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18
Fev13

We never know what's behind a person's smile

alex

Hoje a minha aula de português parecia um diluvio. Foi horrível. Uma cambada de adolescentes com demasiadas cicatrizes do passado, a chorarem baba e ranho depois de uma apresentação oral sobre bullying. 

Já falei sobre o assunto aqui. Quem viu esse texto, sabe que eu mesma passei por uma fase menos boa da minha vida, em que sofri de bullying. Daí ter feito parte da cambada de adolescentes chorosos e ranhosos.

Fiquei a saber coisas sobre colegas de turma, pessoas a quem chamo até amigas, que nunca julguei que lhes tivesse acontecido. É aí que entra o título deste post.

Por vezes, não conhecemos tão bem as pessoas como julgamos. Por vezes, há segredos que nunca são revelados. Há muita coisa que as pessoas guardam para si, porque são dolorosas demais para serem partilhadas, independentemente do tempo que tenha passado, desde que aconteceram.

Houve um rapaz em particular na minha turma, que a certa altura, começa a chorar ao contar a sua história. Um rapaz que eu já vi gozar com outras pessoas, quando reunido com os amiguinhos dele. Um rapaz que, apesar de ser sempre simpático e divertido para comigo, sempre me deixou de pé atrás, devido ao referido acima. No entanto, e ao partilhar a sua opinião (que a professora pede sempre a dois ou três alunos no final das apresentações), ele deixa escapar que no 9º ano sofreu bullying. Começa a contar a sua história, com a voz a começar a falhar. A certa altura, dei por mim a partilhar as lágrimas dele, em conjunto com metade da turma. Durante toda a apresentação fiz um esforço enorme para não derramar as destáveis lágrimas. Mesmo depois do visionamento do video da Amanda Todd (alguns talvez conheçam, ou não, mas se quiserem ver, basta procurarem o nome no youtube) eu não derramei uma única lágrima, com muito orgulho meu. E foi durante a sua partilha que eu desatei a chorar que nem uma madalena arrependida. Chorei porque me relacionei com tudo o que ele contou. Falou-nos do porquê de ter sido gozado, espancado, ofendido. Disse-nos que mudou, que já não confia nas pessoas como confiava, que se fechou mais às pessoas e que hoje, se alguém o tentasse calcar como no passado, ele calcaria primeiro.

Chorei porque as palavras dele, eram as mesmas que eu não consegui proferir durante todo este tempo, a alto e bom som. As palavras dele são as minhas, aquelas que eu tantas vezes digo a mim mesma. O porquê de ter mudado, o porquê de não confiar, o não deixar que me derrubem...as suas palavras eram as minhas, tal e qual como as suas lágrimas eram também um espelho das minhas.

Depois, outra pessoa falou. Uma rapariga. Uma colega. Uma pessoa com quem falo todos os dias, com quem partilho piadas e com quem falo sobre coisas da vida...mas acima de tudo, uma pessoa que me era completamente estranha, até hoje. Contou a sua história, por entre lágrimas, e partilhou a sua opinião sobre o assunto.

Depois, como num acesso repentino de coragem, abir a boca, molhada pelas lágrimas salgadas que brotavam dos meus olhos e que não tinham fim. Falei e dei a minha opinião. Com a voz rouca mas audível; toda a tremer, mas confiante de que tinha de falar. E falei.

Ficaram todos a saber. Até ele, o meu melhor amigo, não fazia ideia. Naquele momento soube. Bem como as outras 20 pessoas presentes naquela sala, incluindo a professora. 

Chorei baba e ranho, porque quer queiramos ou não, estas cicatrizes nunca ficarão completamente saradas. É algo com o qual teremos de lidar toda a nossa vida, algo que está e estará para sempre marcado em nós; algo do qual não podemos fugir, do qual não nos podemos esconder. Faz parte da nossa história, faz parte do que fomos. No entanto, não é algo que nos deve impedir de ser o que somos hoje. Se mudámos, foi porque assim tinha de ser. E se somos mais fortes hoje por causa disso? Somos, com toda a certeza.

E só quem passou por tal coisa, sabe e compreende aquilo de que estou a falar. Há coisas que nunca se esquecem e, infelizmente, esta é uma delas.

O passado nem sempre está enterrado...pelo menos não tão fundo quanto nós pensávamos que estava.

Só espero que mais ninguém se lembre de abordar um assunto como este (ou mesmo este) em mais nenhuma aula. Senão, não sei o que vai ser daquela escola...não haveria barcos suficientes para pôr toda aquela gente a navegar no mar de lágrimas que se formaria!

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