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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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Something New

07
Mar20

O que querem de mim

alex

Toda a gente espera algo de mim.

Que eu seja este tipo de amiga, ou este tipo de filha, ou este tipo de profissional. Querem que eu seja feliz, querem que eu seja social, querem que eu me expresse mais e me esconda menos.

Querem que eu ande bem, querem que eu ande mal, querem que eu ajude com o inglês e ás vezes até com o português. Querem que eu me ria, que faça rir, que tenha conversas profundas e conte os meus segredos e que partilhe as minhas histórias e os meus fados.

Querem que eu seja a pessoa que era quando me fui embora, ou até mesmo a pessoa que era quando estive fora. Querem que eu me adapte bem, de regresso agora, mas querem que eu o faça rápido, que não sinta saudade, que não sinta falta. Querem também que eu encontre o meu lugar assim, num abrir e fechar de olhos, só porque não consegui encontrar a felicidade lá fora.

A felicidade não é algo que se encontra, é algo que se procura, que não vem, que demora. Não estou infeliz, estou muito melhor agora, já não choro todos os dias a pensar "vou-me embora". Já não choro, mas isso não significa que não tenha lágrimas, assim como também tenho sorrisos e gargalhadas. Querem tanto uma pessoa que não existe, uma pessoa sem inseguranças, sem medos, sem ansiedades. Uma pessoa que se deixa ir, que não pensa em desistir. E quem me ler pensa que eu sou só isso, mas não, tenho é mais facilidade em escrever sobre isso. Porque não consigo falar disso. Porque querem todos que eu seja a imagem que têm de mim na cabeça deles.

E eu sou assim. E já quase me esqueci do que é ter alguém que me gosta assim. Por mim. E que não me julga por ser assim. Por ser tudo e por ser nada. Por ainda me estar a descobrir e por talvez nunca me vir a encontrar. Já esqueci o que é ter alguém que olha para mim e diz:

"És como és, somos todos diferentes, temos todos percursos diferentes e eu gosto de ti assim. Por ti."

26
Fev20

As laranjas do chão

alex

Ao virar para entrar na minha rua há umas laranjeiras. O que é estranho, pois vivo numa zona com pouca natureza, onde passam muitos carros a toda a hora, mesmo em frente a uma estrada nacional. Contudo, aquelas laranjeiras lá estão, no seu bocadinho de relva, a dar um pouco de laranja e verde ao cinzento da zona.
Sentada na paragem de autocarro, olhei para as laranjeiras e vi umas quantas caídas no chão, no meio da estrada. E depois lembrei-me em como elas também estavam ali caídas ontem, e antes de ontem e na semana passada até. Aquelas laranjas, meia dúzia, caídas na estrada, por onde passam carros a toda a hora, algumas esmagadas, outras ainda por esmagar. E eu pus-me a pensar...
Eu sou como as laranjas do chão. Uns dias sou como as esmagadas, outros sou como as que ainda estão por esmagar. No entanto, encontro-me caída tal e qual como elas, à beira da estrada, sem poder fazer grande coisa, esperando apenas que não passe um carro hoje e me esmague, o meu sumo espalhado pelo alcatrão, a minha casca aos pedaços, desfeita.
Aquelas laranjas ali caídas assim ficam. Ninguém as vai lá apanhar, ninguém as vai resgatar da sua morte iminente. Se forem como eu, até passam por elas todos os dias e nem se apercebem. Só quando te sentas na paragem de autocarro que está virada exactamente para elas, é que te dás conta.
E depois? E depois já é tarde de mais. És como as laranjas do chão.
Sou como as laranjas do chão.

07
Fev20

O meu silêncio

alex

A brincar, a brincar, já lá vão quase 6 meses desde o meu regresso a Portugal. Meio ano. O que é isso, na grande escala da vida? Nada, de facto.

Mas na minha, já é algo. Sinto que estou a falhar redondamente. Não só comigo, mas para com os meus. Voltar a Portugal era para ser uma coisa boa, para estar mais perto dos meus, para me reencontrar talvez, para encontrar um lugar para mim neste vasto mundo, que não consegui encontrar em Londres. Em Londres fazia o que queria, como queria e bem entendia. Aqui, tenho mil e uma vozes a gritarem-me ao ouvido: devias fazer assim, porque é que não fazes assado, eu teria feito ao contrário.

Em Londres ninguém sabia o que eu fazia. E também não se importavam muito. Mas agora aqui, parece que toda a gente tem uma opinião a dar sobre a minha vida, sobre aquilo que eu faço e não me agrada. Acho que aos poucos estou a ser relembrada de, pelo menos, uma das razões pela qual eu decidi partir há 5 anos atrás. Porque longe, eu podia escolher o que mostrar, o que dizer, o que partilhar. Aqui, não há como esconder, não há como fugir. E querendo justificar-me, sempre, tento dar razões pelas quais faço as coisas que faço, da forma que as faço. Ou que não as faço. Mas não me ouvem. E insistem. E pressionam. E depois eu sinto-me mal, porque sei que não fazem por mal. Mas eu também não. Então, aos poucos, estou a desistir. Reduzo-me para não ter de me justificar. Não gosto de me justificar. Cansa-me profudamente. Então calo-me. Mas depois a A. diz-me o quão díficil está também a ser para ela. O regresso, a adaptação e o quão díficil é não fazermos a nossa vida juntas, como faziamos. E apesar de ambas sabermos que estava na altura, que a nossa vida em Londres já não estava a fazer sentido, a nossa vida cá também não está a fazer. Ainda. Eu quero acreditar que vai. Quero mesmo.

Mas ninguém ajuda. Nada ajuda. Então eu calo-me. Fecho-me. Escrevo. Pouco aqui, mais para mim, só. E espero. E no fim, já dizia a Capicua:

"Pior do que o meu canto, há-de ser o meu silêncio."

 

24
Jan20

Alguém em casa?

alex

Janeiro parece durar o ano inteiro. Não tem fim. Tal e qual como o Inverno que eu vivo, parece que já há quatro anos constantes. Quero o sol, quero muito o sol. E o calor, que não venha do aquecedor no meu quarto, que ao rodar faz uns barulhos que ao fim de uns minutos me incomodam tanto que, acabo por o desligar. 

Mas depois vem o calor. E eu vou andar a suar e a pedir pelo frio outra vez. Janeiro parece não ter fim, mas depois vem o Fevereiro e provavelmente vou andar a queixar-me que é demasiado curto e que não tive tempo nenhum para nada. 

Quero andar motivada, mas não há motivos para isso. Quero encontrá-los mas não sei onde os ir procurar, quanto mais achar. Quero ter esperança, mas e se nunca a tive para começar?

Dizem que nada dura, tudo passa... Porque é que esta inquietação dentro de mim não é assim? Passageira? Não. Ela dura e dura e faz-me acordar todos os dias vazia.

Sou um vácuo. Aquela piada, de bater na cabeça e dizer "está alguém em casa?".

Pois. Não está cá ninguém. 

02
Dez19

(Não) Está frio

alex

Ao meu redor, todos se queixam do frio. E eu, com um sorriso sabedor nos lábios, já não digo que não está frio. Aceito que o frio dos outros é diferente do meu. Do que foi o meu frio durante os últimos quatro anos.

Chega o Dezembro e a minha rua cheira a lareira. É um incómodo quando estou a vir para casa e percorro a minha rua, com o cabelo acabado de lavar, para depois o mesmo ficar a cheirar a fumo. Mas é um cheiro novo, esquecido na minha mente, agora recordado e vivido quase todos os dias.

Montam-se as árvores de Natal e os presépios. O ano passado planeava o jantar de Natal da loja, este ano vou desfrutar de um jantar de Natal com amigos. Folheamos os folhetos dos supermercados e lembramos-nos de que já ninguém brinca com nenucos. Aproveitamos os descontos da Black Friday (a primeira de cinco em que não trabalhei!) e compramos as prendas que achamos e esperamos que os outros irão gostar de receber. Os fins-de-semana têm direito a castanhas assadas, e o espírito natalício espalha-se pelas divisões da casa.

Chega o Dezembro e daqui a nada, o Janeiro. Uma nova década. 2020. Números pares, os meus favoritos. 

Ao meu redor, as pessoas dizem que está frio. E eu só penso no quão bom é viver com o frio dos outros, porque se este Dezembro estivesse a viver com o meu frio, do ano passado, e do ano anterior a esse, não andava quentinha por dentro. 

Dizem que está frio. E eu sorrio e penso...Está tanto calor.

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