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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

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Sobre o referendo

Toda a gente já está a par desta grande notícia que é o referendo que vai ter lugar aqui no Reino Unido no dia 23 de Junho.

Andei durante uns bons dias a remoer no assunto, a tentar perceber todos os lados da situação, incluindo o meu. O assunto andou aqui às voltas e às voltas, foi discutido com os colegas de casa, com os colegas da universidade, com os colegas do trabalho e a conclusão a que chego é só uma, e diria que bastante influenciada pelo facto de eu própria ser uma imigrante - é injusto.

Tentei ver e julgar a situação do lado dos britânicos. Tentei ver e julgar a situação do lado dos imigrantes. Até tentei ver e julgar a situação do lado dos refugiados. Mas no final, sou influenciada pela minha situação pessoal, porque afinal de contas, sou apenas humana (e se calhar é por isto que a cada dia que passa me apercebo mais que não fui feita para ser jornalista, mas isso é outra conversa para outro dia).

Não é justo por várias razões. Não é justo porque eu não vim para aqui ilegalmente. Não vim para aqui roubar nada a ninguém, seja dinheiro, emprego ou casa. Vim para aqui com uma missão muito simples (na teoria), a de construir uma vida melhor para mim. Assim como eu, milhares e milhares de outras pessoas o fizeram pela mesma razão.

É certo que outras nem tanto. E agora sim, vou tocar na ferida e falar dos refugiados e do terrorismo. A meu entender, esta situação gerou-se e chegou a este ponto por causa da situação dos refugiados e dos ataques de terrorismo recentes. Posso estar errada, ou não, mas a minha opinião é esta. A verdade é que o Reino Unido neste último ano foi inundado com refugiados a tentarem fugir do seu país e pouco tempo depois, foi atacado pela onda de terrorismo que foi levantada na Europa com os atentados em França. 

E é aqui que eu até consigo perceber o facto de este referendo ter de se vir a realizar. O Reino Unido quer fechar as suas portas e proteger-se o melhor possível. É completamente compreensível. Mas como sempre, não é justo uns pagarem pelos erros dos outros. Eu não estou aqui a fazer mal nenhum a ninguém. Nem estão os outros milhares de estudantes e jovens que vieram para aqui na tentativa de construirem um futuro melhor para eles próprios.

Não só nós jovens como famílias inteiras que se instalaram aqui no Reino Unido e que já cá estão à muitos anos, já chamando a este país a sua casa. E agora pergunto: se os resultados do referendo forem a favor da saída do Reino Unido da União Europeia, o que vai acontecer a estes milhões de jovens, famílias, HUMANOS que não têm forma de voltarem para os seus países e fazerem lá as suas vidas?

Ou, não apontando para o facto de termos de ser obrigados a deixar o país, quem é que vai ajudar estes milhões de pessoas a arranjarem vistos para poderem permanecer cá, uma vez que os mesmos são bastante dispendiosos e a maioria de nós (falando agora só dos jovens estudantes) já se vê apertado só para conseguir pagar a renda e as outras contas essenciais?

E durante o tempo que temos de estar à espera para que ditos vistos sejam aprovados (sim, porque demora tempo), muitos de nós podemos até perder os nossos empregos por nos encontrarmos numa situação meia ilegal.

Acho que é díficil para os não imigrantes verem as coisas desta forma, porque o povo de cá é bastante snobe e mimado. E não me interessa se ofendo A ou B ao escrever estas palavras, é a mais pura das verdades e eu estou no meu direito de o dizer após quase 7 meses de vivência e convivência neste país.

Porque lá está, os não imigrantes têm cá as suas famílias, os seus pais que lhes pagam tudo, que lhes dão tudo e que os ajudam em tudo. No nosso caso, ninguém nos ajuda com as nossas contas ou se oferece para pagar por nós. Nós somos os empregados mais trabalhadores que este país tem, e porquê? Porque nós precisamos de empregos para sobreviver. Um trabalho aqui para nós não é apenas um passatempo ou algo que nós encontramos para fazer durante 3 dias da semana para não termos tanto tempo livre, quando não estamos nas aulas. Nós não vimos para cá brincar ou andar aos tiros, apesar de haver sempre as ovelhas negras em todo o lado.

Mas lá está, as ervas daninhas existem em todos os jardins, mas há sua volta existem flores que só querem é crescer em paz, sem perturbar ninguém. E não é justo que essas flores inofensivas sejam arrancadas com as ervas daninhas só porque estas são prejudiciais.

E como é que se separa o gado, perguntam-me sempre quando eu digo isto. Pois, é aí que eu encravo e que volto a perceber o ponto de vista dos não imigrantes. Porque como ser humano, somos ensinados a generalizar. E se um fez mal, isso significa que a probabilidade de o outro ir fazer igual ou pior é grande porque a realidade é que vivemos num mundo de gente louca.

Mas neste mundo de gente louca existe gente não tão louca, como eu, que só quer é um sítio onde possa ganhar dinheiro e estudar sem ter de andar a dar o corpo nas ruas.

É triste, mas não sei de que outra maneira o dizer. 

Pessoalmente, estou assustada com o que vai resultar desta situação. Não quero ter de voltar para Portugal. Não quero ter de pagar 300 libras por um visto que me vai demorar um ano ou mais tempo a ser aprovado. Não quero, nem posso perder o meu emprego porque já chorei, sangrei e suei muito para chegar onde estou. 

Não é justo. E eu não lido bem com injustiças. Mas neste mundo é só com isso que lidamos, cada vez mais, a cada dia que passa.

Talvez os resultados até surpreendam. Talvez os não imigrantes até tenham dois dedos de testa e pensem nas pessoas que estão aqui, não para fazer mal a ninguém, mas simplesmente para viver.

Porque nós não somos todos terroristas. Ou refugiados. Ou pessoas de más intenções. Por muito que as pessoas não acreditem, esses são a minoria.

Nós somos a maioria. Por isso acho que as maiorias se deviam apoiar umas às outras e não o contrário. 

Espero não ser a única.