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27
Dez13

Parabéns à criatura cá de casa (e da minha vida)

alex

Há nove anos que a minha vida deu uma volta que me mudou completamente. Quando era miúda, muito pequenina, devia ter uns dois ou três anos, comecei a implorar aos meus pais por uma irmã. Todos os anos era essa a prenda que eu pedia nos meus anos e depois no Natal. Eu só queria uma irmãzinha mais pequena que brincasse comigo às barbies e às pollys. Queria alguém com quem partilhar o meu quarto para não me sentir tão sozinha e assustada de noite, porque eu era daquelas crianças que via monstros em tudo o que era sítio. Queria alguém com quem brincar às mães e aos pais, alguém com quem pudesse rir e partilhar memórias.

Quando fiz 9 anos a minha mãe e o meu pai vieram ao meu quarto e disseram-me: "vais ter uma irmã!"

Não queria acreditar. Depois de ter passado toda a minha vida a pedir uma irmã, ela iria finalmente ser-me entregue! A criatura sempre foi impaciente, desde que era apenas um embrião na barriga da minha mãe. Nasceu um mês antes do previsto, DOIS DIAS a seguir ao Natal.

Isso é que é ter timing, diria eu.

Ainda me lembro de como tudo se passou (metade foi-me contado pela minha mãe). Nesse dia a minha mãe e o meu pai foram à maternidade só fazer uns exames. A minha mãe ficou sete horas na maternidade à espera de ser atendida. Sete horas! Só para verem que a incompetência não é de agora... Enfim, sete horas lá ficou a senhora, grávida de 8 meses, e eu em casa da minha avó como se nada se passasse. Foi então quando chegaram as sete da tarde que a minha mãe começou a sentir umas dores na zona dos rins. Ora, eu nasci de parto induzido, ou seja de cesariana, (eu não queria sair da barriga da minha mãe, por isso logo aí se vê qual das irmãs é a mais inteligente - eu) por isso a minha mãe não fazia ideia do que eram dores de parto. Lá se queixou a uma enfermeira que andava a passear pelos corredores e a enfermeira fez-lhe um exame. 

"A senhora está a entrar em trabalho de parto" disse a menina para a minha mãe, com um grande sorriso na cara.

"Isso não é possível, ela só nasce no final de Janeiro"

"Olhe a sua menina então é muito apressada, porque ela quer sair daí hoje".

E assim foi. A minha mãe diz que se fossem todas como a minha irmã, tinha tido mais um. Vestiram-na (ou despiram-na, pormenores que não importam) e lá ia ela a caminho da sala de partos, quando a enfermeira diz para a minha mãe: "Não faça força, porque se fizer tem a criança aqui no meio do corredor!"

A minha mãe diz que nem dores tinha. Chegou à sala de partos, fez força uma vez e lá estava ela. Um rebento impaciente. E pronto, eu recebi finalmente a prenda de aniversário/Natal que andava a pedir desde que sabia falar.

Lembro-me de a minha madrinha me ter ido buscar à minha avó e de nos ter levado para casa dela. Jantámos todos lá e fomos a correr para o hospital. Eu ia no carro, com dois totós no cabelo, o meu penteado preferido, e ia muito calada. Sempre fui uma criança calada, mas ia extremamente calada naquela viagem. Estava com medo. Medo de chegar lá e não sentir nada. De ver o bebé e achá-lo feio. De não a amar. Medo que me deixassem de amar a mim para passarem a amá-la só a ela. 

Quando chegámos ao hospital, só eu e o meu pai é que pudemos ver a minha mãe e a minha irmã. Vi primeiro a minha mãe, de pé no corredor. A mulher é maluca, sempre foi. Duas horas depois de ter parido uma criança andava ali de pé a passear-se pelos corredores da maternidade. Mal sabia eu que a criança que acabara de nascer iria ser dez vezes piores que ela.

Depois entrei no quarto e vi-a. Ali deitada no berço, vestida com um body completamente enorme com o nome da matrenidade escrito. Afudava-se por entre os lençóis e por entre aquele body demasiado grande para uma coisinha tão pequena. Estava a dormir.

"Posso pegar-lhe?"

E assim fiz. A minha mãe disse-me para eu me sentar na cama e deu-me aquela criatura para os braços. Foi aí que me tornei na irmã mais velha. Foi aí que senti, dentro de mim, tudo a mudar. Eu era agora uma irmã mais velha. Tinha de tomar conta daquela coisa pequenina e indefesa. Tinha de a proteger sempre, para sempre. Ela era minha. E foi assim, que há nove anos me tornei na irmã mais velha.

Não achei piada ao facto de ela só dormir e comer e dormir. Não podia brincar comigo. Os anos passaram-se e quando foi a vez dela de querer brincar às barbies, eu já não lhes achava piada. Mas brincava na mesma. Quando tinha dois anos, mandou-me com um comando da televisão à cabeça e não lhe falei o resto do dia. Chorei que nem uma perdida porque acreditem que levar com um comando na cabeça dói. Quando eu andava no 6º ano, estava a praticar flauta e ela não vai de modas e dá uma pancada na flauta. Fiquei com um lábio inchado durante uma semana. E estas histórias são só duas numa colectânea enorme delas. A criatura é uma peste. Não é nada parecida com a irmã a nível de personalidade. É irrequieta, respondona, por vezes má, mimada (sem ter razões para tal) e gosta de ser ela a senhora de tudo e de todos.

Mas é o meu diabinho. A minha criatura como eu tanto lhe gosto de chamar. É fofinha, querida, amiga, preocupa-se connosco e quando me vê a chorar vem logo abraçar-me e dar-me beijinhos. É uma peste mas é uma peste que eu adoro.

E está a crescer depressa demais. Parabéns criatura, que continues a ser a pedra no meu sapato durante muitos anos, até que a vida me abandone. Adoro-te.

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