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porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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29
Jan14

Melodias

alex

A música tocava tão alto que toda a gente por quem passava na rua ficava a olhar para ela. Perguntavam-se: "Como é que ela aguenta com aquela música tão alta a tocar nos ouvidos?". Mas ela não se importava. Caminhava confiante, de phones nos ouvidos, de sorriso na cara e de queixo erguido. A música revigorava a sua mente, o seu corpo, a sua alma. Ouvi-a alta porque lhe bloqueava os pensamentos. Aqueles pensamentos só seus, que divergiam pelos mais variados assuntos... mas que iam sempre parar a ele. Por isso a sua única cura era a música. Fazia-se acompanhar dela para todo o lado. Durante meses e meses foi a sua melhor amiga. Deu-lhe conforto, confiança, partilhou consigo palavras de incentivo, conselhos, palavras mais tristes e outras mais alegres. Foi a sua companheira. Naquele dia não era diferente. 

Quando chegou ao emprego a primeira coisa que fez foi ligar o aquecedor do seu escritório. O seu novo escritório, no seu novo local de emprego. Sentou-se na poltrona preta e passou as mãos suavemente pelo tampo da mesa de madeira, como se fosse um animal felpudo, e sentiu a suavidade da madeira nova contra a palma das suas mãos. Sorriu e respirou fundo. Recostou-se na cadeira e pensou que a vida dá muitas voltas.

Quem diria que este dia iria chegar. Quem diria que ela, estaria sentada num escritório novinho em folha, a fazer aquilo que mais gosta e a ser paga por isso? A ler histórias inventadas por outros, a descobrir novos mundos, a conhecer novas pessoas... Trabalhar numa editora sempre foi o seu sonho. E agora tinha-o alcançado. Nunca pensaria ela, há uns meses atrás, que naquele momento se encontraria ali, feliz, empregada e solteira.

Durante meses pensou que a sua vida iria ser passada a chorar por tudo aquilo que perdera, por tudo aquilo que lhe tiraram, por tudo aquilo que lhe negaram. Durante meses sentou-se no sofá da sua sala, de pijama a ver filmes deprimentes e a limpar as lágrimas com todos os lenços de papel existentes em casa. Durante meses sentiu que não havia saída, que não havia esperança, que não havia...nada. Que a sua vida sem ele se resumia a isso: a nada.

Mas depois encontrou a música. A música que mudou a sua vida. Nunca mais ela foi a mesma. Um dia, numa manhã solarenga de Outubro, o seu rádio decidiu ligar-se espontaneamente e começar a tocar uma melodia linda. Sem letra, sem uma voz por detrás a cantar, apenas uma melodia. Tocou-lhe no coração, fê-la arrepiar-se e parar de respirar durante um mero segundo. Não sabia se tinha sido o rádio que estava a dar as últimas, ou se tinha sido o Universo a dizer-lhe a alto e bom som: está na altura de voltares a viver a tua vida. Mas a partir daquele dia, tudo mudou.

Deixou o seu apartamento que tinha partilhado com ele e mudou-se para o centro da cidade, onde a vida era agitada e alegre. Tentou dar um rumo à sua vida profissional. Enviou currículos, insistiu, persistiu e um dia conseguiu o lugar que hoje ocupava, sentada naquela cadeira. Mudou, tudo graças a uma melodia. Não lhe perguntem como, ela não sabe responder. Apenas sabe que aquela melodia foi a sua brisa de ar fresco, que a varreu para longe de um passado que a destruía e a empurrou para um futuro que a aguardava já há muito, de braços abertos e sorriso radiante. 

Futuro que era hoje o seu presente. Essa é a beleza da Vida... quando achamos que o nosso presente não irá mudar, quando acreditamos piamente que o nosso futuro vai ser igual ao dia que vivemos hoje e que tanto desprezamos... Algo muda. Dentro de nós, algo que nos faz mexer. Porque esse presente em que vivemos, um presente triste, deprimente e desgastante, não passará disso a não ser que façamos algo em relação a ele.

Podemos ter sorte, como ela, e ouvir um dia deste uma melodia que nos faça mexer... Ou então podemos decidir fazê-lo nós, sozinhos. Porque é assim esta Vida. Podemos ter apoio dos nossos, mas quem comanda a nossa Vida somos nós. Podemos sempre ter aquele alguém especial no lugar do passageiro, mas quem tem o volante nas mãos, somos sempre nós. 

Ela teve mais sorte. A melodia veio ter com ela. Outros... tem de ir ter com a melodia.

De uma forma ou de outra... todos a podemos encontrar e todos podemos dar um novo rumo à nossa Vida e enchê-la de novas melodias, mais alegres, mais esperançosas mais... Vivas.

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