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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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23
Mar15

O melhor por mim (e por vocês)

alex

Eu não sei se já falei disto aqui, tão abertamente, como estou prestes a fazer. Mas se o estou a fazer agora é porque sinto a necessidade de alertar para este tipo de coisas.

Hoje de manhã levantei-me às oito e fiz uma hora de exercício físico (eu costumava correr mas de momento estou proibida pelo médico de o fazer, por isso sigo o calendário de uma youtuber/personal trainer chamada Casey, cujo site é este caso quem estiver interessado queira espreitar), que se seguiu por uma taça de flocos de aveia, banana e chá verde. A semana passada cometi muitos pecados, mas estou seriamente determinada a ser mais saudável.

Enquanto comia, via o Você na TV e apareceu a Jessica Athayde a falar do seu novo livro - "Não queiras ser perfeita mas faz o melhor por ti" - que pelos vistos é muito mais do que um livro de receitas saudáveis como eu pensava quando ouvi falar dele.

A actriz revela neste livro, e em conversa com a Cristina Ferreira, que ela sofreu de anorexia nervosa quando era mais nova e que sempre foi uma pessoa muito ansiosa. E é por isso que estou aqui, a escrever-vos sobre este tipo de assunto.

Porque eu passei por algo semelhante e muito pouca gente o sabe, ou sabe realmente o quão mau foi. Desde pequena que sempre fui bem constituída. Nunca fui obesa ou nada do género, mas ao lado das outras crianças (raparigas), era sempre a mais alta e mais bem constituída. Quando entrei para o ensino básico, sofri de bullying - acho que isso já referi aqui mais do que uma vez - e durante dois anos fui sofrendo mazelas que deixaram marcas no meu psicológico.

Desenvolvi ansiedade crónica. Só o pensamento de sair de casa dava-me vontade de chorar e vomitar tudo o que tinha no estômago. Não conseguia ir de férias com os meus padrinhos e primo porque só de pensar em ficar longe dos meus pais e da minha casa, dava-me um ataque. Não queria ir para a escola e inventava doenças. Lembro-me como se fosse hoje - aquela sensação de que alguém nos está a cortar o ar, o enorme nó no estômago, o terror puro de sair da porta para fora e encarar as pessoas.

Aos quinze era obcecada pelo meu corpo. O que comia, era pouco ou nada e comecei a recusar a comida que a minha mãe fazia - com molhos, bifes fritos com margarina, fritos, etc. Comia comida de passarinho e aos quinze anos, com 1,65 de altura, cheguei a pesar 50 quilos. 50 quilos para uma pessoa que é relativamente alta como eu, com uma estrutura óssea larga devido aos anos de natação e aos genes, é muito pouco e apesar de na altura eu ainda praticar desporto regularmente, eu não era saudável.

Antes de fazer os dezasseis, deixei a natação - isto foi na altura do nono ano, se não me engano. Deixei de praticar qualquer desporto, tendo apenas a educação física na escola que, digamos, não é nada de especial. Continuava a comer mal, a obcecar com o meu peso e o meu corpo e a ter ataques de ansiedade por isso. Se comia algo que eu achava que era mau, na hora a seguir estava a ter um ataque. O que dantes era mau, passou para péssimo.

Andei em psicólogos, fui medicada ao ponto de ir para a escola de manhã dormente, de chegar à hora do almoço e nem me lembrar das primeiras horas da manhã. E ninguém para além dos meus pais soube, naquela altura. Sempre fui óptima a esconder, a fingir. Muito boa, mesmo. As minhas avós notavam que eu estava demasiado magra, principalmente a minha avó materna, que me via de biquíni quando eu ia passar as férias de verão à terra deles.

Mas eu achava-me gorda. Estava doente. E há quem diga que este tipo de doenças não têm necessariamente de ter um precedente, ou seja, não têm de necessariamente de provir algum tipo de situação que nos tenha marcado, mas no meu caso eu sei que sim. Eu sei que foram aqueles dois anos de bullying constante que me trouxeram a ansiedade e as inseguranças em relação a mim mesma.

Já eu tinha os dezassete (acho eu), quando um dia de manhã acordo e dá-se-me na cabeça passar um dia inteiro sem comer. Era Verão, eu estava em casa sozinha, ambos os meus pais a trabalhar e a minha irmã no ATL, e eu não vou de modas - passo o dia sem comer.

Ao final do dia, quando a minha mãe chegou a casa, eu disse que tinha passado o dia todo extremamente mal disposta e que foi por isso que não conseguia comer. Ela obrigou-me a levantar da cama e a ir para mesa para comer um bocado sopa. Sentada à mesa, quase que desmaiei. O meu pai deitou-me no sofá e eu deixei de sentir o meu corpo do pescoço para baixo.

Acho que ninguém devia de sentir tamanha aflição. Poderem ouvir e ver as pessoas à vossa volta mas passar-vos completamente ao lado porque vocês não conseguem sentir nada do pescoço para baixo. Foi como se eu não tivesse braços, mãos, tronco, pernas e pés. Foi horrível.

Fui imediatamente para o hospital. Tive um mini choque hipovolêmico devido à severa desidratação e falta de açúcares no sangue. Em cima disso, vomitei a comida que não tinha no estômago. Tive de ficar internada durante a noite no hospital. A médica quando me veio ver de manhã e me veio apalpar o estômago disse à minha mãe que eu estava demasiado magra e que queria fazer uma consulta comigo.

Fui obrigada, por assim dizer, a engordar dez quilos. Engordei mais e hoje, quase com dezanove, não vos posso dizer que esteja satisfeita com o meu corpo. Mas já não sou obcecada nem tenho ataques de ansiedade cada vez que como.

Hoje já não tomo comprimidos nenhuns e já consigo dormir bem de noite. Claro que ainda tenho os meus momentos em que o bicho da ansiedade me ataca - acho que desse, nunca me vou ver livre - mas já estou muito melhor do que o que estava há três anos atrás.

E conto-vos agora isto tudo porquê? Porque eu não quero que hajam raparigas de quinze anos como eu fui. Eu quero tentar ser melhor e no processo, ajudar outros a sê-lo. Se existe alguém que lê este blog e que sofre algo parecido, saibam que o primeiro passo a dar é reconhecer que temos um problema. Eu não o fiz até ter ido parar ao hospital. Não cometam o mesmo erro. Não se deixem chegar a esse extremo ou a outros piores. Saibam procurar ajuda, mesmo quando sentem que ela não existe à vossa volta. Há sempre alguém que se preocupa com vocês, seja um pai ou uma mãe, uma amiga ou uma médica que vos diz se não engordarem dez quilos vos interna por tempo indeterminado. Há coisas na vida que nós não conseguimos evitar e depois há outras que conseguimos se estivermos dispostos a isso. Aprendam a viver bem com vocês e com o vosso corpo - eu sei que é difícil, é uma viagem complicada e vai haver sempre pequenos buracos no chão que vos vão fazer cair. Mas não deixem os outros ou vocês mesmos convencerem-vos de que vocês são seres humanos horríveis, feios, gordos.

Porque a verdade é que como mulheres, principalmente (e digo isto porque sei que também há homens que sofrem deste tipo de coisas) mas como mulher que sou, eu sei o quão difícil é não termos aquela tendência para nos comparar-mos às outras. Eu nunca vou ter o corpo perfeito, eu nunca vou ser escanzelada, eu nunca vou ter um rabo pequeno ou umas ancas estreitas. Eu sou uma mulher de ombros largos, ancas largas e rabo grande. Não há nada a fazer quanto a isso, a não ser que comece a partir ossos.

Mas eu posso escolher ser saudável em vez de ser magra. E também posso ser magra e ser saúdavel, porque todos temos um metabolismo diferente e mesmo aquelas pessoas muito magras, são pessoas saúdaveis se quiserem. Eu posso comer bem sem obcecar com cada caloria que ponho no meu corpo ou com cada coisa que como. Eu posso fazer desporto para me ajudar com a minha ansiedade e para me manter activa, e não porque quero perder os mais de dez quilos que ganhei.

Hoje tenho um 1,67 - mais coisa menos coisa - e não peso 50 quilos, nem 55 nem 60. Quero voltar a ganhar músculo e resistência. Mas não quero voltar a ser a pessoa obcecada que era. Quero ser saudável e sentir-me bem comigo mesma, com as minhas imperfeições todas. Porque elas fazem parte de mim e por muito que nos digam que ter celulite é feio ou que ter um rabo gordo é feio, eu digo que ser feio é chamar feio a algo tão natural como as imperfeições do nosso corpo.

Acho que a Jéssica não podia estar mais correcta - Não queiras ser perfeita, mas faz o melhor para ti. E onde é que o melhor para quem quer que seja é passar fome ou passar uma noite no hospital a soro por andar obcecada com o seu corpo?

Façam o melhor para vocês, para a vossa alma, para a vossa mente e para o vosso corpo. Aprendam que, assim como a vossa existência não pode ter um preço, em moedas ou notas, também não pode valer apenas os números na balança ou as estrias e celulite que têm. 

Aprendam a fazer o melhor por vocês.

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