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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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Something New

29
Nov17

E se fosse contigo?


alex

Há uma semana atrás estava na paragem de autocarro, como se de outro dia qualquer se tratasse, quando um grupo de homens, visivelmente bem mais velhos do que eu, sai do centro de emprego ao pé da paragem e se vem sentar ao meu lado.

Estava 1 grau naquele momento. Eu estava coberta da cabeça aos pés, apenas com os olhos e o nariz de fora. Como sempre, de phones nos ouvidos a ouvir música, andava pelo Instagram a gastar dados móveis, quando sinto o senhor a tocar-me no ombro. Perguntou-me o meu nome. Não lhe o disse. Perguntou-me se eu estava com frio. Eu disse que não e virei-lhe a cara. Voltou a tocar-me, desta vez no braço. Cheguei-me para mais longe dele. Ele desliza para perto de mim. Eu pergunto-lhe qual é o problema dele. Ele, com cara de gozo responde-me:

"Para que é usas essa maquilhagem toda se depois não queres ser abordada por homens? Não queres falar comigo porquê? Achas-te boa demais para mim, é?"

E nesse instante, a mão dele tenta tocar na minha perna mas os meus reflexos permitem-me ser mais rápida. Levanto-me de um ápice e respondo-lhe da forma mais contida que consigo:

"Eu maquilho-me porque gosto. Eu estou a usar maquilhagem, não estou a usar uma fita na testa que diz "por favor estranhos, venham ter comigo e assediem-me."

"Deixe-me em paz."

Ele ri-se e os amigos acompanham. Eu afasto-me o máximo que posso deles, porque preciso de ficar na paragem para apanhar o autocarro para ir trabalhar. Há quem tenha vida e mais que fazer do que assediar pessoas na rua. Mas mesmo assim, não desistiram. Vieram ter comigo e continuaram a dizer coisas, que sinceramente, não valem a pena serem repetidas. O autocarro chegou, entrei e rezei para que eles não entrassem atrás de mim. Não vieram.

Esta é só uma das muitas situações às quais, enquanto ser humano e mulher, já fui sujeita ao longo da minha vida. Já falei de assédio sexual aqui muitas vezes. Mas nunca é demais falar sobre este assunto, porque acontece a toda a hora, todos os dias, enquanto eu escrevo este texto e enquanto vocês o lêem. Está sempre a acontecer e não há muito que nós possamos fazer, enquanto vítimas. É nojento, degradante e tem, de alguma forma, de ser parado. Ontem vi o episódio mais recente do "E Se Fosse Consigo" da Sic, um programa apresentado pela Conceição Lino, que pega em temas da actualidade e os apresenta à sociedade de uma forma que ainda não tinha visto nenhum programa em Portugal fazer.

O que eu tirei deste episódio foi que, a maioria das pessoas que vieram em defesa da rapariga foram, de facto, outros homens. Porquê? Porque as mulheres têm medo. Nós vivemos em constante medo e em constante impotência. Algumas até acharam piada e disseram que a rapariga devia ter entrada na brincadeira. Nenhuma das testemunhas sabia de ante mão que aquilo era falso, uma cena representada por actores para o programa. É muito triste ver que a realidade é esta, não só no meu país, mas aqui em Inglaterra também e em tantos outros espalhados pelo mundo. Não podendo fazer muito, fico contente por haver algo a passar na televisão que expõe este problema na nossa sociedade, e que divulga este mal que tem de ser cortado pela raiz.

Se ainda não viram e tiverem um tempinho, dêem uma olhada no episódio completo e divulguem. O assédio é crime, ao contrário do que a lei diz. Não há como negar. É crime e tem de ser parado. Apelo que, se alguma vez forem testemunhas de assédio, não fiquem parados a assistir, não virem a cara, não ignorem. Chamem a polícia, vão lá vocês, não sei, façam algo. Tudo menos ignorar. Podia ser a vossa filha, a vossa prima, a vossa irmã, a vossa tia, a vossa melhor amiga. Se ainda há pessoas que se perguntam se isto é realmente um problema ou não, façam antes esta pergunta a vocês próprios e aos outros:

E se fosse contigo?

 

 (Eu vejo os episódios no website oficial da sic mas não estava a conseguir adicionar o video do site deles mas, pelos vistos, também dá para ver no Youtube)

22
Nov17

Muito honestamente...


alex

Ponderei bastante antes de começar a escrever este texto, pela simples razão de que o que vou falar aqui hoje não é algo sobre o qual queira gritar ao mundo que aconteceu. Mas aconteceu e sinto que preciso de exteriorizar o tumulto que vai dentro de mim, causado pelos acontecimentos deste fim-de-semana.

Este sábado passado alguém entrou em nossa casa e roubou-nos alguns pertences, com pessoas cá em casa. Entraram pela janela de um dos quartos, como não sabemos bem mas as janelas desta casa são velhas e pelos vistos fáceis de arrombar. Levaram dois computadores, uns quantos colares que deviam de achar que eram de valor, e algum dinheiro. O pior disto tudo não é terem levado coisas materiais. O pior foi que duas das minhas companheiras de casa e amigas estavam aqui, simplesmente a fazer a vida delas quando isto aconteceu. Uma delas estava na cozinha a lavar loiça e a outra estava na casa-de-banho a tomar banho, daí não terem ouvido barulho nenhum. Também duvido que a pessoa que cá entrou tenha feito assim tanto barulho quanto isso. O nosso chão é todo de carpete, excepto na cozinha, o que faz com que a detecção de alguém a andar pela casa seja mais complicada. A minha amiga que estava na cozinha sentiu uma presença atrás dela a certa altura e jura que viu uma sombra passar pela cozinha, mas julgou que era a minha outra amiga que tinha acabado de tomar banho e passado para o quarto dela. Entrarem pela janela de um dos quartos e depois saíram pela porta do quarto que dá para o jardim e levaram a chave. Se levaram a chave é porque tinham intenção de voltar. E isso deixou-nos ainda mais assustadas. 

A casa onde estamos é num condomínio fechado, com câmaras de vigilância e seguranças. E mesmo assim fomos roubadas. Provavelmente, estas pessoas têm como alvo este tipo de condomínios por serem mesmo isso: fechados e com segurança significa que tem pessoas ricas a morar lá. Somos ricas pessoas mas não temos nada de muito valor a não ser aquilo que levaram, que foi os aparelhos electrónicos e umas quantas libras. Não tendo contacto directo com o senhorio, contactámos a agência a quem alugamos a casa. Eles demoraram dois dias a virem substituir a fechadura da porta para a qual eles tinham a chave. Só hoje é que veio cá um senhor arranjar a janela. Andamos pela casa de faca na mão e evitamos ficar em casa sozinhas. Eu tenho dormido uma média de quatro horas por noite. Cada vez que os meus olhos se fecham, a mesma imagem surge diante de mim: uma figura alta, toda de preto, a cara tapada por uma máscara, a avançar na minha direcção como se me fosse fazer mal.

Violaram o nosso espaço. Eu podia dizer que nunca me senti tão violada como agora, mas outras experiências da vida não me o permitem. Contudo, no que toca a isto, é a primeira vez que me sinto tão...assaltada. Literalmente. Não há outra palavra. Esta casa é mais do que uma casa. É o sítio onde passamos grande parte do nosso tempo. É o lugar para o qual voltamos depois das batalhas que travamos com o mundo cruel todos os dias. O sítio onde podemos ser nós mesmas a 100%, sem medos, sem restrições. O sítio onde podemos ter um bocadinho de sossego e onde podemos relaxar, ser felizes durante um bocado nesta vida que pode trazer muita infelicidade com ela.

Não há nada que não me tenha acontecido este ano. 2017 para mim podia acabar já aqui. Foi, sem dúvida, um dos piores anos da minha vida. Não quero continuar a acordar todos os dias neste ano que me causou tanta dor e mágoa. Estou cansada, exausta deste ano. Foi uma sorte que não aconteceu nada a ninguém - estamos todas sãs e salvas. A parte sã não tenho tanta certeza, mas enfim. Contudo isso não chega. Nunca mais vai ser a mesma coisa. Esta casa da qual gostávamos tanto nunca mais vai ser a mesma. Nós também já não vamos ser os mesmos. Pensamos sempre que nunca nos acontecerá a nós, até que acontece. Eu sou daquele tipo de pessoa que não liga as luzes de casa sem precisar. Não ligo a luz do corredor se for só ali à casa-de-banho. A luz do meu quarto raramente está acessa. Agora parece que todos os interruptores de luz da nossa casa se avariaram e as luzes têm de estar sempre acessas. Se ouvimos o vento lá fora a arrastar as folhas caídas do outono ou se ouvimos os vizinhos de cima a andar pela casa deles, a nossa mão estica para tocar no cabo da faca que temos debaixo dos nossos colchões.

Assaltaram-nos a casa, mas fizeram muito mais do que isso. Mudaram-nos. Mudaram-me.

Filhos da puta. Onde quer que estejam, quem quer que sejam, espero que o pouco de valor que levaram vos tenha ao menos dado uns trocos suficientes para não repetirem o acto assim tão cedo. Uma parte de mim é isso que deseja. A outra só deseja que morram, muito honestamente.

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