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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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Something New

19
Abr20

Count your blessings

alex

Ontem, pela primeira vez em mais de um mês, vesti calças de ganga, calcei sapatos e sai de casa. Não se preocupem, as medidas de segurança foram todas seguidas à regra. Mas a verdade é que ontem não podia deixar de sair. 

Foi o aniversário da minha avó e, mais uma vez, não o pude celebrar com ela. Quando decidi regressar a Portugal, pensei que 2020 seria o ano em que poderia recuperar tudo aquilo que perdi durante os quatro anos em que estive fora. Todos os aniversários a que faltei, todas as celebrações que não pude celebrar, todos os Verões em que não pude ir à praia, todos os almoços e jantares de família onde falamos dos tempos das vacas gordas e rimos com as histórias de outros tempos mais simples.

Recuperar todo o tempo que dispensei noutro sítio, com outras pessoas, noutra vida. 2020 era para ser esse ano. Mas a Vida teve outros planos e estamos na situação em que estamos. Contudo, não queria de todo que a minha avó se sentisse sozinha no seu dia de anos, nem eu, nem o resto da família. Então sai de casa. Estranhamente, o mundo lá fora permanece quase igual. Quase nem notamos as mudanças que esta pandemia trouxe. 

Estava um dia lindo, o céu completamente limpo de qualquer nuvem negra, o sol tão quente que fiquei corada mesmo com a janela do carro a separar-nos. Não havia tantos carros na auto-estrada como seria de esperar a um sábado. Mas havia suficientes para dar uma sensação de normalidade, que não é a realidade. Ao chegar a casa da minha avó, viu-se as pessoas na rua, algumas com máscara e luvas, outras sem, a maioria delas vindas das compras, algumas paradas a socializar, com a distância necessária entre elas. Normal, mas estranho. Muito estranho.

E nós? Cá em baixo, todos longe uns dos outros, sem beijinhos nem abraços aquando saímos dos nossos carros, e a avó lá em cima da janela. Ainda bem que ela mora no primeiro andar, pensei eu a certa altura quando já me estava a começar a doer um bocadinho o pescoço. Um de nós foi lá acima entregar o bolo (com as devidas precauções) e durante um bocado fomos uma família outra vez. Sem nos tocarmos, sem nos beijarmos, sem estarmos sequer dentro de casa todos sentados à mesma mesa, falámos e rimos e fizemos um bocadinho de companhia à minha avó no seu dia especial.

Ela chorou. Eu queria muito chorar. Queria muito subir lá acima e dar-lhe um abraço apertado. Eu gosto de todos os meus avós, mas a minha avó paterna é mais do que minha avó. É minha amiga, minha confidente, minha tudo. Tenho uma ligação muito especial com ela, e se me perguntarem de quem tive mais saudades durante todo o tempo que estive fora no passado, direi sempre que foi dela. E agora saudades tenho ainda. Um tipo de saudade diferente, mas saudade na mesma.

Saudade que só passará quando a pandemia o permitir. Ao entrar no carro, já depois de termos todos dito o nosso adeus, só conseguia pensar numa coisa... Que há um ano atrás não teria sido possível sequer vê-la da janela.

No caminho de regresso a casa só conseguia pensar em como é importante continuarmos a tentar encontrar maneiras de permanecermos gratos e positivos nesta situação complicada. De tentarmos ver um lado mais positivo. Há dias em que é mais complicado de o fazer do que outros. Mas há uma frase que eu gosto bastante e que me ajuda a focar em momentos mais complicados... Count your blessings. Simples? Não muito. Mas é isso. É tentarmos ao máximo lembrar-nos das coisas pelas quais estamos gratos. Para não nos deixarmos consumir por completo por esta pandemia e por tudo aquilo de mau que ela traz.

Se não por nós, ao menos, por eles. Aqueles de quem mais gostamos...

22
Dez19

Os planos falham, mas a mudança do ano não

alex

Não fugi. Nem me escondi. Nem vos abandonei. Talvez me tenha abandonado um pouco a mim, mas enfim.

O mês de Dezembro trouxe muitas emoções. Reflexões. No início de 2019 eu tinha todas as certezas do mundo. Tinha um plano. Eu tenho sempre um plano. Gosto de me gabar, de dizer que sou impulsiva. Um dia não tenho franja, no outro decido cortá-la. Vou dormir com seis piercings, no dia a seguir acordo e decido ir fazer um sétimo. Quero cabelo preto, então pinto, depois quero cor de vinho, e pinto. Quero-o loiro...hesito. Não pinto.

Não sou impulsiva. Não sou destemida. Não sou. Sou boa a fingir que o sou. Isso sim.

Eu tinha um plano. Tenho sempre de ter um plano. Ter planos evita surpresas e God, como eu odeio surpresas. Odeio não saber. Tenho de saber, sempre, tudo. Como é que se chama aquele actor, daquele filme? Vou procurar. Como é que se faz um cachecol em malha? Vou já pedir à minha avó para me ensinar. O que são estas dores chata e anormais nesta zona do meu corpo? Vou já ao médico descobrir. Eu necessito de saber, e se calhar é por isso que uma vez, na universidade, o meu professor de Long Form Journalism me disse:

"You don't want to become a Journalist. You have to be one Alex. Because you don't just write stories, make things up as you go and wish for the editor, the teacher, to eat your bullshit up. You do research, you care, you look it up one, two, three times. You don't just ask questions, you seek for the answers like an annoying three year old toddler who keeps asking why, why, why. You don't want to be a journalist, because you already are one."

Não lhe dei razão. Ainda hoje não dou. Sou longe de ser jornalista. Desconfio que algum dia o venha a ser. Não o quero ser. Mas eu tinha um plano. Eu tinha um plano para 2019. Para mim.

Faltam exactamente nove dias para 2019 terminar. Eu tinha um plano e o mesmo falhou. Por completo. Foi um completo desastre. Não o meu ano, esse não foi mau. Mas também não foi bom. Foi duro. Foi melhor que 2017, pois creio que nenhum ano possa vir a ser tão mau quanto esse foi. Foi pior que 2018 porque em 2018 fui muito feliz. 2019 não era para ser o pior ano, ou o melhor ano, ou o ano feliz. Era para ser o ano do Plano. E o Plano...falhou.

E não tenho escrito nestas últimas semanas porque, o que tenho feito nestas últimas semanas é tentado digerir esse facto. O facto de que o meu Plano falhou, de que eu falhei. E eu não falho. Os meus planos nunca falham. Nunca. Talvez nem sempre corram tão bem como eu esperava, talvez deixe umas pontas soltas aqui e ali...mas nunca falham. E foi logo este ano que falhou. Que eu falhei.

E podem perguntar-se vocês...Não era o plano regressar a Portugal? E não regressei? O Plano não era regressar. Eu regressei, de facto. Mas trouxe muita coisa comigo. Demasiada coisa. Muita mágoa, muito rancor, muitos medos, muitas cicatrizes, muitas dúvidas, muitos traumas. Muita bagagem. Mais do que as seis caixas e as três malas cheias. Muito mais.

Eu regressei mas ainda não estou cá. Não sei se alguma vez estarei. Eu fui e vim, demasiadas vezes. Sempre com planos, sempre com certezas, de algo, por mais pequeno que fosse...algo. Tenho estado muito tempo sozinha, a pensar. Só a pensar. Na primeira semana deste ano, passada no hospital, sozinha, assustada, pequena. Tão pequena, naquela cama de hospital longe de tudo e de todos, com medo de tudo e de todos. Com dores nos ovários. Com dores na alma. No coração.

Fiz um plano. Tinha tudo pensado. Vai acontecer assim e assado. Deu tudo errado. Tudo. E o texto já vai muito longo, e o que deu errado vocês provavelmente leram aqui e o que não leram não vale a pena eu agora estar a contar. Agora, com o ano quase a terminar, voltei ao hospital, outro, não por causa de mim. Caminhei pelos corredores de um hospital no meu país, como visitante. Vi as enfermeiras caminhar à minha frente, a discutirem as suas vidas pessoais. Vi a senhora das refeições entrar no quarto onde estava a pessoa que fui visitar e distribuir iogurtes. Aqui come-se iogurtes. Lembro-me de me terem oferecido chá com leite quando fui eu. Sorri. Senti-me como uma estrangeira. Eu não como iogurtes. Também não bebo chá com leite.

Comecei 2019 no hospital, por mim, com um plano. Se bem que o ano ainda não acabou, e a pessoa felizmente já não está no hospital, é muito estranho como este ano se fecha assim, quase como num círculo perfeito. É irónico. Termino com um plano falhado. Com menos uma casa. Menos uns amigos. Com mais uns cortes no coração e uns pedaços da minha alma deixados ao vento. Contudo, termino este ano com os meus. Os que não me falham. Porque os planos falham e as pessoas também nos falham, mas há sempre os que não. Os que não nos falham.

O ano passado, sentada no chão a comer restos de pizza ressabiada na véspera de natal, completamente sozinha enquanto todos os que eu conhecia se sentavam à volta da mesa para comer o bacalhau, eu chorei. Chorei e comi por entre as lágrimas, porque mesmo quando temos de chorar, temos de comer. Em 2018 não tinha planos, e fui muito feliz. Mas fui muito miserável. Vejo agora. Porque este ano não vou comer restos de pizza. Porque este ano vou sentar-me à mesa e comer bacalhau. Comer rabanadas. Jogar monopólio e às cartas. Vou dar prendas e abri-las e nos entrentantos vou chorar. Vou chorar pela menina que chorou sozinha no Natal passado, e pela menina que chorou sozinha no hospital este ano. Vou chorar pela menina de 2019, cujo plano falhou e depois? Depois, porque me está no sangue, vou limpar as lágrimas e vou planear o meu 2020.

Um feliz Natal a todos os que chegaram ao final deste texto. Um obrigada por estarem desse lado, ao fim de todos estes anos. Sejam felizes. Nem que seja só por um segundo, por um minuto, por um dia, enquanto comem filhoses, ou restos de pizza sozinhos. Não vos escreverei até para o ano, provavelmente. Quero aproveitar bem este Natal. Este ano não faço um texto a dizer o que quero que seja 2020. Este ano escrevo-vos este texto. Grande, confuso, all over the place. Falhado. Porque foi assim que foi o meu 2019. E em 2020 regresso, com ou sem plano. Provavelmente com, porque me está no sangue.

Um feliz Natal e um bom ano novo.

16
Jan19

Eu sei que estou (muito) atrasada mas...

alex

2018 foi e 2019 veio e eu permaneci afastada do blog. Afastada da escrita no geral. Acho que ainda antes de 2018 ter terminado, escrevi tantos textos sobre o mesmo e sobre o tanto que o ano me deu que achei sem sentido escrever mais um a reflectir sobre o ano que tive. Ao longo do ano fartei-me de escrever por aqui o quão feliz fui em 2018. O peso que eu carreguei aos ombros no ano de 2017 foi-me completamente retirado de cima em 2018 e vivi um dos melhores anos desde que me mudei para Inglaterra. 

2019 vai ser diferente, em muitos aspectos. Se 2018 foi um ano de encerrar capítulos, adoptar uma nova forma de estar na vida, aproveitar a vida um bocadinho mais e não me preocupar tanto com o futuro, 2019 será diferente. Neste ano não só vou encerrar um dos maiores e mais desafiantes capítulos da minha vida, como vou iniciar um dos mais desafiantes e assustadores. Este ano há que planear, há que poupar dinheiro, há que gerir todo o meu tempo. Vou ter de fazer listas, coisa que não faço nunca, vou ter de marcar as minhas férias todas até às ultimas horas disponíveis, coisa que nunca faço pois normalmente tenho um ano inteiro para ir tirando férias aqui e ali. Contudo quero muito que este não seja um ano triste só porque tudo vai mudar na minha vida e nas vidas das pessoas com quem moro e que, de certa forma, se tornaram família para mim. Quero que seja um ano alegre e relaxado, onde aproveitamos os últimos meses como se no final de Agosto não vá tudo chegar ao fim. Quero partir com boas memórias e sem arrependimentos. Quero fazer, visitar, comer e ver tudo aquilo que ainda não pude fazer, visitar, comer e ver desde que me mudei para cá. Quero ir a mais concertos e esquecer o mundo cá fora durante umas horas. Quero passar o meu aniversário aqui, pela última vez. Acima de tudo, quero ser feliz em 2019, contra todas as dificuldades ou obstáculos que possam surgir pelo caminho. 

A data de regresso está definida. Mais do que triste ou assustada ou desiludida, estou feliz. Estou de consciência tranquila. Abandonar o nosso país nunca é uma escolha fácil, mas escolher voltar para ele também não é. Talvez até seja mais difícil. Porque é que havia de me ir embora agora, que tenho um emprego que me paga muito bem, comparado com o que poderei vir a ganhar em Portugal? Porque é que havia de me ir embora agora, que estou finalmente feliz comigo mesma? Porque é que haveria de querer voltar para casa dos meus pais com 23 anos, depois de ter vivido quatro anos sozinha?

Porque a vida é mais do que trabalho. Mais do que dinheiro. Mais do que ter de engolir um pouco o nosso orgulho ao voltar para a casa dos pais. Mais do que as vozes que me dizem, uma vez mais, que sou parva e que estou a fazer a escolha errada. Tal e qual como ouvi há quatro anos atrás.

"És doida, és parva, vais falhar, vais voltar a meio, não vais aguentar. Não gostas do teu país. Olha também, não te queremos cá." Há quatro anos atrás foi isto que ouvi.

"És parva, estás louca! Vais para o desemprego! Não vais ter futuro! Ganhas tanto dinheiro aqui, vais fazer o quê para Portugal? Vais-te arrepender! Dou-te no máximo um mês até te começares a arrepender... Vais voltar a viver com os teus pais e a tua irmã depois deste tempo todo? Não vais conseguir!" Quatro anos depois é isto que ouço.

E se há quatro anos atrás respondi a todas as críticas e palavras de desencorajamento com um sorriso na cara ao entrar no avião que me trouxe até cá, vou responder a todas as críticas de agora com o mesmo sorriso na cara e a pôr-me num avião no final do mês de Agosto para, sim!, voltar a Portugal. Para sempre, durante um mês, durante um ano, durante dois...Não sei.

Mas sei que, ao final do dia, ninguém vive a minha vida por mim e a única pessoa a quem tenho de me manter fiel até ao fim, sou eu. Até lá, há muito para fazer. Muito para viver ainda. Sete meses que quero que sejam inesquecíveis, onde nada fique por dizer ou por fazer.

E para quem ainda se encontra do outro lado do ecrã a ler os meus esporádicos textos no blog...só espero que também nunca deixem de ser fiéis a vocês próprios. Se houve algo que 2017 e 2018 me ensinaram foi que quem não deve não teme. 

Eu não tenho nada a temer. E espero que vocês também não. 

Bom ano de 2019!

02
Out18

Vou voltar

alex

Por onde começar... 

Estou de volta. Bom, na verdade, já voltei há duas semanas mas a vida tem sido uma correria desde então. As férias passaram-se, com muitos precalços e histórias que vão ficar por contar, pelo menos por agora. Não foi uma viagem que me tenha enchido as medidas, como foi há dois anos atrás. Talvez por ter ido com mais pessoas desta vez, talvez por estar numa fase diferente da minha vida, talvez...regressei com muitos "talvez". Não posso dizer que foi um desastre de viagem e umas más férias, mas também não posso dizer que foi espectacular e que vim revigorada. Precisei de férias das férias assim que aterramos em Gatwick. Mas como já disse, talvez fale sobre isso num outro post. Ou não, porque nunca se sabe quem pode acabar por ler o post...

Entretanto, de volta à rotina, tenho andado a pensar muito no meu futuro desde que regressámos. Pode-se dizer que se houve algo que esta viagem fez, foi fazer-me reflectir bastante na pessoa que eu sou, nas pessoas que tenho à minha volta, na minha vida presente e no meu futuro próximo. Como mencionei brevemente no post anterior, o ano que vem vai trazer consigo muita mudança. Não logo ao principio, mas acho que estou numa altura da minha vida em que não posso ter medo de nada, nem mesmo de dizer aquilo que ainda não tenho a certeza se vai acontecer ou não. Os primeiros seis meses do próximo ano podem muito bem vir a ser os últimos meses que passo aqui. 

Pelo menos o plano é esse.

Acho que ainda não disse isto a quase ninguém. Escrevê-lo é estranho. Mas a intenção é essa. Nunca pensei que fosse quando me mudei para Londres há quase quatro anos atrás. A intenção era a de ficar aqui ou, possivelmente, ir daqui para outro país qualquer. Mas muita coisa aconteceu nos últimos anos, muito mudou e eu fui quem mudou mais. Os meus sonhos, os meus objectivos, as minhas certezas em relação à profissão que queria ter...tudo isso se dissipou. Não posso dizer que mudou, simplesmente. Não mudou. Apenas...estalou. Não sei se alguém que está a ler este texto já alguma vez viu a série de televisão "How I Met Your Mother", mas há um episódio em particular que eu uso muito para tentar explicar isto às pessoas. Há um episódio em que o som de um espelho a partir-se quando eles apontam os defeitos irritantes uns dos outros, passa muitas vezes porque as ilusões deles são estilhaçadas. Aquilo que eles nunca se tinham apercebido que o outro personagem fazia, como por exemplo mastigar muito alto ou estar sempre a corrigir a gramática das pessoas, é-lhes apontado e as ilusões deles estilhaçam.

A minha passagem por Inglaterra e esta minha fase é mais ou menos assim. Eu vim com sonhos, objectivos, expectativas...ilusões. E ao fim de quatro anos, o meu espelho também se estilhaçou e os vidros estão a ser varridos neste preciso momento. Acho que é completamente normal eu sentir-me assim, daí não estar muito preocupada de momento. Não sei o que quero fazer daqui para a frente, o que quero ser, onde quero estar mas sei o que não quero fazer, o que não quero ser e onde não quero estar. Não quero continuar a viver aqui. Não quero mais viver em Inglaterra.

E é assim que se começa. É assim que se começa um novo capitulo. Tenho muitos sítios para onde posso ir, mas a verdade é que só há um para onde quero ir. Quero ir para casa. Quero voltar para Portugal. Não sei se definitivamente ou só até voltar a encontrar o meu rumo. Mas não consigo mais viver aqui. Não consigo mais partilhar casa com as pessoas com quem partilho. Foram a minha família durante quatro anos, mas também elas mudaram. Não quero continuar a sentir que estou alienada de tudo e de todos. Que sou uma má filha, uma má neta, uma má amiga. Nunca pensei que a culpa me fosse pesar tanto ao fim deste tempo todo, mas pesa. E no domingo, quando uma de nós cá em casa recebeu a notícia que um dos familiares dela tinha falecido nessa manhã, eu soube que não há volta a dar nesta minha decisão de partir.

Como disse, nunca pensei que a culpa me viesse a pesar tanto. Mas pesa. Tudo o que perdi nestes anos, preciso de compensar. Preciso de voltar, por seis meses, um ano, dois anos, o tempo que for preciso para poder dar aquilo que não dei por estar a fazer algo por mim e para mim. Vim para Londres porque era um sonho estudar fora. Formei-me, com boas notas, apesar de todos os contratempos, todas as dificuldades, todas as lágrimas e desgostos. Sinto que já não há nada para mim aqui. E toda a gente me diz que em Portugal, nada há para mim. Porque é que havia de me ir embora? Tenho um emprego estável, recebo mais do que os meus dois pais juntos recebem em Portugal, tenho uma boa casa e pago uma ninharia de renda por ela. Tenho bons amigos. Mas falta-me algo. Não estou infeliz, mas também não estou feliz. E para mim isso é assustador. Pode não haver um emprego para mim em Portugal, mas tenho outras coisas que se calhar neste momento me estão a fazer mais falta. Estou cansada de só ver a minha família duas vezes por ano. Cansada de ver a minha irmã crescer através de um ecrã de computador ou telemóvel. Cansada de adormecer a pensar que se acontece alguma coisa e eu não estou lá... Estou cansada. Preciso de descansar, essencialmente. Em quatro anos não parei. Férias não me sabem a férias. Os dias de folga não sabem a dias de folga. Nas festas não me apetece festejar. 

A decisão está tomada. O regresso a Portugal é certo. Precisamos apenas de todas conversar sobre os nossos futuros e de, no inicio do ano, fazer a renovação do contracto da casa apenas por seis meses. Vai-me custar muito...tanto. Voltar a viver com os meus pais, voltar a depender deles. Vai caraças. Vai-me cortar o orgulho aos pedaços. Mas eu preciso de voltar. Não sei para fazer o quê, nem durante quanto tempo. Posso lá ficar só um mês e depois decidir ir para outro sítio qualquer. Posso ficar cinco anos e depois decidir voltar para Inglaterra (improvável). Mas primeiro e antes de mais nada, preciso de ir. Preciso de voltar ao meu país, preciso de voltar a conectar com a minha família. Preciso de ser a filha e a irmã que eles merecem. E preciso de voltar a ser a Alexandra que eu mereço.

Vou voltar.

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