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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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18
Jul13

My shining star

alex

Caminhava ao longo do campo com a certeza de que não estava a sonhar. Se estivesse já tinha despertado.

Os meus pés estavam descalços sob a relva fria e húmida e ao contemplar as estrelas no céu, identifico a Ursa Maior.

Inevitavelmente, sou puxada para um sítio longe daquele descampado frio e deserto.

 

De repente, dou por mim no meio da feira da cidade, rodeada por uma multidão de jovens, adultos, crianças e velhos. Os carroséis giram, cada um ao seu próprio ritmo, uns para cima e para baixo, outros para os lados e outros em todas as direcções. As suas luzes tornam a tarefa de ver claramente, díficil, e sou obrigada a franzir os olhos devido à claridade, embora já passe das nove da noite.

O ar que respiro é fresco e puro. O cheiro da barraca das pipocas é forte e atrativo, mas o perfume das árvores que estão agora a renascer depois de um inverno longo e frio, é o cheiro que mais se destaca nesta noite.

Não caminho sozinha. Faço-me acompanhar por duas amigas e as três caminhamos sem destino nesta noite de festa.

Só vim pelo fogo de artíficio.

Há qualquer coisa nele que me atrai. Talvez seja o barulho faiscante do foguete antes deste ser lançado ao ar. 

Talvez seja a expetativa de o ver desabrochar no céu, cobrindo-o de cor, dando-lhe vida e alegria.

Talvez seja o barulho em si, depois de este atingir o céu ou talvez seja apenas o momento final, aqueles milésimos de segundos depois do som estonteante, em que ele cai na àgua com um banque silencioso.

Talvez seja pela sua grandeza ou pela sua simplicidade.

Algo tão belo e simples. Tão sonoro e no fundo, tão silencioso.

Caminhamos em direcção à Casa Assombrada, a minha favorita. Apesar de não meter medo nenhum, é para mim a mais divertida.

Escolho o lugar da frente e ambas as minhas acompanhantes se recusam a fazer-me companhia.

"Por favor! Uma de vocês que tenha a decência de vir comigo!"

Ambas abanam a cabeça e olham para mim com um olhar que diz "Desculpa!"

"Como queiram, vocês é que perdem!"

Ponho o cinto e fico ansiosamente à espera que a carruagem comece a mover-se.

Por alguns segundos, penso no quão infantil devo parecer.  Sorrio de orelha a orelha e dou saltinhos de alegria no meu lugar, apesar de esta ser a minha miléssima vez na Casa Assombrada.

Mas limito-me a encolher os ombros ao meu pensamento e preparo-me para a diversão.

Quando estamos prestes a arrancar, sinto um peso ocupar o lugar do meu lado direito. Quando olho, na esperança de ver a cara sorridente de uma das minhas amigas, deparo-me com um rapaz.

Os seus olhos cor de mel brilham de excitação, quase como um espelho dos meus. O seu sorriso é ainda maior do que o meu. E que belo sorriso é.

As suas mãos firmes agarram o corrimão à nossa frente e quando ele se dirige a mim, a sua voz chega-me aos ouvidos como uma doce canção de rock dos anos 70.

"Espero que não te importes. Era o único lugar disponivel."

Fito-o durante uns segundos e obrigo-me a sorrir. Depois tenho de me obrigar a responder.

"Não, estás à vontade."

A sua resposta é um simples piscar de olho e um leve sorriso. 

O ar que dantes respirava, é-me agora negado e só quando a carruagem começa a andar é que sou capaz de desviar o olhar da sua cara anormalmente bela.

Quando entramos o ambiente é escuro e frio. O único som que se ouve é o do meu coração a bater descompassadamente, de entusiasmo e excitação. A carruagem ganha velocidade e inesperadamente, ouve-se uma voz rouca e profunda, proveniente de um alti-falante, dizer "Bem-vindos à melhor Casa Assombrada do mundo..."

Não prestei atenção ao que a voz continuou a divagar e voltei a minha atenção para o rapaz sentado ao meu lado.

Tentei a todo o custo não olhar para ele, mas quando dei por mim, fixava-o intensamente, avaliando todos os seus movimentos, todas as suas reacções, todos os seus traços físicos.

A t-shirt branca que tinha vestida deixava a descoberto os seus braços bem exercitados e bronzeados.

O seu cabelo castanho claro dançava ao sabor do vento que existia devido à velocidade com que a carruagem andava e o seu sorriso fez-me lembrar o de um menino de doze anos, numa tarde solarenga de verão, num descampado a jogar à bola com os seus amigos.

Forcei-me a olhar em frente, permitindo-me olhar de lado para ele de vez em quando.

Numa dessas vezes, apanhei-o a observar-me. Virei-me para ele e o seu sorriso aqueceu-me o coração, ao mesmo tempo que sentia por todo o corpo um enorme formigueiro.

A viagem chega ao fim, muito mais depressa do que o esperado e saio do meu lugar sentindo-me vazia, como se a bruxa ou a múmia da Casa Assombrada me tivessem roubado algo quando saltaram para cima de mim, na tentativa de me assustar.

Viro costas sem olhar de novo para o rapaz, mas é quando estou prestes a alcançar as minhas amigas que estavam muito mais atrás do que eu, que sinto uma mão firme agarrar o meu ombro, fazendo-me girar na direcção oposta.

"Parece que viste um fantasma!"

Não consegui evitar rir. 

"Algo do género..."

"Obrigada por me teres deixado ir sentado a teu lado...precisava de alguém que me defendesse, caso o vampiro não conseguisse resistir ao meu sangue e me saltasse para cima"

O rapaz era engraçado. 

"Ainda bem que usei o meu perfume de alho esta noite...só para não ter nenhuma má surpresa durante a visita à Casa Assombrada"

Foi a vez de ele se rir.

"Ainda bem que eu gosto de alho"

O seu sorriso é como uma luz forte e quente, que penetra em mim e me aquece, de dentro para fora. Sinto a minha face a arder. Sei que estou corada que nem um tomate, mas por alguma razão minha desconhecida, não me importo.

"Sou o Edric."

Ele estende a sua mão e, relutantemente, eu estendo a minha e balbucio:

"Cassie"

 

Sinto algo a puxar-me e de repente, estou de volta.

De volta ao descampado, coberto por um céu estrelado sem fim.

Naquela noite tudo mudou.

Aquela noite conduziu-me até aqui.

Aquela foi a noite em que todas estrelas do céu se alinharam e me indicaram o caminho certo.

A noite em que o conheci. A noite em que a minha vida mudou.

Contemplo o céu repleto de pequenos pontos brilhantes uma última vez e sorrio.

Sorrio porque sei que a maior estrela de todas, a mais vísivel, a mais brilhante, está a sorrir de volta para mim.

Ele vê-me e sorri.

E brilha. Brilha como nunca nenhuma estrela antes brilhou.

Brilha e brilha só para mim.

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