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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

Something New

Juntos somos melhores

Os acontecimentos dos últimos tempos têm deixado muita gente em alerta. Eu incluída. Tendo nascido e crescido em Portugal, sempre vivi muito estas coisas apenas através de uma televisão. É óbvio que uma pessoa fica afectada ao ver as notícias e pensa sempre que, qualquer dia pode vir a ser no nosso país. Mas por outro lado, acho que a mentalidade dos portugueses é muito aquela de "a nós não nos toca". Por sermos um país pequeno, isolado, na outra ponta da Europa, etc. Contudo, acho que com os tempos que correm, essa mentalidade tem vindo a alterar-se bastante. Mas agora que já vivo em Londres há quase dois anos, e com os acontecimentos dos últimos tempos, a minha forma de pensar tem vindo, também, a mudar.

Já não penso "não me tocará a mim". Porque agora já não vejo só os acontecimentos através da televisão. Passo pelos sítios onde estas coisas estão a acontecer. Não com frequência, porque a minha vida é muito limitada aqui ao sítio onde vivo, estudo e trabalho. Ainda estou relativamente longe do centro. Mas não muito. Uma simples viagem de underground de 20, 30 minutos e estou no centro. Na ponte onde morreram pessoas. No Market onde o caos se instalou. Estou aqui, tão perto, que as notícias já não parecem ser só notícias. Histórias. 

Tenho medo de ir para o trabalho hoje em dia. Porque faço parte da gerência de uma loja num dos maiores centros comerciais do Norte de Londres. Não estamos isentos de alguma coisa vir a acontecer. Aos fins-de-semana, milhares de pessoas deslocam-se até aquele centro comercial para fazerem as suas compras. E quando eu digo milhares, são milhares mesmo. Eu nem saio da loja na minha hora de almoço se estiver a trabalhar sábados e domingos, porque não se consegue andar naquele centro comercial.

Seria o sítio perfeito para se tentar algo. E com os acontecimentos dos últimos tempos, este pensamento vai assombrando-me cada vez mais. Contudo, a parte de mim que quer pensar positivo faz-me levantar da cama todos os dias e ir trabalhar. Porque, como eu já aqui disse, a vida não pode parar antes de parar mesmo. Não nos podemos deixar erradicar pelo medo. Porque é isso que esta gente tenta fazer. Eles não querem erradicar pela religião, por um Deus todo poderoso. Eles erradicam pelo medo que incutem às pessoas. E claro que é assustador. Mas como uma pessoa sábia me disse ontem, nós vivemos numa sociedade de risco e temos de aprender a lidar com o medo e esperar que nenhum de nós esteja no momento errado, no local errado, há hora errada. Isto não vai desaparecer. Não vai melhorar, pelo menos nos tempos que se avizinham. Mas temos de mostrar que somos o oposto deles.

Enquanto que eles mostram-se dispostos a morrer sozinhos por uma causa em que acreditam, nós temos de mostrar que juntos, conseguimos sobreviver pela nossa. Infelizmente não pude acompanhar o directo do concerto de Manchester ontem, visto que estive a trabalhar até tarde. Mas já vi videos, imagens, tweets. E eu acredito mesmo que juntos somos melhores.

Somos mais.

Não escondam o medo

"We are not afraid".

Circula pelas redes sociais em conjunto com a hashtag #PrayForLondon. Estava em casa ontem, perdida no meu próprio mundo, quando o meu telemóvel dá sinal de mensagem no chat do Facebook. Era a senhora dona minha mãe a perguntar se eu estava em casa e se estava bem. Achei estranho. Apesar de falarmos todos os dias pelo chat do Facebook e apesar de ela, todos os dias, me perguntar se eu estou bem, achei aquele "Estás bem?" diferente dos outros. Respondi imediatamente, pondo de lado o que estava a fazer no momento, porque senti a urgência da pergunta. Não me perguntem como. Respondi que sim, estava em casa e estava prestes a ir lavar a loiça do almoço. Perguntei porquê a pergunta feita daquela forma? E ela respondeu: "Ainda não viste as noticias? Houve um atentado no Parlamento aí."

Bom, fiquei alarmada. Pensei que alguém tinha tentado bombardear Westminster. Acedi logo ao site da BBC News, e assisti ao live que eles estavam a transmitir, em directo no local. Rapidamente me apercebi que não se tratava de uma bomba, mas sim de algo diferente, igualmente preocupante. Um individuo esfaqueou um polícia, atropelou quatro pedestres (um deles português pelo que consegui descobrir) e causou mais uns quantos feridos. Para além disto, causou o pânico, não só na zona de Westminster, mas por todo o país. Em questão de segundos, as redes sociais encheram-se de mensagens de boa fé, de revolta e de medo.

Medo. Medo esse que, por uma razão que eu entendo perfeitamente, toda a gente está a tentar esconder. Hoje, um dia depois do acontecimento, todos nós andamos pelas redes sociais a partilhar fotos e tweets a dizer "We are not afraid". Nos conhecidos "boards" do metro, onde todos os dias é escrita uma mensagem inspiradora, mensagens sobre o que aconteceu são escritas, acompanhadas pela referida frase. Mas eu acho que é tudo uma grande treta.

Eu estou com medo. Eu escolhi esta cidade para viver. Aqui vivo há já quase dois anos. Não faço tensões de me ir embora assim tão cedo quanto isso, apesar de todas as complicações que o Brexit possa vir a causar. Contudo, eu sei perfeitamente que isto é só o começo. O começo de uma jornada que, infelizmente, vai conter muitos mais destes acontecimentos e actos de terrorismo. Porque foi isso que aconteceu. Infelizmente, este país está a ficar mais fraco. O Reino Unido já não é Unido coisíssima nenhuma. Claro que o Brexit é um dos grandes culpados. Mas o pior são as pessoas. As pessoas estão, dia após dia, a esquecer-se que ao final do dia, nós somos todos seres humanos. 

Há seres humanos bons e seres humanos maus. Mas isso é em todo o lado. Só que as pessoas esquecem-se disso quando coisas destas acontecem, que geram o pânico e o medo e a aversão às pessoas que, para eles, são e serem sempre "outsiders". Emigrantes. Mesmo que esse não seja o caso, a verdade é que, isto assusta qualquer pessoa. Eu, que não estou no meu país, estou assustada. Sei lá se amanhã não se lembram de ir ali ao centro comercial onde eu trabalho, que é só o maior centro comercial de North West London, fazer algo do género ou pior?

Estas coisas fazem-nos pensar. E duvidar. E reconsiderar as nossas escolhas e o nosso futuro e o futuro do país e do mundo que habitamos. Faz-nos ter medo. Não escondam o medo que estes acontecimentos nos fazem sentir. Porque é natural termos medo. Somos apenas seres humanos. Dizer que não temos medo não vai fazer com que coisas destas não aconteçam de novo. Ter medo não é vergonha. Vergonha é não fazer nada quanto ao medo que sentimos. 

O telefone lá de casa, ontem, tocou mais vezes do que durante o ano todo quando as notícias chegaram às televisões portuguesas. Pessoas que nem sequer vejo quando vou a casa, a telefonar aos meus pais a perguntar se eu e os meus amigos estávamos bem. Felizmente, nós raramente andamos pelo centro de Londres. Mas podia ter-nos dado na cabeça lá ter ido. É só meia hora de viagem no metro. E nunca se sabe quando ou onde será o próximo.

Porque vai haver próximo, infelizmente. Não podemos mostrar medo, eles pensam. É a única forma de os vencermos. Eu cá também sou assim. Nunca mostro medo. Nunca mostro as minhas fraquezas. Porque se o inimigo sabe as nossas fraquezas, fica um passo mais perto de nos derrotar. Contudo, no que toca a estas coisas, acho impossível pedir às pessoas para se fazerem de fortes. O medo está instalado.

Agora é tentar fazer algo com ele. Não deixar que nos consuma ou impeça de continuar com as nossas vidas. Porque aí sim, caminharemos para a derrota.

Depois disto, só falta o Trump chegar a presidente

Com o resultado do referendo sabido e a vitória dada à Brexit, só tenho a dizer que todos os que votaram a favor da saída do Reino Unido da União Europeia cavaram a sua própria cova.

Acha que as pessoas não votaram plenas das consequências que esta situação vai trazer, também para os países da Europa e imigrantes, mas especialmente para todos os Britânicos.

A banca vai sofrer, os negócios vão sofrer, as empresas, o comércio, tudo vai levar uma valente sacudidela e não sei quantos vão permanecer em pé depois desse abalanço. 

Esta decisão não vem só cavar as covas dos imigrantes, vem cavar covas para todos os habitantes do Reino Unido e da Grã-Bretanha e penso que ninguém pensou muito bem a fundo sobre isto. Só queriam que o Reino Unido saísse para deixar de ser tão fácil a entrada de imigrantes no país.

Pois agora vou gostar de ver o desenrolar desta situação e quiçá, ver um dos grandes países do mundo a sucumbir e a enterrar-se por completo, porque uma coisa é certa: o feitiço vai acabar por se vir contra o feiticeiro, sem dúvida.

Como imigrante no país da sua majestade, só tenho a dizer que estou relativamente tranquila. Ainda vai demorar uns dois anos, no mínimo, para que esta situação se resolva por completo e o país esteja de facto fora da união europeia. Até lá, acabo o meu curso, arranjo um visto ou então, parto para outro ninho porque o que não faltam aí são países pertencentes à União Europeia.

Agora que isto é muito triste, é, de facto e faz-me perder a fé na humanidade. Agora só falta o Trump chegar a presidente dos Estados Unidos... aí é que ficaria mesmo visto que o ser humano está perdido, por completo.

Sobre o referendo

Toda a gente já está a par desta grande notícia que é o referendo que vai ter lugar aqui no Reino Unido no dia 23 de Junho.

Andei durante uns bons dias a remoer no assunto, a tentar perceber todos os lados da situação, incluindo o meu. O assunto andou aqui às voltas e às voltas, foi discutido com os colegas de casa, com os colegas da universidade, com os colegas do trabalho e a conclusão a que chego é só uma, e diria que bastante influenciada pelo facto de eu própria ser uma imigrante - é injusto.

Tentei ver e julgar a situação do lado dos britânicos. Tentei ver e julgar a situação do lado dos imigrantes. Até tentei ver e julgar a situação do lado dos refugiados. Mas no final, sou influenciada pela minha situação pessoal, porque afinal de contas, sou apenas humana (e se calhar é por isto que a cada dia que passa me apercebo mais que não fui feita para ser jornalista, mas isso é outra conversa para outro dia).

Não é justo por várias razões. Não é justo porque eu não vim para aqui ilegalmente. Não vim para aqui roubar nada a ninguém, seja dinheiro, emprego ou casa. Vim para aqui com uma missão muito simples (na teoria), a de construir uma vida melhor para mim. Assim como eu, milhares e milhares de outras pessoas o fizeram pela mesma razão.

É certo que outras nem tanto. E agora sim, vou tocar na ferida e falar dos refugiados e do terrorismo. A meu entender, esta situação gerou-se e chegou a este ponto por causa da situação dos refugiados e dos ataques de terrorismo recentes. Posso estar errada, ou não, mas a minha opinião é esta. A verdade é que o Reino Unido neste último ano foi inundado com refugiados a tentarem fugir do seu país e pouco tempo depois, foi atacado pela onda de terrorismo que foi levantada na Europa com os atentados em França. 

E é aqui que eu até consigo perceber o facto de este referendo ter de se vir a realizar. O Reino Unido quer fechar as suas portas e proteger-se o melhor possível. É completamente compreensível. Mas como sempre, não é justo uns pagarem pelos erros dos outros. Eu não estou aqui a fazer mal nenhum a ninguém. Nem estão os outros milhares de estudantes e jovens que vieram para aqui na tentativa de construirem um futuro melhor para eles próprios.

Não só nós jovens como famílias inteiras que se instalaram aqui no Reino Unido e que já cá estão à muitos anos, já chamando a este país a sua casa. E agora pergunto: se os resultados do referendo forem a favor da saída do Reino Unido da União Europeia, o que vai acontecer a estes milhões de jovens, famílias, HUMANOS que não têm forma de voltarem para os seus países e fazerem lá as suas vidas?

Ou, não apontando para o facto de termos de ser obrigados a deixar o país, quem é que vai ajudar estes milhões de pessoas a arranjarem vistos para poderem permanecer cá, uma vez que os mesmos são bastante dispendiosos e a maioria de nós (falando agora só dos jovens estudantes) já se vê apertado só para conseguir pagar a renda e as outras contas essenciais?

E durante o tempo que temos de estar à espera para que ditos vistos sejam aprovados (sim, porque demora tempo), muitos de nós podemos até perder os nossos empregos por nos encontrarmos numa situação meia ilegal.

Acho que é díficil para os não imigrantes verem as coisas desta forma, porque o povo de cá é bastante snobe e mimado. E não me interessa se ofendo A ou B ao escrever estas palavras, é a mais pura das verdades e eu estou no meu direito de o dizer após quase 7 meses de vivência e convivência neste país.

Porque lá está, os não imigrantes têm cá as suas famílias, os seus pais que lhes pagam tudo, que lhes dão tudo e que os ajudam em tudo. No nosso caso, ninguém nos ajuda com as nossas contas ou se oferece para pagar por nós. Nós somos os empregados mais trabalhadores que este país tem, e porquê? Porque nós precisamos de empregos para sobreviver. Um trabalho aqui para nós não é apenas um passatempo ou algo que nós encontramos para fazer durante 3 dias da semana para não termos tanto tempo livre, quando não estamos nas aulas. Nós não vimos para cá brincar ou andar aos tiros, apesar de haver sempre as ovelhas negras em todo o lado.

Mas lá está, as ervas daninhas existem em todos os jardins, mas há sua volta existem flores que só querem é crescer em paz, sem perturbar ninguém. E não é justo que essas flores inofensivas sejam arrancadas com as ervas daninhas só porque estas são prejudiciais.

E como é que se separa o gado, perguntam-me sempre quando eu digo isto. Pois, é aí que eu encravo e que volto a perceber o ponto de vista dos não imigrantes. Porque como ser humano, somos ensinados a generalizar. E se um fez mal, isso significa que a probabilidade de o outro ir fazer igual ou pior é grande porque a realidade é que vivemos num mundo de gente louca.

Mas neste mundo de gente louca existe gente não tão louca, como eu, que só quer é um sítio onde possa ganhar dinheiro e estudar sem ter de andar a dar o corpo nas ruas.

É triste, mas não sei de que outra maneira o dizer. 

Pessoalmente, estou assustada com o que vai resultar desta situação. Não quero ter de voltar para Portugal. Não quero ter de pagar 300 libras por um visto que me vai demorar um ano ou mais tempo a ser aprovado. Não quero, nem posso perder o meu emprego porque já chorei, sangrei e suei muito para chegar onde estou. 

Não é justo. E eu não lido bem com injustiças. Mas neste mundo é só com isso que lidamos, cada vez mais, a cada dia que passa.

Talvez os resultados até surpreendam. Talvez os não imigrantes até tenham dois dedos de testa e pensem nas pessoas que estão aqui, não para fazer mal a ninguém, mas simplesmente para viver.

Porque nós não somos todos terroristas. Ou refugiados. Ou pessoas de más intenções. Por muito que as pessoas não acreditem, esses são a minoria.

Nós somos a maioria. Por isso acho que as maiorias se deviam apoiar umas às outras e não o contrário. 

Espero não ser a única.

Devagar, devagarinho...

As coisas podiam estar a correr pior. 

A malta aqui por casa anda ligeiramente stressada porque andamos a ver se conseguimos mudar para uma casa como deve ser (vocês não têm ideia do que é ter cinco pessoas a viver neste sítio) mas existe o problema de que nem todos ganham bem, uns ainda não ganham nada (como eu) e outros ainda não sabem o que ganham.

Este tipo de coisas gera sempre stress e confusão.

Depois estou aqui eu, completamente ainda no estado de: mas eu estou mesmo aqui? Eu já não estou em Portugal? O quê, as moedas aqui são estranhas e as de 10 são maiores que as de 20? Está a chover mas está um calor desgraçado? Olha um pássaro!

Pronto, basicamente é isto que vai na minha cabeça 50% do tempo. Os outros 50% é - tenho de arranjar trabalho, tenho de arranjar trabalho, tenho de arranjar trabalho.

Hoje fui "experimentar" um café/restaurante aqui ao pé de casa - de judeus (no judging) - e até nem foi assim tão mau. Nunca trabalhei em cafés e ou restaurantes, por isso para primeiro dia (3 horas só) acho que me safei. 

Amanhã vou outra vez e sábado tenho uma entrevista na Gap, no centro comercial. Se correr bem na Gap, digo adeus aos do café.

É sempre bom ter opções minha gente!

E pronto, basicamente é isto. Para quem pensava que viver em Londres era muito diferente de viver em Lisboa (*tosse, P.,tosse*) é igual. Só muda o tempo, que aqui é bipolar, a lingua quando não estamos em casa e o espaço que temos para coçar o braço (que é minúsculo nesta casa).

As saudades ainda não se fizeram notar. Já cá estou à uma semana. Ainda há muito para ver, para sentir e para viver.

Mas devagar se vai ao longe.