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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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26
Fev20

As laranjas do chão

alex

Ao virar para entrar na minha rua há umas laranjeiras. O que é estranho, pois vivo numa zona com pouca natureza, onde passam muitos carros a toda a hora, mesmo em frente a uma estrada nacional. Contudo, aquelas laranjeiras lá estão, no seu bocadinho de relva, a dar um pouco de laranja e verde ao cinzento da zona.
Sentada na paragem de autocarro, olhei para as laranjeiras e vi umas quantas caídas no chão, no meio da estrada. E depois lembrei-me em como elas também estavam ali caídas ontem, e antes de ontem e na semana passada até. Aquelas laranjas, meia dúzia, caídas na estrada, por onde passam carros a toda a hora, algumas esmagadas, outras ainda por esmagar. E eu pus-me a pensar...
Eu sou como as laranjas do chão. Uns dias sou como as esmagadas, outros sou como as que ainda estão por esmagar. No entanto, encontro-me caída tal e qual como elas, à beira da estrada, sem poder fazer grande coisa, esperando apenas que não passe um carro hoje e me esmague, o meu sumo espalhado pelo alcatrão, a minha casca aos pedaços, desfeita.
Aquelas laranjas ali caídas assim ficam. Ninguém as vai lá apanhar, ninguém as vai resgatar da sua morte iminente. Se forem como eu, até passam por elas todos os dias e nem se apercebem. Só quando te sentas na paragem de autocarro que está virada exactamente para elas, é que te dás conta.
E depois? E depois já é tarde de mais. És como as laranjas do chão.
Sou como as laranjas do chão.

07
Fev20

O meu silêncio

alex

A brincar, a brincar, já lá vão quase 6 meses desde o meu regresso a Portugal. Meio ano. O que é isso, na grande escala da vida? Nada, de facto.

Mas na minha, já é algo. Sinto que estou a falhar redondamente. Não só comigo, mas para com os meus. Voltar a Portugal era para ser uma coisa boa, para estar mais perto dos meus, para me reencontrar talvez, para encontrar um lugar para mim neste vasto mundo, que não consegui encontrar em Londres. Em Londres fazia o que queria, como queria e bem entendia. Aqui, tenho mil e uma vozes a gritarem-me ao ouvido: devias fazer assim, porque é que não fazes assado, eu teria feito ao contrário.

Em Londres ninguém sabia o que eu fazia. E também não se importavam muito. Mas agora aqui, parece que toda a gente tem uma opinião a dar sobre a minha vida, sobre aquilo que eu faço e não me agrada. Acho que aos poucos estou a ser relembrada de, pelo menos, uma das razões pela qual eu decidi partir há 5 anos atrás. Porque longe, eu podia escolher o que mostrar, o que dizer, o que partilhar. Aqui, não há como esconder, não há como fugir. E querendo justificar-me, sempre, tento dar razões pelas quais faço as coisas que faço, da forma que as faço. Ou que não as faço. Mas não me ouvem. E insistem. E pressionam. E depois eu sinto-me mal, porque sei que não fazem por mal. Mas eu também não. Então, aos poucos, estou a desistir. Reduzo-me para não ter de me justificar. Não gosto de me justificar. Cansa-me profudamente. Então calo-me. Mas depois a A. diz-me o quão díficil está também a ser para ela. O regresso, a adaptação e o quão díficil é não fazermos a nossa vida juntas, como faziamos. E apesar de ambas sabermos que estava na altura, que a nossa vida em Londres já não estava a fazer sentido, a nossa vida cá também não está a fazer. Ainda. Eu quero acreditar que vai. Quero mesmo.

Mas ninguém ajuda. Nada ajuda. Então eu calo-me. Fecho-me. Escrevo. Pouco aqui, mais para mim, só. E espero. E no fim, já dizia a Capicua:

"Pior do que o meu canto, há-de ser o meu silêncio."

 

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