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Something New

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Dois lados da mesma moeda

Deparei-me há pouco com este post no meu feed do facebook. Foi partilhado por uma amiga minha que, como eu, veio de Portugal para o UK estudar e trabalhar e li e reli o texto mais do que uma vez. 

Senti-me inspirada a escrever, também eu, sobre o assunto. Provavelmente, vou acabar a dizer o mesmo que a autora disse e se calhar vou chegar à mesma conclusão que ela chegou. E já são alguns os textos que escrevi onde toquei neste assunto bastante complexo, para mim. Contudo, acho que nunca é demais.

É verdade, sim, há de facto um lado triste de emigrar que nunca ninguém nos diz. Aliás, há vários. Um dos mais tristes para mim, e mencionados no texto em que me baseio para escrever o meu, é o facto de passarmos a ser como órfãos e ninguém conseguir perceber isso. A partir do momento em pisamos solo estrangeiro, não há volta a dar. Não somos de Portugal, mas também não somos do UK. O nosso coração, antes inteiro e sólido, parte-se em dois e torna-se fraco. Um bocado fica em Portugal, a nossa terra, a nossa casa eterna. O outro fica connosco e acompanha-nos para onde que seja que nos tenhamos mudado. No meu caso, Inglaterra. Nunca sei se hei-de dizer, quando vou de férias para Portugal ou se diga, quando volto a casa. Tudo se torna muito confuso e os termos misturam-se todos. Passar férias num sítio onde nasci e cresci e vivi durante 19 anos? Parece ridículo. Contudo, a minha casa é aquela cuja renda eu pago, aquela que eu limpo, aquela em que eu durmo, aqui em Inglaterra. É muito complicado de sentir, quanto mais de explicar.

Um dos lados muito, mas mesmo muito tristes, é o facto de não estarmos presentes. Ocasiões que, se lá estivéssemos, nos pareceriam insignificantes ou mundanas, passam a ser vistas por nós como ocasiões especiais nas quais nós não marcamos presença. Aniversários, natais, Páscoa, o primeiro namorado da irmã mais nova, o ajuntamento do primo com a namorada de longa data, jantares e saídas de amigos. Não estamos lá. Vemos as fotos das ditas cujas partilhadas pelas redes sociais fora e sorrimos amargamente. Sorrimos porque os nossos estão felizes. Sorrimos amargamente porque eles estão felizes sem nós. Mas... foi uma escolha nossa. Minha. Eu decidi vir para cá e deixar os meus para trás. Acho que é isso que eles pensam. Afinal de contas, é mais ou menos a verdade...Tirado directamente do texto "Tu continuas num País que não é o teu. O teu coração mantém-se em Lisboa e em Lisboa, a vida continua sem ti." Tal e qual. A vida continua sem mim. 

Ir a casa com frequência nem sempre é possível. É verdade que só tenho aulas de Outubro a Abril, com reading weeks pelo meio e férias de natal e da Páscoa incluídas. O problema não é a universidade. Não é faltar a aulas para poder dar uma escapadinha a Portugal. O problema é o trabalho. Eu acho que por muito que tentemos explicar, por muito que desabafemos com os amigos de Portugal, eles nunca vão compreender a 100%, a dor que é não poder ir a casa passar o Natal porque a companhia para a qual trabalhamos não nos deixa tirar férias durante o período natalício. Por muito que tentemos explicar, acho que é complicado perceber que, infelizmente, só temos direito a 5 semanas de férias por ano fiscal, que vai de Abril do ano presente ao mês de Março do ano seguinte. E ainda mais complicado é quando assumimos um cargo de maior importância na companhia e temos de marcar férias de acordo com as férias de outras pessoas. Isto são tudo coisas nas quais eles não têm de pensar. Para eles, aqueles três ou quatro meses de férias são garantidos. Porque só estudam. E não estou de modo algum a criticar. Apenas digo que por vezes, sinto que eles me ressentem. Os amigos e a família. Porque não vou a casa tempo suficiente, com a frequência que devia. Se calhar sinto mal, mas é o que eu sinto. E depois, claro, tentar equilibrar o tempo que passamos com a família e com os amigos durante aqueles 10 dias em que lá estamos ou aquelas duas semanas, é das coisas mais terríveis que temos de fazer. Acho que por muito que tente, eles não percebem. E isso parte-me o coração. Não porque não sou percebida, mas porque estou a partir o coração deles. 

Claro que, no que toca à família, os laços mantém-se sempre e inalteráveis. Contudo, as amizades são mais complicadas. É óbvio que já não convivemos com a pessoa como convivíamos antes. Passávamos os dias todos juntos, riamos, chorávamos e lutávamos juntos. Agora, as coisas são diferentes. Dantes, se havia algo do qual não sabíamos, algo que estava a incomodar a pessoa, conseguíamos facilmente descobrir, estando com ela. Agora, se perguntamos "Como estás? Como está a correr isto, ou aquilo?" e a resposta é "Estou sempre bem, já sabes como sou! Está tudo porreiro, sempre em altas!", não há maneira de sabermos se é verdade ou não. As tecnologias permitem muita coisa hoje em dia, mas ainda não permitem isso. E vice-versa. Eles perguntam-nos e nós dizemos que está tudo altamente, a vida é bela e cor-de-rosa, enquanto os nossos olhos ardem com as lágrimas que caem com mais frequência do que aquela que nós gostávamos.

É tudo tão complicado. E fica tanto por dizer. E fica tanto por fazer. Mas acho que, algo em que aqueles que ficam não pensam muito é...por muitas saudades que eles tenham de nós, nós temos não só saudades deles, mas também saudades nossas. Nossas, no sentido das pessoas que éramos quando estávamos em Portugal. Perdemos os jovens alegres e despreocupados e ingénuos que éramos. Perdemos a pessoa que não tinha de pensar em pagar renda, contas, contar tostões ao final do mês. A pessoa que não tinha de pensar em deixar um ou dois ou até três artigos de supermercado para trás porque não tem dinheiro suficiente na conta. A pessoa que não tinha de ser maltratada e espezinha por clientes que só gostam de ir às lojas estragarem-nos o dia. A pessoa que não tinha de ir para a cama sem jantar. A pessoa que não pode ir jantar fora com os amigos ou ir ao cinema. Temos saudades não só deles, não só de nós mas das coisas, dos sítios, dos cheiros, da comida, das cores. A praia em Sintra, o Bacalhau à Brás da avó, a canja da mãe, o boa-noite acompanhado de um beijo do pai, a piada da irmã que nos faz doer o estômago de tanto rir. O sol radiante da capital, o cheiro pouco agradável, mas característico do Rio Tejo. As ruas apertadas da Baixa.

Mas nós escolhemos deixar isso tudo para trás, não é assim? Só que não é bem assim, na verdade... 

Há sempre dois lados da mesma moeda. Contudo, esta moeda é triste, e ambos os lados, mais tristes ainda são. E secalhar, para um dia deixar de haver tanta tristeza, uma decisão vai ter, de facto, de ser feita. Devia de ser fácil, certo? Já abdicámos de tanto até agora. Abdicar de mais um bocadinho não é nada que não se consiga, verdade? Mentira.

Mentira. Porque por muita tristeza que haja, por muita saudade que se sinta, por muito que não seja compreendida, por muito que fique muito por dizer e outro tanto por fazer.... os meus são sempre os meus. E o meu coração, apesar de divido, sabe bem quem ama. 

 

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