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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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Something New

23
Abr14

O mundo gira (mesmo sem nós)

alex

Uma dor no peito. Uma lágrima derramada. Um suspiro solto. Um coração com defeito. Marcas do passado que carregamos connosco. Fantasmas que não encontram paz, e por isso, também não nos deixam encontrá-la.

Um mundo a preto e branco onde as pessoas vão perdendo cor.

O sofrimento de um ser humano incapaz de viver com tanta dor.

Uma vida a menos.

E o mundo continua a girar.

18
Fev14

Porque os actos falam mais alto que as palavras #2

alex

Chegámos perto do rio e sentei-me junto à grade que separava o pavimento da água. Ele permaneceu durante um bocado em pé ao meu lado, a contemplar as gaivotas que por ali andavam, até que resolveu sentar-se. Conseguia sentir a sua perna a tocar levemente na minha.

Tinha saudades disto.

-Apaixonei-me por ti e foi a coisa mais estúpida que podia ter feito. A ti e a mim, a nós. Pior, fiz com que te apaixonasses também por mim e por isso, desculpa.

Olhei para ele com um ar incrédulo. Se a dor que sentira devido ás suas palavras, naquele momento, não estivesse estampada no meu rosto, não sei o que mais poderia fazer para que a mesma se manifestasse.

-Pedes-me desculpa por me amares? Por eu te amar? E que tal pedires desculpa por me teres deixado? E que tal seres homem e pedires desculpa pelos teus erros e não pelos teus feitos? Pedes-me desculpa por te apaixonares e por eu me ter apaixonado. Olha pôrra, pede antes desculpa por não te teres apaixonado tanto como eu, ou por não teres sido fiel à tua palavra e teres-me deixado como prometeste que nunca farias. Pede antes desculpa por isso meu grandessíssimo estupor!

Recusei-me a olhar para ele, com medo que ele visse as lágrimas que começavam a brotar do meus olhos castanhos. Vi no entanto, que os seus ombros moviam-se como se estivesse a rir. Ele estava-se a rir? Mas ele estava a gozar com a minha cara ou eu estava a sonhar?

-Mas tu estás a rir-te de quê? Achas piada a isto é? Achas-me piada?

Ele olhou para mim com um sorriso ainda nos seus lábios rosados.

-Acho-te piada pois. Senão não estávamos aqui agora. Ouve…

Ele estendeu a mão e pegou na minha como fizera tantas outras vezes no passado. Senti de imediato algo a percorrer o meu corpo. Uma espécie de electricidade, ou um bichinho.

-Não, ouve tu – disse eu retirando a minha mão dele como se ele tivesse uma éspecie de doença mortal transmissível através do toque – as tuas desculpas para mim de pouco ou nada me servem. Dizes que te apaixonas-te por mim. Isso é mais uma mentira. Se tal fosse verdade estava agora a passear toda feliz de mãos dadas contigo feita menina de filmes românticos. Se tal fosse verdade não estavas para aí a dizer baboseiras que, sinceramente, é escusado eu ouvir como tenho feito até agora.

-Mas tu não me deixas acabar de falar. És assim. Interrompes-me sempre e eu nunca digo nada por inteiro. E quando digo, tu só percebes metade, aquela que escolhes ouvir. Posso terminar o que estava a dizer antes de virares “oh toda Hulk”?

Revirei os olhos mas não proferi nem mais uma palavra.

-Desculpa. Desculpa ter-me apaixonado por ti e ter-te feito apaixonares-te por mim e depois ter-te deixado. Não o devia ter feito. A parte de te ter deixado, quero eu dizer. És assim e eu amo-te assim, como nunca amei ninguém. Pensei que ao deixar-te estava a fazer-te um favor. És nova, tens a vida pela frente. Não podia prender-te, não viveria bem se soubesse que o estava a fazer. Por isso deixei-te ir. Porque te amo como nunca amei ninguém, deixei-te ir. Porque amar é também saber abrir mão da pessoa que amamos, quando sabemos que essa pessoa será mais e melhor sem nós. É saber quando desistir, não de amar, mas de lutar pela pessoa que amamos, mesmo quando ela não nos dá motivos para isso. Mesmo quando o motivo somos nós; sou eu, que te prendia e te impedia de viveres a tua vida ainda tão curta. És assim: livre. Sempre o foste. Não iria ser eu a negar-te algo pelo qual lutaste tanto. Porque te amo e só por isso.

Mordi o lábio com tanta força que este começou a sangrar. Mordi-o para conseguir parar as lágrimas de me escorrerem pela face, mas já não consegui. Elas correram livremente e molharam os meus melhores jeans.

-Amo-te porque és assim. Num minuto és fria e gritas comigo e no minuto seguinte choras e és vulnerável. Amo-te porque és assim e és tudo para mim.

-Pára com isso. Sabes que odeio lamechices. – ele riu-se, preenchendo o ar com uma melodia agradável, característica sua.

-Se te amo por seres assim, devias amar-me por eu ser assim.

-Mas tu não és assim, lamechas. Só estás a sê-lo agora para ver se me convences, mas não convences. As tuas palavras são muito bonitas, mas as tuas acções são tão feias que ofuscam a beleza daquilo que dizes. Comigo não vais lá assim, já devias saber.

-E sei. Por isso mesmo é que vou deixar os meus actos tomarem o lugar das minhas palavras.

-Ai sim? Duvido muito.

Ele mostrou-me um sorriso hesitante e levantou-se, ficando de costas para mim. Quando se virou, segurava algo na mão. Uma caixa? Sim, pequena, azul, simples. Uma caixa. O meu cérebro começou a disparar alarmes como se algo estivesse a arder dentro da minha cabeça. Ele não ia fazer o que eu estava a pensar que ele ia fazer. Ou ia?

Olhei para ele com um olhar esbugalhado enquanto ele se ajoelhava naquele chão sujo e cheio de cocó de gaivotas.

Abriu a pequena caixa azul e mostrou-me um anel. Simples, pequeno e delicado, com uma safira muito pequena, que brilhava tanto como os seus olhos naquele momento, expectantes, focados nos meus.

Ele não disse nada. Eu também não. Desta vez iríamos deixar os nossos actos falar mais alto que as nossas tolas palavras.

Tirei o anel da caixa e coloquei-o no meu dedo tão fino como um palito. Ele sorriu, um sorriso de orelha a orelha e eu levei os meus braços ao seu pescoço, puxando-o para bem perto de mim. Já não eram precisas palavras, pedidos de desculpa, insultos.

Tudo o que eu precisava e queria ouvir ele tinha dito num só gesto.

 

***

 

E passados muitos anos, foi desse gesto que me lembrei e não das palavras antes proferidas por ele.

Porque os actos falam mais alto que as palavras.

16
Fev14

Porque os actos falam mais alto que as palavras #1

alex

Quando me sentei na cadeira de plástico, ostentava o maior sorriso que os músculos da minha cara alguma vez permitiriam.  O sol ia alto no céu e este estava limpo, deixando o sol brilhar em todo o seu esplendor, aquecendo os meros mortais da Terra, talvez até de mais. Estava na hora do almoço e o meu estômago teimava em relembrar-me disso a cada segundo que passava sem ser alimentado. Esperei impacientemente pela minha refeição e quando ela chegou sorri abertamente (e novamente). Não sorri porque o meu prato de massas tinha finalmente chegado, mas sim porque quem o trazia era ele.

Ele sorriu em resposta, um sorriso que me fazia mais falta do que o que eu gostava de admitir (a ele e a mim própria). Sentou-se em frente a mim, como sempre fizera e começou a comer sem pronunciar uma palavra. Lentamente, o sorriso desapareceu dos meus lábios e ocupei-os com a refeição que tinha à minha frente (o prato de massas, atenção!) que já não parecia ter tão bom aspecto como eu inicialmente pensei.

Comemos em silêncio, trocando uns olhares aqui e ali. Verificava as horas no relógio a cada minuto insuportável que passava. Não era assim que tinha imaginado passar a minha tarde. Com ele. Finalmente, e porque não sou pessoa de esperar, quebrei o silêncio. Respirei fundo, pousei os talheres e falei.

-Posso provar esse hambúrguer?
-Mal tocaste nas tuas massas!
-Só queria saber.

-Saber o quê?
-O que raio leva esse hambúrguer que o torna tão bom ao ponto de te impedir de me dizeres uma palavra que seja durante uma hora. Captei a atenção dele por completo. Pousou o hambúrguer no prato e respondeu-me de forma acutilante.

-Bom, deve então ter algo que te falta a ti.
Sentia falta disto.

-Talvez um pouco de sal, ou até mesmo uma pitada de pimenta...
-Pimenta, sem dúvida. Falta-te pimenta na língua para não dizeres disparates.
Olhámo-nos durante uns segundos, com um ar sério. Fazíamos isto a toda a hora, noutros tempos. Arranjávamos assunto sobre o qual pudéssemos implicar um com o outro e depois fingíamos estar zangados, apenas para acabarmos a rir às gargalhadas, deixando tudo e todos a olhar para nós como se fossemos um par de lunáticos.

Quando decidimos parar de rir, doía-me a barriga. Vi-o limpar uma pequena lágrima do canto do olho e voltei ao ataque.

-Não chores, eu ainda não me vou embora! Mas só porque estas massas estão divinais e eu ainda tenho muitas no prato!
-Passaste esta última hora a pensar no que me havias de dizer em vez de comer as massas não foi?

Hesitei. Conhecia-me tão bem...

-Nunca desperdiçaria tanto tempo contigo!
-Então porque aceitas-te vir hoje?
A pergunta que pairava sobre mim durante as últimas 24 horas.

-Não sei. Porque estava com desejos de massa e não tinha dinheiro para vir aqui almoçar?

Ele riu-se. De mim e não do que eu disse.

-Admite. Tiveste saudades minhas.
-Nos teus sonhos.

-Nunca perderia uma noite bem dormida para sonhar contigo.

-Mas já perdeste várias para fazer outras coisas que não sonhar. Comigo.

Aquela calou-o e fê-lo mexer-se na cadeira, endireitando-se. Não disse nada, até que decidiu levantar-se.

-Ainda não acabei de comer. - Pousei de novo os talheres e olhei para ele com um ar frustrado. O olhar foi-me devolvido.

-Pois eu já.

Virou-me costas e eu deixei-me estar. Prometi a mim mesma que, acontecesse o que acontecesse naquele dia, não iria correr atrás dele. Essa história já estava a ficar velha.

Fiquei sentada e terminei a minha refeição. Ele tinha-a pago, eu estava com fome, mais valia desfrutar daquela delícia gratuita. Passado o que eu calculo terem sido uns vinte minutos, ele regressa sentando-se mais uma vez à minha frente.

-Ainda estás com fome? - Ergui as sobrancelhas para dar mais ênfase à minha pergunta.

-Não, obrigado. Voltei para te dizer que tu és impossível. Não sei como raio me fui apaixonar por ti. És irónica, gozona, implicativa e teimosa que nem uma mula.
-Casmurra que nem uma mula, queres tu dizer.

-Não me interrompas. És irritante, complicada, maluca e às vezes falas tanto e tão alto que a minha única vontade é enfiar-te uma rolha na boca.
-Podes tentar mas não te admires se não sobreviveres para contar essa história.

-És assim. E eu fui-me apaixonar por ti, sendo tu assim. Porquê?

-Isso pergunto-te eu a ti.
Ele recostou-se na cadeira e deixou sair um suspiro longo. O meu estômago estava às voltas e o meu coração batia sem parar. 
-Porque és assim. E não queres saber. Porque és irónica, gozona, teimosa e irritante e tens perfeita noção disso. E não estás nem aí para quem não gosta. Porque és também muito divertida, inteligente, do tipo de pessoa com quem podemos ter uma conversa sobre o último livro do Stephen King e no momento a seguir estar a ter uma conversa sobre café. És assim. És curiosa, anseias pela vida. Queres sempre mais quando já tens tanto, perguntas sempre mais quando já te dei tantas respostas. Interessas-te por coisas que não lembram a ninguém. Fazes colecção de moedas. Mas qual é a mulher que faz colecção de moedas?
-Ah agora já sou uma mulher, é isso? Ainda há uma semana atrás era uma mera rapariga, demasiado nova para saber ou perceber fosse o que fosse.

-És assim, estás a ver? Usas essa tua máscara de má, de rija, de frívola. Como se nada te afectasse, como se nada pudesse trespassar o teu coração e destroçá-lo quando eu sei que não é bem assim.

-Ao menos sabes o que fizeste. Ao menos isso.

Voltámos a cair no silêncio, apesar de ainda haver pessoas à nossa volta, que falavam sobre o tempo, sobre as suas relações amorosas, sobre o trabalho, os filhos, a escola…sobre a Vida.

Não aguentando mais, levantei-me. Pensei que o meu peito ia explodir ali naquele momento. Peguei na mala e dirigi-me à saída. Não olhei para trás para ver se ele me seguia, porque sabia que assim era.

02
Fev14

Nunca mais voltaria

alex

"Por favor volta...Não me deixes assim com o coração nas mãos, com as lágrimas a escorrem-me pela cara. Não me deixes assim desamparado, sem saber como respirar, como me mover, como falar, como sentir... Não me deixes sem vida. Não me deixes..."

Reli aquela mensagem uma e outra vez. Talvez o melhor a fazer fosse mudar de número. Como aquela haviam muitas outras. Umas pediam desculpa, outras pediam perdão, outras diziam para eu voltar. Elas chegam diariamente há já uns três dias e não sei o que mais posso fazer para que ele perceba que eu não lhe vou responder.

Voltar não era opção. Sair e fechar a porta atrás de mim foi das coisas mais difíceis que tive de fazer em toda a minha vida. Martirizei-me durante muito tempo, dizendo para mim mesma que estava a ser egoísta, que estava a errar. Mas hoje via que não. Hoje sabia que estava apenas a fazer algo que ele nunca fez: a dar valor. A dar valor a mim mesma. Ele nunca me deu valor. Tomava-me como garantida, como se eu fosse um daqueles bonecos que compramos numa feira popular. Quando o vemos gostamos tanto dele que fazemos tudo para o ter. Ganhamos o jogo e levamos o boneco para casa. Brincamos com ele, abraçamo-lo, damos-lhe um nome e fazemos-lhe promessas infinitas. Mas depois o boneco perde a piada e deixamo-lo na cama por fazer, meio desamparado a olhar para o tecto e a perguntar-se onde raio é que errou. Abandona-se o boneco e durante uns tempos nem se pensa nele. O boneco sofre, sozinho, desamparado durante dias e dias a fio. Uma certa noite lembramo-nos da existência do boneco. Ali está ele, exactamente no mesmo sítio onde o deixamos, debaixo das cobertas da cama que nunca é feita. Nessa noite sentimo-nos sozinhos, a nossa vida não nos corre bem e por isso, voltamos a agarrar-nos ao boneco como se ele fosse a nossa âncora.

O que não sabemos é que esse boneco já não é o mesmo que deixamos para trás. Está diferente, alterado, desfeito com o peso das nossas acções. O que não tomamos em consideração é que o boneco passou todo aquele tempo debaixo das cobertas a sofrer, a perder dias de vida, como se a mesma lhe fosse arrancada à força do seu peito. Tudo isto enquanto nós continuamos a viver a nossa vida sem ele, como se nada fosse. O que nos dá o direito de voltar, tanto tempo depois, apenas para nos aproveitarmos do coração magoado de um pobre boneco?

Era isto que eu tinha vontade de lhe dizer, como resposta a todas as suas estúpidas mensagens.

Onde estavas tu quando era preciso? Por que estradas deambulavas quando a minha estava deserta sem ti, sem a luz do teu sorriso ou o som da tua sonora gargalhada? Onde estavas tu quando eu estava debaixo das cobertas da cama por fazer, sozinha, desamparada, sem vida, sem amor, teu ou meu, sem nada?

Onde estavas tu?

Fechei a porta do meu apartamento à chave. O telemóvel estava no bolso do meu casaco. Desci as escadas a correr e assim que cheguei à rua, a forte brisa de Inverno encheu o meu peito, dando-me forças para fazer aquilo que já devia estar feito.

Avancei na direcção do caixote do lixo. Tirei o cartão do telemóvel e deitei-o no contentor. Fechei os olhos. Fechei o coração.

Fechei-me a ele, ele que nunca me soube valorizar, que nunca me soube estimar, que nunca me soube amar.

Fechei a porta e tranquei-a à chave. A chave perdia-a.

Nunca mais voltaria.

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