Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

Something New

Tudo o que te diria

Parabéns. Não é todos os dias que completamos 74 anos.

Espero que o teu dia seja passado com os que mais amas. Espero que sorrias e rias muito e que sopres as tuas velas de coração cheio.

Era o que te diria se aqui estivesses.

Foram mais os anos que vivi sem ti do que os que vivi contigo. São mais as memórias que tenho sem a tua presença nelas do que as que tenho contigo nelas. 

É injusto não é?

Mas desde cedo que aprendi a abraçar o injusto como um incentivo para procurar o que merecemos de bom na vida. 

Não sou eu quem mais saudades tem de ti; eu tenho saudades do que não tive contigo, eles têm saudades do que tiveram e perderam.

No entanto, onde quer que estejas neste exacto momento, espero que saibas o quanto foste amado e o quanto ainda o és. Espero que não tenhas partido com o coração a pesar-te no peito, pois todos os teus erros te foram perdoados.

Tudo acontece por uma razão. Cada vez mais acredito nisso. Se não tivesses falhado como falhaste, se calhar hoje a tua neta mais velha não estaria a preparar-se para o maior desafio da vida dela.

Tudo acontece por uma razão, mesmo que na altura do acontecimento não saibamos qual é. Mesmo que nunca cheguemos a saber. 

Onde quer que estejas, espero que estejas contente com os caminhos que os teus netos traçaram para eles próprios - o teu mais velho está finalmente a fazer aquilo que sempre disse querer fazer, como o avô; a tua mais velha está prestes a embarcar num avião para ir em busca do seu sonho; as tuas mais novas ainda estudam, mas ambas são crianças felizes.

A tua ausência é sentida por todos nós, mas muito mais por aquela pessoa com quem te deitavas todos os dias. É ela que tem de adormecer todos os dias com o teu lugar na cama vazio.

As coisas aconteceram assim e não choro por isso. A morte não me assusta. Assusta-me o que vem depois. A morte todos nós conhecemos, todos nós testemunhamos.

Mas ninguém sabe o que há depois disso. Acho que o medo advém daí.

Onde quer que estejas, espero que não estejas com medo. Já nos viste sofrer muito durante estes anos, aposto. E acredito que vais ver ainda mais. Mas não te aflijas, que nós somos rijos. Não tenhas medo, que nós cá nos desenvencilhamos. Não temas, que de uma maneira ou de outra, nós damos a volta por cima.

Foi isso que deixaste para trás. Um bando de malta teimosa, que não sabe quando desistir.

Onde quer que estejas, espero que estejas bem. Prometo que não me vou embora sem te prestar uma visita, apesar de não gostar de cemitérios. Eu, sim, que gosto tanto de fantasmas, zombies e coisas assustadoras, detesto cemitérios.

Acho que é porque eu sei muito bem o que está por debaixo daquelas pedras com nomes e caras desconhecidas - não são fantasmas, mas sim pessoas que viveram tal e qual como eu; como tu.

Mas lá estarei, antes de ir, para te deixar uma flor e uma promessa que, essa, ficará só entre nós.

Um beijo, da tua Carochinha.