urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new Something New porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela LiveJournal / SAPO Blogs alex 2020-07-12T19:17:18Z urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:263090 2020-07-12T19:37:00 It's been a while... 2020-07-12T19:17:18Z 2020-07-12T19:17:18Z <p style="text-align: justify;">A semana passada, a m. perguntou-me se eu queria ir ao meu sítio favorito. Eu disse que era longe, que não queria obrigá-la a conduzir tanto tempo só por umas horas. Ela disse que não se importava.</p> <p style="text-align: justify;">Fomos. Um sítio que vai ser sempre especial para mim, porque considero que foi ali que vivi os melhores anos da minha vida. É para ali que quero voltar, um dia, de vez. Voltar ao sítio onde fomos felizes, seja onde for, é sempre como um raio de sol que surge por entre as nuvens negras que pairam sobre a nossa cabeça, especialmente durante esta altura em que parece que o mundo está sempre a cinzento.</p> <p style="text-align: justify;">A verdade é que estava a precisar de sair, de ir mais longe do que o escritório, do que o supermercado, do que o Mcdrive do McDonalds aqui da zona. Estava a precisar e no entanto, deixou-me sedenta de mais. Agora só penso em fugir para lá. Ficar lá, sem ninguém saber onde estou, sozinha. Muita coisa aconteceu estes últimos meses e eu acho que aconteceu tudo tão depressa e de forma tão inesperada, que eu não tive a capacidade de assimilar as emoções todas.</p> <p style="text-align: justify;">Então agora vivo com uma sensação estranha dentro de mim, todos os dias. De sentimentos acumulados, mal resolvidos, não expressados. De lágrimas por derramar, de palavras por dizer, de discussões por ter. Sentimentos de perda e receio de vir a perder mais ainda. Se há um ano atrás estava deprimida e de mal com a vida que levava, agora acho que estou só e apenas com muito medo. Medo que algo mais aconteça que venha estragar aquilo que aconteceu de bom este ano, que apesar de não ter sido muito, foi significativo.</p> <p style="text-align: justify;">Nem sei se estou a fazer sentido... Acho que estou a perder a capacidade de me exprimir até através da escrita. </p> <p style="text-align: justify;">Tem estado um calor sufocante. Contudo, o maior sufoco vem de dentro; de mim. E não há mar, nem pessoa, nem sítio que ajude. E eu só penso... o que mais virá a seguir.</p> <p class="sapomedia images"><img style="width: 374px; padding: 10px; display: block; margin-left: auto; margin-right: auto;" title="WhatsApp Image 2020-07-03 at 21.27.22.jpeg" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5918561d/21858158_rjSr4.jpeg" alt="WhatsApp Image 2020-07-03 at 21.27.22.jpeg" width="374" height="720" /></p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:262531 2020-05-26T21:49:00 Um apanhado... 2020-05-26T21:49:37Z 2020-05-26T21:49:37Z <p style="text-align: justify;">Chegou o calor e eu, já pouco habituada a temperaturas tão altas, dou-me por satisfeita por poder continuar a trabalhar por casa (por um lado). A minha mãe tem chegado todos os dias a casa a queixar-se do calor infernal que se vive nos transportes públicos, sem ar condicionado, com máscara e as temperaturas elevadas.</p> <p style="text-align: justify;">Mas tem de ser.</p> <p style="text-align: justify;">Sinto que ultimamente não tenho partilhado muito, com ninguém na verdade. Por um lado, prefiro assim. Por outro, sinto que devo falar, dizer, exprimir.</p> <p style="text-align: justify;">Acho que não cheguei a mencionar aqui, pelo menos não de forma explícita, mas a verdade é que consegui um estágio na minha área. Por isso, a semana é passada agarrada ao computador, a escrever para o jornal, e os fins de semana são passados ora a conviver com a família, ou a fazer pulseiras (uma actividade que fazia há uns tempos que retomei durante esta altura de isolamento) ou simplesmente a ler, ver séries ou a ouvir música.</p> <p style="text-align: justify;">Coisas simples, mundanas, mas que me têm ajudado a manter a cabeça no lugar certo. </p> <p style="text-align: justify;">Recentemente deixei também de me agarrar a falsas esperanças. A falsas relações. A falsos futuros e falsas promessas. </p> <p style="text-align: justify;">Pintei finalmente o meu quarto e já não me sinto presa no espaço da menina de 13 anos que outrora fui. Três paredes pintadas de branco e uma de Azul Maldivas.</p> <p style="text-align: justify;">Não sei se escolhi a cor consciente do nome da mesma, ou não, mas a verdade é que agora as Maldivas nunca mais vão ter a mesma banalidade que tinham dantes. Mas isso é uma outra história.</p> <p style="text-align: justify;">No domingo completei 24 anos e fui ao parque. Deitei-me na relva, comi pizza e fui mordida por melgas, mas já não me sentia tão... plena há imenso tempo. A minha mãe fez um bolo brigadeiro vegan, com morangos e cobertura de chocolate, e eu adorei. Eu, que sou uma pessoa que até nem gosta de coisas com muito chocolate, este ano o meu bolo de aniversário foi esse e eu deliciei-me.</p> <p style="text-align: justify;">Tenho pensado sobre onde estava à um ano atrás. Completamente exausta, constantemente infeliz, incompleta. Todos os dias acordava e só conseguia pensar no quanto não queria acordar. A começar o mesmo trabalho mas numa loja diferente, porque me lixaram bem lixada na empresa onde estive quatro anos.</p> <p style="text-align: justify;">Revoltada, a sentir-me traída, amarga, rancorosa de tal forma que me tornei numa pessoa que não reconhecia quando me olhava ao espelho. A querer regressar mas com medo, receio, sentimento de culpa...</p> <p style="text-align: justify;">Um ano depois, e estive no parque que fica na rua abaixo da minha escola básica, com os meus dois amigos mais antigos, que andaram comigo na mesma escola básica. A comer, a falar, simplesmente... a viver. A aproveitar o fim de semana, que agora que trabalho na minha área, num horário de "pessoa normal", me parece sempre muito curto.</p> <p style="text-align: justify;">Ainda tenho dias maus. Claro que sim. Mas já não respiro só para dizer que o faço. Já não abro os olhos só por abrir. Já não rio só porque tenho de esconder as lágrimas. Já não choro com saudades de uma vida que nunca tive. Tenho saudades ainda, mas é uma saudade diferente. É uma saudade boa, da vida que tive nos últimos cinco anos, que teve muitas aventuras, muitas lombas, muitas pessoas boas e más... É uma saudade que não deixa um sentimento de amargura.</p> <p style="text-align: justify;">Voltei a fazer exercício de forma regular e agora que as lojas estão lentamente a retomar a actividade, vou ver se consigo ir comprar um par de ténis para começar a correr ao ar livre, visto que o tempo está bom para isso.</p> <p style="text-align: justify;">Se tiver férias, talvez vá uns dias para a terra dos meus avós. Quero muito passar algum tempo na natureza, sem computadores, sem muita rede ou internet, na piscina a ler um bom livro, a colher frutas, a regar as flores e a fazer os bolos que a minha avó infelizmente já não consegue fazer. </p> <p style="text-align: justify;">Ao contrário de muitos, que já foram molhar os pés à praia, eu não faço questão de ir tão cedo. Apesar de querer muito, não acho prudente e como, neste caso, cada um sabe de si, prefiro arranjar outras formas de aproveitar o regresso à nova normalidade.</p> <p style="text-align: justify;">Antes da pandemia, andava entre consultas com a médica de família e marcação de exames médicos para tentar perceber se tenho de facto algum problema a nível hormonal, ou nos ovários. Quatro meses depois da última consulta, os exames foram remarcados e a consulta com um especialista está também ela marcada. Não há-de ser nada grave.</p> <p style="text-align: justify;">Estou a pensar se deva cortar o cabelo outra vez ou não. O objectivo era deixá-lo crescer este ano, mas com este calor não sei se vou conseguir...</p> <p style="text-align: justify;">E é isto... de forma muito resumida, se calhar até pouco íntima, fica aqui um apanhado das coisas que têm acontecido ultimamente na minha vida, dos meus pensamentos, dos meus sentimentos. </p> <p style="text-align: justify;">E com tudo isto, já estamos quase em junho. </p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:262262 2020-05-17T20:27:00 Só um bocadinho 2020-05-17T19:59:21Z 2020-05-17T19:59:21Z <p style="text-align: justify;">No próximo domingo faço 24 anos. </p> <p style="text-align: justify;">A verdade é que nunca fui uma pessoa que dá muita importância ao seu dia de anos. Talvez porque, quando era mais nova, os meus pais faziam questão de organizar festas com toda a família e amigos da família, e eu que detestava (e ainda detesto) ser o centro das atenções, fiquei como que "vacinada". Tive sorte de todos os anos festejar de forma alegre e divertida os meus anos. </p> <p style="text-align: justify;">Contudo, à medida que fui crescendo, foi perdendo a importância. Muitas das coisas que fazíamos em criança perdem a magia quando crescemos. É mesmo assim. Mas no meu caso, eu nunca gostei de ter um dia em que todos os olhos estavam postos em mim. Em que os abraços e os beijinhos eram todos para mim. Em que tinha de abrir presentes dados por pessoas que pouco ou nada conheciam os meus gostos, e fingir que gostava deles. Não sendo uma pessoa materialista, nunca gostei muito de receber prendas. Deixa-me desconfortável, toda a atenção que me é dada no meu dia. Por ser isso mesmo: o meu dia.</p> <p style="text-align: justify;">O ano passado, no dia dos meus anos, foi o meu primeiro dia de trabalho numa nova empresa, numa nova loja depois de quatro anos a trabalhar para a mesma empresa antes disso. Não disse a ninguém que era o meu dia de anos, porque lá está, odeio ser o centro das atenções e ainda para mais, era o meu primeiro dia. Não conhecia aquela gente de lado nenhum e já todos sabem o quão pouco eu me consigo dar a estranhos. </p> <p style="text-align: justify;">Já não sei porquê, comentei com uma das raparigas que tinha de ir comprar um bolo à M&S antes de ir para casa. E daí ela perguntou quem fazia anos, e eu respondi que era eu e pronto. Espalhou-se pela equipa e lembro-me como se fosse hoje. "Porque é que não nos disseste?" E eu, a querer esconder-me num canto, já nervosa por ser o meu primeiro dia de trabalho num sítio novo, ainda para mais com toda a gente a dar-me os parabéns. Mas foi nesse dia que senti que há uma obrigação enorme de celebrarmos os nossos anos e, para além disso, partilharmos com os outros. Mesmo com estranhos.</p> <p style="text-align: justify;">Contudo, este ano pensei que tinha de celebrar. Porque é o primeiro em que estou de regresso a casa, a sério, depois de alguns anos fora, porque havia outras coisas combinadas para a mesma altura que encaixavam mesmo bem com uma celebração maior e diferente e ... bom, já todos sabemos como é que isso ficou não é?</p> <p style="text-align: justify;">O tal senhor vírus veio e disse: e que tal continuares a ser a gaja que não dá um centavo pelo festejo do seu aniversário? E eu, que remédio, tenho de dizer que sim. Por incrível que pareça, até para mim mesma, estou um bocadinho triste. Não só por isto, mas porque tinha várias coisas giras e divertidas agendadas para este mês de Maio, que sempre foi o meu favorito (não por ser o mês dos meus anos), e agora... bom. Já se sabe, não me quero repetir.</p> <p style="text-align: justify;">Enfim. Não sei bem onde quero chegar com tudo isto. Acho que a lado nenhum. Não me sinto bem ao escrever tudo isto, como que a lamentar-me, quando há problemas muito maiores no mundo e pessoas a passar muito mal por causa desta pandemia. Mas não sei. Acho que também tenho direito aos meus momentos de egoísmo. E ultimamente, tenho-me permitido ser um pouco mais egoísta. Porque ser altruísta cansa muito e deixa muitas feridas que ardem e doem, durante muito tempo.</p> <p style="text-align: justify;">Por isso hoje, deixem-me estar triste. Esta semana, deixem-me estar desapontada. Este mês, deixem-me chorar por tudo o que já perdi e pelo que ainda vou perder.</p> <p style="text-align: justify;">Só um bocadinho.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:262025 2020-05-05T19:06:00 Devaneio do dia 2020-05-05T19:01:47Z 2020-05-07T15:03:02Z <p style="text-align: justify;">E é na ausência constante de algo ou alguém que se cria o hábito de sentir saudade já sem a estranhar.</p> <p style="text-align: justify;">Contudo, o facto de nos habituarmos não significa que doa mais ou menos.</p> <p style="text-align: justify;">E é isto. Por hoje, é só isto.</p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:261670 2020-04-26T22:01:00 Say something 2020-04-26T23:16:36Z 2020-04-26T23:16:36Z <p style="text-align: justify;">Muitas são as vezes em que encontro conforto no silêncio.</p> <p style="text-align: justify;">Mas este silêncio é sufocante. Extenuante. Doloroso até.</p> <p style="text-align: justify;">Eu sabia. Há quase um ano atrás, eu já sabia. Porque eu atraio este tipo de pessoas. É como se toda eu fosse feita de metal, e os ímanes colam-se a mim com uma força enorme. Eu sabia e por isso não abri a porta. Mas sem eu dar conta, sem eu me aperceber, foste abrindo a porta aos poucos. E quando dei por ti, já estavas para lá da porta aberta. A porta abriu-se, tu entraste, eu fechei-a e tranquei-te cá dentro. Tudo isto sem eu dar por isso.</p> <p style="text-align: justify;">E agora? O silêncio reina nesta casa. Neste quarto. Não saíste, porque eu não o permiti. Mas ficaste em silêncio, e isso é muito pior. Não fazes ideia. Nenhuma.</p> <p style="text-align: justify;">Quero gritar. Dizer algo. Quero que me oiças. Quero ouvir-te. Acima de tudo, quero algo mais do que este silêncio ensurdecedor que dura já há algum tempo.</p> <p style="text-align: justify;">Vagueio. Entre pensamentos de quem te ressente, mas ao mesmo tempo, te respeita. Entre pensamentos de quem tem saudades tuas, mas ao mesmo tempo, te culpa. Entre pensamentos de quem te percebe, mas ao mesmo tempo, não consegue perceber. Há dias em que a mais pequena coisa me faz pensar em ti. Outros, em que nada faz, mas mesmo assim, surges em pequenos momentos que são agora cada mais escassos mas cada vez mais penosos.</p> <p style="text-align: justify;">O silêncio que outrora me confortava, hoje assusta-me. Preocupa-me. E acima de tudo, magoa-me.</p> <p style="text-align: justify;">Porque no silêncio as incertezas crescem, o tempo afasta-nos e a porta...destranca-se. A chave? Não sei dela. Tal e qual como entraste, sem eu dar conta, vais agora também saindo. Mas agora vejo, cada passo teu, em direcção à porta. Atravessas para o outro lado. Não vou fechar a porta, ainda, só no caso...na possibilidade de...</p> <p style="text-align: justify;">Mas o tempo vai continuar a passar. E se não disseres nada entretanto, não me restará nada sem ser o silêncio que me faz querer fechar a porta e tranca-la a sete chaves. Para que nunca mais ninguém, e muito menos tu, volte a entrar.</p> <p style="text-align: justify;">E no silêncio em que me deixaste, só peço...não me faças fechar a porta.</p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:261453 2020-04-19T11:40:00 Count your blessings 2020-04-19T11:16:14Z 2020-04-19T11:16:14Z <p style="text-align: justify;">Ontem, pela primeira vez em mais de um mês, vesti calças de ganga, calcei sapatos e sai de casa. Não se preocupem, as medidas de segurança foram todas seguidas à regra. Mas a verdade é que ontem não podia deixar de sair. </p> <p style="text-align: justify;">Foi o aniversário da minha avó e, mais uma vez, não o pude celebrar com ela. Quando decidi regressar a Portugal, pensei que 2020 seria o ano em que poderia recuperar tudo aquilo que perdi durante os quatro anos em que estive fora. Todos os aniversários a que faltei, todas as celebrações que não pude celebrar, todos os Verões em que não pude ir à praia, todos os almoços e jantares de família onde falamos dos tempos das vacas gordas e rimos com as histórias de outros tempos mais simples.</p> <p style="text-align: justify;">Recuperar todo o tempo que dispensei noutro sítio, com outras pessoas, noutra vida. 2020 era para ser esse ano. Mas a Vida teve outros planos e estamos na situação em que estamos. Contudo, não queria de todo que a minha avó se sentisse sozinha no seu dia de anos, nem eu, nem o resto da família. Então sai de casa. Estranhamente, o mundo lá fora permanece quase igual. Quase nem notamos as mudanças que esta pandemia trouxe. </p> <p style="text-align: justify;">Estava um dia lindo, o céu completamente limpo de qualquer nuvem negra, o sol tão quente que fiquei corada mesmo com a janela do carro a separar-nos. Não havia tantos carros na auto-estrada como seria de esperar a um sábado. Mas havia suficientes para dar uma sensação de normalidade, que não é a realidade. Ao chegar a casa da minha avó, viu-se as pessoas na rua, algumas com máscara e luvas, outras sem, a maioria delas vindas das compras, algumas paradas a socializar, com a distância necessária entre elas. Normal, mas estranho. Muito estranho.</p> <p style="text-align: justify;">E nós? Cá em baixo, todos longe uns dos outros, sem beijinhos nem abraços aquando saímos dos nossos carros, e a avó lá em cima da janela. Ainda bem que ela mora no primeiro andar, pensei eu a certa altura quando já me estava a começar a doer um bocadinho o pescoço. Um de nós foi lá acima entregar o bolo (com as devidas precauções) e durante um bocado fomos uma família outra vez. Sem nos tocarmos, sem nos beijarmos, sem estarmos sequer dentro de casa todos sentados à mesma mesa, falámos e rimos e fizemos um bocadinho de companhia à minha avó no seu dia especial.</p> <p style="text-align: justify;">Ela chorou. Eu queria muito chorar. Queria muito subir lá acima e dar-lhe um abraço apertado. Eu gosto de todos os meus avós, mas a minha avó paterna é mais do que minha avó. É minha amiga, minha confidente, minha tudo. Tenho uma ligação muito especial com ela, e se me perguntarem de quem tive mais saudades durante todo o tempo que estive fora no passado, direi sempre que foi dela. E agora saudades tenho ainda. Um tipo de saudade diferente, mas saudade na mesma.</p> <p style="text-align: justify;">Saudade que só passará quando a pandemia o permitir. Ao entrar no carro, já depois de termos todos dito o nosso adeus, só conseguia pensar numa coisa... Que há um ano atrás não teria sido possível sequer vê-la da janela.</p> <p style="text-align: justify;">No caminho de regresso a casa só conseguia pensar em como é importante continuarmos a tentar encontrar maneiras de permanecermos gratos e positivos nesta situação complicada. De tentarmos ver um lado mais positivo. Há dias em que é mais complicado de o fazer do que outros. Mas há uma frase que eu gosto bastante e que me ajuda a focar em momentos mais complicados... Count your blessings. Simples? Não muito. Mas é isso. É tentarmos ao máximo lembrar-nos das coisas pelas quais estamos gratos. Para não nos deixarmos consumir por completo por esta pandemia e por tudo aquilo de mau que ela traz.</p> <p style="text-align: justify;">Se não por nós, ao menos, por eles. Aqueles de quem mais gostamos...</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:261293 2020-04-11T14:17:00 Cá estamos 2020-04-11T13:35:44Z 2020-04-11T13:35:44Z <p style="text-align: justify;">Continuamos.</p> <p style="text-align: justify;">Terça-feira fará um mês desde a última vez que sai de casa. Como tantos outros, há muito que me preocupa. Há muito que me aflige e há muito que me pesa no peito.</p> <p style="text-align: justify;">Tenho saudades de tudo e de todos. Até daqueles que não conheço tenho saudades, até dos sítios no meu país aonde nunca fui, tenho saudade. A semana agora até passa relativamente depressa, visto que me encontro a trabalhar por casa. Mas não é a mesma coisa. </p> <p style="text-align: justify;">Como muitos outros, não vejo os meus amigos à 1 mês. Não vou poder celebrar o aniversário da minha avó com ela. Quem sabe se vou poder celebrar o meu, em Maio. Sinto um aperto cada vez maior no peito e, como muitos outros, tento de tudo para o aligeirar. Umas vezes funciona, outras nem por isso.</p> <p style="text-align: justify;">Mas continuamos. Porque não temos outra escolha. Não podemos baixar os braços agora. Não podemos atirar a toalha ao chão. A verdade é que a esperança de que chegue o dia em que abro o blogue e em vez de escrever "Cá estamos" e "Continuamos", escreverei "Conseguimos", é o único alento que tenho. Porque cada vez mais me custa ouvir todo um mundo lá fora e eu, fechada no meu, aqui dentro.</p> <p style="text-align: justify;">O meu mundo era reconfortante, um escape quando o mundo lá fora se tornava demasiado. Mas agora, o meu mundo é um lugar que, se eu não tiver cuidado, me puxará para baixo de tal forma, que não sei como me voltarei a erguer.</p> <p style="text-align: justify;">E no fim de tudo isto, e de forma egoísta, tenho adormecido a pensar nas saudades que tenho de quem me deixou. E de quem eu deixei ir. Porque sei que quando tudo isto terminar, e eu voltar ao mundo lá fora, tu não vais lá estar. E depois pergunto-me, num momento de total insanidade:</p> <p style="text-align: justify;">Será que quero voltar ao mundo lá fora?</p> <p style="text-align: justify;">Querer quero. Mas se calhar não irá ser o mesmo sem ti.</p> <p style="text-align: justify;">Mas cá estamos.</p> <p style="text-align: justify;">Continuo.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:260900 2020-03-30T13:33:00 Penso em vocês 2020-03-30T12:53:11Z 2020-03-30T12:53:11Z <p style="text-align: justify;">Com o tempo livre, vêm os pensamentos. Muitos deles. Por vezes, tóxicos, consumidores, perigosos. É complicado fazermos o exercício de os afastar, de darmos a volta a eles e tentar focar-nos no positivo. Ontem, antes de adormecer, comecei a pensar... E se eu não tivesse vindo?</p> <p style="text-align: justify;">E se eu não tivesse regressado de Inglaterra o ano passado? Como é que estaria a lidar com isto tudo, longe de casa, longe dos meus? Num país com um líder político saído de uma banda desenhada, sem cérebro, sem nada, muito honestamente? Estaria a ir para o trabalho? Ou já nos teriam mandado para casa? Estaria muito provavelmente a desesperar mil vezes mais. A pensar constantemente nos meus pais e irmã, nos meus avós, nos meus amigos. Estaria preocupada em pagar a minha vida e a bater com a cabeça nas paredes, provavelmente. Não que aqui a ideia não me tenha passado pela cabeça, mas...é diferente. Penso no quão desesperada e infeliz e em pânico estaria se tivesse lá, ainda.</p> <p style="text-align: justify;">Grata. Estou muito grata. Porque estar cá, com os meus, mesmo que não os possa ver, mesmo que não os possa tocar. Grata de ter voltado a um país que, com muitas dificuldades e com muitos defeitos, está-se a mostrar ser melhor do que alguns outros nesta crise. Dizem que as tragédias trazem ao de cima o pior e o melhor das pessoas e eu não duvido. É um período muito complicado, este aquele que se vive no mundo inteiro. Mas no meio disto tudo, às vezes, paro para pensar no quão grata sou por estar aqui. Apesar de já não sair de casa há 15 dias, não me sinto sufocada. Não da forma que sentiria se tivesse longe.</p> <p style="text-align: justify;">E depois penso nos tantos outros que, ao contrário de mim, não regressaram. Continuam longe, dos seus e penso na agonia que sentia quando, ainda sem pandemia, algo menos bom acontecia e eu não estava cá para ajudar. E sinto essa agonia agora, não por mim, mas ao pensar naqueles que a sentem ao estarem longe dos seus neste momento tão crítico.</p> <p style="text-align: justify;">Eu evito dizer isto, porque há quem leve a mal, há quem critique, mas a verdade é que só quem fez/faz vida lá fora é que conhece esta agonia tão característica, este sofrimento tão profundo, esta saudade que se faz acompanhar de lágrimas apenas choradas pelos outros, nunca por nós.  Penso muito em vocês, que estão fora. Não vos conheço a todos, mas penso em vocês todos os dias, especialmente agora e peço para que tenham cuidado e, não rezo porque não tenho religião, mas desejo do fundo do meu coração que todos os vossos estejam bem, que se mantenham bem e que quando esta crise passar, possam meter-se num avião e vir dar um abraço forte e apertado a todos eles.</p> <p style="text-align: justify;">Hoje, penso em vocês.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:260613 2020-03-24T15:14:00 Ninguém (me) bate palmas 2020-03-24T16:26:43Z 2020-03-26T13:26:47Z <p style="text-align: justify;">A Amália Rodrigues diz que vivia das palmas. Só se sentia viva quando as ouvia, quando fechava os olhos e as sentia. O bater das palmas, o reconhecimento do talento, do trabalho de alguém. A necessidade que tinha em sentir que era apreciada.</p> <p style="text-align: justify;">Conheço esse sentimento. </p> <p style="text-align: justify;">Ao inicio, tenho sempre imenso medo de pisar o palco. Fico nos bastidores, a observar, a tentar que as sombras me engulam de certa forma, a passar despercebida. Mas depois, os meus olhos caem sobre a audiência. Uma audiência que me parece interessante. Que talvez mereça conhecer-me. Conhecer a minha história. Então encho o peito de ar. Ponho um pé em frente ao outro e subo as escadas que dão para o palco. Tento não tropeçar e fazer figuras tristes. Chego ao palco. Liberto o ar preso nos meus pulmões.</p> <p style="text-align: justify;">As mãos tremem-me e a visão desfoca. Sinto um nó no estômago e um formigueiro nos lábios que me impedem de falar primeiro. Alguém na audiência sussurra algo. Eu oiço. Sou boa ouvinte, melhor ouvinte que falante. Ao inicio, sempre desconfiada, falo pouco. A audiência tem de puxar por mim e aos poucos, há medida que o tempo vai passando, vou relaxando. O palco começa a tornar-se num sítio confortável para estar. As luzes dos holofotes deixam de ser intimidantes e passam a ser convidativas, o calor que emanam aquecendo-me enquanto me vou deslocando pelo palco. Enquanto recito o meu texto. Enquanto dou a conhecer de mim à minha audiência. </p> <p style="text-align: justify;">O espetáculo vai-se desenrolando e eu, cada vez mais solta, cada vez mais confortável, dou tudo de mim. A audiência ganhou a minha confiança e uma vez essa ganha, eu dou-me sem medos. Sem restrições. Já nem recito o texto, já improviso e tudo. Entre improvisos, risos, histórias, segredos e traumas, eu vou-me soltando cada vez mais e a audiência parece que se recolhe. Ou melhor, a audiência não me acompanha. Não dá mais do que aquilo que dava ao início. Para além disso, continua a pedir mais. Sempre mais. Dá pouco em retorno. Ao fim de uns bons meses de espetáculo, sempre em cima daquele palco, sempre com a mesma postura, sempre com a certeza de que estou a mostrar quem eu sou, como sou, a 100%...começo a perder alento. O que é um artista que não recebe palmas? Que não consegue conhecer a sua audiência?</p> <p style="text-align: justify;">Por várias vezes me sento à beira do palco, os meus pés longe de tocarem o chão onde a audiência se senta. Mas sento-me perto, para tentar chegar à minha audiência. Para sentir o calor dela, e não só o dos holofotes. Mas há muitas cadeiras vazias. Faltam as histórias que ficam por contar, os desabafos que não se dizem, os sentimentos que não se expressam. Levanto-me e volto para o centro do palco. Apercebo-me de que estou exausta. Exausta de estar em cima de um palco, onde ao inicio nem sequer queria estar. Mas aprendi a gostar. Contudo, gostar só não chega. Estar em cima do palco, com os holofotes virados para mim e eu a dar, a dar e a dar. E receber? Recebo pouco.</p> <p style="text-align: justify;">Ninguém me bate palmas. E finalmente percebo. A vida, as relações, não são como peças de teatro. Não posso estar em cima do palco sozinha, com uma audiência que não me dá nada. Faz-me andar em bicos dos pés, rever o meu texto, parar de improvisar e começar a pensar muito. Demais. Na arte, não se pensa, sente-se. Nas relações é igual. Chega. Não quero mais armar espetáculo.</p> <p style="text-align: justify;">Apagam-se os holofotes e o silêncio instaura-se. As mãos não me tremem como no início e o nó desenlaçou-se. Não tenho ar nos pulmões guardado para expelir. Limpo o suor da cara, mas se calhar são lágrimas. Talvez uma mistura de ambos. <em>Bom espetáculo</em>, sussurro para comigo. Mas agora está na hora de ir, de procurar quem te saiba bater palmas. De encontrar quem te encontre a meio caminho e não apenas quem se deixe ficar como audiência. Tempo de encontrar alguém capaz de subir a palco contigo e recitar texto. Improvisar. Ser. </p> <p style="text-align: justify;">Viro costas à audiência sem olhar por cima do ombro uma única vez. Desço as escadas do palco que me levam de volta aos bastidores e retorno às sombras do mesmo.</p> <p style="text-align: justify;">Estou melhor assim. Aqui é certo que ninguém me baterá palmas, verdade, mas ao menos também não espero que alguém o faça.</p> <p style="text-align: justify;">Se nem Amália conseguia ser feliz sem palmas, quem sou eu para o conseguir?</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:260390 2020-03-20T22:58:00 Manter o espírito 2020-03-20T23:56:29Z 2020-03-20T23:56:29Z <p style="text-align: justify;">Uma das memórias que tenho muito presente ainda em mim, é a de quando passava alguns dias, talvez semanas, das férias de Verão em casa da minha avó paterna. Tive o privilégio de crescer rodeada pela minha família, de passar Verões na zona de Sintra junto ao mar e outros mais a norte do país junto da natureza. Mas nada me sabia tão bem como estar em casa da minha avó, só nós as duas, uma tarde inteira no sofá a ver cassetes.</p> <p style="text-align: justify;">Cassetes de filmes portugueses como "O Pátio das Cantigas", "A Canção de Lisboa", "O Leão da Estrela", bem como de programas que eu na altura adorava, como o Big Show Sic com o João Baião e o Chuva de Estrelas. Parece que ainda hoje consigo ouvir os nossos risos e as nossas vozes a cantar em uníssono algumas das músicas. Ás vezes, quando perdia a vergonha, até chegava a imitar a Beatriz Costa. Dizia que quando fosse grande queria ter um penteado igual ao dela.</p> <p style="text-align: justify;">Tardes passadas dentro de casa, só nós, porque os meus pais trabalhavam, a minha irmã ainda não era nascida e nem sempre o meu primo estava connosco. Então aqueles eram os nossos momentos, só nós as duas. Ainda hoje em dia, a minha avó é como se fosse uma amiga com quem eu partilho muita coisa e ela comigo. Ainda hoje nos sentamos as duas na mesma sala, com um sofá diferente e uma televisão mais moderna, infelizmente sem cassetes, a conversar. A desabafar, a rir, a chorar às vezes. A minha avó foi sempre muito especial para mim e gosto de pensar que temos uma relação especial, apesar de ela gostar de todos os netos de igual forma...gosto de pensar que nós partilhamos uma relação diferente. Mais especial, mais nossa.</p> <p style="text-align: justify;">Mas assim passávamos muitos dias, muitas tardes, juntas, a cantar, a rir, a ser felizes à nossa maneira. Desde que regressei a Portugal que faço questão de a ver com frequência, mas agora com esta situação do COVID-19, tal não é possível. Este isolamento, esta situação em que temos de tentar ao máximo estar em casa e ficar em casa, fez-me recordar desses tempos.</p> <p style="text-align: justify;">Tempos em que podia sair, podia brincar, podia fazer tanta coisa e escolhia ficar em casa, porque ali era feliz, com a minha querida avó. Era o nosso momento, o nosso bocadinho para sermos avó e neta, mulher e menina, sábia e curiosa. E éramos felizes. Agora, a obrigatoriedade tira-nos essa sensação. A sensação de podermos também, em casa, encontrar as pequenas coisas que nos façam felizes. Mas é imperativo fazê-lo, para o bem do nosso estado mental. O meu conselho é este, que se calhar é igual a tantos outros, mas não menos válido:</p> <p style="text-align: justify;">É complicado. É difícil. É uma luta que travamos de momento com um inimigo invisível. Mas façam coisas que vos fazem sorrir. Oiçam música, escrevam, leiam, vejam filmes, séries. Pintem, façam exercício, descansem, façam limpezas, mudem o vosso quarto. Não desesperem. Se é para ficarmos em casa, de modo a prevenir a doença de nos atingir a nós e aos nossos, de nos matar...Temos de garantir que no fim, não será essa mesma prevenção aquilo que nos matará. Não deixem morrer o vosso espírito, pois vamos precisar dele quando isto passar. Para enfrentar novos desafios. Digo isto a mim mesma também, que ainda hoje andava aqui quase a bater com a cabeça nas paredes. Mas digo também, não se sintam na obrigatoriedade de nada. De responder a todas as mensagens e a todas as chamadas e emails, ou de fazer mil e uma coisas para poderem dizer que estão a ser produtivos. Para obrigações, já basta a de ter de ficar em casa.</p> <p style="text-align: justify;">Façam como a Beatriz Costa: já que sou obrigada a cantar sobre uma agulha e um dedal, faço-o de corpo e alma.</p> <p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/Up_HHCeAvo8?feature=oembed" width="480" height="270" frameborder="0" style="width: 480px; padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:260344 2020-03-15T21:23:00 O apelo de uma (quase ex-) lojista 2020-03-15T22:03:26Z 2020-03-15T22:03:26Z <p style="text-align: justify;">Não gosto de panicar. Parte do meu trabalho enquanto gerente, é ajudar a manter a calma, ou pelo menos tentar. Eu panico, muito curiosamente, com outras coisas. Coisas tontas, coisas que para muitos podem nem ser razões para panicar. Coisas muito minhas e raramente externas a mim.</p> <p style="text-align: justify;">Não paniquei com o aparecimento do COVID-19. Continuo sem panicar, mas agora escrevo-vos com um sentimento de preocupação. Não de pânico, não de quem vai sair de casa e atacar as prateleiras de papel higiénico nos supermercados, ou de quem vai encher dois ou três carrinhos de compras para me durarem 6 meses. É uma preocupação consciente e justificada, de alguém que trabalha no centro comercial onde passa diariamente toda a gente. E quando digo TODA  a gente, é mesmo TODA a gente. Preocupação, não tanto por mim, mas pelos meus. Pensar que os meus pais ou a minha irmã podem ficar doentes por minha causa, porque eu saio de casa para ir trabalhar todos os dias para um sítio onde existe alto risco de contágio, pesa-me. Não minto.</p> <p style="text-align: justify;">Mas ao mesmo tempo, pesa-me também o sentido de responsabilidade que ainda tenho para com a minha equipa. Esta semana que vem será a minha última semana a trabalhar onde trabalho de momento, visto que à umas semanas recebi uma proposta de trabalho para a minha área. Essa mesma encontra-se agora um pouco em stand by, devido à situação actual que se vive no país e no mundo, mas acredito que irá avançar na mesma quando as circunstâncias o permitirem. Mas até ao final da próxima semana, ainda vou para o centro comercial trabalhar.</p> <p style="text-align: justify;">Porque ir comprar roupa num momento como este, pelos vistos, ainda é essencial para alguns (muitos). Entristece-me. Ver colegas minhas a chorar, em plena loja, com medo, com incerteza, com tudo. Porque sentem-se na obrigação de ficar em casa com os filhos neste momento, mas não podem porque ninguém está disposto a dar-lhes o apoio que elas precisam. Sim, é verdade que há ajudas. Mas infelizmente para alguns essas ajudas não chegam. E por isso há pessoas que continuam a ir trabalhar todos os dias, expondo-se a um vírus que ainda não conhecemos muito bem verdade seja dita, e lamentando o facto de vivermos num mundo onde é cada um por si.</p> <p style="text-align: justify;">Tenho muitos a dizerem-me: " E tu? Deixa de ir! É só mais uma semana de qualquer das formas!"</p> <p style="text-align: justify;">E eu penso, têm razão. E depois penso nos meus pais e na minha irmã. Mas depois penso na equipa que depende de mim, ainda. Que, em dois meses, me ajudou muito e me fez sentir mal e bem e depois sempre bem. Uma equipa de mulheres todas elas com as suas histórias, as suas batalhas, os seus defeitos e as suas fraquezas. Mas todas imensamente fortes. E penso, tenho uma responsabilidade que preciso de levar até ao fim. E há quem não entenda isso, porque de momento que se lixe tudo, estamos em tempos complicados e precisamos de evitar o contacto social ao máximo. Mas para todos os efeitos, vou trabalhar não porque preciso desesperadamente como algumas colegas minhas na loja, mas porque não consigo ser aquela pessoa que abandona o barco a meio da viagem. Se me comprometi a ficar até uma determinada data, até lá ficarei. Porque na altura a situação do COVID-19 não estava tão avançada na Europa e no nosso país, a decisão que tomei foi porque recebi uma proposta de trabalho e não porque preciso de ficar em casa de quarentena. Ficarei, se entretanto fecharem os centros comerciais (coisa que duvido que venha a acontecer esta semana.) Ficarei até ao fim, porque foi assim que me ensinaram. A honrar os meus contractos e os meus compromissos. </p> <p style="text-align: justify;">Com isto, fica aqui no entanto o meu apelo a todos os que possam ler este texto. Não vão passear para os centros comerciais. Não vão com os vossos bebés para a loja comprar roupa. Se têm o privilégio de poderem ficar em casa, fiquem. Porque nós, lojistas, vamos todos os dias de coração nas mãos trabalhar desde que a situação aqui em Portugal piorou. E vai continuar a piorar se me forem para o Vasco da Gama, para o Colombo, para o Dolce Vita ou outro centro comercial qualquer às compras como se nada fosse. Não estamos de férias. Mas também não estamos à beira do Apocalipse. Estamos apenas a enfrentar uma crise, que pode correr muito melhor se as pessoas tomarem consciência daquilo que podem fazer para ajudar. Vão aos supermercados comprar apenas o que precisam. Não roubem papel higiénico dos braços de uma velhota. Nem das casas de banho do centro comercial. Não nos perguntem porque é que não dizemos "Boa Tarde" com um sorriso nos lábios, ou porque é que só está uma pessoa em loja. Sejam conscientes. Sejam solidários. Sejam prudentes. </p> <p style="text-align: justify;">Só assim vamos poder todos voltar às nossas vidas normais mais rapidamente e facilmente. Porque está comprovado que juntos, conseguimos muito mais do que separados. Não é cada um por si. É todos por um.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:259888 2020-03-07T23:49:00 O que querem de mim 2020-03-08T00:14:49Z 2020-03-08T00:14:49Z <p style="text-align: justify;">Toda a gente espera algo de mim.</p> <p style="text-align: justify;">Que eu seja este tipo de amiga, ou este tipo de filha, ou este tipo de profissional. Querem que eu seja feliz, querem que eu seja social, querem que eu me expresse mais e me esconda menos.</p> <p style="text-align: justify;">Querem que eu ande bem, querem que eu ande mal, querem que eu ajude com o inglês e ás vezes até com o português. Querem que eu me ria, que faça rir, que tenha conversas profundas e conte os meus segredos e que partilhe as minhas histórias e os meus fados.</p> <p style="text-align: justify;">Querem que eu seja a pessoa que era quando me fui embora, ou até mesmo a pessoa que era quando estive fora. Querem que eu me adapte bem, de regresso agora, mas querem que eu o faça rápido, que não sinta saudade, que não sinta falta. Querem também que eu encontre o meu lugar assim, num abrir e fechar de olhos, só porque não consegui encontrar a felicidade lá fora.</p> <p style="text-align: justify;">A felicidade não é algo que se encontra, é algo que se procura, que não vem, que demora. Não estou infeliz, estou muito melhor agora, já não choro todos os dias a pensar "vou-me embora". Já não choro, mas isso não significa que não tenha lágrimas, assim como também tenho sorrisos e gargalhadas. Querem tanto uma pessoa que não existe, uma pessoa sem inseguranças, sem medos, sem ansiedades. Uma pessoa que se deixa ir, que não pensa em desistir. E quem me ler pensa que eu sou só isso, mas não, tenho é mais facilidade em escrever sobre isso. Porque não consigo falar disso. Porque querem todos que eu seja a imagem que têm de mim na cabeça deles.</p> <p style="text-align: justify;">E eu sou assim. E já quase me esqueci do que é ter alguém que me gosta assim. Por mim. E que não me julga por ser assim. Por ser tudo e por ser nada. Por ainda me estar a descobrir e por talvez nunca me vir a encontrar. Já esqueci o que é ter alguém que olha para mim e diz:</p> <p style="text-align: justify;"><em>"És como és, somos todos diferentes, temos todos percursos diferentes e eu gosto de ti assim. Por ti."</em></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:259347 2020-02-26T11:59:00 As laranjas do chão 2020-02-26T12:01:17Z 2020-02-26T12:01:17Z <p style="text-align: justify;">Ao virar para entrar na minha rua há umas laranjeiras. O que é estranho, pois vivo numa zona com pouca natureza, onde passam muitos carros a toda a hora, mesmo em frente a uma estrada nacional. Contudo, aquelas laranjeiras lá estão, no seu bocadinho de relva, a dar um pouco de laranja e verde ao cinzento da zona.<br />Sentada na paragem de autocarro, olhei para as laranjeiras e vi umas quantas caídas no chão, no meio da estrada. E depois lembrei-me em como elas também estavam ali caídas ontem, e antes de ontem e na semana passada até. Aquelas laranjas, meia dúzia, caídas na estrada, por onde passam carros a toda a hora, algumas esmagadas, outras ainda por esmagar. E eu pus-me a pensar...<br />Eu sou como as laranjas do chão. Uns dias sou como as esmagadas, outros sou como as que ainda estão por esmagar. No entanto, encontro-me caída tal e qual como elas, à beira da estrada, sem poder fazer grande coisa, esperando apenas que não passe um carro hoje e me esmague, o meu sumo espalhado pelo alcatrão, a minha casca aos pedaços, desfeita. <br />Aquelas laranjas ali caídas assim ficam. Ninguém as vai lá apanhar, ninguém as vai resgatar da sua morte iminente. Se forem como eu, até passam por elas todos os dias e nem se apercebem. Só quando te sentas na paragem de autocarro que está virada exactamente para elas, é que te dás conta.<br />E depois? E depois já é tarde de mais. És como as laranjas do chão.<br />Sou como as laranjas do chão.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:259002 2020-02-07T14:56:00 O meu silêncio 2020-02-07T15:27:53Z 2020-02-07T15:27:53Z <p>A brincar, a brincar, já lá vão quase 6 meses desde o meu regresso a Portugal. Meio ano. O que é isso, na grande escala da vida? Nada, de facto.</p> <p>Mas na minha, já é algo. Sinto que estou a falhar redondamente. Não só comigo, mas para com os meus. Voltar a Portugal era para ser uma coisa boa, para estar mais perto dos meus, para me reencontrar talvez, para encontrar um lugar para mim neste vasto mundo, que não consegui encontrar em Londres. Em Londres fazia o que queria, como queria e bem entendia. Aqui, tenho mil e uma vozes a gritarem-me ao ouvido: devias fazer assim, porque é que não fazes assado, eu teria feito ao contrário.</p> <p>Em Londres ninguém sabia o que eu fazia. E também não se importavam muito. Mas agora aqui, parece que toda a gente tem uma opinião a dar sobre a minha vida, sobre aquilo que eu faço e não me agrada. Acho que aos poucos estou a ser relembrada de, pelo menos, uma das razões pela qual eu decidi partir há 5 anos atrás. Porque longe, eu podia escolher o que mostrar, o que dizer, o que partilhar. Aqui, não há como esconder, não há como fugir. E querendo justificar-me, sempre, tento dar razões pelas quais faço as coisas que faço, da forma que as faço. Ou que não as faço. Mas não me ouvem. E insistem. E pressionam. E depois eu sinto-me mal, porque sei que não fazem por mal. Mas eu também não. Então, aos poucos, estou a desistir. Reduzo-me para não ter de me justificar. Não gosto de me justificar. Cansa-me profudamente. Então calo-me. Mas depois a A. diz-me o quão díficil está também a ser para ela. O regresso, a adaptação e o quão díficil é não fazermos a nossa vida juntas, como faziamos. E apesar de ambas sabermos que estava na altura, que a nossa vida em Londres já não estava a fazer sentido, a nossa vida cá também não está a fazer. Ainda. Eu quero acreditar que vai. Quero mesmo.</p> <p>Mas ninguém ajuda. Nada ajuda. Então eu calo-me. Fecho-me. Escrevo. Pouco aqui, mais para mim, só. E espero. E no fim, já dizia a Capicua:</p> <p><strong><em>"Pior do que o meu canto, há-de ser o meu silêncio."</em></strong></p> <p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/58awapAjrmA?feature=oembed" width="320" height="180" frameborder="0" style="width: 320px; padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:258778 2020-01-24T16:52:00 Alguém em casa? 2020-01-24T17:02:14Z 2020-01-24T17:02:14Z <p style="text-align: justify;">Janeiro parece durar o ano inteiro. Não tem fim. Tal e qual como o Inverno que eu vivo, parece que já há quatro anos constantes. Quero o sol, quero muito o sol. E o calor, que não venha do aquecedor no meu quarto, que ao rodar faz uns barulhos que ao fim de uns minutos me incomodam tanto que, acabo por o desligar. </p> <p style="text-align: justify;">Mas depois vem o calor. E eu vou andar a suar e a pedir pelo frio outra vez. Janeiro parece não ter fim, mas depois vem o Fevereiro e provavelmente vou andar a queixar-me que é demasiado curto e que não tive tempo nenhum para nada. </p> <p style="text-align: justify;">Quero andar motivada, mas não há motivos para isso. Quero encontrá-los mas não sei onde os ir procurar, quanto mais achar. Quero ter esperança, mas e se nunca a tive para começar?</p> <p style="text-align: justify;">Dizem que nada dura, tudo passa... Porque é que esta inquietação dentro de mim não é assim? Passageira? Não. Ela dura e dura e faz-me acordar todos os dias vazia.</p> <p style="text-align: justify;">Sou um vácuo. Aquela piada, de bater na cabeça e dizer "está alguém em casa?".</p> <p style="text-align: justify;">Pois. Não está cá ninguém. </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:258464 2020-01-05T13:34:00 Vamos lá... 2020-01-05T13:44:14Z 2020-01-05T13:44:14Z <p style="text-align: justify;">Novo ano. É o quinto dia de 2020. Amanhã começo um novo desafio. Quase seis meses depois de me ter demitido, cinco meses depois de ter regressado a Portugal...avanço para um novo projecto, na mesma área onde trabalhei durante quatro anos. Não na área para a qual estudei.</p> <p style="text-align: justify;">Mas eu acredito que a vida dá-nos aquilo que nós precisamos. E eu precisava de um emprego. Preciso. Estar parada não é para mim. Vivi um ritmo de doidos nos últimos quatro anos e já não sei viver de outra maneira. A minha avó diz que eu assim não hei-de viver muito. Mas não faz mal. Para 2020 não há planos. Quero viver um dia de cada vez e lidar com o que quer se seja que me apareça à frente (e pelas costas) de cabeça erguida, sem pensamentos negativos a pesar-me nos ombros. Este ano completarei 24 anos no dia 24. Lembro-me de quando fiz os 18 pensar que ainda faltava tanto para casar os anos. Não faço a mínima ideia de onde veio esta coisa de casar os anos, ou porque é que sequer mencionamos tal coisa como se fosse um feito. Mas a verdade é que 2020 é o ano em que farei 24 anos, e para o ano faço os 25. Dizem que a partir dos 25 é sempre a subir sem parar. E eu acredito.</p> <p style="text-align: justify;">Enfim, estou a divagar. 2020. Para 2020, só quero uma coisa. O meu bronzeado. Simples não é? Para 2020 só quero um pouco de cor na minha pele. E na minha vida.</p> <p style="text-align: justify;">Vamos lá a isto.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:258060 2019-12-22T19:28:00 Os planos falham, mas a mudança do ano não 2019-12-22T20:39:09Z 2019-12-22T20:44:12Z <p style="text-align: justify;">Não fugi. Nem me escondi. Nem vos abandonei. Talvez me tenha abandonado um pouco a mim, mas enfim.</p> <p style="text-align: justify;">O mês de Dezembro trouxe muitas emoções. Reflexões. No início de 2019 eu tinha todas as certezas do mundo. Tinha um plano. Eu tenho sempre um plano. Gosto de me gabar, de dizer que sou impulsiva. Um dia não tenho franja, no outro decido cortá-la. Vou dormir com seis piercings, no dia a seguir acordo e decido ir fazer um sétimo. Quero cabelo preto, então pinto, depois quero cor de vinho, e pinto. Quero-o loiro...hesito. Não pinto.</p> <p style="text-align: justify;">Não sou impulsiva. Não sou destemida. Não sou. Sou boa a fingir que o sou. Isso sim.</p> <p style="text-align: justify;">Eu tinha um plano. Tenho sempre de ter um plano. Ter planos evita surpresas e God, como eu odeio surpresas. Odeio não saber. Tenho de saber, sempre, tudo. Como é que se chama aquele actor, daquele filme? Vou procurar. Como é que se faz um cachecol em malha? Vou já pedir à minha avó para me ensinar. O que são estas dores chata e anormais nesta zona do meu corpo? Vou já ao médico descobrir. Eu necessito de saber, e se calhar é por isso que uma vez, na universidade, o meu professor de Long Form Journalism me disse:</p> <p style="text-align: justify;"><em>"You don't want to become a Journalist. You have to be one Alex. Because you don't just write stories, make things up as you go and wish for the editor, the teacher, to eat your bullshit up. You do research, you care, you look it up one, two, three times. You don't just ask questions, you seek for the answers like an annoying three year old toddler who keeps asking why, why, why. You don't want to be a journalist, because you already are one."</em></p> <p style="text-align: justify;">Não lhe dei razão. Ainda hoje não dou. Sou longe de ser jornalista. Desconfio que algum dia o venha a ser. Não o quero ser. Mas eu tinha um plano. Eu tinha um plano para 2019. Para mim.</p> <p style="text-align: justify;">Faltam exactamente nove dias para 2019 terminar. Eu tinha um plano e o mesmo falhou. Por completo. Foi um completo desastre. Não o meu ano, esse não foi mau. Mas também não foi bom. Foi duro. Foi melhor que 2017, pois creio que nenhum ano possa vir a ser tão mau quanto esse foi. Foi pior que 2018 porque em 2018 fui muito feliz. 2019 não era para ser o pior ano, ou o melhor ano, ou o ano feliz. Era para ser o ano do Plano. E o Plano...falhou.</p> <p style="text-align: justify;">E não tenho escrito nestas últimas semanas porque, o que tenho feito nestas últimas semanas é tentado digerir esse facto. O facto de que o meu Plano falhou, de que eu falhei. E eu não falho. Os meus planos nunca falham. Nunca. Talvez nem sempre corram tão bem como eu esperava, talvez deixe umas pontas soltas aqui e ali...mas nunca falham. E foi logo este ano que falhou. Que eu falhei.</p> <p style="text-align: justify;">E podem perguntar-se vocês...Não era o plano regressar a Portugal? E não regressei? O Plano não era regressar. Eu regressei, de facto. Mas trouxe muita coisa comigo. Demasiada coisa. Muita mágoa, muito rancor, muitos medos, muitas cicatrizes, muitas dúvidas, muitos traumas. Muita bagagem. Mais do que as seis caixas e as três malas cheias. Muito mais.</p> <p style="text-align: justify;">Eu regressei mas ainda não estou cá. Não sei se alguma vez estarei. Eu fui e vim, demasiadas vezes. Sempre com planos, sempre com certezas, de algo, por mais pequeno que fosse...algo. Tenho estado muito tempo sozinha, a pensar. Só a pensar. Na primeira semana deste ano, passada no hospital, sozinha, assustada, pequena. Tão pequena, naquela cama de hospital longe de tudo e de todos, com medo de tudo e de todos. Com dores nos ovários. Com dores na alma. No coração.</p> <p style="text-align: justify;">Fiz um plano. Tinha tudo pensado. Vai acontecer assim e assado. Deu tudo errado. Tudo. E o texto já vai muito longo, e o que deu errado vocês provavelmente leram aqui e o que não leram não vale a pena eu agora estar a contar. Agora, com o ano quase a terminar, voltei ao hospital, outro, não por causa de mim. Caminhei pelos corredores de um hospital no meu país, como visitante. Vi as enfermeiras caminhar à minha frente, a discutirem as suas vidas pessoais. Vi a senhora das refeições entrar no quarto onde estava a pessoa que fui visitar e distribuir iogurtes. Aqui come-se iogurtes. Lembro-me de me terem oferecido chá com leite quando fui eu. Sorri. Senti-me como uma estrangeira. Eu não como iogurtes. Também não bebo chá com leite.</p> <p style="text-align: justify;">Comecei 2019 no hospital, por mim, com um plano. Se bem que o ano ainda não acabou, e a pessoa felizmente já não está no hospital, é muito estranho como este ano se fecha assim, quase como num círculo perfeito. É irónico. Termino com um plano falhado. Com menos uma casa. Menos uns amigos. Com mais uns cortes no coração e uns pedaços da minha alma deixados ao vento. Contudo, termino este ano com os meus. Os que não me falham. Porque os planos falham e as pessoas também nos falham, mas há sempre os que não. Os que não nos falham.</p> <p style="text-align: justify;">O ano passado, sentada no chão a comer restos de pizza ressabiada na véspera de natal, completamente sozinha enquanto todos os que eu conhecia se sentavam à volta da mesa para comer o bacalhau, eu chorei. Chorei e comi por entre as lágrimas, porque mesmo quando temos de chorar, temos de comer. Em 2018 não tinha planos, e fui muito feliz. Mas fui muito miserável. Vejo agora. Porque este ano não vou comer restos de pizza. Porque este ano vou sentar-me à mesa e comer bacalhau. Comer rabanadas. Jogar monopólio e às cartas. Vou dar prendas e abri-las e nos entrentantos vou chorar. Vou chorar pela menina que chorou sozinha no Natal passado, e pela menina que chorou sozinha no hospital este ano. Vou chorar pela menina de 2019, cujo plano falhou e depois? Depois, porque me está no sangue, vou limpar as lágrimas e vou planear o meu 2020.</p> <p style="text-align: justify;">Um feliz Natal a todos os que chegaram ao final deste texto. Um obrigada por estarem desse lado, ao fim de todos estes anos. Sejam felizes. Nem que seja só por um segundo, por um minuto, por um dia, enquanto comem filhoses, ou restos de pizza sozinhos. Não vos escreverei até para o ano, provavelmente. Quero aproveitar bem este Natal. Este ano não faço um texto a dizer o que quero que seja 2020. Este ano escrevo-vos este texto. Grande, confuso, all over the place. Falhado. Porque foi assim que foi o meu 2019. E em 2020 regresso, com ou sem plano. Provavelmente com, porque me está no sangue.</p> <p style="text-align: justify;">Um feliz Natal e um bom ano novo.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:257041 2019-12-02T14:08:00 (Não) Está frio 2019-12-02T14:21:53Z 2019-12-02T14:21:53Z <p style="text-align: justify;">Ao meu redor, todos se queixam do frio. E eu, com um sorriso sabedor nos lábios, já não digo que não está frio. Aceito que o frio dos outros é diferente do meu. Do que foi o meu frio durante os últimos quatro anos.</p> <p style="text-align: justify;">Chega o Dezembro e a minha rua cheira a lareira. É um incómodo quando estou a vir para casa e percorro a minha rua, com o cabelo acabado de lavar, para depois o mesmo ficar a cheirar a fumo. Mas é um cheiro novo, esquecido na minha mente, agora recordado e vivido quase todos os dias.</p> <p style="text-align: justify;">Montam-se as árvores de Natal e os presépios. O ano passado planeava o jantar de Natal da loja, este ano vou desfrutar de um jantar de Natal com amigos. Folheamos os folhetos dos supermercados e lembramos-nos de que já ninguém brinca com nenucos. Aproveitamos os descontos da Black Friday (a primeira de cinco em que não trabalhei!) e compramos as prendas que achamos e esperamos que os outros irão gostar de receber. Os fins-de-semana têm direito a castanhas assadas, e o espírito natalício espalha-se pelas divisões da casa.</p> <p style="text-align: justify;">Chega o Dezembro e daqui a nada, o Janeiro. Uma nova década. 2020. Números pares, os meus favoritos. </p> <p style="text-align: justify;">Ao meu redor, as pessoas dizem que está frio. E eu só penso no quão bom é viver com o frio dos outros, porque se este Dezembro estivesse a viver com o meu frio, do ano passado, e do ano anterior a esse, não andava quentinha por dentro. </p> <p style="text-align: justify;">Dizem que está frio. E eu sorrio e penso...Está tanto calor.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:256959 2019-11-25T22:48:00 Eu não me esqueço das letras 2019-11-26T00:01:11Z 2019-11-26T00:04:45Z <p style="text-align: justify;">Hoje trago uma música para partilhar com vocês. A Capicua é das poucas artistas portuguesas que eu escuto com atenção e frequência. Porque a sua arte fala comigo de uma forma que muitas outras não conseguem. Sendo eu tão das letras, e as letras tão minhas, tendo eu a relação que tenho com a escrita - extensa, complicada, de uma paixão que por vezes conduz ao ódio e de volta ao amor - não podia deixar de escrever um pouco sobre a música e sobre a frase que despertou em mim muitas emoções. Tristeza, revolta...mas acima de tudo esperança. </p> <p style="text-align: justify;">Na escola, nunca gostei de matemática. As línguas e as letras foram sempre o meu refúgio, desde que tenho memória de ser gente. Tanto que, saí do meu país para ir estudar com mais cuidado esse mundo. Outra história essa... Mas a verdade é que, foi também durante essa altura que, não por querer mas por necessidade, me envolvi mais com o mundo dos números. O mundo dos negócios, o mundo do comércio. O mundo do trabalho. E devagar me fui apercebendo de que o mundo, apesar de não controlado por números, gira muito à volta deles.</p> <p style="text-align: justify;">E eu, de Escrita Criativa e Jornalismo, e eu com a minha colecção sempre crescente de livros a olhar-me de lado, deixei-me afundar nesse mundo dos números. Escrevia relatórios diários, semanais, mensais, onde tinha de justificar número X e número Y. Quantas pessoas gostaram disto, quantas compraram aquilo...Quantidade, quantidade, quantidade.</p> <p style="text-align: justify;">A qualidade não existe no mundo dos que jogam com números. E o amor à arte também não. Há claro que ser realista, os números precisam de nós tanto como nós precisamos deles. Mas...é um problema (não matemático) quando as coisas nas quais começamos a colocar valores, são aquelas cujo valor deveria ser indeterminável - aliás, não existir. Pior, quando a qualidade é baseada apenas em números, que ao final do dia, se eu fosse a fazer um dos meus relatórios que costumava fazer, não valem nada.</p> <p style="text-align: justify;">A era das tecnologias, dos Youtubers, dos influencers, dos likes...Tudo é liked. Menos o que não é. E o ser humano, no meio de tanto número, passa a ser tratado como um (número). Mas afinal, que valor tem um milhão de likes contra 100, quando o milhão é vazio de razão, paixão, amor por aquilo que se faz, respeito pelo próximo e tudo o de mais? Afinal, somos nós que atribuímos valor aos números, ou são os números que atribuem valor a nós? Ao que criamos? Ao que dizemos, ao que pensamos, ao que somos?</p> <p style="text-align: justify;">Somos só números? Hoje em dia eu diria que sim. Mas depois ouço músicas como a da capicua e penso... se é para sermos um número, então vamos ser mais um dos que não se deixam reger por eles. E tal pode soar hipócrita da minha parte, mas se é para ser um número, quero ser dos que não se esquecem das letras. </p> <p style="text-align: justify;">Por alguma razão, nunca gostei de matemática.</p> <p style="text-align: center;"><em>"É ano após ano e os feitos são inúmeros </em></p> <p style="text-align: center;"><em>E eles esquecem as letras e andam só atrás dos números... Solene como a cada último mergulho </em></p> <p style="text-align: center;"><em>Eu rasguei a dor e o medo como papel de embrulho."</em> - Capicua, 2019</p> <p class="sapomedia videos" style="text-align: center;"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/aVSynzieFEk?feature=oembed" width=" 480" height="270" frameborder="0" style="width: 640px; padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:256749 2019-11-23T22:11:00 In my dreams 2019-11-23T22:19:00Z 2019-11-23T22:19:00Z <p style="text-align: justify;">Este vai ser em inglês. <em>Sorry</em>.</p> <p style="text-align: justify;"><em>In my dreams I don't sleep. In my dreams I'm always awake. Living, breathing, alive. There is color and movement and passion in the air and I'm the one who smiles.</em></p> <p style="text-align: justify;"><em>In my dreams I don't cry. I laugh and laugh and laugh.</em></p> <p style="text-align: justify;"><em>So I lay down at night, and during the daytime, to sleep for as long as I can, for as only as I am asleep, am I alive.</em></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:256416 2019-11-19T13:00:00 Uma pergunta intrigante 2019-11-19T13:45:14Z 2019-11-19T13:45:14Z <p style="text-align: justify;">Não sei se é a pergunta que é intrigante ou a resposta à mesma. Mas, e a razão pela qual saltei uns temas para poder escrever este, é que tenho muito sobre o que escrever em relação a perguntas intrigantes e pouco sobre os temas que saltei.</p> <p style="text-align: justify;">A minha vida é feita de perguntas. Muitas vezes, dos outros feitas a mim, outras de mim feitas a mim mesma. Essas são as piores. Mas a mais intrigante de todas, que me fazem de vez em quando é: és feliz?</p> <p style="text-align: justify;">Porque me deixa sem resposta. Sem ar. Sem chão. O mundo parece que se fecha, como se eu tivesse numa sala com quatro paredes e estas se movessem lentamente à minha volta, com um só objectivo e desfecho. O de me esmagar. Porque é uma pergunta que é feita de ânimo leve, pelos outros, que esperam uma resposta dada de ânimo leve em troca.</p> <p style="text-align: justify;">Mas como é se responde a uma pergunta dessas? Sem parecer deprimida ou ingrata ou mimada ou despreocupada? Como é que se faz uma pergunta dessas em primeiro lugar? Eu nunca perguntei a ninguém se eles eram felizes. Eu não acho que seja uma pergunta intrigante. Para mim, é uma pergunta dolorosa. Lanço-me numa filosofia total quando me fazem esta pergunta. O que é ser feliz, afinal de contas? É não chorar? Não sentirmos raiva? Frustração, dor? É sermos uns seres sorridentes e optimistas a toda a hora, de todo o dia? É rirmos até das coisas que nos fazem chorar? É um estado de êxtase momentâneo, que passa, vai e vem ou é algo que devemos sentir sempre, a toda a hora? É sentirmos-nos amados, realizados a nível profissional, é termos amigos e sermos amigos? O que é isto de ser feliz?</p> <p style="text-align: justify;">Não percebo como é que uma pergunta destas é, às vezes, feita com tanta naturalidade e frequência. E é suposto eu responder que sim, que sou feliz. Porque sou (razoavelmente) saudável, porque sou amada q.b, porque tenho amigos q.b, porque isto e porque aquilo...Mas porquê? Porque é que eu sou obrigada a descer por este abismo sem fim quando me é feita esta pergunta?</p> <p style="text-align: justify;">Aliás! Porque é que andamos todos à procura deste mito? Desta vida feliz que muitos pintam? As pinturas não passam disso. As histórias também não. Quando me perguntam se sou feliz, normalmente respondo que não sou infeliz. E isso devia bastar, porque tudo o resto são complicações e divagações que as pessoas não querem, nem estão dispostas a ouvir. Então para que é que perguntam?</p> <p style="text-align: justify;">Porque talvez queiram saber se mais alguém não é feliz como elas. Assim, talvez, não se sintam tão sozinhas.</p> <p style="text-align: justify;">Nada temam, a elas digo. A felicidade é relativa. Um mito. Não é algo que se consiga atingir, ou capturar como um Pokémon (que comparação mais nerd minha, enfim). Acredito que a felicidade está nos pequenos momentos. Naqueles que nos fazem sorrir, mas também naqueles que nos fazem chorar. Nas pessoas que amamos e até naquelas de quem menos gostamos. A felicidade podemos encontrá-la ao ler um bom livro ou depois de escrever-mos um texto do qual nos sentimentos orgulhosos. A felicidade vem dos que nos amam em silêncio. Vem também de um dia de céu limpo e sem chuva ou, para alguns outros até, de um dia frio com neve. Encontra-se na vida real e na vida digital. A felicidade pode até ser encontrada na infelicidade.</p> <p style="text-align: justify;">Porque tudo são momentos, que passam, e que postos juntos, colados com aquela super cola que comprávamos para as aulas de educação visual, dão origem à nossa Vida. </p> <p style="text-align: justify;">A pressão que existe, vinda de outros, vinda de nós próprios, para sermos felizes é...inacreditável. Se estivesse numa relação era mais feliz. Se fosse mais alta era mais feliz. Se tivesse mais amigos era mais feliz. Se tivesse aquele emprego era mais feliz. Se tivesse mais dinheiro era mais feliz (com esta não discordo totalmente, pois o dinheiro não compra felicidade mas providencia um certo conforto, mas outro tema, outro texto). Se isto, se aquilo... Canso-me só de escrever tantos se's.</p> <p style="text-align: justify;">Sejam felizes, ou não, <em>who cares</em>? Porque ser feliz é sê-lo sem nos questionarmos se o somos. Porque ser feliz é dar permissão a nós próprios para também não o ser, por vezes. Ser feliz é simplesmente ser, com tudo aquilo que vem disso...incluindo a pergunta, que eu simplesmente abomino.</p> <p style="text-align: justify;">"És feliz?"</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:256169 2019-11-18T00:01:00 Um medo forte (Ou o meu medo do frio) 2019-11-18T00:28:13Z 2019-11-18T00:28:13Z <p style="text-align: justify;">Saí do autocarro e fui assolada por uma lufada de ar frio. Não ar fresco, frio. Pensei para comigo, que se tivesse em Londres, já estava a bater o dente. E provavelmente, estaria mais bem agasalhada.</p> <p style="text-align: justify;">A primeira palavra que me veio à cabeça foi "frio". Mas que frio! Contudo, à medida que andava e que o ar me fazia lacrimejar do olho direito (sempre do olho direito), fui pensando melhor nessa palavra e no que ela significa para mim. </p> <p style="text-align: justify;">O frio nunca foi meu amigo. Ou melhor, eu nunca fui amiga do frio. Sempre fui menina do sol, da praia, do calor, tendo crescido a passar Verões inteiros na praia. Sempre mostrei com orgulho o meu bronze e gabava-me das minhas técnicas dentro de água, vindas dos dez anos passados a praticar natação.</p> <p style="text-align: justify;">Usava saias, calções, vestidos, manga curta, manga cava...tudo, menos chinelos, esses só os usava quando ia para a praia. Mas o suplício que era, todos os anos, tirar os casacos de inverno dos confins do roupeiro, ir comprar uma ou duas camisas mais quentes e usar gorros. O suplício que era tomar banho e sair de lá resfriada, apesar de ter embaciado os espelhos com a temperatura alta que usava no banho. Que coisa mais chata, ter de acordar de manhã e sair do quentinho dos cobertores! O frio era muito o meu inimigo e eu não gostava nada dele. </p> <p style="text-align: justify;">Quando me mudei para Londres, não me conseguia conformar com o facto de haver frio o ano todo. As pessoas pensam que nós exageramos quando dizemos que, lá, é inverno durante onze dos doze meses que tem o ano. Chove em Julho e neva em Outubro. É a mais pura das verdades. E eu não conseguia aceitar. Tinha medo do frio londrino. Fiquei doente vezes sem conta durante o primeiro ano que lá estive. Não me mentalizava que a lua tinha passado a ser quem eu mais via, em vez de ser o sol. Tinha medo de não ver mais o sol. </p> <p style="text-align: justify;">Quase cinco anos depois, o frio é o meu maior companheiro. Gela-me os ossos e deixa-me sem ar. Deixei de usar saias, calções, vestidos e passei a usar calças, sweaters, hoodies e casacas. Aprendi a magia das camadas, pois cá fora o frio era tanto quanto o calor dentro dos edifícios da minha universidade onde tinha aulas. Tomava banho e em vez de refilar quando tinha de sair, fazia-o de forma silenciosa, porque o frio depois do calor quente da água me sabia bem. Parece que me enchia de algo que o calor me roubava. Acordava todas as manhãs incentivada pelo frio - incentivada para ir a correr à cozinha beber o meu café. E assim, muito de mansinho, sem eu me aperceber, quase sem eu dar por nada, o frio foi ficando, em mim e o medo foi indo. Já não fico doente no Inverno, mas sim quando as temperaturas aumentam e fica calor. Dou por mim a chamar pela chuva, quando dantes lhe rogava pragas porque quem tem um cabelo como o meu (meio encaracolado, volumoso, com tendência para ser frisado) não gosta de chuva. Dou comigo a ansiar pela chegada da lua, para lhe poder contar como foi o meu dia, para poder confidenciar nela os meus muitos segredos.</p> <p style="text-align: justify;">Continuo a gostar do calor. Do sol. Da praia... a minha praia, da qual tenho muitas saudades. Mas, e este pode ser um medo muito tonto e descabido mas é o que eu estou a partilhar agora convosco aqui...o medo do frio, foi-se.</p> <p style="text-align: justify;">E enquanto caminhei em direcção ao meu destino naquele dia, com o frio do meu país a encher-me os pulmões e o vento a soprar aos meus ouvidos, só conseguia pensar no quanto o frio de Portugal me aquece.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:255859 2019-11-13T21:52:00 Uma nuvem no céu 2019-11-13T22:59:58Z 2019-11-13T22:59:58Z <p style="text-align: justify;">Ouviu, ou alguém lhe disse não sabe bem, que se olhar para o céu pelo menos três vezes por dia, uma pessoa sente-se logo melhor. Passamos muito do nosso tempo a olhar para o chão, enquanto caminhamos, para o lado quando atravessamos a estrada, e para as mãos quando estas seguram os nossos aparelhos electrónicos.</p> <p style="text-align: justify;">Ninguém anda a olhar para o céu. Dá torcicolos e é perigoso. Temos de olhar é em frente e para os lados. Para baixo, quando queremos evitar...quando queremos esconder. Mas ela tinha ouvido, ou alguém lhe tinha dito, que olhar três vezes ao dia para o céu poderia ajudar.</p> <p style="text-align: justify;">Ajudar a desfazer o nó na garganta. A apaziguar a dor no peito. A silenciar as vozes na sua mente. Por um pouco, por um minuto, um segundo...</p> <p style="text-align: justify;">Saiu de casa, com entrada no trabalho às oito da manhã. A luz do dia ainda é pouca, mas o frio é muito. Para a semana vai nevar, disseram-lhe. Ou ouviu, não sabe bem. Coloca o cachecol grosso, preto, à volta do pescoço e mete o carapuço, do casaco, na cabeça. <em>Hábitos</em>. Desce os degraus da entrada do seu prédio e olha em frente, as árvores despidas a chorar de inveja do seu cachecol. <em>Desculpem</em>.</p> <p style="text-align: justify;">Caminha, de mala ao ombro e cansaço no corpo, em direcção ao portão principal. Não se ouve um único som, para além dos pássaros a discutirem entre si e do seu estômago a roncar. Não houve tempo para pequeno-almoço. <em>Nunca há. </em>Mete os phones, liga-os ao telemóvel e pressiona o botão do play. Agora só se ouve música. De repente, vem-lhe à cabeça. O que lhe disseram, ou talvez o que ouviu ser dito sobre olhar para o céu. Involuntariamente, inclina a cabeça para trás e fixa-o. Ali está, o tal céu capaz de a fazer sentir-se melhor. Ou capaz de a fazer sentir-se menos mal.</p> <p style="text-align: justify;">Não existe sol no céu que contempla. <em>Tem de existir,</em> pensa ela. Só que ela não o consegue ver, como quase sempre. Não é azul, forte e garrido nem azul, pálido e esbatido. É uma mistura de branco cansado, cinzento tristonho. Como quase sempre. De repente percebe que o que fixa não é o céu, mas sim as nuvens. Todas tão juntinhas, tão iguais que dão a parecer que são o céu em si. Um sorriso amargo surge-lhe nos lábios.</p> <p style="text-align: justify;">Uma vez.</p> <p style="text-align: justify;">Corre para apanhar o autocarro e no trabalho corre um pouco mais - para a frente, para trás, com caixas nas mãos, com roupa nas mãos, com dinheiro nas mãos, com papéis nas mãos. Com pessoas à sua frente, ao seu lado, por trás de si, em cima de si. Sem ninguém. A hora de almoço vem e ela, suspira. Sai para comprar comida e desloca-se até à rua. Meio dia, e o sol ainda não brilha. Não precisa de olhar para o céu para o saber, não há luz. Há claridade, claro, mas não há amarelo, laranja ou vermelho. Apenas branco, cinzento, preto. Vai comprar um café e senta-se na esplanada a beberica-lo. No pequeno parque ao seu lado, crianças brincam, gritam, riem, correm.</p> <p style="text-align: justify;"><em>Que dor de cabeça, que cansaço...nem cá fora me livro das crianças. </em>Que amargo. O café.</p> <p style="text-align: justify;">O frio já não se faz sentir tanto como de manhã, ou pelo menos ela não o sente tanto agora de tarde, visto que teve tempo e actividade para aquecer o corpo. Será que o céu ainda é feito de nuvens? Olha para cima, relutantemente, como que a adivinhar o que vai encontrar.</p> <p style="text-align: justify;">Não há nuvens, ou se há, elas continuam tão juntas que parecem céu. </p> <p style="text-align: justify;">Desta vez não há sorriso.</p> <p style="text-align: justify;">Duas vezes.</p> <p style="text-align: justify;">Finalmente, é hora de regressar. Despede-se de todos os que ficam, quando só queria mesmo era despedir-se dela própria. Mais uma vez, coloca o cachecol ao pescoço e mete o carapuço na cabeça. Quando saí à rua pensa, são só cinco e meia da tarde, mas podia muito bem ser oito da noite. O frio voltou, ou talvez nunca tenha partido, e apesar de o dia não lhe ter corrido bem, também não pode dizer que correu mal. Como muitos outros dias seus. <em>Banal. </em>Corre para apanhar o autocarro e quase o perde. Esqueceu-se dos phones em cima da mesa da sala de pessoal. <em>Merda. </em></p> <p style="text-align: justify;">Carrancuda, sem os phones, com as vozes dolorosas das pessoas à sua volta, a viagem de autocarro parece durar dez anos em vez dos habituais dez minutos. Quase que se atreve a olhar para cima, para o céu, mas a senhora sentada ao seu lado bate-lhe com a mala no braço e o olhar dela foca-se na senhora invés. <em>Descuidada.</em> </p> <p style="text-align: justify;">Mais um dia passou. Por entre correrias, refeições não tomadas e outras mal tomadas, por entre conferência telefónica, atendimento ao cliente e mudança de visual da loja. Por entre uma piada e outra que teima em dizer para fazer os outros rir. Faz todos rir menos a si própria. <em>Que piada.</em> Mete o código no portão e a porta abre-se, de forma vagarosa para a deixar entrar. Não que tenha outra opção. Caminha, lentamente, um pé à frente do outro, com pouca vontade. Nenhuma vontade. Chega à pequena rotunda em frente ao seu prédio. Lá estão as árvores, ainda nuas, ainda com frio. Muito frio passam, coitadas. Mas o cachecol é dela. Bom, na realidade, é da sua mãe. Mais razões para não o emprestar ou dar. Quase que tropeça e caí. E nem sequer ia a olhar para cima!</p> <p style="text-align: justify;">Olha para cima, por falar em não ir a olhar para cima. O céu escuro, o sol que não chegou a ver já desaparecido e no seu lugar, a lua. A sua amiga, essa sim, ela vê todas as noites, umas vezes perto, outras longe, umas vezes redondinha, outras nem tanto. Mas vê-a sempre. Vê um avião que, por momentos, pensou ser uma estrela. Sorri de forma amarga, a sua favorita. Neste céu não há estrelas. Mas...olha melhor. Há uma...nuvem? Pouco saliente, quase que passava por despercebida, mas de facto, lá está ela! Não é branca, ou cinzenta, não tem uma forma certa ou errada, é apenas...algo no céu, para além da lua. E é a única. Dizem que uma noite sem nuvens se transforma num dia de chuva. Ou será sem chuva? Não se lembra. <em>Não interessa.</em></p> <p style="text-align: justify;">Três vezes.</p> <p style="text-align: justify;">Olhou para o céu três vezes num só dia, mais do que por vezes olha numa semana inteira. Enquanto sobe os degraus do seu prédio e procura pela chave na mala, não consegue evitar sentir que, de facto...não se sente particularmente melhor ou pior por o ter feito. </p> <p style="text-align: justify;">Mas viu uma nuvem. E raios, ela não se lembrava da última vez que tinha visto uma nuvem. Só por isso, ela entra no prédio a pensar...<em>amanhã vou voltar a olhar para o céu mais três vezes.</em></p> <p style="text-align: justify;"><em>Quem sabe o que vou ver.</em></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:255580 2019-11-11T15:41:00 Uma descoberta infantil 2019-11-11T16:02:14Z 2019-11-11T16:02:14Z <p style="text-align: justify;">Penso que todos nós temos aquele momento nas nossas vidas em que descobrimos que a magia do Natal é construída pelos adultos, pelo capitalismo e pela mentira. </p> <p style="text-align: justify;">Lamento começar logo assim, de forma tão brusca, mas a verdade é esta. O Natal é, desde sempre, um feriado religioso, com história e significado para muitos. Contudo, não sei bem como, quando nem porquê, o Natal desenvolveu-se e tornou-se numa época em que nada parece importar mais do que os presentes que vamos dar - e mais ainda, os que vamos receber. É o pico do capitalismo e, admito que, nunca tinha pensado bem a fundo nisto - até trabalhar na área do retalho. </p> <p style="text-align: justify;">Meu Deus. É tudo o que posso dizer, primeiramente, em relação à época do Natal no mundo do retalho, do capitalismo. Quando digo que já vi pessoas a lutarem por um bocado de tecido que custava 2 libras, não minto. Nunca ninguém acredita em mim, mas isso não faz com que não seja verdade. Claro que, para todos nós acredito eu, o Natal é muito mais do que isso. É o tempo passado em família, é os doces na mesa, os jogos de cartas e monopólio que perdemos para os nossos primos mais velhos e mais espertos ao jogo, é o calor da fogueira (se a tivermos) e o vapor das castanhas acabadas de descascar, no ar. Contudo, e não esquecendo, o Natal é muito o pico anual do capitalismo.</p> <p style="text-align: justify;">E acho que a maior descoberta infantil, que talvez alguns (talvez muitos) de vós partilhem comigo, é quando descobrimos que o Pai Natal não é real. MAS, e agora se calhar vou ser um pouco controversa, muitos dizem também não o ser o menino Jesus ou Deus (eu sendo uma delas). Portanto, a minha descoberta infantil não passa só por descobrir que, todos os anos, a minha avó levava os seus dois netos para um dos quartos, enquanto os nossos pais colocavam os presentes à volta da árvore, enquanto o meu pai fazia o seu<em> "ho ho ho",</em> o mesmo pelo qual hoje ainda é gozado (por mim) e que a mãe do meu primo tocava o sino enquanto a minha avó segurava em ambas as nossas pequenas e irrequietas mãos e dizia: O<em>içam, oiçam! Chegou!!</em></p> <p style="text-align: justify;">A minha descoberta infantil passa também por descobrir que não existe um Deus. Pelo menos para mim. E cada um acredita naquilo que o valha. Religião não é algo sobre a qual eu escreva (ou fale) com frequência. Porque é um assunto muito delicado para muitos e as pessoas ofendem-se com facilidade. Eu sou da opinião que todos nós somos livres de acreditar naquilo que quisermos, em quem quisermos, incluindo sermos livres de não acreditar, ponto. Contudo, tendo crescido numa família semi-religiosa, nunca pus em causa a existência de um Deus ou de um Jesus. Até ao dia em que assim foi. Poucos dias depois do Natal em que descobri que o Pai Natal não existe. Aconteceu. E desde aí que não acredito. Não porque não quero, mas porque posso. Posso não acreditar. E posso escolher acreditar noutras coisas.</p> <p style="text-align: justify;">Que descoberta infantil mais adulta...</p> <p><em><strong>P.S.</strong> : Perdoem-me a irregularidade com que cumpro com este desafio. Mas, se há coisa na qual acredito ,é na dificuldade que eu tenho em me comprometer a sério e totalmente com algo que não os meus demónios. Os quais batalho ainda. Mas enfim, isto já são outros divagares...</em></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:something-new:255384 2019-11-06T11:43:00 Uma música favorita (Skeletons) 2019-11-06T11:59:50Z 2019-11-06T11:59:50Z <p style="text-align: justify;">Perdi um pouco o fio à meada com este desafio. De um dia para o outro o blog ficou às escuras e eu, que adoro o escuro, estou completamente rendida. Boa Sapo Blogs!</p> <p style="text-align: justify;">Adiante... O meu gosto musical é muito variado e como tal as minhas músicas favoritas variam com o meu estado de espírito, com a altura do dia, com o momento pelo qual estou a passar na minha vida. Não tenho uma música que possa dizer: esta é que é a minha favorita de todos os tempos. Mas tenho artistas, cantores que gosto e que oiço sempre, isso sim. Vou sempre descobrindo novos músicos e houve um dia, que não sei bem como, me deparei com um músico digamos que <em>underground</em>, pouco conhecido mas que tem uma música pela qual me apaixonei. Talvez porque poderia ter sido eu a escreve-la, do tanto que reflecte o meu estado de alma, talvez porque simplesmente gosto de me deitar na cama, com as luzes apagadas, quando as minhas queridas insónias estão no seu auge, a ouvi-la. E a mesma traz-me conforto. Paz. Serenidade. Sozinha no escuro, oiço esta música e penso, sinto, que não estou assim tão sozinha. </p> <p style="text-align: justify;">É esse o poder imenso da música. Das letras. Junta-nos, dá-nos companhia, alarga um pouco aquele nó gigante, e bem apertado, que temos na garganta e no peito. Por vezes conseguimos isolar-nos tanto, sentirmos-nos tão sozinhos, até mesmo quando estamos bem acompanhados e temos pessoas que nos amam connosco...até nesses instantes, por vezes, não somos capazes de nos sentir inteiros. De nos sentirmos cheios. A música para mim, é isso. É a minha companheira no isolamento, é a minha luz no escuro, é o meu calor no frio, é a minha vontade de continuar na falta da mesma.</p> <p style="text-align: justify;">A minha música favorita é a música. Mas esta é uma das.</p> <p class="sapomedia videos"><iframe src="https://www.youtube.com/embed/w_6fWYY6pRw?feature=oembed" width=" 480" height="270" frameborder="0" style="width: 640px; padding: 10px 10px;" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></p> <p style="text-align: center;"> </p>