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Something New

porque sempre que se fecha uma porta, abre-se uma janela

Something New

Sou mulher

Eu acho que já toquei neste assunto aqui no blog. Contudo, já lá vão quase 5 anos desde que o criei, portanto é mais do que certo que os assuntos se vão repetindo de vez em quando. No entanto, este é um daqueles assuntos sobre o qual nunca é demais escrever, sobre o qual nunca é demais falar ou discutir.

Assédio sexual.

Um tema que gera muita polémica, sempre gerou e que vai continuar a gerar. Este domingo passado, estava a vir para casa depois de um turno bastante cansativo na loja. O dia tinha corrido mal, e a única coisa que me alegrou foi sair do trabalho às 18h30 e ver o tempo espectacular que estava. Ultimamente tem sido assim por aqui, temos tido um tempo espectacular. Vinha eu para casa com a A., visto que tínhamos estado a fechar a loja juntas, e quando saímos do autocarro damos por nós a ser seguidas por um individuo alto, que estava a tentar abordar-nos. Eu só reparei quando já estávamos para atravessar a estrada, porque vinha na conversa com a A. e simplesmente pensei que o individuo vinha a falar ao telemóvel ou algo do género. Mas não. Ele tentou abordar-nos à força toda e eu disse para a A.: Ignora, continua a falar para mim e nem olhes para ele.

Ele não desistia. Às tantas, deve ter ficado envergonhado o suficiente para se virar para nós, nos ofender e virar costas. Sim, ofendeu-nos. Porque não lhe demos conversa. Porque não pactuamos com o assédio dele. Porque sim, o que ele estava a fazer era assédio. E já não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que algo deste género ou pior nos acontece neste país. Não quero ser injusta e dizer que os homens aqui são mais assim ou mais assado, porque assédio sexual existe em todos os país e recantos do mundo. Contudo, desde que me mudei para cá que já foram mais as vezes em que fui assediada do que as não fui. No meu país também o era, mas não da forma que sou aqui e não tão gravemente. Em Portugal o máximo a que chegou foi ser assobiada por um velho coitado sentado à porta de um café. Aqui já tive homens a agarrem-me e a não me quererem largar.

Mas tenho mais histórias. No outro dia estava a falar com uma outra amiga e ela estava-me a contar que, nesse dia, às 8h e tal da manhã quando saiu de casa para ir para a uni, um carro com dois homens seguiu-a até à paragem de autocarro dela, sempre a fazerem-lhe perguntas inoportunas e a tentarem com que ela fosse com eles sabe-se lá para onde. Outra - a mesma amiga que vinha comigo para casa no domingo passado já foi abordada mais do que uma vez na rua pelo mesmo individuo. Quando ainda vivíamos na outra casa e tínhamos de caminhar uns 10 minutos a pé da paragem até casa, ele aparecia-lhe sempre à frente e tentava "engata-la".Tentou muitas vezes segui-la até casa, mas ela conseguia sempre esquivar-se ao ligar para uma de nós ou a ir para a uni. 

Uma rapariga que estudava comigo o ano passado foi às compras e o segurança do supermercado passou o tempo todo atrás dela a mandar-lhe bocas e a dizer-lhe o quão "gostoso" era o rabo dela.

Uma pessoa está na paragem de autocarro e o homem do centro de emprego está à porta a fumar e começa a fazer olhinhos e a lamber os lábios de forma "sedutora" para nós. 

Isto é RIDÍCULO. E quem quer que ache o contrário é igualmente ridículo/a. Não quero ser aquela pessoa que diz que só as mulheres é que sofrem assédio sexual, porque tenho plena noção de que também há homens que passam por isso. Contudo, sou mulher e a maioria dos meus amigos são mulheres que, como eu, já foram assediadas de todas as formas e feitios que existem. Eu tenho o direito de andar na rua sem querer que um estranho venha pôr conversa comigo e me pressione a dar-lhe o meu número e outras informações pessoais. Tenho direito a andar na rua sem ter que olhar constantemente por cima do ombro, com receio de estar a ser seguida. Tenho o direito a não ser agarrada no meio da rua por pessoas que não conheço, tenho o direito a não ser ofendida por um individuo com o ego magoado porque eu nem me dignei a responder à sua tentativa de engate. Tenho o direito a ser mulher sem ter medo de o ser.

E os homens não entendem isto. Os homens andam na rua sem medo. Nunca, mas nunca, eu vi uma mulher chegar-se ao pé de um homem no meio da rua e fazer uma das coisas que eu mencionei neste texto ou outra qualquer que possa ser classificada como assédio. Nunca. Pode já ter acontecido, mas não é comum. Enquanto que, no que toca a nós, é o pão nosso de cada dia. Devíamos ficar felizes, dizem eles. Devíamos considerar-nos sortudas e ficar lisonjeadas! Um homem quer o nosso nome, número e código postal , devíamos lançar foguetes e fazer uma festa meninas! Então? Que tontas que nós somos por nos sentirmos ameaçadas ou incomodadas com tal coisa! Desde que eles não nos toquem não é assédio!

Errado. Completamente errado. É assédio a partir do momento em que eu claramente recuso os avanços de alguém e essa pessoa se continua a insinuar. É assédio se fazes a outra parte sentir-se desconfortável ou ameaçada ou amedrontada ou enojada. É assédio e ponto final. E sinceramente, eu gostava que todos os homens sentissem na pele, por uma só vez que fosse, aquilo que nós mulheres sentimos quando somos tratadas como se fossemos objectos; troféus.

Porque sim, eu sou capaz de andar no meio da rua, seja sozinha ou acompanhada, ver uma pessoa que me desperta interesse, que eu acho atraente, mas não me dirijo a ela e começo a fazer perguntas inoportunas, ou não a agarro, nem a tento seguir até casa. E é isto que eu não entendo. Será que há mesmo mulheres que gostam deste tipo de situações, que se dão assim a estes homens e é por isso que eles continuam a agir como agem? Será que eles são bem sucedidos ou será que, são apenas estúpidos? A minha dúvida é esta. Será que, pelo amor de Deus e eu nem sou católica, a única cabeça com que os homens pensam é com a que têm no meio das pernas?

E será que, pelo amor de Deus, outra vez, posso alguma vez andar na rua sem ter de ser assediada? O que é que uma mulher tem de fazer para andar na rua sem ser alvo de assédio? Andar com saco do lixo vestido? Uma caixa de cartão na cabeça? Tenho direito a andar na rua como bem quiser e me apetecer, seja de calças de ganga, t-shirt, vestido, tapada da cabeça aos pés, sem ter de me sujeitar às merdas a que estes tristes nos sujeitam!

Sou mulher. E tenho direito a sê-lo sem ter medo de o ser. Percebam isso gente! 

Dois lados da mesma moeda

Deparei-me há pouco com este post no meu feed do facebook. Foi partilhado por uma amiga minha que, como eu, veio de Portugal para o UK estudar e trabalhar e li e reli o texto mais do que uma vez. 

Senti-me inspirada a escrever, também eu, sobre o assunto. Provavelmente, vou acabar a dizer o mesmo que a autora disse e se calhar vou chegar à mesma conclusão que ela chegou. E já são alguns os textos que escrevi onde toquei neste assunto bastante complexo, para mim. Contudo, acho que nunca é demais.

É verdade, sim, há de facto um lado triste de emigrar que nunca ninguém nos diz. Aliás, há vários. Um dos mais tristes para mim, e mencionados no texto em que me baseio para escrever o meu, é o facto de passarmos a ser como órfãos e ninguém conseguir perceber isso. A partir do momento em pisamos solo estrangeiro, não há volta a dar. Não somos de Portugal, mas também não somos do UK. O nosso coração, antes inteiro e sólido, parte-se em dois e torna-se fraco. Um bocado fica em Portugal, a nossa terra, a nossa casa eterna. O outro fica connosco e acompanha-nos para onde que seja que nos tenhamos mudado. No meu caso, Inglaterra. Nunca sei se hei-de dizer, quando vou de férias para Portugal ou se diga, quando volto a casa. Tudo se torna muito confuso e os termos misturam-se todos. Passar férias num sítio onde nasci e cresci e vivi durante 19 anos? Parece ridículo. Contudo, a minha casa é aquela cuja renda eu pago, aquela que eu limpo, aquela em que eu durmo, aqui em Inglaterra. É muito complicado de sentir, quanto mais de explicar.

Um dos lados muito, mas mesmo muito tristes, é o facto de não estarmos presentes. Ocasiões que, se lá estivéssemos, nos pareceriam insignificantes ou mundanas, passam a ser vistas por nós como ocasiões especiais nas quais nós não marcamos presença. Aniversários, natais, Páscoa, o primeiro namorado da irmã mais nova, o ajuntamento do primo com a namorada de longa data, jantares e saídas de amigos. Não estamos lá. Vemos as fotos das ditas cujas partilhadas pelas redes sociais fora e sorrimos amargamente. Sorrimos porque os nossos estão felizes. Sorrimos amargamente porque eles estão felizes sem nós. Mas... foi uma escolha nossa. Minha. Eu decidi vir para cá e deixar os meus para trás. Acho que é isso que eles pensam. Afinal de contas, é mais ou menos a verdade...Tirado directamente do texto "Tu continuas num País que não é o teu. O teu coração mantém-se em Lisboa e em Lisboa, a vida continua sem ti." Tal e qual. A vida continua sem mim. 

Ir a casa com frequência nem sempre é possível. É verdade que só tenho aulas de Outubro a Abril, com reading weeks pelo meio e férias de natal e da Páscoa incluídas. O problema não é a universidade. Não é faltar a aulas para poder dar uma escapadinha a Portugal. O problema é o trabalho. Eu acho que por muito que tentemos explicar, por muito que desabafemos com os amigos de Portugal, eles nunca vão compreender a 100%, a dor que é não poder ir a casa passar o Natal porque a companhia para a qual trabalhamos não nos deixa tirar férias durante o período natalício. Por muito que tentemos explicar, acho que é complicado perceber que, infelizmente, só temos direito a 5 semanas de férias por ano fiscal, que vai de Abril do ano presente ao mês de Março do ano seguinte. E ainda mais complicado é quando assumimos um cargo de maior importância na companhia e temos de marcar férias de acordo com as férias de outras pessoas. Isto são tudo coisas nas quais eles não têm de pensar. Para eles, aqueles três ou quatro meses de férias são garantidos. Porque só estudam. E não estou de modo algum a criticar. Apenas digo que por vezes, sinto que eles me ressentem. Os amigos e a família. Porque não vou a casa tempo suficiente, com a frequência que devia. Se calhar sinto mal, mas é o que eu sinto. E depois, claro, tentar equilibrar o tempo que passamos com a família e com os amigos durante aqueles 10 dias em que lá estamos ou aquelas duas semanas, é das coisas mais terríveis que temos de fazer. Acho que por muito que tente, eles não percebem. E isso parte-me o coração. Não porque não sou percebida, mas porque estou a partir o coração deles. 

Claro que, no que toca à família, os laços mantém-se sempre e inalteráveis. Contudo, as amizades são mais complicadas. É óbvio que já não convivemos com a pessoa como convivíamos antes. Passávamos os dias todos juntos, riamos, chorávamos e lutávamos juntos. Agora, as coisas são diferentes. Dantes, se havia algo do qual não sabíamos, algo que estava a incomodar a pessoa, conseguíamos facilmente descobrir, estando com ela. Agora, se perguntamos "Como estás? Como está a correr isto, ou aquilo?" e a resposta é "Estou sempre bem, já sabes como sou! Está tudo porreiro, sempre em altas!", não há maneira de sabermos se é verdade ou não. As tecnologias permitem muita coisa hoje em dia, mas ainda não permitem isso. E vice-versa. Eles perguntam-nos e nós dizemos que está tudo altamente, a vida é bela e cor-de-rosa, enquanto os nossos olhos ardem com as lágrimas que caem com mais frequência do que aquela que nós gostávamos.

É tudo tão complicado. E fica tanto por dizer. E fica tanto por fazer. Mas acho que, algo em que aqueles que ficam não pensam muito é...por muitas saudades que eles tenham de nós, nós temos não só saudades deles, mas também saudades nossas. Nossas, no sentido das pessoas que éramos quando estávamos em Portugal. Perdemos os jovens alegres e despreocupados e ingénuos que éramos. Perdemos a pessoa que não tinha de pensar em pagar renda, contas, contar tostões ao final do mês. A pessoa que não tinha de pensar em deixar um ou dois ou até três artigos de supermercado para trás porque não tem dinheiro suficiente na conta. A pessoa que não tinha de ser maltratada e espezinha por clientes que só gostam de ir às lojas estragarem-nos o dia. A pessoa que não tinha de ir para a cama sem jantar. A pessoa que não pode ir jantar fora com os amigos ou ir ao cinema. Temos saudades não só deles, não só de nós mas das coisas, dos sítios, dos cheiros, da comida, das cores. A praia em Sintra, o Bacalhau à Brás da avó, a canja da mãe, o boa-noite acompanhado de um beijo do pai, a piada da irmã que nos faz doer o estômago de tanto rir. O sol radiante da capital, o cheiro pouco agradável, mas característico do Rio Tejo. As ruas apertadas da Baixa.

Mas nós escolhemos deixar isso tudo para trás, não é assim? Só que não é bem assim, na verdade... 

Há sempre dois lados da mesma moeda. Contudo, esta moeda é triste, e ambos os lados, mais tristes ainda são. E secalhar, para um dia deixar de haver tanta tristeza, uma decisão vai ter, de facto, de ser feita. Devia de ser fácil, certo? Já abdicámos de tanto até agora. Abdicar de mais um bocadinho não é nada que não se consiga, verdade? Mentira.

Mentira. Porque por muita tristeza que haja, por muita saudade que se sinta, por muito que não seja compreendida, por muito que fique muito por dizer e outro tanto por fazer.... os meus são sempre os meus. E o meu coração, apesar de divido, sabe bem quem ama. 

 

Não escondam o medo

"We are not afraid".

Circula pelas redes sociais em conjunto com a hashtag #PrayForLondon. Estava em casa ontem, perdida no meu próprio mundo, quando o meu telemóvel dá sinal de mensagem no chat do Facebook. Era a senhora dona minha mãe a perguntar se eu estava em casa e se estava bem. Achei estranho. Apesar de falarmos todos os dias pelo chat do Facebook e apesar de ela, todos os dias, me perguntar se eu estou bem, achei aquele "Estás bem?" diferente dos outros. Respondi imediatamente, pondo de lado o que estava a fazer no momento, porque senti a urgência da pergunta. Não me perguntem como. Respondi que sim, estava em casa e estava prestes a ir lavar a loiça do almoço. Perguntei porquê a pergunta feita daquela forma? E ela respondeu: "Ainda não viste as noticias? Houve um atentado no Parlamento aí."

Bom, fiquei alarmada. Pensei que alguém tinha tentado bombardear Westminster. Acedi logo ao site da BBC News, e assisti ao live que eles estavam a transmitir, em directo no local. Rapidamente me apercebi que não se tratava de uma bomba, mas sim de algo diferente, igualmente preocupante. Um individuo esfaqueou um polícia, atropelou quatro pedestres (um deles português pelo que consegui descobrir) e causou mais uns quantos feridos. Para além disto, causou o pânico, não só na zona de Westminster, mas por todo o país. Em questão de segundos, as redes sociais encheram-se de mensagens de boa fé, de revolta e de medo.

Medo. Medo esse que, por uma razão que eu entendo perfeitamente, toda a gente está a tentar esconder. Hoje, um dia depois do acontecimento, todos nós andamos pelas redes sociais a partilhar fotos e tweets a dizer "We are not afraid". Nos conhecidos "boards" do metro, onde todos os dias é escrita uma mensagem inspiradora, mensagens sobre o que aconteceu são escritas, acompanhadas pela referida frase. Mas eu acho que é tudo uma grande treta.

Eu estou com medo. Eu escolhi esta cidade para viver. Aqui vivo há já quase dois anos. Não faço tensões de me ir embora assim tão cedo quanto isso, apesar de todas as complicações que o Brexit possa vir a causar. Contudo, eu sei perfeitamente que isto é só o começo. O começo de uma jornada que, infelizmente, vai conter muitos mais destes acontecimentos e actos de terrorismo. Porque foi isso que aconteceu. Infelizmente, este país está a ficar mais fraco. O Reino Unido já não é Unido coisíssima nenhuma. Claro que o Brexit é um dos grandes culpados. Mas o pior são as pessoas. As pessoas estão, dia após dia, a esquecer-se que ao final do dia, nós somos todos seres humanos. 

Há seres humanos bons e seres humanos maus. Mas isso é em todo o lado. Só que as pessoas esquecem-se disso quando coisas destas acontecem, que geram o pânico e o medo e a aversão às pessoas que, para eles, são e serem sempre "outsiders". Emigrantes. Mesmo que esse não seja o caso, a verdade é que, isto assusta qualquer pessoa. Eu, que não estou no meu país, estou assustada. Sei lá se amanhã não se lembram de ir ali ao centro comercial onde eu trabalho, que é só o maior centro comercial de North West London, fazer algo do género ou pior?

Estas coisas fazem-nos pensar. E duvidar. E reconsiderar as nossas escolhas e o nosso futuro e o futuro do país e do mundo que habitamos. Faz-nos ter medo. Não escondam o medo que estes acontecimentos nos fazem sentir. Porque é natural termos medo. Somos apenas seres humanos. Dizer que não temos medo não vai fazer com que coisas destas não aconteçam de novo. Ter medo não é vergonha. Vergonha é não fazer nada quanto ao medo que sentimos. 

O telefone lá de casa, ontem, tocou mais vezes do que durante o ano todo quando as notícias chegaram às televisões portuguesas. Pessoas que nem sequer vejo quando vou a casa, a telefonar aos meus pais a perguntar se eu e os meus amigos estávamos bem. Felizmente, nós raramente andamos pelo centro de Londres. Mas podia ter-nos dado na cabeça lá ter ido. É só meia hora de viagem no metro. E nunca se sabe quando ou onde será o próximo.

Porque vai haver próximo, infelizmente. Não podemos mostrar medo, eles pensam. É a única forma de os vencermos. Eu cá também sou assim. Nunca mostro medo. Nunca mostro as minhas fraquezas. Porque se o inimigo sabe as nossas fraquezas, fica um passo mais perto de nos derrotar. Contudo, no que toca a estas coisas, acho impossível pedir às pessoas para se fazerem de fortes. O medo está instalado.

Agora é tentar fazer algo com ele. Não deixar que nos consuma ou impeça de continuar com as nossas vidas. Porque aí sim, caminharemos para a derrota.

Sou má

Sou má. Má, má, má má! Má escritora, má filha, má amiga, má estudante... só me safo no trabalho. Contudo sou má. Passo dias e dias sem vir aqui escrever-vos. Passo meses e meses sem escrever para mim. Falto às aulas porque ando cansada do trabalho. Vou às aulas, não me consigo concentrar porque, na verdade, eles nem ensinam assim nada por aí além. A minha vida é a coisa mais rotinosa que existe à face da terra. Não ligo com frequência à minha avó. Não faço skype com frequência com os meus pais. Não falo com a frequência que devia com os meus amigos.

Sou má. Tão má que começo a odiar-me. Mas pior ainda, sou perdida. Sou uma jovem de 20 anos, a dois meses de completar 21, completamente e totalmente perdida na vida. Os meses passam-se comigo a contar os dias para o dia em que recebo. Penso: ah! é este mês que vou ter dinheiro para ser uma jovem normal e ir ao cinema, ir às compras, ir passear com a família do flat 2, comprar mais livros, isto e aquilo. Depois, todos os meses acontece o mesmo: paga-se a renda, paga-se as contas, paga-se o passe, compra-se comida e o dinheiro que sobra dá para quê? Para limpar o rabo.

Não tenho inspiração. Não tenho vontade. Não tenho dinheiro. Não tenho colos onde chorar por isso choro sozinha. Não tenho mais mentiras para contar à família e aos amigos que não estão aqui. Não tenho mais sorrisos para dar ou mais piadas para contar.

Sou má, principalmente, porque não faço nada para ser boa.

Perde-se tudo

Todas as pessoas que me rodeiam me dizem que eu sou uma sortuda por viver com pessoas amigas. E é verdade que o sou. Mas por vezes, é mais complicado do que viver com pessoas que nos são desconhecidas ou pouco próximas.

É como quando vivemos com a nossa família de sangue. Porque somos família e nos conhecemos desde sempre, os momentos em que rimos são mais do que aqueles em que discutimos; contudo quando discutimos é a sério. E enquanto que, com pessoas que não conhecemos não corrermos o risco de desperdiçar uma amizade por assuntos triviais, quando se vive com amigos há sempre a própria da amizade em risco se alguma coisa dá para o torto. É especialmente difícil quando vivemos com pessoas cujas personalidades não podiam ser mais diferentes umas das outras. Mesmo que os interesses sejam comuns, quando se trata de lidar com assuntos sérios e a forma como cada uma de nós lida com eles, há diferenças que podem ser prejudiciais à amizade.

Para simplificar, ontem houve uma discussão das grandes cá em casa. Bom, não sei se muitos lhe chamariam discussão, pois foi mais eu a gritar para as paredes do que outra coisa, no entanto a verdade é que foram feridas susceptibilidades e a coisa não está bonita. Eu sou aquela pessoa aqui de casa que, se existe algum problema ou se existe algum assunto mais sério sobre o qual temos de falar, eu sou a primeira a trazer o assunto para a mesa e a tentar resolver as coisas a conversar. Sempre tive imenso jeito para dar sermões. E prego-os, tal e qual como Santo António os pregou aos peixes, eu prego-os aqui em casa. Não tenho problemas em falar sobre as coisas porque, para mim, é assim que elas se resolvem e não existem mal entendidos. Contudo, a pessoa oposta a mim, com quem tive a desavença, é exactamente isso: o oposto de mim. Enquanto que eu prefiro falar sobre as coisas para o assunto ficar arrumado, a pessoa em questão prefere ignorar e não falar sobre o assunto. O que me irrita profundamente. Porque não falar, se só assim é que sabemos a posição e os sentimentos de ambas as partes? A verdade é que eu ontem envolvi-me num monólogo extenso e a pessoa em questão continuava a fazer coisas na cozinha e a ignorar-me, dizendo que não ia falar sobre o assunto "nem hoje, nem amanhã, nem depois de amanhã". O problema é que, com esta pessoa, é sempre assim. É das pessoas mais acessíveis que já conheci, dá o braço em vez da mão se precisarmos mas, no que toca a encarar os factos e a realidade e a discuti-la como a pessoa adulta que é, tá escasso. E isso deixa-me profundamente irritada. Pior fico ainda quando me faltam ao respeito.

Assobiou. Atreveu-se a assobiar enquanto eu falava com ela, num tom calmo e composto. Assobiou-me enquanto eu lhe dizia que tinha feito algo para a ajudar e lhe facilitar a vida. O coro da discussão nem sequer importa. Deixou de importar a partir do momento em que ela me começa a assobiar. Esqueci completamente qual era o assunto sobre o qual tínhamos de falar. Perdi a cabeça. Fiquei cega de raiva. E se a C. não me tivesse agarrado, tinha feito algo do qual me iria arrepender, apesar de tudo. É das piores coisas que me podem fazer, especialmente pessoas minhas amigas, é faltarem-me ao respeito. Não admito. Não posso admitir. Seja quem for. Fui educada para ouvir a outra parte de forma respeitosa e bem educada. Fui educada para ouvir as pessoas até ao fim e depois, se então achar por bem que não estou para aí virada e não quero falar sobre o assunto, digo com todo o respeito: percebo o que me queres dizer, mas por favor vamos falar sobre isto noutro dia.

Não assobio. Não dou as costas. Não falto ao respeito. 

Magoou. Porque já não é a primeira nem a segunda vez que a pessoa em questão faz algo do género. No que toca a falar sobre assuntos sérios ou quando é preciso nós todas sentarmos-nos e discutirmos algo que é do interesse de todas, esta pessoa age sempre como uma miúda de 12 anos. Não, retiro o que disse, que a minha irmã tem 12 anos e acho que nem ela agiria como esta pessoa agiu. Se tivesse apenas permanecido calada e no fim de eu falar tivesse dito: "okay, percebo mas falamos amanhã", eu ainda aceitava. Mas virar-me costas e andar pela casa a assobiar como se eu nem sequer me estivesse a dirigir a ela? Ultrapassou os meus limites. Eu já gastei muito do meu paleio e da minha saliva a pregar sermões a esta determinada pessoa e ontem tive a prova de que, ela nunca vai aprender com os seus erros. Por muito que eu me passe da cabeça com ela e quase lhe mande um soco à boca, ela nunca vai aprender. E é por isto que, por vezes, viver com amigos não é assim tão bom quanto se pensa. Porque tal e qual como numa relação, o respeito vai-se perdendo. E se o respeito se perde, perde-se tudo, para mim pelo menos. A fé também já a perdi. E são essas as duas coisas que eu preciso de perder para a relação de amizade que eu tenho para com essa pessoa, o deixar de ser. Se me faltam ao respeito e eu perco a fé em vocês, não há volta atrás. Até pode haver, se calhar, mas só com muito esforço e depois de me provarem que, conseguem realmente, aprender com os erros.

Senão... perdeu-se tudo. O respeito, a fé e a amizade.