 4 anos, era poder tirar uma licenciatura nas áreas que me interessavam. Eu queria o que, infelizmente, o meu país não me podia oferecer. Só me davam a escolher Jornalismo e Comunicação Social. Mas eu queria mais. Queria algo direccionado para a escrita criativa, o mundo editorial e da publicação de livros. Uma universidade em Londres oferecia-me os dois. Escrita Criativa e Jornalismo. Então vim. 

Há pessoas que emigram aos 30 porque, na empresa onde trabalham, foi-lhes oferecida uma posição com melhores condições, melhores ordenados e então emigram. Há pessoas que emigram aos 50, já depois de terem filhos criados por qualquer outra razão que lhes cabe só a eles. Todos nós temos as nossas razões mas uma coisa posso garantir: são muito poucos ou atrevo-me até dizer, quase nenhuns, os portugueses que emigram só porque sim. Ou porque odeiam Portugal. Por favor malta. Pensar assim é uma forma completamente ridícula de pensar. Não vou dizer que emigrar não é uma escolha, porque é. Claro que é! Eu podia muito bem ter escolhido ficar em Portugal a estudar Comunicação Social ou Jornalismo e se calhar tinha ido estagiar para um dos canais de televisão, como vários dos meus colegas fizeram, ou tinha conseguido um emprego na minha área, como outros meus colegas, ou então estava a fazer algo completamente diferente do meu curso, tal e qual como estou agora a fazer aqui. Eu escolhi emigrar e é sim uma escolha. Mas agora, desde quando é que escolher algo para o nosso futuro que não passa por ficar em Portugal, um crime? Não percebo. Eu tenho certos objectivos de vida que se calhar A ou B não tem. Para essa pessoa, o seu objectivo é acabar os estudos, arranjar um trabalho que lhe dê o ordenado mínimo, se calhar não se importa de ficar a viver em casa dos pais até aos 30, quer tirar a carta, ter um carrinho mesmo que seja em segunda ou terceira mão e pronto, isto para essa pessoa é vida. É a vida que ela quer para ela. Mas e então eu sou A ou B? Não, eu sou a Alexandra. Eu quero ganhar mais do que 600 euros por mês. Eu tenho 22 anos e não tenho carta porque não quero, não preciso e não tenho intenção de vir a ter. Eu não consigo imaginar-me a viver em casa dos meus pais, a depender deles, a apoiar-me mais neles. Eu quero dar aos meus pais, ajudá-los, coisa que já consegui fazer e que não conseguiria se tivesse ficado em Portugal. Eu quero viajar. Eu quero aprender outras línguas, experimentar outras culturas, viver outras realidades. Alguém que me explique o porquê de eu, por querer algo que a A ou o B não quer, sou enxovalhada, tenho de levar com bocas, ser chamada de emigra, de desertor, de ouvir coisas como: "Pois, pois, tu vais e descontas para outro país, isso é fácil, agora ficar cá a descontar para o país que tu dizes amar só para tu vires cá fazer turismo uma vez por ano, isso é que é difícil"

MALTA. MEU DEUS. COMO ASSIM?

Eu vou fazer turismo? Pois vou porque existe uma coisa chamada turismo interno, que todo o português pratica, seja emigrante ou não! Eu se for Lisboeta e for passar duas semanas de férias ao Algarve sou uma turista! Ah, mas no meu caso é porque não desconto para o meu país mas depois gosto de ir para lá de férias. Sim, pois claro. Porque não ter tempo para respirar nem mandar um peido para o ar quando se está na sua própria terra é, de facto, ter férias. Porque ao contrário do que este tipo de pessoas pensam, eu não abandonei os meus. E faço questão de visitar e ver toda a gente que me queira ver a mim quando vou a Portugal. O tempo que eu tenho para mim, nas minhas férias, é quase nulo. Mas para mim isso não é um problema. Porque estou com as pessoas que amo. "Mas se amasses não deixavas para trás!"

Adoro essa! Eu podia estar ai e não falar com ninguém, não me relacionar com um único familiar meu. Há pessoas que viram costas ao próprio sangue por coisas mesquinhas e depois vêm com lições de moral a dizer que os emigrantes são uns merdas que deixam a família sozinha? Quando eu vejo irmãos, tios, primos e sei lá eu mais o quê a dizerem e a falarem mal uns dos outros a três metros de distância uns dos outros? Por favor, poupem-me. O amor não se mede em milhas, em horas de avião ou em anos que passamos juntos dos nossos. O amor mede-se nas nossas acções, na forma como tratamos as pessoas. De que vos serve viverem com os vossos paizinhos se depois os tratam como se eles vos devessem algo? Como se eles fossem um monte de lixo velho que está simplesmente ali no canto à apodrecer? De que vos serve terem 10 amigos com quem sair durante o dia, se depois quando chega a noite não têm ninguém a quem ligar, com quem falar? A hipocrisia de metade desta gente que critica os emigrantes, se verificada, chegaria a números impensáveis.

Amam tanto Portugal. São tão patriotas. Uns desgraçados porque, eles sim, são os que ficam a descontar para o país, a lutar (dizem eles) por um país melhor. Mas depois vão para o Facebook falar mal do país a torto e a direito. São capazes de se queixar da merda de ordenado que recebem. Da vida que têm. Do carro que conduzem. Das coisas que não podem comprar. E depois, claro, atacam os emigras, como nos chamam, porque nós é que somos os traidores. Quando tudo o que nós fizemos foi escolher um caminho diferente para a nossa vida do que aquele que nos é incutido desde nascença. O crime, nossa senhora!

Aqui não há desgraçados nem coitados. Aqui há simplesmente pessoas com objectivos de vida diferentes, com quereres e metas diferentes. Porque nada neste vida é fácil. Ficar no país não é fácil. Sobreviver com ordenados mínimos não é fácil. Mas também não é fácil deste lado. Sempre ouvi dizer que quem está mal, muda-se. E neste caso, não acredito que alguém que emigre estivesse mal, mas estavam no sítio errado para conseguirem alcançar aquilo que queriam, então mudaram-se. Porque é que somos alvo de tanta crítica simplesmente por querermos algo de diferente para nós, para o nosso futuro e até, inclusive, para o possível futuro dos nossos? Só porque tu descontas para Portugal e eu desconto para Inglaterra?

Ao final do dia, é tudo dinheiro que vai parar aos bolsos dos mesmos corruptos de merda, portanto, esse argumento para mim é nulo. E, aliás... dependendo do número de anos que descontamos, eu posso transferir os meus descontos TODOS para Portugal se eu bem achar e assim quiser. Mas eu odeio o meu país, então nunca faria isso...

Enfim. Não consigo perceber o ódio aos emigrantes. Eu não vou para Portugal criticar, mandar bocas ou falar mal dos que escolherem ficar em Portugal a fazer seja o que for que escolheram fazer. Porque é que os emigrantes são tratados desta forma? Já  fui descriminada aqui por ser portuguesa, por pessoas não portuguesas, mas ser descriminada por portugueses, por ser portuguesa mas não viver em Portugal? Ninguém, para além de mim, acha isto rídiculo?

Uma coisa é termos uma opinião e exprimirmos aquilo que pensamos e dizer que jamais seriamos capazes de fazer isto ou aquilo. Agora, atacar aqueles que o fazem só porque não é igual ao que nós fazemos, isso já não é opinião.

É pura ignorância.

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