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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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02
Fev14

Nunca mais voltaria

alex

"Por favor volta...Não me deixes assim com o coração nas mãos, com as lágrimas a escorrem-me pela cara. Não me deixes assim desamparado, sem saber como respirar, como me mover, como falar, como sentir... Não me deixes sem vida. Não me deixes..."

Reli aquela mensagem uma e outra vez. Talvez o melhor a fazer fosse mudar de número. Como aquela haviam muitas outras. Umas pediam desculpa, outras pediam perdão, outras diziam para eu voltar. Elas chegam diariamente há já uns três dias e não sei o que mais posso fazer para que ele perceba que eu não lhe vou responder.

Voltar não era opção. Sair e fechar a porta atrás de mim foi das coisas mais difíceis que tive de fazer em toda a minha vida. Martirizei-me durante muito tempo, dizendo para mim mesma que estava a ser egoísta, que estava a errar. Mas hoje via que não. Hoje sabia que estava apenas a fazer algo que ele nunca fez: a dar valor. A dar valor a mim mesma. Ele nunca me deu valor. Tomava-me como garantida, como se eu fosse um daqueles bonecos que compramos numa feira popular. Quando o vemos gostamos tanto dele que fazemos tudo para o ter. Ganhamos o jogo e levamos o boneco para casa. Brincamos com ele, abraçamo-lo, damos-lhe um nome e fazemos-lhe promessas infinitas. Mas depois o boneco perde a piada e deixamo-lo na cama por fazer, meio desamparado a olhar para o tecto e a perguntar-se onde raio é que errou. Abandona-se o boneco e durante uns tempos nem se pensa nele. O boneco sofre, sozinho, desamparado durante dias e dias a fio. Uma certa noite lembramo-nos da existência do boneco. Ali está ele, exactamente no mesmo sítio onde o deixamos, debaixo das cobertas da cama que nunca é feita. Nessa noite sentimo-nos sozinhos, a nossa vida não nos corre bem e por isso, voltamos a agarrar-nos ao boneco como se ele fosse a nossa âncora.

O que não sabemos é que esse boneco já não é o mesmo que deixamos para trás. Está diferente, alterado, desfeito com o peso das nossas acções. O que não tomamos em consideração é que o boneco passou todo aquele tempo debaixo das cobertas a sofrer, a perder dias de vida, como se a mesma lhe fosse arrancada à força do seu peito. Tudo isto enquanto nós continuamos a viver a nossa vida sem ele, como se nada fosse. O que nos dá o direito de voltar, tanto tempo depois, apenas para nos aproveitarmos do coração magoado de um pobre boneco?

Era isto que eu tinha vontade de lhe dizer, como resposta a todas as suas estúpidas mensagens.

Onde estavas tu quando era preciso? Por que estradas deambulavas quando a minha estava deserta sem ti, sem a luz do teu sorriso ou o som da tua sonora gargalhada? Onde estavas tu quando eu estava debaixo das cobertas da cama por fazer, sozinha, desamparada, sem vida, sem amor, teu ou meu, sem nada?

Onde estavas tu?

Fechei a porta do meu apartamento à chave. O telemóvel estava no bolso do meu casaco. Desci as escadas a correr e assim que cheguei à rua, a forte brisa de Inverno encheu o meu peito, dando-me forças para fazer aquilo que já devia estar feito.

Avancei na direcção do caixote do lixo. Tirei o cartão do telemóvel e deitei-o no contentor. Fechei os olhos. Fechei o coração.

Fechei-me a ele, ele que nunca me soube valorizar, que nunca me soube estimar, que nunca me soube amar.

Fechei a porta e tranquei-a à chave. A chave perdia-a.

Nunca mais voltaria.

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