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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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Something New

31
Mai20

Quem cala consente - Black Lives Matter

alex

Já tentei começar este texto de mil e uma formas diferentes. Nenhuma delas me parece a correta.

É muito complicado exprimir todos os sentimentos que me assolam neste momento, em que o nosso mundo parece estar a afundar-se mais e mais, a cada segundo que passa.

Debati-me imenso sobre se deveria ou não escrever um texto sobre este assunto. Se o poderia fazer, enquanto pessoa branca e privilegiada. Depois de pensar muito, cheguei à conclusão de que se não o fizer aqui, não o posso fazer em mais lado nenhum. E este é um assunto que deve ser falado, deve ser escutado, deve ser debatido e acima de tudo, deve ser apoiado.

Enquanto pessoa branca sou privilegiada. Toda a minha vida saí de casa sem ter de pensar no que me poderia acontecer por causa da cor da minha pele. Nunca perdi ninguém querido por causa da cor da pele deles. Entre muitos outros problemas que as pessoas de cor enfrentam todos os dias, enquanto pessoa branca vivi sempre com a certeza de que a morte viria, mas nunca através de um ato de racismo. Porque o racismo contra pessoas brancas NÃO EXISTE, ao contrário do que já vi muitas pessoas dizerem pela internet fora. 

Toda uma raça que desde sempre é descriminada pela sociedade, pessoas que são mortas, presas, torturadas, descriminadas dia após dia, apenas porque a cor da sua pele é preta e não branca. Pensem na quantidade de pessoas que já sofreram e que continuam a sofrer às mãos de polícias como os que assassinaram George Floyd. Pensem na quantidade de Derek's (nome do polícia que se ajoelhou no pescoço de George) que já fizeram igual ou pior e não sofreram represálias.

Até quando? Até quando é que vamos aceitar viver numa sociedade que mata, julga, prende, odeia com base na cor da pele?

Sinto que talvez não seja a melhor pessoa para falar sobre este assunto, mas ao mesmo tempo acho também que quem cala consente. E por isso, hoje, trago-vos este texto. Porque não sou "influencer", não sou figura pública ou até alguém que possa chegar a muita gente, mas sou um ser humano com cabeça, tronco e membros. Com consciência. Com coração.

E acho que qualquer coisa ajuda. Já não fazer nada e ficar no meu canto, não faz nada. 

Há quem diga que não tinha de chegar a este ponto. Que os protestos que estão a tomar lugar nos Estados Unidos (e agora até já em alguns países da Europa) são desnecessários, são uma reacção exagerada ao que aconteceu.

Mas aquilo que a maioria das pessoas parece não perceber, ou então não quer perceber, é que isto é algo muito maior. Já não é só sobre um assassinato ou um só ato de racismo ou um caso isolado de supremacia branca. É o resultado de anos, décadas, séculos de descriminação contra HUMANOS, baseado na cor da sua pele. 

Gostamos de nos convencer que hoje em dia já não é tão grave como era dantes. O racismo não desapareceu. Está presente, todos os dias, na vida das pessoas cuja cor de pele não é igual à minha. É uma sombra que os acompanha e que lhes pesa bastante, e que acaba, muitas vezes, por lhes roubar tudo. Imaginem viver todos os dias com receio de viverem a vossa vida por causa da cor da vossa pele. Imaginem estarem a conduzir e serem mandados parar porque são negros e os negros são todos bandidos. Imaginem alguém disparar contra vocês, quando estão desarmados, com ambas as mãos no ar e as lágrimas a escorrerem pela cara. Imaginem serem tratados como menos do que humanos. Imaginem um, dois três, quatro polícias em cima de vocês, enquanto tentam a todo o custo engolir o ar que vos estão a roubar. 

Sabem porque é que se calhar muitos de nós não conseguimos imaginar tal coisa? Sabem porque é que tudo parece tão longe de nós, que não tem nada  haver connosco, quando na verdade tem tudo a haver?

Privilégio. Só e apenas por isso. 

Não é despropositado. Não é exagerada a reacção. É o resultado de séculos e séculos de descriminação contra uma raça, que nos trouxe até aqui. "Mas a violência nunca é opção. Lutar fogo com fogo nunca acaba bem." 

A violência está a partir de quem? Investiguem, leiam, informem-se. Vejam os vídeos que eles querem esconder de nós. Oiçam as vozes que eles tanto tentam silenciar. Prestem atenção. E falem vocês, partilhem. Enquanto pessoas privilegiadas, acho que é isso que podemos fazer.

Nós escolhemos muita coisa nesta vida. Mas não escolhemos a cor da nossa pele. 

Já vi muita gente a dizer que 2020 é o pior ano, que este vai para os livros de história. E a pergunta que deixo aqui é esta: 

No ano de 2020, o que é tu fizeste para ajudar? Qual foi a tua contribuição para o pior ano, o ano que ficou para a história como um dos que mais destruição, dor, injustiça, revolta, viu?

Vamos fazer a nossa parte. Qualquer coisinha, por mais pequena que seja, ajuda mais do que não se fazer nada.

Em baixo, ficam alguns links com toda a informação sobre como podem ajudar.

Black Lives Matter.

https://blacklivesmatter.com/

https://blacklivesmatters.carrd.co/#

https://www.change.org/p/mayor-jacob-frey-justice-for-george-floyd

 

26
Mai20

Um apanhado...

alex

Chegou o calor e eu, já pouco habituada a temperaturas tão altas, dou-me por satisfeita por poder continuar a trabalhar por casa (por um lado). A minha mãe tem chegado todos os dias a casa a queixar-se do calor infernal que se vive nos transportes públicos, sem ar condicionado, com máscara e as temperaturas elevadas.

Mas tem de ser.

Sinto que ultimamente não tenho partilhado muito, com ninguém na verdade. Por um lado, prefiro assim. Por outro, sinto que devo falar, dizer, exprimir.

Acho que não cheguei a mencionar aqui, pelo menos não de forma explícita, mas a verdade é que consegui um estágio na minha área. Por isso, a semana é passada agarrada ao computador, a escrever para o jornal, e os fins de semana são passados ora a conviver com a família, ou a fazer pulseiras (uma actividade que fazia há uns tempos que retomei durante esta altura de isolamento) ou simplesmente a ler, ver séries ou a ouvir música.

Coisas simples, mundanas, mas que me têm ajudado a manter a cabeça no lugar certo. 

Recentemente deixei também de me agarrar a falsas esperanças. A falsas relações. A falsos futuros e falsas promessas. 

Pintei finalmente o meu quarto e já não me sinto presa no espaço da menina de 13 anos que outrora fui. Três paredes pintadas de branco e uma de Azul Maldivas.

Não sei se escolhi a cor consciente do nome da mesma, ou não, mas a verdade é que agora as Maldivas nunca mais vão ter a mesma banalidade que tinham dantes. Mas isso é uma outra história.

No domingo completei 24 anos e fui ao parque. Deitei-me na relva, comi pizza e fui mordida por melgas, mas já não me sentia tão... plena há imenso tempo. A minha mãe fez um bolo brigadeiro vegan, com morangos e cobertura de chocolate, e eu adorei. Eu, que sou uma pessoa que até nem gosta de coisas com muito chocolate, este ano o meu bolo de aniversário foi esse e eu deliciei-me.

Tenho pensado sobre onde estava à um ano atrás. Completamente exausta, constantemente infeliz, incompleta. Todos os dias acordava e só conseguia pensar no quanto não queria acordar. A começar o mesmo trabalho mas numa loja diferente, porque me lixaram bem lixada na empresa onde estive quatro anos.

Revoltada, a sentir-me traída, amarga, rancorosa de tal forma que me tornei numa pessoa que não reconhecia quando me olhava ao espelho. A querer regressar mas com medo, receio, sentimento de culpa...

Um ano depois, e estive no parque que fica na rua abaixo da minha escola básica, com os meus dois amigos mais antigos, que andaram comigo na mesma escola básica. A comer, a falar, simplesmente... a viver. A aproveitar o fim de semana, que agora que trabalho na minha área, num horário de "pessoa normal", me parece sempre muito curto.

Ainda tenho dias maus. Claro que sim. Mas já não respiro só para dizer que o faço. Já não abro os olhos só por abrir. Já não rio só porque tenho de esconder as lágrimas. Já não choro com saudades de uma vida que nunca tive. Tenho saudades ainda, mas é uma saudade diferente. É uma saudade boa, da vida que tive nos últimos cinco anos, que teve muitas aventuras, muitas lombas, muitas pessoas boas e más... É uma saudade que não deixa um sentimento de amargura.

Voltei a fazer exercício de forma regular e agora que as lojas estão lentamente a retomar a actividade, vou ver se consigo ir comprar um par de ténis para começar a correr ao ar livre, visto que o tempo está bom para isso.

Se tiver férias, talvez vá uns dias para a terra dos meus avós. Quero muito passar algum tempo na natureza, sem computadores, sem muita rede ou internet, na piscina a ler um bom livro, a colher frutas, a regar as flores e a fazer os bolos que a minha avó infelizmente já não consegue fazer. 

Ao contrário de muitos, que já foram molhar os pés à praia, eu não faço questão de ir tão cedo. Apesar de querer muito, não acho prudente e como, neste caso, cada um sabe de si, prefiro arranjar outras formas de aproveitar o regresso à nova normalidade.

Antes da pandemia, andava entre consultas com a médica de família e marcação de exames médicos para tentar perceber se tenho de facto algum problema a nível hormonal, ou nos ovários. Quatro meses depois da última consulta, os exames foram remarcados e a consulta com um especialista está também ela marcada. Não há-de ser nada grave.

Estou a pensar se deva cortar o cabelo outra vez ou não. O objectivo era deixá-lo crescer este ano, mas com este calor não sei se vou conseguir...

E é isto... de forma muito resumida, se calhar até pouco íntima, fica aqui um apanhado das coisas que têm acontecido ultimamente na minha vida, dos meus pensamentos, dos meus sentimentos. 

E com tudo isto, já estamos quase em junho. 

 

17
Mai20

Só um bocadinho

alex

No próximo domingo faço 24 anos. 

A verdade é que nunca fui uma pessoa que dá muita importância ao seu dia de anos. Talvez porque, quando era mais nova, os meus pais faziam questão de organizar festas com toda a família e amigos da família, e eu que detestava (e ainda detesto) ser o centro das atenções, fiquei como que "vacinada". Tive sorte de todos os anos festejar de forma alegre e divertida os meus anos. 

Contudo, à medida que fui crescendo, foi perdendo a importância. Muitas das coisas que fazíamos em criança perdem a magia quando crescemos. É mesmo assim. Mas no meu caso, eu nunca gostei de ter um dia em que todos os olhos estavam postos em mim. Em que os abraços e os beijinhos eram todos para mim. Em que tinha de abrir presentes dados por pessoas que pouco ou nada conheciam os meus gostos, e fingir que gostava deles. Não sendo uma pessoa materialista, nunca gostei muito de receber prendas. Deixa-me desconfortável, toda a atenção que me é dada no meu dia. Por ser isso mesmo: o meu dia.

O ano passado, no dia dos meus anos, foi o meu primeiro dia de trabalho numa nova empresa, numa nova loja depois de quatro anos a trabalhar para a mesma empresa antes disso. Não disse a ninguém que era o meu dia de anos, porque lá está, odeio ser o centro das atenções e ainda para mais, era o meu primeiro dia. Não conhecia aquela gente de lado nenhum e já todos sabem o quão pouco eu me consigo dar a estranhos. 

Já não sei porquê, comentei com uma das raparigas que tinha de ir comprar um bolo à M&S antes de ir para casa. E daí ela perguntou quem fazia anos, e eu respondi que era eu e pronto. Espalhou-se pela equipa e lembro-me como se fosse hoje. "Porque é que não nos disseste?" E eu, a querer esconder-me num canto, já nervosa por ser o meu primeiro dia de trabalho num sítio novo, ainda para mais com toda a gente a dar-me os parabéns. Mas foi nesse dia que senti que há uma obrigação enorme de celebrarmos os nossos anos e, para além disso, partilharmos com os outros. Mesmo com estranhos.

Contudo, este ano pensei que tinha de celebrar. Porque é o primeiro em que estou de regresso a casa, a sério, depois de alguns anos fora, porque havia outras coisas combinadas para a mesma altura que encaixavam mesmo bem com uma celebração maior e diferente e ... bom, já todos sabemos como é que isso ficou não é?

O tal senhor vírus veio e disse: e que tal continuares a ser a gaja que não dá um centavo pelo festejo do seu aniversário? E eu, que remédio, tenho de dizer que sim. Por incrível que pareça, até para mim mesma, estou um bocadinho triste. Não só por isto, mas porque tinha várias coisas giras e divertidas agendadas para este mês de Maio, que sempre foi o meu favorito (não por ser o mês dos meus anos), e agora... bom. Já se sabe, não me quero repetir.

Enfim. Não sei bem onde quero chegar com tudo isto. Acho que a lado nenhum. Não me sinto bem ao escrever tudo isto, como que a lamentar-me, quando há problemas muito maiores no mundo e pessoas a passar muito mal por causa desta pandemia. Mas não sei. Acho que também tenho direito aos meus momentos de egoísmo. E ultimamente, tenho-me permitido ser um pouco mais egoísta. Porque ser altruísta cansa muito e deixa muitas feridas que ardem e doem, durante muito tempo.

Por isso hoje, deixem-me estar triste. Esta semana, deixem-me estar desapontada. Este mês, deixem-me chorar por tudo o que já perdi e pelo que ainda vou perder.

Só um bocadinho.

26
Abr20

Say something

alex

Muitas são as vezes em que encontro conforto no silêncio.

Mas este silêncio é sufocante. Extenuante. Doloroso até.

Eu sabia. Há quase um ano atrás, eu já sabia. Porque eu atraio este tipo de pessoas. É como se toda eu fosse feita de metal, e os ímanes colam-se a mim com uma força enorme. Eu sabia e por isso não abri a porta. Mas sem eu dar conta, sem eu me aperceber, foste abrindo a porta aos poucos. E quando dei por ti, já estavas para lá da porta aberta. A porta abriu-se, tu entraste, eu fechei-a e tranquei-te cá dentro. Tudo isto sem eu dar por isso.

E agora? O silêncio reina nesta casa. Neste quarto. Não saíste, porque eu não o permiti. Mas ficaste em silêncio, e isso é muito pior. Não fazes ideia. Nenhuma.

Quero gritar. Dizer algo. Quero que me oiças. Quero ouvir-te. Acima de tudo, quero algo mais do que este silêncio ensurdecedor que dura já há algum tempo.

Vagueio. Entre pensamentos de quem te ressente, mas ao mesmo tempo, te respeita. Entre pensamentos de quem tem saudades tuas, mas ao mesmo tempo, te culpa. Entre pensamentos de quem te percebe, mas ao mesmo tempo, não consegue perceber. Há dias em que a mais pequena coisa me faz pensar em ti. Outros, em que nada faz, mas mesmo assim, surges em pequenos momentos que são agora cada mais escassos mas cada vez mais penosos.

O silêncio que outrora me confortava, hoje assusta-me. Preocupa-me. E acima de tudo, magoa-me.

Porque no silêncio as incertezas crescem, o tempo afasta-nos e a porta...destranca-se. A chave? Não sei dela. Tal e qual como entraste, sem eu dar conta, vais agora também saindo. Mas agora vejo, cada passo teu, em direcção à porta. Atravessas para o outro lado. Não vou fechar a porta, ainda, só no caso...na possibilidade de...

Mas o tempo vai continuar a passar. E se não disseres nada entretanto, não me restará nada sem ser o silêncio que me faz querer fechar a porta e tranca-la a sete chaves. Para que nunca mais ninguém, e muito menos tu, volte a entrar.

E no silêncio em que me deixaste, só peço...não me faças fechar a porta.

 

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