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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

Something New

Sou mulher

Eu acho que já toquei neste assunto aqui no blog. Contudo, já lá vão quase 5 anos desde que o criei, portanto é mais do que certo que os assuntos se vão repetindo de vez em quando. No entanto, este é um daqueles assuntos sobre o qual nunca é demais escrever, sobre o qual nunca é demais falar ou discutir.

Assédio sexual.

Um tema que gera muita polémica, sempre gerou e que vai continuar a gerar. Este domingo passado, estava a vir para casa depois de um turno bastante cansativo na loja. O dia tinha corrido mal, e a única coisa que me alegrou foi sair do trabalho às 18h30 e ver o tempo espectacular que estava. Ultimamente tem sido assim por aqui, temos tido um tempo espectacular. Vinha eu para casa com a A., visto que tínhamos estado a fechar a loja juntas, e quando saímos do autocarro damos por nós a ser seguidas por um individuo alto, que estava a tentar abordar-nos. Eu só reparei quando já estávamos para atravessar a estrada, porque vinha na conversa com a A. e simplesmente pensei que o individuo vinha a falar ao telemóvel ou algo do género. Mas não. Ele tentou abordar-nos à força toda e eu disse para a A.: Ignora, continua a falar para mim e nem olhes para ele.

Ele não desistia. Às tantas, deve ter ficado envergonhado o suficiente para se virar para nós, nos ofender e virar costas. Sim, ofendeu-nos. Porque não lhe demos conversa. Porque não pactuamos com o assédio dele. Porque sim, o que ele estava a fazer era assédio. E já não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que algo deste género ou pior nos acontece neste país. Não quero ser injusta e dizer que os homens aqui são mais assim ou mais assado, porque assédio sexual existe em todos os país e recantos do mundo. Contudo, desde que me mudei para cá que já foram mais as vezes em que fui assediada do que as não fui. No meu país também o era, mas não da forma que sou aqui e não tão gravemente. Em Portugal o máximo a que chegou foi ser assobiada por um velho coitado sentado à porta de um café. Aqui já tive homens a agarrem-me e a não me quererem largar.

Mas tenho mais histórias. No outro dia estava a falar com uma outra amiga e ela estava-me a contar que, nesse dia, às 8h e tal da manhã quando saiu de casa para ir para a uni, um carro com dois homens seguiu-a até à paragem de autocarro dela, sempre a fazerem-lhe perguntas inoportunas e a tentarem com que ela fosse com eles sabe-se lá para onde. Outra - a mesma amiga que vinha comigo para casa no domingo passado já foi abordada mais do que uma vez na rua pelo mesmo individuo. Quando ainda vivíamos na outra casa e tínhamos de caminhar uns 10 minutos a pé da paragem até casa, ele aparecia-lhe sempre à frente e tentava "engata-la".Tentou muitas vezes segui-la até casa, mas ela conseguia sempre esquivar-se ao ligar para uma de nós ou a ir para a uni. 

Uma rapariga que estudava comigo o ano passado foi às compras e o segurança do supermercado passou o tempo todo atrás dela a mandar-lhe bocas e a dizer-lhe o quão "gostoso" era o rabo dela.

Uma pessoa está na paragem de autocarro e o homem do centro de emprego está à porta a fumar e começa a fazer olhinhos e a lamber os lábios de forma "sedutora" para nós. 

Isto é RIDÍCULO. E quem quer que ache o contrário é igualmente ridículo/a. Não quero ser aquela pessoa que diz que só as mulheres é que sofrem assédio sexual, porque tenho plena noção de que também há homens que passam por isso. Contudo, sou mulher e a maioria dos meus amigos são mulheres que, como eu, já foram assediadas de todas as formas e feitios que existem. Eu tenho o direito de andar na rua sem querer que um estranho venha pôr conversa comigo e me pressione a dar-lhe o meu número e outras informações pessoais. Tenho direito a andar na rua sem ter que olhar constantemente por cima do ombro, com receio de estar a ser seguida. Tenho o direito a não ser agarrada no meio da rua por pessoas que não conheço, tenho o direito a não ser ofendida por um individuo com o ego magoado porque eu nem me dignei a responder à sua tentativa de engate. Tenho o direito a ser mulher sem ter medo de o ser.

E os homens não entendem isto. Os homens andam na rua sem medo. Nunca, mas nunca, eu vi uma mulher chegar-se ao pé de um homem no meio da rua e fazer uma das coisas que eu mencionei neste texto ou outra qualquer que possa ser classificada como assédio. Nunca. Pode já ter acontecido, mas não é comum. Enquanto que, no que toca a nós, é o pão nosso de cada dia. Devíamos ficar felizes, dizem eles. Devíamos considerar-nos sortudas e ficar lisonjeadas! Um homem quer o nosso nome, número e código postal , devíamos lançar foguetes e fazer uma festa meninas! Então? Que tontas que nós somos por nos sentirmos ameaçadas ou incomodadas com tal coisa! Desde que eles não nos toquem não é assédio!

Errado. Completamente errado. É assédio a partir do momento em que eu claramente recuso os avanços de alguém e essa pessoa se continua a insinuar. É assédio se fazes a outra parte sentir-se desconfortável ou ameaçada ou amedrontada ou enojada. É assédio e ponto final. E sinceramente, eu gostava que todos os homens sentissem na pele, por uma só vez que fosse, aquilo que nós mulheres sentimos quando somos tratadas como se fossemos objectos; troféus.

Porque sim, eu sou capaz de andar no meio da rua, seja sozinha ou acompanhada, ver uma pessoa que me desperta interesse, que eu acho atraente, mas não me dirijo a ela e começo a fazer perguntas inoportunas, ou não a agarro, nem a tento seguir até casa. E é isto que eu não entendo. Será que há mesmo mulheres que gostam deste tipo de situações, que se dão assim a estes homens e é por isso que eles continuam a agir como agem? Será que eles são bem sucedidos ou será que, são apenas estúpidos? A minha dúvida é esta. Será que, pelo amor de Deus e eu nem sou católica, a única cabeça com que os homens pensam é com a que têm no meio das pernas?

E será que, pelo amor de Deus, outra vez, posso alguma vez andar na rua sem ter de ser assediada? O que é que uma mulher tem de fazer para andar na rua sem ser alvo de assédio? Andar com saco do lixo vestido? Uma caixa de cartão na cabeça? Tenho direito a andar na rua como bem quiser e me apetecer, seja de calças de ganga, t-shirt, vestido, tapada da cabeça aos pés, sem ter de me sujeitar às merdas a que estes tristes nos sujeitam!

Sou mulher. E tenho direito a sê-lo sem ter medo de o ser. Percebam isso gente!