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18
Fev14

Porque os actos falam mais alto que as palavras #2

alex

Chegámos perto do rio e sentei-me junto à grade que separava o pavimento da água. Ele permaneceu durante um bocado em pé ao meu lado, a contemplar as gaivotas que por ali andavam, até que resolveu sentar-se. Conseguia sentir a sua perna a tocar levemente na minha.

Tinha saudades disto.

-Apaixonei-me por ti e foi a coisa mais estúpida que podia ter feito. A ti e a mim, a nós. Pior, fiz com que te apaixonasses também por mim e por isso, desculpa.

Olhei para ele com um ar incrédulo. Se a dor que sentira devido ás suas palavras, naquele momento, não estivesse estampada no meu rosto, não sei o que mais poderia fazer para que a mesma se manifestasse.

-Pedes-me desculpa por me amares? Por eu te amar? E que tal pedires desculpa por me teres deixado? E que tal seres homem e pedires desculpa pelos teus erros e não pelos teus feitos? Pedes-me desculpa por te apaixonares e por eu me ter apaixonado. Olha pôrra, pede antes desculpa por não te teres apaixonado tanto como eu, ou por não teres sido fiel à tua palavra e teres-me deixado como prometeste que nunca farias. Pede antes desculpa por isso meu grandessíssimo estupor!

Recusei-me a olhar para ele, com medo que ele visse as lágrimas que começavam a brotar do meus olhos castanhos. Vi no entanto, que os seus ombros moviam-se como se estivesse a rir. Ele estava-se a rir? Mas ele estava a gozar com a minha cara ou eu estava a sonhar?

-Mas tu estás a rir-te de quê? Achas piada a isto é? Achas-me piada?

Ele olhou para mim com um sorriso ainda nos seus lábios rosados.

-Acho-te piada pois. Senão não estávamos aqui agora. Ouve…

Ele estendeu a mão e pegou na minha como fizera tantas outras vezes no passado. Senti de imediato algo a percorrer o meu corpo. Uma espécie de electricidade, ou um bichinho.

-Não, ouve tu – disse eu retirando a minha mão dele como se ele tivesse uma éspecie de doença mortal transmissível através do toque – as tuas desculpas para mim de pouco ou nada me servem. Dizes que te apaixonas-te por mim. Isso é mais uma mentira. Se tal fosse verdade estava agora a passear toda feliz de mãos dadas contigo feita menina de filmes românticos. Se tal fosse verdade não estavas para aí a dizer baboseiras que, sinceramente, é escusado eu ouvir como tenho feito até agora.

-Mas tu não me deixas acabar de falar. És assim. Interrompes-me sempre e eu nunca digo nada por inteiro. E quando digo, tu só percebes metade, aquela que escolhes ouvir. Posso terminar o que estava a dizer antes de virares “oh toda Hulk”?

Revirei os olhos mas não proferi nem mais uma palavra.

-Desculpa. Desculpa ter-me apaixonado por ti e ter-te feito apaixonares-te por mim e depois ter-te deixado. Não o devia ter feito. A parte de te ter deixado, quero eu dizer. És assim e eu amo-te assim, como nunca amei ninguém. Pensei que ao deixar-te estava a fazer-te um favor. És nova, tens a vida pela frente. Não podia prender-te, não viveria bem se soubesse que o estava a fazer. Por isso deixei-te ir. Porque te amo como nunca amei ninguém, deixei-te ir. Porque amar é também saber abrir mão da pessoa que amamos, quando sabemos que essa pessoa será mais e melhor sem nós. É saber quando desistir, não de amar, mas de lutar pela pessoa que amamos, mesmo quando ela não nos dá motivos para isso. Mesmo quando o motivo somos nós; sou eu, que te prendia e te impedia de viveres a tua vida ainda tão curta. És assim: livre. Sempre o foste. Não iria ser eu a negar-te algo pelo qual lutaste tanto. Porque te amo e só por isso.

Mordi o lábio com tanta força que este começou a sangrar. Mordi-o para conseguir parar as lágrimas de me escorrerem pela face, mas já não consegui. Elas correram livremente e molharam os meus melhores jeans.

-Amo-te porque és assim. Num minuto és fria e gritas comigo e no minuto seguinte choras e és vulnerável. Amo-te porque és assim e és tudo para mim.

-Pára com isso. Sabes que odeio lamechices. – ele riu-se, preenchendo o ar com uma melodia agradável, característica sua.

-Se te amo por seres assim, devias amar-me por eu ser assim.

-Mas tu não és assim, lamechas. Só estás a sê-lo agora para ver se me convences, mas não convences. As tuas palavras são muito bonitas, mas as tuas acções são tão feias que ofuscam a beleza daquilo que dizes. Comigo não vais lá assim, já devias saber.

-E sei. Por isso mesmo é que vou deixar os meus actos tomarem o lugar das minhas palavras.

-Ai sim? Duvido muito.

Ele mostrou-me um sorriso hesitante e levantou-se, ficando de costas para mim. Quando se virou, segurava algo na mão. Uma caixa? Sim, pequena, azul, simples. Uma caixa. O meu cérebro começou a disparar alarmes como se algo estivesse a arder dentro da minha cabeça. Ele não ia fazer o que eu estava a pensar que ele ia fazer. Ou ia?

Olhei para ele com um olhar esbugalhado enquanto ele se ajoelhava naquele chão sujo e cheio de cocó de gaivotas.

Abriu a pequena caixa azul e mostrou-me um anel. Simples, pequeno e delicado, com uma safira muito pequena, que brilhava tanto como os seus olhos naquele momento, expectantes, focados nos meus.

Ele não disse nada. Eu também não. Desta vez iríamos deixar os nossos actos falar mais alto que as nossas tolas palavras.

Tirei o anel da caixa e coloquei-o no meu dedo tão fino como um palito. Ele sorriu, um sorriso de orelha a orelha e eu levei os meus braços ao seu pescoço, puxando-o para bem perto de mim. Já não eram precisas palavras, pedidos de desculpa, insultos.

Tudo o que eu precisava e queria ouvir ele tinha dito num só gesto.

 

***

 

E passados muitos anos, foi desse gesto que me lembrei e não das palavras antes proferidas por ele.

Porque os actos falam mais alto que as palavras.

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