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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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O amor à escrita (ou a falta dele)

Penso que vos escrevo pela primeira vez em quatro meses, se as minhas contas estiverem correctas. Acho que esta foi a primeira vez que passei tanto tempo, pelo menos seguido, sem sequer pensar no blog, quanto mais escrever nele.

A minha relação com a escrita, ao longo dos últimos três anos, mudou imenso. Antes de mudar de país e antes de estudar Escrita Criativa, o meu amor pelas letras era tanto que, por vezes, não cabia na página. Era o meu refúgio, este blog. Escrever trazia-me conforto e ler os vossos comentários, muitos ou poucos, trazia-me uma sensação de paz à alma que ainda hoje, não consigo explicar. Não me lembro ao certo quando é que este amor pela escrita começou, mas já lá vão muitos anos, isso sei. Nas relações, sejam elas amorosas ou outro tipo qualquer, há sempre altos e baixos. Por vezes, se a relação já dura à muito tempo, podemos chegar a uma altura em que começamos a sentir que talvez o amor esteja a desaparecer. Se calhar encontrámos algo novo ao qual amar, ou então, pura e simplesmente, a relação já não funciona. A minha relação com a escrita é um bocado assim...especialmente nestes últimos três anos, o meu amor pela escrita mudou. Não consigo ainda dizer; admitir que desvaneceu, então prefiro dizer que mudou; alterou-se. Deixou de ser um amor e passou a ser uma obrigação, quase. Algo que eu antes fazia com prazer, sem pensar duas ou três ou quatro vezes antes de o fazer, tornou-se numa tarefa penosa e que me trouxe muitas dores de cabeça.

Uma pessoa minha amiga, que canta e toca e é super talentosa, disse-me agora à pouco tempo que quando as pessoas criativas são limitadas e obrigadas a dirigir a sua criatividade exclusivamente para o seu curso, que isso suga a criatividade toda delas e, por consequente, o amor que elas tinham à sua arte. Esta minha amiga desistiu do curso de música no final do primeiro ano dela. Acabou agora de gravar o seu primeiro EP com artistas britânicos de renome e escreve, todos os dias, canções para o futuro. Eu acabei este ano o meu curso de Escrita Criativa e Jornalismo e sinto-me...vazia. Vazia daquela paixão, daquela garra, daquela vontade que eu tinha há anos atrás. Escrever tornou-se numa tarefa penosa, como já disse, e agora associada a ela estão medos e inseguranças e até traumas que eu não tinha antes de fazer o meu curso.

Não consigo afirmar que já não gosto de escrever. Mas a verdade é que já não o faço. Já não escrevo e já não quero escrever mais. Durante estes três anos escrevi tanto...e no entanto é como se não tivesse escrito nada. Tenho tanto guardado dentro de mim mas já não tenho forma de o expressar. Nunca me considerei uma bela escritora, poetisa, J.K. Rowling...mas tinha amor à minha arte e não tinha receio dela. Agora tenho um medo de escrever que nem vos conto. Escrever este texto está a ser muito complicado...as minhas mãos tremem, a minha mente está cheia de coisas por dizer, coisas por explicar, novidades para contar... e no entanto tenho um nó na garganta e os olhos a arder. 

Não conseguem acreditar? Eu também não... Sempre pensei que o amor da minha vida era a escrita. Lembro-me de o dizer e de o escrever vezes sem conta. Não sei quando é que as coisas mudaram. Mas mudaram e não sei como recuperar aquilo que fui perdendo, pouco a pouco, ao longo destes anos. Ter feito este curso destruiu-me. Não só como escritora, mas também como pessoa. Não trago nada de bom dele. Custa admitir esta merda, depois de três anos passados a estudar, três anos que me trouxeram uma dívida enorme para a vida inteira. Custa mesmo. Mas a verdade está aqui, agora, para quem ainda estiver ai, do outro lado, a ver, a ler. Não vos culpo se já não estiverem. Se tiverem desistido de mim, tal como eu desisti de mim mesma.

Chego ao fim deste percurso convencida de que, se calhar, isto não é mesmo para mim. Se calhar não era para ser. E se não é para ser não será. Tentei forçar-me, ao longo deste tempo todo, a vir aqui, a manter aquela vontade acessa. Tentei o melhor que pude mas falhei e isso é claro. Acho que com este texto, quero pedir desculpa...não a vocês, mas a mim própria. À menina de quinze anos que começou este blog com a intenção de se tornar numa escritora famosa e bem sucedida, ou numa jornalista de renome.

A ela, peço desculpa. Falhei-te. Contudo, não consigo virar costas a isto por completo. Não consigo simplesmente admitir que já não gosto de escrever e não consigo dizer que vou deixar de o fazer, para sempre. Talvez agora que acabei o curso, com tempo, aquele amor que outrora eu nutria pela arte de escrever regresse. Devagar, quem sabe, talvez. Apesar de tudo, não consigo largar por completo. No último ano larguei tanta coisa...deixei tanta coisa e tanta pessoa para trás que, por essa razão, penso não ser capaz de largar isto por completo. Ainda aqui estou. Apesar de tudo o que acabei de escrever, ainda aqui vim e ainda escrevi este texto. Talvez seja teimosia, o não querer abdicar também disto, deste espaço, deste bocado de mim, como tenho vindo a abdicar de tanta outra coisa no último ano.

Talvez seja teimosia...ou talvez seja amor.