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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

Something New

E se fosse contigo?

Há uma semana atrás estava na paragem de autocarro, como se de outro dia qualquer se tratasse, quando um grupo de homens, visivelmente bem mais velhos do que eu, sai do centro de emprego ao pé da paragem e se vem sentar ao meu lado.

Estava 1 grau naquele momento. Eu estava coberta da cabeça aos pés, apenas com os olhos e o nariz de fora. Como sempre, de phones nos ouvidos a ouvir música, andava pelo Instagram a gastar dados móveis, quando sinto o senhor a tocar-me no ombro. Perguntou-me o meu nome. Não lhe o disse. Perguntou-me se eu estava com frio. Eu disse que não e virei-lhe a cara. Voltou a tocar-me, desta vez no braço. Cheguei-me para mais longe dele. Ele desliza para perto de mim. Eu pergunto-lhe qual é o problema dele. Ele, com cara de gozo responde-me:

"Para que é usas essa maquilhagem toda se depois não queres ser abordada por homens? Não queres falar comigo porquê? Achas-te boa demais para mim, é?"

E nesse instante, a mão dele tenta tocar na minha perna mas os meus reflexos permitem-me ser mais rápida. Levanto-me de um ápice e respondo-lhe da forma mais contida que consigo:

"Eu maquilho-me porque gosto. Eu estou a usar maquilhagem, não estou a usar uma fita na testa que diz "por favor estranhos, venham ter comigo e assediem-me."

"Deixe-me em paz."

Ele ri-se e os amigos acompanham. Eu afasto-me o máximo que posso deles, porque preciso de ficar na paragem para apanhar o autocarro para ir trabalhar. Há quem tenha vida e mais que fazer do que assediar pessoas na rua. Mas mesmo assim, não desistiram. Vieram ter comigo e continuaram a dizer coisas, que sinceramente, não valem a pena serem repetidas. O autocarro chegou, entrei e rezei para que eles não entrassem atrás de mim. Não vieram.

Esta é só uma das muitas situações às quais, enquanto ser humano e mulher, já fui sujeita ao longo da minha vida. Já falei de assédio sexual aqui muitas vezes. Mas nunca é demais falar sobre este assunto, porque acontece a toda a hora, todos os dias, enquanto eu escrevo este texto e enquanto vocês o lêem. Está sempre a acontecer e não há muito que nós possamos fazer, enquanto vítimas. É nojento, degradante e tem, de alguma forma, de ser parado. Ontem vi o episódio mais recente do "E Se Fosse Consigo" da Sic, um programa apresentado pela Conceição Lino, que pega em temas da actualidade e os apresenta à sociedade de uma forma que ainda não tinha visto nenhum programa em Portugal fazer.

O que eu tirei deste episódio foi que, a maioria das pessoas que vieram em defesa da rapariga foram, de facto, outros homens. Porquê? Porque as mulheres têm medo. Nós vivemos em constante medo e em constante impotência. Algumas até acharam piada e disseram que a rapariga devia ter entrada na brincadeira. Nenhuma das testemunhas sabia de ante mão que aquilo era falso, uma cena representada por actores para o programa. É muito triste ver que a realidade é esta, não só no meu país, mas aqui em Inglaterra também e em tantos outros espalhados pelo mundo. Não podendo fazer muito, fico contente por haver algo a passar na televisão que expõe este problema na nossa sociedade, e que divulga este mal que tem de ser cortado pela raiz.

Se ainda não viram e tiverem um tempinho, dêem uma olhada no episódio completo e divulguem. O assédio é crime, ao contrário do que a lei diz. Não há como negar. É crime e tem de ser parado. Apelo que, se alguma vez forem testemunhas de assédio, não fiquem parados a assistir, não virem a cara, não ignorem. Chamem a polícia, vão lá vocês, não sei, façam algo. Tudo menos ignorar. Podia ser a vossa filha, a vossa prima, a vossa irmã, a vossa tia, a vossa melhor amiga. Se ainda há pessoas que se perguntam se isto é realmente um problema ou não, façam antes esta pergunta a vocês próprios e aos outros:

E se fosse contigo?

 

 (Eu vejo os episódios no website oficial da sic mas não estava a conseguir adicionar o video do site deles mas, pelos vistos, também dá para ver no Youtube)

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