Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

Something New

É do medo

Nunca me considerei uma pessoa preconceituosa, racista ou xenófoba.

Cresci rodeada das mais variadas raças e tipos de pessoas. Contudo, tenho de dizer isto porque é uma opinião muito minha e que eu já partilhei com amigos e familiares, mas acho que nunca partilhei aqui.

Acho que Portugal é um país muito protegido. Somos pequenos, comparados com muitos outros, e a nossa diversidade não é assim tão grande quanto isso. Contudo, somos descendentes dos muçulmanos e árabes, temos sangue africano nas veias também e sim, somos uma cultura multicultural.

Mas não ao nível do Reino Unido ou da América, por exemplo. E acho que, apesar de termos a nossa variedade de pessoas, Portugal é um país protegido no que toca a isto. E nunca tinha pensado muito nisto até ter vindo para o Reino Unido.

Aqui existem pessoas de todos os cantos e recantos do mundo. Não têm ideia da quantidade de pessoas com quem já tive contacto que são de sítios que eu nunca sequer tinha ouvido falar. Vivo com uma pessoa do Bangladesh. Pode ser ignorância da minha parte, ou do facto de não ter tido geografia, mas sabia lá eu onde ficava o Bangladesh antes de o ter conhecido. Isto é só um exemplo. 

Acho que é a multiculturalidade que faz deste país aqui que ele é. Contudo, também é ela que fez com que o Brexit se tornasse uma realidade. A maioria das pessoas estão um bocadinho fartas de ter medo. Medo de toda esta multiculturalidade que desconhecem. Porque a verdade é que, e como já disse aqui antes, o ser humano só tem medo do desconhecido.

E agora admito. Eu própria tenho medo, hoje em dia, muito mais do que tinha antes quando vivia em Portugal. Talvez porque é o meu país, a minha casa, sentia-me sempre mais protegida, como se nada me pudesse acontecer; como se nada pudesse acontecer num país como Portugal, que toda a alma esquece e desconhece.

Contudo, aqui, o medo surgiu e ao longo do tempo vai aumentado. E depois, claro, aconteceram coisas para alimentar esse medo. Ameaças de bomba que surgem aqui e ali, esfaqueamentos aqui e ali, pessoas a serem empurradas para a linha do metro porque são de uma raça diferente...enfim, uma colecção de acontecimentos que deixariam qualquer um inquieto.

No entanto, uma experiência mais pessoal e que eu desconfio me deixou um pouco traumatizada, foi quando fui de viagem para a Coreia do Sul. Entrámos no avião em Heathrow e estávamos a tomar os nossos lugares quando, de repente, ouvimos um canto familiar, ser gritado a alto e bom som por vozes grossas e zangadas.

Tremi. Trememos. Nunca vi a H. tão assustada. A H. é aquele tipo de pessoa que leva a vida com muita calma. Nunca nada a afecta. Mas naquele momento afectou. Vi-lhe as lágrimas nos olhos. Ambas a tremer, sei bem que o que nos ia na cabeça era idêntico: vamos explodir.

Porque a frase dita tantas vezes pelos terroristas que seguem uma certa religião antes de rebentarem com coisas, foi exactamente aquilo que nos ouvimos ser gritado naquele avião. Como podem deduzir, o avião não explodiu. Eram criminosos, violadores, que tinham de ser deportados para o Paquistão. Iam acompanhados por sete policias à paisana, grandes que nem armários, e os criminosos eram só dois. Senti-me mais segura?

Não. Porque o medo e o pânico já se tinham instalado em mim, mal sabia eu que se calhar para sempre.

Agora, cada vez que oiço alguém gritar na rua, encolho-me. No outro dia, estávamos num sítio de kebab's a falar alegremente, quando um homem me entra por ali dentro a gritar numa língua que eu não entendi. Até saltei da cadeira. Agarrei-me à pessoa que estava sentada ao meu lado. Porque estava de costas, nem consegui ver o senhor. Mas fiquei a tremer durante uns bons minutos depois de ele ter ido embora e tive de controlar as lágrimas.

Medo. É isso que sinto muito hoje em dia. Medo de sair à rua e levar com um pedregulho em cima. Porque não sou inglesa, mas também porque não sou muçulmana ou judaica. Porque fui gritada no meio do autocarro por falar na minha língua. Porque já me mandaram calar quando estava a falar ao telemóvel com a minha mãe no centro comercial onde trabalho.

E isto é errado. Não gosto de ser assim. Não gosto do facto de me ter tornado assim. Não sou racista, preconceituosa ou xenófoba mas acho que depois de tudo o que tem acontecido no mundo no último ano e meio, acho que me tornei um bocado mais reticente em relação a tudo e a todos. Tornei-me, digamos que, numa grandessíssima hipócrita.

Tanto estou a ser descriminada como descrimino. A realidade é esta. Tanto estou a ser mandada calar porque estou a falar numa lingua que não o inglês, como no minuto a seguir estou a encolher-me porque um homem entra por um estabelecimento a dentro, claremente alterado, a gritar numa lingua que eu não conheço.

Não sou racista, preconceituosa ou xenófoba. Mas sou hipócrita, hoje mais do que nunca, pois queixo-me de ser descriminada e logo a seguir descrimino. Mas no entanto, é mais forte do que eu. É automático. É do medo.

É humano.