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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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28
Jun18

Fora da caixa


alex

Eu percebo. Percebo o porquê de as pessoas à minha volta não perceberem. Já levei tanto na cabeça nestes últimos meses que se não percebesse, era um bocado crítico. Tão crítico quanto as pessoas, depois de eu já lhes ter explicado tantas vezes o porquê, ainda não perceberem. 

Ora se eu as percebo a elas, porque é que elas não me percebem a mim?

Não vou à minha cerimónia de graduação. Ou como diríamos aí em Portugal, Queima das Fitas. Aqui a coisa é simplesmente uma versão barata das cerimónias que se fazem nos Estados Unidos quando a malta acaba os cursos, com as capas e os chapéus que toda a gente atira ao ar para a bonita da fotografia. A minha é já daqui a 2 semanas e eu não vou lá estar. Não devia ter de me justificar a ninguém a não ser à minha família e amigos próximos. Mas toda a gente pede justificações da minha pessoa. E eu vivo frustrada com isto. Porque eu apresento as minhas razões e é a mesma coisa como se tivesse ficado calada. Eu sou uma mulher crescidinha. Ainda com muito para crescer, mas já tomo as minhas decisões, sozinha, há quatro anos. Não foi uma decisão que tomei de um dia para o outro. Passei meses a ponderar, a dizer a mim mesma que ia e a dizer depois que não ia. A ouvir a opinião deste, a opinião daquele. Depois de já me ter convencido a ir, contra vontade sou sincera, por acasos da vida, os meus pais viram-se na impossibilidade de virem até cá e estarem presentes nesse dia que todos juram a pés juntos ser o dia mais importante das nossas vidas. E voltei à estaca zero. Mais uns dias de vou, não vou. Quero, não quero...

Hoje não perco mais sono por causa disso. A decisão está tomada e já não há volta atrás. O prazo para reservar o meu lugar na cerimónia já passou e eu não o reservei. Eu estou de consciência tranquila quanto à minha escolha. Os outros é que parece que não. E eu, que digo e volto a dizer que o que os outros dizem não interessa e não nos deve pesar nos ombros, sou atraiçoada pelas minhas próprias palavras quando me vejo numa discussão bem acessa em pleno local de trabalho, com uma colega minha, sobre este mesmo assunto. Ai já importa. Quando alguém, de quem nem sou assim tão próxima, se acha no direito de me questionar, a mim e às minhas escolhas da forma como ela questionou, já importa o que os outros dizem.

Eu não vou por várias razões. Uma delas, e das grandes, é que não vejo sentido em ir se não posso partilhar esse dia com as pessoas que mais amo neste mundo, as pessoas que sempre me apoiaram. "Mas é por elas que devias ir na mesma". Não. Era por elas que ia; é por mim que não vou. Fotografias para mim são só recibos e esses, eu deito fora assim que saio das lojas. "Vais-te arrepender, daqui a dez anos quando quiseres ver fotos tuas com a tua capa e o teu chapéu e não as tiveres." Só quem me conhece mal é que diz isto e usa este argumento contra mim. Claro que é giro olhar para fotografias do passado e recordar. Só que eu não o faço. Juro que não tenho essa necessidade, mas compreendo quem a tenha. "Mas é o dia mais importante da tua vida, andaste três anos a estudar para poderes celebrar neste dia!" No meu caso, não há nada para celebrar e essa, é outra das grandes razões pela qual a decisão final foi a de não ir. 

Eu não trago nada deste curso. Nadinha de nada. Não trago boas memórias, não trago bons amigos, não trago bons professores, não trago lições de vida. Nada. Sabem o que eu tenho destes três anos? Lágrimas, dor, frustração, dissabores. O tempo que eu passei naquela Universidade, ao todo, deve equivaler a apenas um ano completo. Foram mais os dias em que não pus lá os pés do que os em que me decidi a aparecer. Nem sei como é que me deixaram terminar o curso, para ser sincera. E não sei como raios consegui ter as boas notas que tive. Só eu é que sei. O quanto esta experiência universitária para mim valeu. Valeu nada, zero malta. Desculpem se vos desiludi e se não me encaixo na grande maioria que adorou a sua experiência universitária. Mas ao mesmo tempo, e com todo o respeito, eu não me podia estar mais a cagar. Porque maltinha, nós somos todos diferentes uns dos outros. E eu mudei muito, mas mesmo muito ao longo destes três anos. Eu não sou a miúda iludida que era quando tudo isto começou. Sou gozada por estar sempre a dizer isto, mas é a verdade. Eu não fui estudante. Eu fui trabalhadora que de vez em quando se lembrava de brincar às escolas. Sofri muito malta. E esse sofrimento é só meu. Como já referi noutro texto, este curso destruiu-me, a mim, à minha auto-estima e à minha arte. Pouco ou nada resta da miúda que queria ser escritora ou jornalista. A vida é mesmo assim e esta minha geração é a pior delas. Porque somos dados tantas possibilidades de fazermos e de sermos tanta coisa, e ao mesmo tempo somos ensinados desde miúdos que só podemos ser uma coisa, fazer uma coisa, sonhar uma coisa, que vivemos presos entre o dever e a obrigação. E o querer fica perdido. A vontade também. 

Vou para ali, gastar 100 libras em fatos e chapéus que vou usar durante 2 horas, receber um papel em branco (o diploma só o mandam para a nossa casa lá para meados de Setembro), rodeada de estranhos com quem não me identifico nem nunca me identifiquei, para quê exactamente? Para ter umas quantas fotografias para mostrar à malta do Facebook? Para poder postar no Instagram com uma caption toda lamechas? Meu deus. Só quem não me conhece mesmo usaria estes argumentos de merda para me convencer. Não há nada para celebrar. Vou celebrar, sim. Com os meus. Vou comer fora, vou beber, vou dançar, vou ser feliz perto de quem me interessa. 

Não tomei esta decisão para ser "hipster", para ser diferente dos outros, para ser do contra, para fazer alguém infeliz. Não. Eu tomei esta decisão com base na minha experiência e tendo em conta quais as minhas prioridades na vida, neste momento. Se calhar, à três anos atrás a minha prioridade era subir aquele palco, apertar a mão do Director e sorrir para a foto. Mas eu passei por tanto, eu cresci e mudei tanto, que as minhas prioridades mudaram. Os meus objectivos mudaram e os meus sonhos também. A vida é bonita é por isso mesmo, porque há sempre mudança, por muito subtil ou não que ela seja, ela está lá. 

Vou fazer o que raios eu bem quiser porque esta é a minha vida. Não é a tua, ou da Maria ou do Zé. A Maria e o Zé foram felizes na sua universidade e a cerimónia de graduação foi o dia mais importante da vida deles. O dia mais importante da minha vida já foi. Já tive tantos dias importantes na minha vida. O dia mais importante da minha vida ainda está para acontecer. E já houve muitos outros dias importantes na minha vida aos quais faltei. E sabem que mais?

Estou aqui. Estou viva. Estou finalmente feliz e em paz comigo. Não me fodam o juízo malta. Deixem-me estar. Eu estou tão feliz por me ter livrado destes últimos três anos. Tão aliviada. Mas eu não quero prolonga-los. Quero encerrar este capítulo da minha vida e começar a preparar-me para o próximo, seja ele qual for. Fiquem antes felizes por eu estar feliz. Não se preocupem se eu não vou ter fotos para as quais olhar daqui a dez, vinte, trinta anos. Não se preocupem se eu acordar um dia a chorar que nem uma Maria Madalena arrependida porque não fui à merda da cerimónia. 

Porque eu só estou preocupada se daqui a dez anos vou estar a sorrir como estou agora. Se vou ter as pessoas que amo e que tenho agora. Se vou ter rugas, as rugas preocupam-me imenso malta, não têm ideia... Então não me façam ter rugas antes dos vinte e cinco se faz favor. 

Eu estou de bem com a vida como já não estava à muito tempo. Para todos aqueles que me têm tentado estragar isso, vocês são uns tristes e dispenso a vossa preocupação, obrigada. Opinião, todos temos direito a tê-la, agora quando ultrapassam os limites e tentam forçar uma pessoa a fazer ou a ser algo que ela não quer, isso já não é ter uma opinião. Isso é como pôr a pessoa dentro de uma caixa e não deixa-la sair.

Eu estive dentro dessa caixa durante muito tempo. Agora estou fora dela. E assim pretendo permanecer. 

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