Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

Something New

28
Jun18

Fora da caixa


alex

Eu percebo. Percebo o porquê de as pessoas à minha volta não perceberem. Já levei tanto na cabeça nestes últimos meses que se não percebesse, era um bocado crítico. Tão crítico quanto as pessoas, depois de eu já lhes ter explicado tantas vezes o porquê, ainda não perceberem. 

Ora se eu as percebo a elas, porque é que elas não me percebem a mim?

Não vou à minha cerimónia de graduação. Ou como diríamos aí em Portugal, Queima das Fitas. Aqui a coisa é simplesmente uma versão barata das cerimónias que se fazem nos Estados Unidos quando a malta acaba os cursos, com as capas e os chapéus que toda a gente atira ao ar para a bonita da fotografia. A minha é já daqui a 2 semanas e eu não vou lá estar. Não devia ter de me justificar a ninguém a não ser à minha família e amigos próximos. Mas toda a gente pede justificações da minha pessoa. E eu vivo frustrada com isto. Porque eu apresento as minhas razões e é a mesma coisa como se tivesse ficado calada. Eu sou uma mulher crescidinha. Ainda com muito para crescer, mas já tomo as minhas decisões, sozinha, há quatro anos. Não foi uma decisão que tomei de um dia para o outro. Passei meses a ponderar, a dizer a mim mesma que ia e a dizer depois que não ia. A ouvir a opinião deste, a opinião daquele. Depois de já me ter convencido a ir, contra vontade sou sincera, por acasos da vida, os meus pais viram-se na impossibilidade de virem até cá e estarem presentes nesse dia que todos juram a pés juntos ser o dia mais importante das nossas vidas. E voltei à estaca zero. Mais uns dias de vou, não vou. Quero, não quero...

Hoje não perco mais sono por causa disso. A decisão está tomada e já não há volta atrás. O prazo para reservar o meu lugar na cerimónia já passou e eu não o reservei. Eu estou de consciência tranquila quanto à minha escolha. Os outros é que parece que não. E eu, que digo e volto a dizer que o que os outros dizem não interessa e não nos deve pesar nos ombros, sou atraiçoada pelas minhas próprias palavras quando me vejo numa discussão bem acessa em pleno local de trabalho, com uma colega minha, sobre este mesmo assunto. Ai já importa. Quando alguém, de quem nem sou assim tão próxima, se acha no direito de me questionar, a mim e às minhas escolhas da forma como ela questionou, já importa o que os outros dizem.

Eu não vou por várias razões. Uma delas, e das grandes, é que não vejo sentido em ir se não posso partilhar esse dia com as pessoas que mais amo neste mundo, as pessoas que sempre me apoiaram. "Mas é por elas que devias ir na mesma". Não. Era por elas que ia; é por mim que não vou. Fotografias para mim são só recibos e esses, eu deito fora assim que saio das lojas. "Vais-te arrepender, daqui a dez anos quando quiseres ver fotos tuas com a tua capa e o teu chapéu e não as tiveres." Só quem me conhece mal é que diz isto e usa este argumento contra mim. Claro que é giro olhar para fotografias do passado e recordar. Só que eu não o faço. Juro que não tenho essa necessidade, mas compreendo quem a tenha. "Mas é o dia mais importante da tua vida, andaste três anos a estudar para poderes celebrar neste dia!" No meu caso, não há nada para celebrar e essa, é outra das grandes razões pela qual a decisão final foi a de não ir. 

Eu não trago nada deste curso. Nadinha de nada. Não trago boas memórias, não trago bons amigos, não trago bons professores, não trago lições de vida. Nada. Sabem o que eu tenho destes três anos? Lágrimas, dor, frustração, dissabores. O tempo que eu passei naquela Universidade, ao todo, deve equivaler a apenas um ano completo. Foram mais os dias em que não pus lá os pés do que os em que me decidi a aparecer. Nem sei como é que me deixaram terminar o curso, para ser sincera. E não sei como raios consegui ter as boas notas que tive. Só eu é que sei. O quanto esta experiência universitária para mim valeu. Valeu nada, zero malta. Desculpem se vos desiludi e se não me encaixo na grande maioria que adorou a sua experiência universitária. Mas ao mesmo tempo, e com todo o respeito, eu não me podia estar mais a cagar. Porque maltinha, nós somos todos diferentes uns dos outros. E eu mudei muito, mas mesmo muito ao longo destes três anos. Eu não sou a miúda iludida que era quando tudo isto começou. Sou gozada por estar sempre a dizer isto, mas é a verdade. Eu não fui estudante. Eu fui trabalhadora que de vez em quando se lembrava de brincar às escolas. Sofri muito malta. E esse sofrimento é só meu. Como já referi noutro texto, este curso destruiu-me, a mim, à minha auto-estima e à minha arte. Pouco ou nada resta da miúda que queria ser escritora ou jornalista. A vida é mesmo assim e esta minha geração é a pior delas. Porque somos dados tantas possibilidades de fazermos e de sermos tanta coisa, e ao mesmo tempo somos ensinados desde miúdos que só podemos ser uma coisa, fazer uma coisa, sonhar uma coisa, que vivemos presos entre o dever e a obrigação. E o querer fica perdido. A vontade também. 

Vou para ali, gastar 100 libras em fatos e chapéus que vou usar durante 2 horas, receber um papel em branco (o diploma só o mandam para a nossa casa lá para meados de Setembro), rodeada de estranhos com quem não me identifico nem nunca me identifiquei, para quê exactamente? Para ter umas quantas fotografias para mostrar à malta do Facebook? Para poder postar no Instagram com uma caption toda lamechas? Meu deus. Só quem não me conhece mesmo usaria estes argumentos de merda para me convencer. Não há nada para celebrar. Vou celebrar, sim. Com os meus. Vou comer fora, vou beber, vou dançar, vou ser feliz perto de quem me interessa. 

Não tomei esta decisão para ser "hipster", para ser diferente dos outros, para ser do contra, para fazer alguém infeliz. Não. Eu tomei esta decisão com base na minha experiência e tendo em conta quais as minhas prioridades na vida, neste momento. Se calhar, à três anos atrás a minha prioridade era subir aquele palco, apertar a mão do Director e sorrir para a foto. Mas eu passei por tanto, eu cresci e mudei tanto, que as minhas prioridades mudaram. Os meus objectivos mudaram e os meus sonhos também. A vida é bonita é por isso mesmo, porque há sempre mudança, por muito subtil ou não que ela seja, ela está lá. 

Vou fazer o que raios eu bem quiser porque esta é a minha vida. Não é a tua, ou da Maria ou do Zé. A Maria e o Zé foram felizes na sua universidade e a cerimónia de graduação foi o dia mais importante da vida deles. O dia mais importante da minha vida já foi. Já tive tantos dias importantes na minha vida. O dia mais importante da minha vida ainda está para acontecer. E já houve muitos outros dias importantes na minha vida aos quais faltei. E sabem que mais?

Estou aqui. Estou viva. Estou finalmente feliz e em paz comigo. Não me fodam o juízo malta. Deixem-me estar. Eu estou tão feliz por me ter livrado destes últimos três anos. Tão aliviada. Mas eu não quero prolonga-los. Quero encerrar este capítulo da minha vida e começar a preparar-me para o próximo, seja ele qual for. Fiquem antes felizes por eu estar feliz. Não se preocupem se eu não vou ter fotos para as quais olhar daqui a dez, vinte, trinta anos. Não se preocupem se eu acordar um dia a chorar que nem uma Maria Madalena arrependida porque não fui à merda da cerimónia. 

Porque eu só estou preocupada se daqui a dez anos vou estar a sorrir como estou agora. Se vou ter as pessoas que amo e que tenho agora. Se vou ter rugas, as rugas preocupam-me imenso malta, não têm ideia... Então não me façam ter rugas antes dos vinte e cinco se faz favor. 

Eu estou de bem com a vida como já não estava à muito tempo. Para todos aqueles que me têm tentado estragar isso, vocês são uns tristes e dispenso a vossa preocupação, obrigada. Opinião, todos temos direito a tê-la, agora quando ultrapassam os limites e tentam forçar uma pessoa a fazer ou a ser algo que ela não quer, isso já não é ter uma opinião. Isso é como pôr a pessoa dentro de uma caixa e não deixa-la sair.

Eu estive dentro dessa caixa durante muito tempo. Agora estou fora dela. E assim pretendo permanecer. 

21
Jun18

Nunca partirás de mim


alex

Este vai ser um daqueles textos que há muito tempo que ando para escrever. Digo muito tempo porque, refere-se a um acontecimento que já se passou à nove meses. Nove meses é o tempo que demora para os bebés se formarem por completo na barriga das mães. Pode ser uma analogia estranha, mas este texto é um bocado como um bebé a nascer, passados nove meses. Debati bastante se deveria publicá-lo, sou sincera, pela simples razão de que a pessoa em questão tem acesso ao meu blog e pode a qualquer altura ler o que vou aqui escrever. Mas cheguei à conclusão de que já não interessa. Já passou tanto tempo que acho que já não há mais nada a perder ao fazer este texto público, que é no fundo um longo desabafo e uma grande reflexão sobre uma amizade que durou muitos anos e que sempre foi, no mínimo, conturbada e diferente de todas as outras que já tive ao longo da minha vida. Porquê agora? Não sei, não tenho uma razão em especial. Simplesmente cheguei do trabalho, sentei-me na cama, abri o computador na página do blog e... aqui estou.

Eu acredito que todas as pessoas que entram na nossa vida servem um propósito e que nenhuma relação é em vão. Seja qual for o propósito dessas pessoas, a diferença entre elas é se elas causaram impacto suficiente nas nossas vidas para, anos depois, ainda nos lembrar-mos delas ou se o que resta delas no fim é apenas a lição que aprendemos quando a pessoa seguiu o seu caminho e nós o nosso. Desde pequena que sou uma pessoa introvertida no que toca a fazer amizades ou a conhecer pessoas novas. Nunca dou o primeiro passo e nunca, jamais, abordei fosse quem fosse primeiro. Com os anos, acho que piorou, também porque tive experiências que não me ajudaram a confiar nas pessoas com facilidade. Quem acompanha o blog desde o seu inicio pode saber isto (ou não) mas foram poucas as pessoas que mantive na minha vida depois de ter vindo para Londres. Não vou arranjar desculpas, vou apenas dizer que as coisas são como são. As pessoas crescem e mudam e a vida continua, com ou sem elas. E novas pessoas entram, no meu caso tal não é verdade porque, como disse, sou péssima a fazer novas amizades. Mas acredito que sou boa a manter aquelas que importam. Excepto esta sobre a qual vos escrevo hoje. 

Ás vezes não é fácil conhecer alguém por muito tempo e ser-se amigo dessa pessoa durante uma década, duas ou três... não é qualquer pessoa que pode dizer que viu o seu amigo crescer, que fez as primeiras asneiras de pré-adolescente com essa pessoa, que viveram os anos de adolescente ao lado um do outro e que se apoiaram quando a vida deu uma volta de 360 graus e foram "cuspidos" para o mundo dos adultos; o mundo real. Não é qualquer um. Eu tive essa pessoa. E perdia-a, várias vezes, ao longo dos anos. Mas de alguma forma, fui sempre capaz de encontrar o meu caminho de retorno até ela. Até não haver mais caminhos de retorno. Ainda hoje, passado este tempo todo, sinto-me injustiçada. É algo que ainda me custa a engolir de cada vez que penso nisto; nessa pessoa. Porque ainda penso nela, sim. Ainda penso em ti, se estiveres a ler isto. Constantemente, até porque hoje em dia com as redes sociais, não há forma de evitar o nosso passado e as pessoas que ficaram nele. Custa-me até hoje ainda porque foi tudo tão...abrupto. Tão parvo. Tão...estúpido. Num dia estava tudo bem, no dia seguinte, tudo mudou. Foi como se tivessem ligado e desligado um interruptor qualquer, deixando-me no escuro por momentos de um dia para o outro,e quando voltaram a ligá-lo, aquela pessoa que me acompanhou durante uma década já não estava lá. Estalou-se os dedos e puff...acabou. 

Eu sou o tipo de pessoa que não admite os seus sentimentos com facilidade. Aliás, eu sou aquela pessoa que podia ter uma faca apontada ao pescoço e mesmo assim, a muito custo diria à pessoa como me sinto verdadeiramente. Uso o humor, as piadas e o sarcasmo para esconder muito daquilo que sinto na realidade e tudo aquilo que queria dizer. É o meu maior defeito, não há dúvidas disso. Mas por esta pessoa eu tentei. Tentei ser mais expressiva, mais aberta, mais comunicativa. Não porque me senti na obrigação de tal, mas porque...não sei. Não é o que se faz pelas pessoas de quem gostamos verdadeiramente? Tentamos moldar-nos a elas de forma a podermos coexistir de uma forma melhor e mais harmoniosa? Contudo, não sei quando é que passou de não ser uma obrigação, a ser a maior e mais penosa tarefa (não contado com a escrita) que eu podia fazer. Ou se calhar até sei. Se calhar foi quando essa pessoa começou a ver apenas a parte moldada de mim e não o meu eu verdadeiro. Se calhar foi quando essa pessoa começou a esperar demais de mim. E agora, de quem é a culpa? A pergunta que ressoa na minha cabeça vezes e vezes sem conta.

A culpa não é de ninguém. A pessoa não me pediu nada. Eu nunca escondi quem sou, apesar de me ter moldado.

A culpa é minha. Fingi ser alguém que na realidade não sou. Fiz e disse coisas só para fazer a outra pessoa feliz, porque tenho uma noção errada do que é o amor e a amizade. 

A culpa é dela. Conhece-me há tantos anos e no entanto...não conseguiu perceber que eu estava a ser mais, a fazer mais do que aquilo que podia? A ser mais do que aquilo que eu sou? 

Atribuir culpas não nos leva a lado nenhum, foi a conclusão a que cheguei passado este tempo todo. Não me deixa mais ou menos feliz se eu disser que a culpa é da outra pessoa. Não durmo melhor à noite. Definitivamente não durmo bem de noite se me culpar a mim própria. E atribuir culpa não apaga o que foi feito, o que foi dito e o que ficou por dizer. Porque sim, houve muito que ficou por dizer. Tanto... Muito do que ficou por dizer, digo-o agora neste texto. Talvez esteja a ser cobarde de novo. Devia era deixar-me de merdas e entrar em contacto com a pessoa directamente. O que é que me impede? O que impede o ser humano de fazer seja o que for, sempre:

Medo.

O medo paralisa, deixa-nos ineptos, sem poder de agir. O medo de rejeição, o medo de confirmar os nosso piores medos - que apesar da história, dos momentos vividos e partilhados com a pessoa, já não haja volta a dar na relação. O receio de que a pessoa nos odeie e nos diga isso na cara. O receio de que essa pessoa ainda esteja magoada ou a sofrer. O medo. O filho da puta do medo.

Por ter medo não te mando mensagem. Por ter medo não gosto das tuas fotos no instagram. Por ter medo não te disse quando fui a Portugal. Por ter medo não te dirijo a palavra. Por ter medo, trato-te como se fosses uma pessoa estranha para mim, com quem nunca partilhei uma amizade, uma relação de tantos anos. Por ter medo não te pedi desculpa. Não acho que esteja agora no direito de o fazer. Que direito tenho eu, agora, passado tanto tempo, de voltar a entrar na tua vida e pedir desculpa? E por outro lado, estou a pedir desculpa pelo quê, exactamente? Pela forma como agi? Foi a minha forma estúpida e ignorante de tentar amar. Pela forma como não me despedi de ti? As despedidas doem-me tanto.... Pedir desculpa por ser egoísta, cobarde? Pedir desculpa por não ter pedido desculpa...?

Meu Deus...não sou religiosa. Mas acredito na força do Universo, na lei da atracção. 2017 foi um ano tão merda na minha vida, mas tão merda, que eu não me posso deixar pensar nele, com medo de atrair as más energias e o azar dele. 2018 tem sido diferente...mas que diferença! É como a noite e o dia. Em 2017 sofri muito, chorei muito, e andei triste durante muito tempo...contudo, tinha-te a ti com quem partilhar tal tristeza. Só que agora não te tenho para partilhar a felicidade que 2018 me tem trazido. A única coisa que me deixa triste em 2018 é o facto de não poder partilha-lo contigo. E minto. Minto às pessoas à minha volta e digo que não me importo. Não quero saber. O que aconteceu, aconteceu e já não me afecta. Que grandessíssima mentirosa que eu sai...

Não sei bem onde quero chegar com este texto... Acho que no fundo, connosco, vai ser sempre assim. Uma história mal acabada, um percurso não percorrido até o fim, uma relação cheia de altos e baixos. Sempre pensei que não seria capaz de viver sem ti. Acho que te cheguei a dizer isso e penso que me disseste isso também. Que não conseguias imaginar a tua vida sem mim. A tua vida sem mim, eu acredito, é melhor. Vejo-te feliz, oiço-te feliz, contam-me que andas feliz. Cansada, atarefada, mas feliz. E eu por ti feliz devia andar, mas a verdade é que no fundo, a pessoa que nunca vai ser 100% feliz sem a outra na sua vida, sou eu. Tu estás a voar sem mim e eu estou aqui, em baixo, a olhar para cima com um sorriso triste nos lábios. Estou feliz por ti mas não sou feliz sem ti. Ando feliz, a vida tem-me corrido bem, se estiveres a ler isto e se estiveres curiosa. Mas nos meus dias, em todos eles, há aquele momento de infelicidade, de dor, de tristeza, de culpa, de confusão, de medo, de receio...sei lá, de tudo que é mau, por tu não fazeres mais parte dele. 

Só quero que saibas que, onde quer que seja que eu esteja na vida, espero que estejas imensamente melhor do que eu. Mais feliz, mais realizada, mais bonita, mais sorridente, mais sortuda, mais tudo. Porque mereces e disso, não há dúvidas. Espero que, ao contrário de mim, eu já não te passe pela cabeça. Que sejas livre de mim, de nós. Eu não sou, mas isso não interessa. O que interessa é que tu o sejas. 

E ao final do dia...as memórias são muitas, os anos também e todos eles valeram a pena. Até a viagem que mudou tudo para nós. Valeu a pena. Sabes porquê? Porque contigo, tudo o que deu origem a boas e a más memórias, a bons e a maus acontecimentos, valeu a pena. Porque tu não foste apenas uma lição que a vida me quis ensinar. Tu foste e és a única pessoa que todos os dias me ensina algo novo, que continua a ter impacto na minha vida e que continua a afectar o meu dia-a-dia apesar de já não fazeres parte dele.

A forma como vou terminar este texto só fará sentido para duas pessoas neste mundo. Para ti e para mim...Tu é que és aquela que vai sem nunca partir e que parte sem nunca ir...de mim. Sempre foi assim e acredito que nunca vai deixar de o ser. 

11
Jun18

O amor à escrita (ou a falta dele)


alex

Penso que vos escrevo pela primeira vez em quatro meses, se as minhas contas estiverem correctas. Acho que esta foi a primeira vez que passei tanto tempo, pelo menos seguido, sem sequer pensar no blog, quanto mais escrever nele.

A minha relação com a escrita, ao longo dos últimos três anos, mudou imenso. Antes de mudar de país e antes de estudar Escrita Criativa, o meu amor pelas letras era tanto que, por vezes, não cabia na página. Era o meu refúgio, este blog. Escrever trazia-me conforto e ler os vossos comentários, muitos ou poucos, trazia-me uma sensação de paz à alma que ainda hoje, não consigo explicar. Não me lembro ao certo quando é que este amor pela escrita começou, mas já lá vão muitos anos, isso sei. Nas relações, sejam elas amorosas ou outro tipo qualquer, há sempre altos e baixos. Por vezes, se a relação já dura à muito tempo, podemos chegar a uma altura em que começamos a sentir que talvez o amor esteja a desaparecer. Se calhar encontrámos algo novo ao qual amar, ou então, pura e simplesmente, a relação já não funciona. A minha relação com a escrita é um bocado assim...especialmente nestes últimos três anos, o meu amor pela escrita mudou. Não consigo ainda dizer; admitir que desvaneceu, então prefiro dizer que mudou; alterou-se. Deixou de ser um amor e passou a ser uma obrigação, quase. Algo que eu antes fazia com prazer, sem pensar duas ou três ou quatro vezes antes de o fazer, tornou-se numa tarefa penosa e que me trouxe muitas dores de cabeça.

Uma pessoa minha amiga, que canta e toca e é super talentosa, disse-me agora à pouco tempo que quando as pessoas criativas são limitadas e obrigadas a dirigir a sua criatividade exclusivamente para o seu curso, que isso suga a criatividade toda delas e, por consequente, o amor que elas tinham à sua arte. Esta minha amiga desistiu do curso de música no final do primeiro ano dela. Acabou agora de gravar o seu primeiro EP com artistas britânicos de renome e escreve, todos os dias, canções para o futuro. Eu acabei este ano o meu curso de Escrita Criativa e Jornalismo e sinto-me...vazia. Vazia daquela paixão, daquela garra, daquela vontade que eu tinha há anos atrás. Escrever tornou-se numa tarefa penosa, como já disse, e agora associada a ela estão medos e inseguranças e até traumas que eu não tinha antes de fazer o meu curso.

Não consigo afirmar que já não gosto de escrever. Mas a verdade é que já não o faço. Já não escrevo e já não quero escrever mais. Durante estes três anos escrevi tanto...e no entanto é como se não tivesse escrito nada. Tenho tanto guardado dentro de mim mas já não tenho forma de o expressar. Nunca me considerei uma bela escritora, poetisa, J.K. Rowling...mas tinha amor à minha arte e não tinha receio dela. Agora tenho um medo de escrever que nem vos conto. Escrever este texto está a ser muito complicado...as minhas mãos tremem, a minha mente está cheia de coisas por dizer, coisas por explicar, novidades para contar... e no entanto tenho um nó na garganta e os olhos a arder. 

Não conseguem acreditar? Eu também não... Sempre pensei que o amor da minha vida era a escrita. Lembro-me de o dizer e de o escrever vezes sem conta. Não sei quando é que as coisas mudaram. Mas mudaram e não sei como recuperar aquilo que fui perdendo, pouco a pouco, ao longo destes anos. Ter feito este curso destruiu-me. Não só como escritora, mas também como pessoa. Não trago nada de bom dele. Custa admitir esta merda, depois de três anos passados a estudar, três anos que me trouxeram uma dívida enorme para a vida inteira. Custa mesmo. Mas a verdade está aqui, agora, para quem ainda estiver ai, do outro lado, a ver, a ler. Não vos culpo se já não estiverem. Se tiverem desistido de mim, tal como eu desisti de mim mesma.

Chego ao fim deste percurso convencida de que, se calhar, isto não é mesmo para mim. Se calhar não era para ser. E se não é para ser não será. Tentei forçar-me, ao longo deste tempo todo, a vir aqui, a manter aquela vontade acessa. Tentei o melhor que pude mas falhei e isso é claro. Acho que com este texto, quero pedir desculpa...não a vocês, mas a mim própria. À menina de quinze anos que começou este blog com a intenção de se tornar numa escritora famosa e bem sucedida, ou numa jornalista de renome.

A ela, peço desculpa. Falhei-te. Contudo, não consigo virar costas a isto por completo. Não consigo simplesmente admitir que já não gosto de escrever e não consigo dizer que vou deixar de o fazer, para sempre. Talvez agora que acabei o curso, com tempo, aquele amor que outrora eu nutria pela arte de escrever regresse. Devagar, quem sabe, talvez. Apesar de tudo, não consigo largar por completo. No último ano larguei tanta coisa...deixei tanta coisa e tanta pessoa para trás que, por essa razão, penso não ser capaz de largar isto por completo. Ainda aqui estou. Apesar de tudo o que acabei de escrever, ainda aqui vim e ainda escrevi este texto. Talvez seja teimosia, o não querer abdicar também disto, deste espaço, deste bocado de mim, como tenho vindo a abdicar de tanta outra coisa no último ano.

Talvez seja teimosia...ou talvez seja amor.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D