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Saudade

A última vez vos escrevi foi no dia 6 de Agosto. O texto foi sobre o meu primeiro ano aqui em Londres. 

Desde aí, aconteceu muita coisa.

Parei de vos escrever porque aconteceu tudo ao mesmo tempo. O mês de Agosto foi uma correria. O de Setembro nem o vi passar. E já estamos a duas semanas de acabar Outubro.

Acho que nada me assusta tanto nesta vida como o passar do tempo. O quão rápido ele passa e o quão por garantido nós o temos. Dois meses passaram-se desde que vos escrevi. Não sei se ainda existe um vocês, ou se já sou só eu. De qualquer das formas, escrevo de coração aberto para quem quer que queira ler e para quem quer que seja que ainda esteja por esse lado.

Em Setembro fui fazer uma viagem para a qual andei a poupar durante 1 ano. No dia 11 de Setembro de 2016, aterrei na Coreia do Sul, cansada, expectante e entusiasmada. Já há algum tempo que queria visitar este país, não só por nutrir uma imensa curiosidade pela cultura Asiática, mas também por gostar bastante do mundo de entretenimento da Coreia do Sul. Fui com a minha colega de casa, que partilha este gosto comigo e foram duas das semanas mais inesquecíveis da minha vida. Foi uma viagem com os seus altos e baixos mas dava tudo para poder voltar e explorar ainda mais daquele país.

É um país que me fez lembrar bastante de Portugal, em alguns aspectos. Enquanto que Londres pode parecer uma cidade fria, demasiado "posh" e grande, Seoul fez-me muitas vezes lembrar de Lisboa. Muitos espaços abertos, a vida nocturna semelhante à de Portugal, onde as luzes nunca se apagam, os restaurantes ainda estão cheios às 22h da noite e não a fechar portas como aqui em Londres, onde se vê pessoas na rua a comer, a beber uns copos em grupos e a rir e a falar aos altos berros, onde existem mercados com meias, cuecas, pijamas, sweaters, tudo a menos de 5 euros, onde existe comida de rua e pessoas a tentar fazer negócio.

Com certeza que vou escrever e contar mais sobre esta viagem num outro post, mas o ponto ao qual eu quero chegar é... depois de ter voltado da Coreia do Sul, a saudade de casa apertou e bastante. Já lá vão 4 meses desde que estive em Portugal, com a minha família. E é verdade que já fiquei 8 meses sem ver ninguém, sem poder abraçar os meus pais e dar um beijinho de boa noite à minha irmã. Comparado, 4 meses não é nada. No entanto, ter viajado para outro pais, do outro lado do mundo, onde consegui encontrar algumas semelhanças com Portugal, fez-me sentir uma saudade que há muito já não sentia.

Possivelmente, o facto de a Uni ter começado este mês e de estar mais atarefada e cansada do que nunca, pode ter contribuído também para esse sentimento de saudade que aperta a cada dia que passa. Talvez o facto de para o ano ser o meu último ano como estudante me está finalmente a deixar preocupada com o meu futuro.

Acho que todos esperam que eu regresse depois de terminar o curso. E uma parte de mim, a parte que sente esta saudade grande a cada dia que passa, também quer regressar. Mas a parte de mim que sempre quis uma vida dela, independente dos pais, quer ficar. Porque a verdade é que existem duas de mim.

A Alexandra de Londres e a Alexandra de Portugal.

A Alexandra de Londres é independente, paga as suas contas, se está doente vai ao médico sozinha ou com a companheira de quarto, se se sente sozinha engole as lágrimas e vê uma série ou lê um livro para ver se passa, trabalha o maior numero de horas que consegue e mesmo assim não é suficiente, sai quando quer, com quem quer, sem ter de dizer nada a ninguém.

E depois existe a Alexandra de Portugal. Que chega a casa e tem o jantar feito. Que come três refeições completas ao dia porque a mãe as faz para ela. Que nunca fica sem cuecas e meias lavadas porque a mãe lava-lhe a roupa e estende-a. Que quando tem um problema vai ter com os pais e eles ajudam a resolver. Que quando está doente, o pai lhe diz: queres ir ao hospital que o pai leva-te? Do que precisas que o pai vai-te comprar? E ele vai e ele compra as tais pastilhas para a garganta ou o xarope. A Alexandra que depende dos outros, que se apoia nos outros.

A saudade é uma palavra muito portuguesa e como tal, é um sentimento muito português também. A H. diz que eu estou a passar pela crise existencial dos 20, que basicamente é, duvidar de tudo e não saber o que quero fazer depois de acabar o meu curso. E é por isso que ando a sentir esta saudade. Porque a Alexandra de Portugal não tinha de saber o que queria. Tudo estava ditado para ela. E tinha duas bengalas chamadas Pai e Mãe. 

Aqui não há bengalas. A vida aqui é como caminhar numa corda bamba sem nada que nos equilibre a não ser nós mesmos. Sem rede de protecção por baixo, casa nos desequilibremos e caiamos. A vida aqui é a vida real. Não apaparicada. E por vezes demasiado dura.

Daí a saudade. A saudade da família, de Portugal que é um país muito mais quente do que Londres (e não só em termos do tempo!) e saudades dos tempos em que as coisas eram mais simples.

Mas este ano a sorte sorriu-me um bocadinho e vou conseguir ir a casa pelo Natal. As saudades não as vou conseguir matar todas, mas ao menos este ano vou poder sentar-me à mesa com a minha família e sorrir de orelha a orelha quando as vozes já vão tão altas que tudo o que oiço é ruído.

Mas ruído do bom. Ruído que apazigua a maldita saudade.

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