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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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14
Jun15

Tudo o que te diria

alex

Parabéns. Não é todos os dias que completamos 74 anos.

Espero que o teu dia seja passado com os que mais amas. Espero que sorrias e rias muito e que sopres as tuas velas de coração cheio.

Era o que te diria se aqui estivesses.

Foram mais os anos que vivi sem ti do que os que vivi contigo. São mais as memórias que tenho sem a tua presença nelas do que as que tenho contigo nelas. 

É injusto não é?

Mas desde cedo que aprendi a abraçar o injusto como um incentivo para procurar o que merecemos de bom na vida. 

Não sou eu quem mais saudades tem de ti; eu tenho saudades do que não tive contigo, eles têm saudades do que tiveram e perderam.

No entanto, onde quer que estejas neste exacto momento, espero que saibas o quanto foste amado e o quanto ainda o és. Espero que não tenhas partido com o coração a pesar-te no peito, pois todos os teus erros te foram perdoados.

Tudo acontece por uma razão. Cada vez mais acredito nisso. Se não tivesses falhado como falhaste, se calhar hoje a tua neta mais velha não estaria a preparar-se para o maior desafio da vida dela.

Tudo acontece por uma razão, mesmo que na altura do acontecimento não saibamos qual é. Mesmo que nunca cheguemos a saber. 

Onde quer que estejas, espero que estejas contente com os caminhos que os teus netos traçaram para eles próprios - o teu mais velho está finalmente a fazer aquilo que sempre disse querer fazer, como o avô; a tua mais velha está prestes a embarcar num avião para ir em busca do seu sonho; as tuas mais novas ainda estudam, mas ambas são crianças felizes.

A tua ausência é sentida por todos nós, mas muito mais por aquela pessoa com quem te deitavas todos os dias. É ela que tem de adormecer todos os dias com o teu lugar na cama vazio.

As coisas aconteceram assim e não choro por isso. A morte não me assusta. Assusta-me o que vem depois. A morte todos nós conhecemos, todos nós testemunhamos.

Mas ninguém sabe o que há depois disso. Acho que o medo advém daí.

Onde quer que estejas, espero que não estejas com medo. Já nos viste sofrer muito durante estes anos, aposto. E acredito que vais ver ainda mais. Mas não te aflijas, que nós somos rijos. Não tenhas medo, que nós cá nos desenvencilhamos. Não temas, que de uma maneira ou de outra, nós damos a volta por cima.

Foi isso que deixaste para trás. Um bando de malta teimosa, que não sabe quando desistir.

Onde quer que estejas, espero que estejas bem. Prometo que não me vou embora sem te prestar uma visita, apesar de não gostar de cemitérios. Eu, sim, que gosto tanto de fantasmas, zombies e coisas assustadoras, detesto cemitérios.

Acho que é porque eu sei muito bem o que está por debaixo daquelas pedras com nomes e caras desconhecidas - não são fantasmas, mas sim pessoas que viveram tal e qual como eu; como tu.

Mas lá estarei, antes de ir, para te deixar uma flor e uma promessa que, essa, ficará só entre nós.

Um beijo, da tua Carochinha.

10
Jul14

13

alex

Uma vez disseram-me que não se pode ter saudades daquilo que nunca se teve. Já não sei quem me o disse ou porque o disse, mas ficou.

E acho que hoje essa frase se encaixa em mim (e na minha vida) na perfeição. 

Nunca tive avô paterno. Ele morreu ia eu fazer os seis anos. Só tenho memórias da minha existência a partir do segundo ano, mais ou menos. Tudo o que está para trás disso, é como se não tivesse existido. Por isso, para mim, é como se nunca tivesse conhecido o senhor que todos dizem ter-me tratado por "Carochinha".

Mas a verdade é que hoje, que fazem 13 anos que faleceu, senti...algo. Não sei se foi saudade, porque lá está, não posso ter saudades do que nunca tive. Mas senti tristeza. Senti, acima de tudo, um grande vazio dentro de mim. Porque, para todos os efeitos, eu nunca conheci o senhor meu avô. Conheço-o como se conhecem as personagens de um livro ou as das histórias que a mãe nos contava quando éramos pequenos. Sei o que sei sobre ele porque me o contam; sei o que sei sobre nós, porque me o dizem. Mas na realidade não sei nada, no que toca a ele.

Sei que não tenho saudades. Não posso ter não é? 

Mas tenho uma tristeza dentro de mim, que hoje veio ao de cima por ser o dia em que ele faleceu. Tristeza por não ter tido a oportunidade de o conhecer. De não ter tido oportunidade de criar memórias que hoje pudesse lembrar. De não saber como ele era, como pessoa, como pai, como marido, como avô. De não saber como soava a sua voz, ou de como soava a sua gargalhada. De não puder ter ouvido da sua boca aquilo que oiço da boca de todos os outros que me contam como ele costumava chamar-me aquele nome carinhoso; o que deu origem à tatuagem que hoje tenho na minha perna esquerda.

Tenho esta tristeza imensa de estar a puxar pela cabeça e de não me lembrar de absolutamente nada. Sei que ele era careca, que tinha olhos azuis que eu não herdei, um bigode igualzinho ao do meu pai, mas mais branquinho. Uma barriguinha gorda onde (dizem) eu me costumava sentar. Sei isto porque tenho a fotografia dele aqui, na minha secretária, há já tanto tempo que às vezes até penso que veio com ela.

Mas não sei mais do que isso. E eu queria mais.

Queria poder saber tudo o que sei sobre ele (e mais) por mim. Porque pude conhecê-lo, verdadeiramente, porque pude partilhar com ele mais do que cinco anos de vida, dos quais nem sequer me recordo.

Não sinto raiva da Vida, ou de um Deus em que não acredito, ou do curso natural das coisas. Mas pergunto-me se tudo seria diferente se ele ainda hoje cá estivesse. Será que este lado da minha família nunca teria deixado de ser próximo, como deixou de o ser nos últimos 3 anos? Será que a minha vida seria diferente? Será que eu seria diferente?

Então hoje, sentada no sofá da sala sozinha, reflecti em tudo isto. E depois chorei.

Não de saudade, porque não posso ter saudade do que nunca tive.

Mas sim de tristeza porque nunca o cheguei a ter.

O meu avô; aquele que me tratava por "Carochinha" (segundo me dizem).

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