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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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09
Ago14

Home Sweet Home

alex

Um dos grandes problemas aqui em casa é a falta de comunicação entre os três adultos - eu e os meus pais. Desde pequena que fui ensinada a retrair as minhas emoções, pensamentos, opiniões. Desde pequena que me ensinaram que chorar é para os fracos - e nós não somos gente fraca.

Lembro-me de ter à volta de seis anos, de estar de férias com a família em Sintra na nossa casa (que já não é nossa...) e de ver o meu primo, que é apenas um ano e meio mais velho do que eu, a comer um hamburguês no pão. Então eu também quis comer um hambúrguer no pão. Os meus pais avisaram-me de que eu não ia conseguir comer o hambúrguer todo, mas desde pequena que sou teimosa e quando meto algo na cabeça, não há quem me demova - mesmo que essa ideia seja eu, com apenas seis anos, comer um hambúrguer no pão.

Não consegui comer o hamburguer no pão todo e lembro-me de ser mandada para o quarto de castigo, durante o resto do dia, enquanto o meu primo foi brincar com os nossos amigos. Lembro-me do meu pai me gritar, cá de fora lá para dentro:

"Não quero ouvir nem um único choro! Se choras é pior!" - E eu não chorei. Engoli as lágrimas. Fiquei o dia todo naquele quarto velho, com um sol maravilhoso lá fora, tudo por causa de um hambúrguer. Ao fim do dia foi como se nada tivesse acontecido e fomos todos ao café - até me compraram um chupa chupa de morango e natas, o meu preferido até hoje.

Esta é das minhas primeiras memórias de sempre. E com isto não quero passar a imagem de que tenho pais horríveis e de que sou uma desgraçadinha - muito pelo contrário, sou todos os dias agradecida por ter a família que tenho.

No entanto, esta pequena história serve apenas para demonstrar que desde que me lembro que não falamos sobre as coisas. Se alguém se chateia com alguém, grita-se, há murros na mesa de pedra da sala (como hoje), há choro reprimido (normalmente meu) e muita tensão no ar que nem com um machado se cortava. É isso que me incomoda mais, a tensão horrível que se instala depois das discussões, normalmente estúpidas e insignificantes. O meu pai é como eu - acumula e acumula e depois tem de explodir, nem que seja por haver uma migalha no chão. A minha mãe é diferente e acho que também sou um pouco como ela - ela reprime as suas emoções por completo, mas no que toca a estar zangada ou frustrada...digamos que se percebe a um quilómetro de distância, no entanto age de forma fria e distante para com a pessoa.

O problema com a falta de comunicação é que a tensão é muita e varrer o lixo para debaixo do tapete, eventualmente, vai deixar de resultar. Tenho varrido lixo para debaixo do tapete ao longo de dezoito anos e deixem-me que vos diga - às vezes, o lixo é tanto que acabamos por tropeçar nele. Acho que esta é uma das várias razões pela qual, desde cedo, sempre foi um dos meus muitos sonhos ter uma casa só para mim. Porque se eu tiver uma casa só para mim, não vou ter de lidar com as discussões de um casal que não sou eu e o meu (não-existente) namorado. Porque se eu tiver uma casa só para mim, não vou ter de lidar com os meus pais a chatearem-se comigo por eu ter gritado com a minha irmã, por ela estar a "espiar-me".

Outro grande problema é esse. Eu adoro a minha irmã, do fundo do meu coração - mas ser irmã mais velha é muito complicado, especialmente para mim que já fui mais mãe dela a certa ponto do que irmã. Eu e a minha irmã temos nove anos de diferença e é muito complicado estar completamente à vontade no meu próprio quarto quando tenho uma criança de nove anos a aparecer de surra por detrás de mim, só para ver o que eu estou a escrevinhar no computador. Há coisas que são privadas, que não publico em lado algum, que nunca ninguém leu e a minha irmã já sabe ler e muitas vezes, ela entra aqui de surra para ver o que eu estou a escrever e eu fico furiosa (entre um monte de outras coisas que ela faz que me deixam nesse estado). 

Apesar de ter a minha liberdade, sinto que às vezes não a tenho completamente - sinto uma grande responsabilidade para com ela, como se fosse meu dever ser mais que sua irmã, como fui há dois anos atrás. 

Apesar de gostar imenso da minha família, do meu quarto... sinto cada vez mais a necessidade de ter o meu espaço, a minha vida, longe daqui. Sem ter de ligar para o pai ou para a mãe cada vez que quero sair e avisá-los de que vou sair e para onde vou e com quem vou; sem ter de cancelar planos por causa da minha irmã; sem ter de fazer a minha vida com base na vida de outros.

Quero, acima de tudo, poder ter uma casa minha para poder lá enfiar os gatos todos que quiser... - estou a brincar! (mais ou menos...)

 

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