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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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Something New

17
Mai20

Só um bocadinho

alex

No próximo domingo faço 24 anos. 

A verdade é que nunca fui uma pessoa que dá muita importância ao seu dia de anos. Talvez porque, quando era mais nova, os meus pais faziam questão de organizar festas com toda a família e amigos da família, e eu que detestava (e ainda detesto) ser o centro das atenções, fiquei como que "vacinada". Tive sorte de todos os anos festejar de forma alegre e divertida os meus anos. 

Contudo, à medida que fui crescendo, foi perdendo a importância. Muitas das coisas que fazíamos em criança perdem a magia quando crescemos. É mesmo assim. Mas no meu caso, eu nunca gostei de ter um dia em que todos os olhos estavam postos em mim. Em que os abraços e os beijinhos eram todos para mim. Em que tinha de abrir presentes dados por pessoas que pouco ou nada conheciam os meus gostos, e fingir que gostava deles. Não sendo uma pessoa materialista, nunca gostei muito de receber prendas. Deixa-me desconfortável, toda a atenção que me é dada no meu dia. Por ser isso mesmo: o meu dia.

O ano passado, no dia dos meus anos, foi o meu primeiro dia de trabalho numa nova empresa, numa nova loja depois de quatro anos a trabalhar para a mesma empresa antes disso. Não disse a ninguém que era o meu dia de anos, porque lá está, odeio ser o centro das atenções e ainda para mais, era o meu primeiro dia. Não conhecia aquela gente de lado nenhum e já todos sabem o quão pouco eu me consigo dar a estranhos. 

Já não sei porquê, comentei com uma das raparigas que tinha de ir comprar um bolo à M&S antes de ir para casa. E daí ela perguntou quem fazia anos, e eu respondi que era eu e pronto. Espalhou-se pela equipa e lembro-me como se fosse hoje. "Porque é que não nos disseste?" E eu, a querer esconder-me num canto, já nervosa por ser o meu primeiro dia de trabalho num sítio novo, ainda para mais com toda a gente a dar-me os parabéns. Mas foi nesse dia que senti que há uma obrigação enorme de celebrarmos os nossos anos e, para além disso, partilharmos com os outros. Mesmo com estranhos.

Contudo, este ano pensei que tinha de celebrar. Porque é o primeiro em que estou de regresso a casa, a sério, depois de alguns anos fora, porque havia outras coisas combinadas para a mesma altura que encaixavam mesmo bem com uma celebração maior e diferente e ... bom, já todos sabemos como é que isso ficou não é?

O tal senhor vírus veio e disse: e que tal continuares a ser a gaja que não dá um centavo pelo festejo do seu aniversário? E eu, que remédio, tenho de dizer que sim. Por incrível que pareça, até para mim mesma, estou um bocadinho triste. Não só por isto, mas porque tinha várias coisas giras e divertidas agendadas para este mês de Maio, que sempre foi o meu favorito (não por ser o mês dos meus anos), e agora... bom. Já se sabe, não me quero repetir.

Enfim. Não sei bem onde quero chegar com tudo isto. Acho que a lado nenhum. Não me sinto bem ao escrever tudo isto, como que a lamentar-me, quando há problemas muito maiores no mundo e pessoas a passar muito mal por causa desta pandemia. Mas não sei. Acho que também tenho direito aos meus momentos de egoísmo. E ultimamente, tenho-me permitido ser um pouco mais egoísta. Porque ser altruísta cansa muito e deixa muitas feridas que ardem e doem, durante muito tempo.

Por isso hoje, deixem-me estar triste. Esta semana, deixem-me estar desapontada. Este mês, deixem-me chorar por tudo o que já perdi e pelo que ainda vou perder.

Só um bocadinho.

19
Abr20

Count your blessings

alex

Ontem, pela primeira vez em mais de um mês, vesti calças de ganga, calcei sapatos e sai de casa. Não se preocupem, as medidas de segurança foram todas seguidas à regra. Mas a verdade é que ontem não podia deixar de sair. 

Foi o aniversário da minha avó e, mais uma vez, não o pude celebrar com ela. Quando decidi regressar a Portugal, pensei que 2020 seria o ano em que poderia recuperar tudo aquilo que perdi durante os quatro anos em que estive fora. Todos os aniversários a que faltei, todas as celebrações que não pude celebrar, todos os Verões em que não pude ir à praia, todos os almoços e jantares de família onde falamos dos tempos das vacas gordas e rimos com as histórias de outros tempos mais simples.

Recuperar todo o tempo que dispensei noutro sítio, com outras pessoas, noutra vida. 2020 era para ser esse ano. Mas a Vida teve outros planos e estamos na situação em que estamos. Contudo, não queria de todo que a minha avó se sentisse sozinha no seu dia de anos, nem eu, nem o resto da família. Então sai de casa. Estranhamente, o mundo lá fora permanece quase igual. Quase nem notamos as mudanças que esta pandemia trouxe. 

Estava um dia lindo, o céu completamente limpo de qualquer nuvem negra, o sol tão quente que fiquei corada mesmo com a janela do carro a separar-nos. Não havia tantos carros na auto-estrada como seria de esperar a um sábado. Mas havia suficientes para dar uma sensação de normalidade, que não é a realidade. Ao chegar a casa da minha avó, viu-se as pessoas na rua, algumas com máscara e luvas, outras sem, a maioria delas vindas das compras, algumas paradas a socializar, com a distância necessária entre elas. Normal, mas estranho. Muito estranho.

E nós? Cá em baixo, todos longe uns dos outros, sem beijinhos nem abraços aquando saímos dos nossos carros, e a avó lá em cima da janela. Ainda bem que ela mora no primeiro andar, pensei eu a certa altura quando já me estava a começar a doer um bocadinho o pescoço. Um de nós foi lá acima entregar o bolo (com as devidas precauções) e durante um bocado fomos uma família outra vez. Sem nos tocarmos, sem nos beijarmos, sem estarmos sequer dentro de casa todos sentados à mesma mesa, falámos e rimos e fizemos um bocadinho de companhia à minha avó no seu dia especial.

Ela chorou. Eu queria muito chorar. Queria muito subir lá acima e dar-lhe um abraço apertado. Eu gosto de todos os meus avós, mas a minha avó paterna é mais do que minha avó. É minha amiga, minha confidente, minha tudo. Tenho uma ligação muito especial com ela, e se me perguntarem de quem tive mais saudades durante todo o tempo que estive fora no passado, direi sempre que foi dela. E agora saudades tenho ainda. Um tipo de saudade diferente, mas saudade na mesma.

Saudade que só passará quando a pandemia o permitir. Ao entrar no carro, já depois de termos todos dito o nosso adeus, só conseguia pensar numa coisa... Que há um ano atrás não teria sido possível sequer vê-la da janela.

No caminho de regresso a casa só conseguia pensar em como é importante continuarmos a tentar encontrar maneiras de permanecermos gratos e positivos nesta situação complicada. De tentarmos ver um lado mais positivo. Há dias em que é mais complicado de o fazer do que outros. Mas há uma frase que eu gosto bastante e que me ajuda a focar em momentos mais complicados... Count your blessings. Simples? Não muito. Mas é isso. É tentarmos ao máximo lembrar-nos das coisas pelas quais estamos gratos. Para não nos deixarmos consumir por completo por esta pandemia e por tudo aquilo de mau que ela traz.

Se não por nós, ao menos, por eles. Aqueles de quem mais gostamos...

05
Jun16

Até lá...

alex

A celebração dos 20 passou-se com uma matiné no cinema a ver Capitão América e depois, no domingo passado, a uma visita a Brighton. 

Já há algum tempo que queria visitar a cidade no sul de Londres onde o Pier e a praia são os spots mais famosos. Tenho a dizer que não desiludiu! Acho que foi um dos dias mais divertidos que já tive em toda a minha vida, andámos em todas as atracões, jogámos nas máquinas e perdemos muitas vezes (não consegui trazer para casa um peluche infelizmente), comemos, rimos, aproveitámos o sol e o calor maravilhosos que nos deram o prazer da sua companhia nesse dia e acho que não podia ter pedido por uma melhor celebração do dia dos meus anos.

Mas claro, a vida volta ao normal ao fim do dia e mais uma semana de trabalho começa. Este fim-de-semana foi um fim-de-semana perdido porque fiz overnights ontem e hoje e, sorte a minha, hoje teve um tempo maravilhoso e eu a dormi-las porque só cheguei a casa já passava das oito da manhã, toda partida de andar a mudar a loja toda.

O cansaço do trabalho começa a bater forte e a vontade de ir já amanhã para Portugal também... no entanto, já só faltam 16 dias para eu ter as minhas merecidas férias no meu país (engraçado, nunca pensei que fosse passar férias ao meu país...) e depois disso é trabalhar mais dois meses e no final desses dois meses... vou poder aproveitar mais 2 semanas de férias e visitar um dos meus destinos de sonho.

Mas mais sobre isso perto da data... Até lá e até Portugal, ainda vou sendo precisa por aqui.

24
Mai16

Fora dos teen

alex

Neste preciso momento, sou expulsa da casa dos "teen" e entro na casa dos vinte.

Com 20 anos, não tenho carta de condução. Não tenho um namorado. Não tenho tardes passadas a bebericar cafés na esplanada nem noitadas na pista de dança da discoteca mais "in" do momento.

Com 20 anos não tenho a minha família ao meu lado, a soprar as velas comigo, pela primeira vez desde que nasci. Com 20 anos tenho uma casa cujo contracto de arrendamento está em meu nome (e de outras três pessoas). Com 20 anos tenho renda para pagar, contas para pagar, roupa para lavar e estender e passar, a casa por limpar.

Com 20 anos tenho o primeiro ano de universidade no curso de Escrita Criativa e Jornalismo feito. 

Com 20 anos tenho um emprego que me permite sustentar por completo.

Com 20 anos vivo sozinha em Londres.

Com 20 anos sinto-me igual a quando tinha dezanove. Continuo a ser a mesma criança que sempre fui e ao mesmo tempo, sou a adulta em que me tornei ao longo dos anos. Sei brincar, sei ser maluca, sei amuar e fazer birras, sei chorar ou resmungar porque a vida não corre como eu quero.

Mas também sei lidar com os meus problemas de cabeça erguida, sei arranjar soluções para certos problemas sem perder a calma, sei fazer coisas que muitos consideram coisas de adultos.

A verdade é que agora que estou oficialmente fora da casa dos "teen" não me sinto mais ou menos do que era. Do que sou. 

Com 20 anos continuo a ser eu. A Alexandra divertida, sarcástica, com mood swings regulares, amiga de quem demonstra merecer a minha amizade, simples, sonhadora, ambiciosa, responsável (na maior parte das vezes) e irresponsável, quando também o mereço ser.

Com 20 anos agora, a partir deste momento, sou a mesma de sempre. 

E só por isso mereço um valente PARABÉNS.

14
Jun15

Tudo o que te diria

alex

Parabéns. Não é todos os dias que completamos 74 anos.

Espero que o teu dia seja passado com os que mais amas. Espero que sorrias e rias muito e que sopres as tuas velas de coração cheio.

Era o que te diria se aqui estivesses.

Foram mais os anos que vivi sem ti do que os que vivi contigo. São mais as memórias que tenho sem a tua presença nelas do que as que tenho contigo nelas. 

É injusto não é?

Mas desde cedo que aprendi a abraçar o injusto como um incentivo para procurar o que merecemos de bom na vida. 

Não sou eu quem mais saudades tem de ti; eu tenho saudades do que não tive contigo, eles têm saudades do que tiveram e perderam.

No entanto, onde quer que estejas neste exacto momento, espero que saibas o quanto foste amado e o quanto ainda o és. Espero que não tenhas partido com o coração a pesar-te no peito, pois todos os teus erros te foram perdoados.

Tudo acontece por uma razão. Cada vez mais acredito nisso. Se não tivesses falhado como falhaste, se calhar hoje a tua neta mais velha não estaria a preparar-se para o maior desafio da vida dela.

Tudo acontece por uma razão, mesmo que na altura do acontecimento não saibamos qual é. Mesmo que nunca cheguemos a saber. 

Onde quer que estejas, espero que estejas contente com os caminhos que os teus netos traçaram para eles próprios - o teu mais velho está finalmente a fazer aquilo que sempre disse querer fazer, como o avô; a tua mais velha está prestes a embarcar num avião para ir em busca do seu sonho; as tuas mais novas ainda estudam, mas ambas são crianças felizes.

A tua ausência é sentida por todos nós, mas muito mais por aquela pessoa com quem te deitavas todos os dias. É ela que tem de adormecer todos os dias com o teu lugar na cama vazio.

As coisas aconteceram assim e não choro por isso. A morte não me assusta. Assusta-me o que vem depois. A morte todos nós conhecemos, todos nós testemunhamos.

Mas ninguém sabe o que há depois disso. Acho que o medo advém daí.

Onde quer que estejas, espero que não estejas com medo. Já nos viste sofrer muito durante estes anos, aposto. E acredito que vais ver ainda mais. Mas não te aflijas, que nós somos rijos. Não tenhas medo, que nós cá nos desenvencilhamos. Não temas, que de uma maneira ou de outra, nós damos a volta por cima.

Foi isso que deixaste para trás. Um bando de malta teimosa, que não sabe quando desistir.

Onde quer que estejas, espero que estejas bem. Prometo que não me vou embora sem te prestar uma visita, apesar de não gostar de cemitérios. Eu, sim, que gosto tanto de fantasmas, zombies e coisas assustadoras, detesto cemitérios.

Acho que é porque eu sei muito bem o que está por debaixo daquelas pedras com nomes e caras desconhecidas - não são fantasmas, mas sim pessoas que viveram tal e qual como eu; como tu.

Mas lá estarei, antes de ir, para te deixar uma flor e uma promessa que, essa, ficará só entre nós.

Um beijo, da tua Carochinha.

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