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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

Something New

Os 21 vieram com muitos sentimentos...

Já lá vai algum tempo desde a última vez que vos escrevi... A verdade é que não tenho andado com cabeça. Fui de férias para Portugal durante 10 dias mas, para ser sincera, nem souberam a férias. Enquanto lá estive, recebi notícias que me deixaram ansiosa e não me permitiram aproveitar como eu gostaria de ter aproveitado. Coisas da universidade, que ainda não estão resolvidas e que me têm tirado o sono. O que me incomoda mais é o facto de não poder fazer nada mais para além daquilo que já fiz, que foi mandar emails para todas as pessoas que me poderiam ajudar. Ninguém me responde e ninguém me parece disposto a ajudar, portanto a única coisa a fazer é esperar.

Enquanto estive em Portugal fiz os 21. Este ano celebrei com a família e deu para perceber muita coisa. Estes dias que passei lá, aliás, deram para perceber muita coisa. É uma luta constante, esta de se ser emigrante. Estou aqui e só quero estar lá. Estou lá e não consigo deixar de pensar na vida que tenho aqui. É extenuante. A grande verdade é que, completei 21 anos e a vida ainda há-de dar muitas voltas. Não pretendo ficar aqui para sempre, neste país que quer ver os emigrantes pelas costas, contudo...a minha vida está aqui agora. E vai deixar de estar, tenho a certeza, daqui a uns anos. Mas não sei se tão cedo ela vai passar a estar, de novo, em Portugal. 

É o meu país, é a minha casa, é onde vivi toda a minha vida. Nada muda. Mas tudo muda. Porque eu mudei. Porque eu ganhei outras experiências que não tinha ganho se lá tivesse ficado. Porque as minhas relações com certas pessoas mudaram. Porque as pessoas crescem e por vezes, mudam. Porque eu já não vejo o mundo e a vida como via há dois anos atrás. Como disse, a vida ainda vai dar muitas voltas, disso não tenho dúvidas. Mas não sei se é porque estou a menos de um ano de acabar o meu curso, se é porque tenho andado stressada com os problemas que me apareceram na uni ou se é por uma outra razão qualquer, a verdade é que me sinto um pouco perdida.

Perdida, ansiosa e insatisfeita. Não sei bem o que quero, não sei bem do que preciso e sinceramente...já não sei bem quem sou.

Sinto que estou prestes a entrar na segunda crise da adolescência. Apesar de já não ser adolescente coisíssima nenhuma. Uma amiga minha disse que ela ia agora entrar na "quarter-life crisis".

Eu bem que ri e disse para ela não ser tonta. Mas aquilo assentou dentro de mim e fez sentido. Já somos duas, pensei eu para mim enquanto tentava esconder este pensamento com um sorriso nos lábios.

Dar valor ao que é nosso

Fazia-o pouco. Desde que sai de Portugal e vim viver para Inglaterra, acho que a minha veia patriota veio muito ao de cima. Eu vou aqui admitir uma coisa que nunca admiti a ninguém: eu achava que não gostava do meu país.

Para mim Portugal era um beco sem saída. Talvez porque, a certa altura da vida, vivi com o meu pai a entrar e a sair do desemprego e quando ele finalmente assentou, foi a vez da minha mãe (que até hoje ainda se encontra desempregada). Para mim a nossa música nunca era das melhores. Ouvia-se, de vez em quando, se passasse na radio. Para mim, havia sempre sítios mais bonitos e mais interessantes para explorar, fora de Portugal. Para mim havia sempre filmes melhores, livros melhores e séries melhores do que aqueles feitos e escritos e produzidos por portugueses.

Ao olhar para trás, só gostava de poder dar um par de estaladas à criança que pensava assim. Hoje sei, sem sombra de dúvida alguma, que o meu país é o mais bonito, o mais bondoso, o mais quente, o mais talentoso. Hoje sei que, apesar de todos os defeitos do meus país, são as suas qualidades que fazem dele o que é. Até morar noutro país que não o meu, não pensava assim, o que me entristece. Mas agora sei dar valor ao que é meu. Talvez porque já não é tanto meu como quando lá vivia. 

Hoje em dia dou por mim a pesquisar sítios para passar férias no meu país. Dou por mim a ver séries da RTP1 e novelas da TVI. Dou comigo a ouvir, de livre e espontânea vontade, cantores portugueses. A alegria que é quando vamos no carro e sou eu que posso escolher a música! No outro dia andávamos a passear de carro às tantas da madrugada a ouvir a Como Ela é Bela do Agir. É uma música muito bonita gente. Mas não só. Amanhã tou Melhor dos Capitão Fausto tem sido o mais tocado no meu telemóvel. E basicamente todas a músicas deles. Acho que é daquelas coisas que, só quem está fora do país, é que entende. Queremos manter-nos ligados à nossa terra o máximo que conseguirmos. Porque às vezes temos medo. Medo de perder aquilo que é nosso. A nossa língua, a nossa cultura, as nossas raízes. 

Temos de dar mais valor aquilo que é nosso. E eu acho que ultimamente, não sou só eu que o ando a fazer. A Eurovisão está ai à porta e, muito sinceramente, nunca pensei estar tão entusiasmada como estou. Quando vi o Salvador cantar Amar Pelos Dois pela primeira vez, não gostei. Sou sincera. Não me encantou. Mas lá está, temos de dar valor ao que é nosso. Então fui ouvir e ver outra vez. E mais uma e mais outra. E agora não consigo olhar para o rapaz a actuar e dizer que ele não tem talento. Que ele não é a escolha acertada. Porque ele tem talento e porque penso que mais ninguém poderia ir representar-nos este ano, tão bem, como eu sei que o Salvador fará.

Ultimamente tenho andado bastante em baixo com isto de ser emigrante. Ando a reconsiderar e a ponderar muito sobre a minha vida. Mas sabem o que me faz mesmo muito feliz ao final do dia?

Saber que o meu país é Portugal. E vergonha de dizer de onde sou? Nunca a tenho. Jamais. Porque tenho orgulho de ser portuguesa, muito mesmo. Aqui em casa, depois de já termos vivido alguns anos em Inglaterra, todas nós chegámos à mesma conclusão: Portugal é um país único. E é nosso.

Temos de dar mais valor ao que é nosso. Eu vou votar no Salvador. Votem também.

Mais um...

Terminei o segundo ano da universidade. Notas ainda não as há e com certeza que só as saberei no final do mês, no entanto, os trabalhos já estão todos feitos e entregues.

Não consigo bem acreditar que já vou começar o meu último ano do curso daqui a uns meses...a incerteza e o medo são muitos mas por agora, não pretendo passar muito do meu tempo a pensar nisso!

Daqui a menos de duas semanas vou a casa. Se vocês soubessem o quão feliz eu estou por ter uns míseros 10 dias de férias para poder ir a casa... estes últimos meses têm sido bastante difíceis para mim, tanto a nível da uni como a nível do trabalho. 

O blog vai continuando ao abandono, eu sei... mas talvez agora que já vou ter mais tempo livre e o bom tempo aqui por Londres parece estar a vir para ficar, pode ser que a inspiração para escrever venha com mais frequência!

Queria partilhar aqui algo que fiz como um dos projectos finais para um dos meus módulos este ano. Tínhamos de criar uma revista digital ou um website e eu acabei por criar um website do qual até estou bastante orgulhosa, assim como dos artigos que escrevi. Um deles em especial, foi uma entrevista que fiz a um casal que largou tudo e foi viajar com o filho de dois anos pelo continente asiático. A minha mãe trabalhou com esta pessoa há alguns anos atrás e há uns meses falou-me do blog deles (Viagem ao Colo). Lembrei-me que seria um artigo interessante para a minha "revista" digital entrevistar o casal, visto que é uma travel magazine.

Deixo aqui o link para quem estiver interessado, e recomendo também que visitem o blog do Carlos e da sua família, se gostam de aprender mais sobre outros países e saber das aventuras de outrem!

P.S: O meu website está todo em inglês, como devem ter deduzido!

Sou mulher

Eu acho que já toquei neste assunto aqui no blog. Contudo, já lá vão quase 5 anos desde que o criei, portanto é mais do que certo que os assuntos se vão repetindo de vez em quando. No entanto, este é um daqueles assuntos sobre o qual nunca é demais escrever, sobre o qual nunca é demais falar ou discutir.

Assédio sexual.

Um tema que gera muita polémica, sempre gerou e que vai continuar a gerar. Este domingo passado, estava a vir para casa depois de um turno bastante cansativo na loja. O dia tinha corrido mal, e a única coisa que me alegrou foi sair do trabalho às 18h30 e ver o tempo espectacular que estava. Ultimamente tem sido assim por aqui, temos tido um tempo espectacular. Vinha eu para casa com a A., visto que tínhamos estado a fechar a loja juntas, e quando saímos do autocarro damos por nós a ser seguidas por um individuo alto, que estava a tentar abordar-nos. Eu só reparei quando já estávamos para atravessar a estrada, porque vinha na conversa com a A. e simplesmente pensei que o individuo vinha a falar ao telemóvel ou algo do género. Mas não. Ele tentou abordar-nos à força toda e eu disse para a A.: Ignora, continua a falar para mim e nem olhes para ele.

Ele não desistia. Às tantas, deve ter ficado envergonhado o suficiente para se virar para nós, nos ofender e virar costas. Sim, ofendeu-nos. Porque não lhe demos conversa. Porque não pactuamos com o assédio dele. Porque sim, o que ele estava a fazer era assédio. E já não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que algo deste género ou pior nos acontece neste país. Não quero ser injusta e dizer que os homens aqui são mais assim ou mais assado, porque assédio sexual existe em todos os país e recantos do mundo. Contudo, desde que me mudei para cá que já foram mais as vezes em que fui assediada do que as não fui. No meu país também o era, mas não da forma que sou aqui e não tão gravemente. Em Portugal o máximo a que chegou foi ser assobiada por um velho coitado sentado à porta de um café. Aqui já tive homens a agarrem-me e a não me quererem largar.

Mas tenho mais histórias. No outro dia estava a falar com uma outra amiga e ela estava-me a contar que, nesse dia, às 8h e tal da manhã quando saiu de casa para ir para a uni, um carro com dois homens seguiu-a até à paragem de autocarro dela, sempre a fazerem-lhe perguntas inoportunas e a tentarem com que ela fosse com eles sabe-se lá para onde. Outra - a mesma amiga que vinha comigo para casa no domingo passado já foi abordada mais do que uma vez na rua pelo mesmo individuo. Quando ainda vivíamos na outra casa e tínhamos de caminhar uns 10 minutos a pé da paragem até casa, ele aparecia-lhe sempre à frente e tentava "engata-la".Tentou muitas vezes segui-la até casa, mas ela conseguia sempre esquivar-se ao ligar para uma de nós ou a ir para a uni. 

Uma rapariga que estudava comigo o ano passado foi às compras e o segurança do supermercado passou o tempo todo atrás dela a mandar-lhe bocas e a dizer-lhe o quão "gostoso" era o rabo dela.

Uma pessoa está na paragem de autocarro e o homem do centro de emprego está à porta a fumar e começa a fazer olhinhos e a lamber os lábios de forma "sedutora" para nós. 

Isto é RIDÍCULO. E quem quer que ache o contrário é igualmente ridículo/a. Não quero ser aquela pessoa que diz que só as mulheres é que sofrem assédio sexual, porque tenho plena noção de que também há homens que passam por isso. Contudo, sou mulher e a maioria dos meus amigos são mulheres que, como eu, já foram assediadas de todas as formas e feitios que existem. Eu tenho o direito de andar na rua sem querer que um estranho venha pôr conversa comigo e me pressione a dar-lhe o meu número e outras informações pessoais. Tenho direito a andar na rua sem ter que olhar constantemente por cima do ombro, com receio de estar a ser seguida. Tenho o direito a não ser agarrada no meio da rua por pessoas que não conheço, tenho o direito a não ser ofendida por um individuo com o ego magoado porque eu nem me dignei a responder à sua tentativa de engate. Tenho o direito a ser mulher sem ter medo de o ser.

E os homens não entendem isto. Os homens andam na rua sem medo. Nunca, mas nunca, eu vi uma mulher chegar-se ao pé de um homem no meio da rua e fazer uma das coisas que eu mencionei neste texto ou outra qualquer que possa ser classificada como assédio. Nunca. Pode já ter acontecido, mas não é comum. Enquanto que, no que toca a nós, é o pão nosso de cada dia. Devíamos ficar felizes, dizem eles. Devíamos considerar-nos sortudas e ficar lisonjeadas! Um homem quer o nosso nome, número e código postal , devíamos lançar foguetes e fazer uma festa meninas! Então? Que tontas que nós somos por nos sentirmos ameaçadas ou incomodadas com tal coisa! Desde que eles não nos toquem não é assédio!

Errado. Completamente errado. É assédio a partir do momento em que eu claramente recuso os avanços de alguém e essa pessoa se continua a insinuar. É assédio se fazes a outra parte sentir-se desconfortável ou ameaçada ou amedrontada ou enojada. É assédio e ponto final. E sinceramente, eu gostava que todos os homens sentissem na pele, por uma só vez que fosse, aquilo que nós mulheres sentimos quando somos tratadas como se fossemos objectos; troféus.

Porque sim, eu sou capaz de andar no meio da rua, seja sozinha ou acompanhada, ver uma pessoa que me desperta interesse, que eu acho atraente, mas não me dirijo a ela e começo a fazer perguntas inoportunas, ou não a agarro, nem a tento seguir até casa. E é isto que eu não entendo. Será que há mesmo mulheres que gostam deste tipo de situações, que se dão assim a estes homens e é por isso que eles continuam a agir como agem? Será que eles são bem sucedidos ou será que, são apenas estúpidos? A minha dúvida é esta. Será que, pelo amor de Deus e eu nem sou católica, a única cabeça com que os homens pensam é com a que têm no meio das pernas?

E será que, pelo amor de Deus, outra vez, posso alguma vez andar na rua sem ter de ser assediada? O que é que uma mulher tem de fazer para andar na rua sem ser alvo de assédio? Andar com saco do lixo vestido? Uma caixa de cartão na cabeça? Tenho direito a andar na rua como bem quiser e me apetecer, seja de calças de ganga, t-shirt, vestido, tapada da cabeça aos pés, sem ter de me sujeitar às merdas a que estes tristes nos sujeitam!

Sou mulher. E tenho direito a sê-lo sem ter medo de o ser. Percebam isso gente! 

Dois lados da mesma moeda

Deparei-me há pouco com este post no meu feed do facebook. Foi partilhado por uma amiga minha que, como eu, veio de Portugal para o UK estudar e trabalhar e li e reli o texto mais do que uma vez. 

Senti-me inspirada a escrever, também eu, sobre o assunto. Provavelmente, vou acabar a dizer o mesmo que a autora disse e se calhar vou chegar à mesma conclusão que ela chegou. E já são alguns os textos que escrevi onde toquei neste assunto bastante complexo, para mim. Contudo, acho que nunca é demais.

É verdade, sim, há de facto um lado triste de emigrar que nunca ninguém nos diz. Aliás, há vários. Um dos mais tristes para mim, e mencionados no texto em que me baseio para escrever o meu, é o facto de passarmos a ser como órfãos e ninguém conseguir perceber isso. A partir do momento em pisamos solo estrangeiro, não há volta a dar. Não somos de Portugal, mas também não somos do UK. O nosso coração, antes inteiro e sólido, parte-se em dois e torna-se fraco. Um bocado fica em Portugal, a nossa terra, a nossa casa eterna. O outro fica connosco e acompanha-nos para onde que seja que nos tenhamos mudado. No meu caso, Inglaterra. Nunca sei se hei-de dizer, quando vou de férias para Portugal ou se diga, quando volto a casa. Tudo se torna muito confuso e os termos misturam-se todos. Passar férias num sítio onde nasci e cresci e vivi durante 19 anos? Parece ridículo. Contudo, a minha casa é aquela cuja renda eu pago, aquela que eu limpo, aquela em que eu durmo, aqui em Inglaterra. É muito complicado de sentir, quanto mais de explicar.

Um dos lados muito, mas mesmo muito tristes, é o facto de não estarmos presentes. Ocasiões que, se lá estivéssemos, nos pareceriam insignificantes ou mundanas, passam a ser vistas por nós como ocasiões especiais nas quais nós não marcamos presença. Aniversários, natais, Páscoa, o primeiro namorado da irmã mais nova, o ajuntamento do primo com a namorada de longa data, jantares e saídas de amigos. Não estamos lá. Vemos as fotos das ditas cujas partilhadas pelas redes sociais fora e sorrimos amargamente. Sorrimos porque os nossos estão felizes. Sorrimos amargamente porque eles estão felizes sem nós. Mas... foi uma escolha nossa. Minha. Eu decidi vir para cá e deixar os meus para trás. Acho que é isso que eles pensam. Afinal de contas, é mais ou menos a verdade...Tirado directamente do texto "Tu continuas num País que não é o teu. O teu coração mantém-se em Lisboa e em Lisboa, a vida continua sem ti." Tal e qual. A vida continua sem mim. 

Ir a casa com frequência nem sempre é possível. É verdade que só tenho aulas de Outubro a Abril, com reading weeks pelo meio e férias de natal e da Páscoa incluídas. O problema não é a universidade. Não é faltar a aulas para poder dar uma escapadinha a Portugal. O problema é o trabalho. Eu acho que por muito que tentemos explicar, por muito que desabafemos com os amigos de Portugal, eles nunca vão compreender a 100%, a dor que é não poder ir a casa passar o Natal porque a companhia para a qual trabalhamos não nos deixa tirar férias durante o período natalício. Por muito que tentemos explicar, acho que é complicado perceber que, infelizmente, só temos direito a 5 semanas de férias por ano fiscal, que vai de Abril do ano presente ao mês de Março do ano seguinte. E ainda mais complicado é quando assumimos um cargo de maior importância na companhia e temos de marcar férias de acordo com as férias de outras pessoas. Isto são tudo coisas nas quais eles não têm de pensar. Para eles, aqueles três ou quatro meses de férias são garantidos. Porque só estudam. E não estou de modo algum a criticar. Apenas digo que por vezes, sinto que eles me ressentem. Os amigos e a família. Porque não vou a casa tempo suficiente, com a frequência que devia. Se calhar sinto mal, mas é o que eu sinto. E depois, claro, tentar equilibrar o tempo que passamos com a família e com os amigos durante aqueles 10 dias em que lá estamos ou aquelas duas semanas, é das coisas mais terríveis que temos de fazer. Acho que por muito que tente, eles não percebem. E isso parte-me o coração. Não porque não sou percebida, mas porque estou a partir o coração deles. 

Claro que, no que toca à família, os laços mantém-se sempre e inalteráveis. Contudo, as amizades são mais complicadas. É óbvio que já não convivemos com a pessoa como convivíamos antes. Passávamos os dias todos juntos, riamos, chorávamos e lutávamos juntos. Agora, as coisas são diferentes. Dantes, se havia algo do qual não sabíamos, algo que estava a incomodar a pessoa, conseguíamos facilmente descobrir, estando com ela. Agora, se perguntamos "Como estás? Como está a correr isto, ou aquilo?" e a resposta é "Estou sempre bem, já sabes como sou! Está tudo porreiro, sempre em altas!", não há maneira de sabermos se é verdade ou não. As tecnologias permitem muita coisa hoje em dia, mas ainda não permitem isso. E vice-versa. Eles perguntam-nos e nós dizemos que está tudo altamente, a vida é bela e cor-de-rosa, enquanto os nossos olhos ardem com as lágrimas que caem com mais frequência do que aquela que nós gostávamos.

É tudo tão complicado. E fica tanto por dizer. E fica tanto por fazer. Mas acho que, algo em que aqueles que ficam não pensam muito é...por muitas saudades que eles tenham de nós, nós temos não só saudades deles, mas também saudades nossas. Nossas, no sentido das pessoas que éramos quando estávamos em Portugal. Perdemos os jovens alegres e despreocupados e ingénuos que éramos. Perdemos a pessoa que não tinha de pensar em pagar renda, contas, contar tostões ao final do mês. A pessoa que não tinha de pensar em deixar um ou dois ou até três artigos de supermercado para trás porque não tem dinheiro suficiente na conta. A pessoa que não tinha de ser maltratada e espezinha por clientes que só gostam de ir às lojas estragarem-nos o dia. A pessoa que não tinha de ir para a cama sem jantar. A pessoa que não pode ir jantar fora com os amigos ou ir ao cinema. Temos saudades não só deles, não só de nós mas das coisas, dos sítios, dos cheiros, da comida, das cores. A praia em Sintra, o Bacalhau à Brás da avó, a canja da mãe, o boa-noite acompanhado de um beijo do pai, a piada da irmã que nos faz doer o estômago de tanto rir. O sol radiante da capital, o cheiro pouco agradável, mas característico do Rio Tejo. As ruas apertadas da Baixa.

Mas nós escolhemos deixar isso tudo para trás, não é assim? Só que não é bem assim, na verdade... 

Há sempre dois lados da mesma moeda. Contudo, esta moeda é triste, e ambos os lados, mais tristes ainda são. E secalhar, para um dia deixar de haver tanta tristeza, uma decisão vai ter, de facto, de ser feita. Devia de ser fácil, certo? Já abdicámos de tanto até agora. Abdicar de mais um bocadinho não é nada que não se consiga, verdade? Mentira.

Mentira. Porque por muita tristeza que haja, por muita saudade que se sinta, por muito que não seja compreendida, por muito que fique muito por dizer e outro tanto por fazer.... os meus são sempre os meus. E o meu coração, apesar de divido, sabe bem quem ama.